fraturas de fmur em idosos no brasil: anlise espa§o ... cialmente os casos de fratura de fmur

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  • Cad. Sade Pblica, Rio de Janeiro, 30(12):2669-2678, dez, 2014

    2669

    Fraturas de fmur em idosos no Brasil: anlise espao-temporal de 2008 a 2012

    Femoral fractures in elderly Brazilians: a spatial and temporal analysis from 2008 to 2012

    Las fracturas de fmur de ancianos en Brasil: anlisis espacio-temporal de 2008 a 2012

    1 Faculdade de Medicina de Ribeiro Preto, Universidade de So Paulo, Ribeiro Preto, Brasil.

    CorrespondnciaA. A. NunesFaculdade de Medicina de Ribeiro Preto, Universidade de So Paulo.Av. Bandeirantes 3900, Ribeiro Preto, SP 14049-900, Brasil.altacilio@fmrp.usp.br

    Danilo Simoni Soares 1

    Luane Marques de Mello 1

    Anderson Soares da Silva 1

    Edson Zangiacomi Martinez 1

    Altaclio Aparecido Nunes 1

    Abstract

    Fractures in the elderly ( 60 years) have a major public health impact and take a heavy social and economic toll. This article aimed to describe spa-tial and time trends in femoral fractures among elderly men and women in all regions of Brazil. Bayesian descriptive analyses of spatial and time series were performed on data obtained from the Hospital Information System of the Brazilian Unified National Health System, using Poisson regression for femoral fractures in individuals 60 years of age or older from 2008 to 2012. There were more than 181,000 femoral fractures dur-ing this period, predominantly in women, with-out important spatial correlations or temporal differences. Despite the lack of temporal and spatial correlations, the number of femoral frac-tures in elderly Brazilians was high, with heavy financial and social costs. Public health policies are urgently needed to control predisposing fac-tors for femoral fractures in elderly Brazilians.

    Femoral Fractures; Hip Fractures; Wounds and Injuries; Aged

    ARTIGO ARTICLE

    Resumo

    Fraturas de fmur em pessoas com idade igual ou superior a 60 anos (idosos) representam um grande impacto para a sade pblica, e esto associadas elevada morbimortalidade e grandes custos socio-econmicos. Buscou-se descrever temporal e espa-cialmente os casos de fratura de fmur em idosos de todas as regies do pas, por sexo, em um perodo de cinco anos. Foram realizadas descries de srie temporal e espacial bayesiana, baseadas em dados obtidos do Sistema de Informaes Hospitalares do Sistema nico de Sade (SIH-SUS), empregan-do modelo de regresso de Poisson, sobre os casos ocorridos entre os anos de 2008-2012. No pero-do estudado ocorreram mais de 181 mil casos de fratura de fmur, predominando o sexo feminino, sem correlaes espaciais e diferenas temporais importantes. Apesar de no se observar predom-nio de comportamento temporal e espacial, o n-mero de casos de fratura de fmur no Brasil alto e com grandes custos financeiros e sociais. Polticas pblicas de sade visando a controlar os fatores predisponentes para esse evento devem ser urgen-temente implementadas.

    Fraturas do Fmur; Fraturas do Quadril; Ferimentos e Leses; Idoso

    http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00218113

  • Soares DS et al.2670

    Cad. Sade Pblica, Rio de Janeiro, 30(12):2669-2678, dez, 2014

    Introduo

    Apesar de algumas variaes geogrficas quando sua definio, para a Organizao Mundial da Sade (OMS) e o Ministrio da Sade do Brasil, a partir do marco legal da Poltica Nacional do Idoso e Estatuto do Idoso, biologicamente so considerados idosos todos com idade igual ou superior a 60 anos 1,2. O envelhecimento da po-pulao um fenmeno de relevncia mundial, estima-se que em 2050 existiro mais de 2 bilhes de pessoas com mais de 60 anos no mundo 1, com projees de 28 milhes de idosos no Brasil em 2020 2. Com o envelhecimento, observa-se a diminuio progressiva e fisiolgica da reserva funcional dos indivduos (senescncia) que, em situaes desfavorveis de sobrecarga e estresse, pode levar perda patolgica da sua capacidade funcional (senilidade) 3, comprometendo suas habilidades fsicas e mentais, alm da indepen-dncia na vida diria e capacidade de integrao social 4.

    O envelhecimento pode ser influenciado por fatores biolgicos, sociais, econmicos, alm de causas externas e doenas 5. As quedas fazem parte do grupo de causas externas e esto asso-ciadas diminuio significativa da capacidade funcional do idoso, e sua ocorrncia tende a au-mentar com a idade, chegando a 51% nos indiv-duos com mais de 85 anos 6. As quedas, em geral, se devem marcha instvel e perda do equilbrio decorrente da insuficincia sbita dos mecanis-mos neuro-sensoriais e osteoarticulares envolvi-dos na manuteno da postura 7. As principais consequncias das quedas em idosos so fratu-ras, aumento do risco de morte, o medo futuro de novas quedas levando restrio de atividades, o declnio da sade global e o aumento do risco de institucionalizao 8.

    Dentre as fraturas, as mais comuns so as de fmur 9 para as quais a osteoporose um im-portante fator de risco 10, justificando sua maior ocorrncia entre as mulheres com idade igual ou superior a 60 anos 11,12. Os nmeros relativos a esse problema refletem sua importncia em al-gumas partes do mundo. Nos Estados Unidos, h registros de 0,8 caso/mil pessoas com idade 60 anos/anualmente, com gastos anuais aproxi-mados de 10 bilhes de dlares 13. No continen-te europeu os casos apresentam uma distribui-o caracterstica, com incidncia mais elevada nos pases do norte como Sucia, Dinamarca e Noruega, e menores na regio do Mediterrneo 14,15,16. Na Amrica Latina, os coeficientes de in-cidncia de fratura de fmur, sobretudo em mu-lheres com idade superior a 50 anos, tambm apresentam variaes entre os pases, sendo de 0,45 caso/mil pessoas com idade 60 anos/anu-

    almente no Chile e 0,95 caso/mil pessoas com idade 60 anos/anualmente na Venezuela 17. As informaes mais recentes sobre fraturas de f-mur em idosos no Brasil reportam cerca de 30 mil casos/ano, sendo responsveis, em 2008, por 32.908 internaes hospitalares no Sistema ni-co de Sade (SUS), com um custo total de 58,6 milhes de reais 18.

    Nos ltimos anos, as fraturas de fmur tm merecido ateno das autoridades sanitrias brasileiras pelo seu evidente impacto na sade dos idosos e por suas consequncias para o setor pblico. Estudos atuais revelam que a expectati-va de vida dos pacientes que sofrem esse tipo de fratura reduzida em 15 a 20%, com as taxas de mortalidade relacionadas a esse agravo variando de 15 a 50% no primeiro ano 13,19. Alm disso, a incapacidade fsica total ou parcial aps a fratu-ra outro grande problema, sendo que 50% dos pacientes tornam-se restritos ao leito ou cadei-ra de rodas e, daqueles que conseguem retornar ao domiclio, 25 a 35% passam a necessitar de cuidadores ou algum dispositivo para auxiliar a locomoo 14,20. Estudo recente avaliando a ca-pacidade funcional e a qualidade de vida de ido-sos com histria de fratura de fmur um ano aps o tratamento cirrgico identificou dificuldade para deambular com necessidade de auxlio em 44,2%, com menores chances de recuperao da marcha naqueles com idade igual ou superior a 80 anos 21. Outro estudo, tambm avaliando ido-sos um ano aps a fratura de fmur, observou dependncia parcial na realizao das atividades da vida diria em 19,6% deles e dependncia to-tal em 13,7%, significando a existncia de algum grau de dependncia funcional em mais de 30% dos pacientes 4.

    Diante da importncia e da escassez de estu-dos sobre o tema no Brasil, o presente trabalho tem por finalidade descrever a evoluo tempo-ral e espacial dos casos de fratura de fmur na po-pulao de pessoas com idade igual ou superior a 60 anos em todas as regies do pas, por sexo, em um perodo de cinco anos.

    Mtodos

    Trata-se de um estudo ecolgico com compo-nente de srie temporal empregando-se anlise bayesiana de distribuio espacial, com dados obtidos do Sistema de Informaes Hospitalares do SUS (SIH-SUS), em que foram includos os ca-sos de fratura de fmur (sem discriminar a loca-lizao anatmica especfica), portanto, abran-gendo todos os cdigos relativos a 10a reviso da Classificao Internacional de Doenas (CID-10) em pessoas com idade maior ou igual a 60 anos

  • FRATURAS DE FMUR EM IDOSOS: ANLISE ESPAO-TEMPORAL 2671

    Cad. Sade Pblica, Rio de Janeiro, 30(12):2669-2678, dez, 2014

    entre os anos de 2008 a 2012, sendo analisados de acordo com as Unidades da Federao (UF) do Brasil em relao ao sexo.

    Modelo estatstico

    Para a anlise espacial das taxas de incidncia de fraturas utilizou-se um mapeamento das razes de incidncia padronizadas 22 (standardized in-cidence ratio, ou SIR, em ingls). A SIR um m-todo indireto de ajustamento de taxas por idade, que descreve em termos numricos o quanto a incidncia do evento de interesse em uma dada UF e em dado ano equivale taxa encontrada no pas como um todo. Para o sexo s (com s = 1 para o sexo feminino e s = 2 para o masculino) e ano t (t = 1 para 2008, t = 2 para 2009, e assim sucessi-vamente) foram obtidos do SIH-SUS os nmeros de fraturas ocorridas no Brasil em cada uma das seguintes faixas etrias: 60 a 64 anos (f = 1), 65 a 69 (f = 2), 70 a 74 (f = 3), 75 a 79 (f = 4) e 80 anos e mais (f = 5). Esses nmeros, divididos pela popu-lao brasileira para o correspondente sexo, ano e faixa etria, so as taxas de fraturas para o pas, denotadas por w(s,t,f).

    O nmero esperado E(p,s,t) de fraturas para a UF p (p = 1,...,27) durante o ano t e o sexo s dado:

    em que m(p,s,t,f) a populao para a UF p, sexo s, ano t e faixa etria f (dados obtidos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica IBGE) 2. A SIR dada por:

    em que Y(p,s,t) o nmero observado de fraturas na UF p, sexo s e ano t.

    Assim, o modelo de regresso de Poisson considerado foi:

    em que (p,s,t) o parmetro que representa a SIR, dado por:

    Nessa expresso, o parmetro 0 um inter-cepto constante e sp, s = 1, 2, p = 1,,27, so efeitos aleatrios bivariados que capturam pos-sveis correlaes espaciais entre as medidas de SIR considerando-se os efeitos de regi