francis wolff - sócrates

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    Copyright Francis WolffTradUt;50:Franklin Leopoldo e Silva

    Capa:Moema CavaIcantiDiagramar;50 Interna:Jacob Levitinas

    Revisao:Newton T. L . SodreLuis A. Obojes

    Indice

    i U Deditora brasiliense s.a.01223 - r. general jardim, 160sao paulo - brasil

    Capitulo 1o enigma'. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7Capitulo 2o ateniense . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 24Capitulo 3A rnissao .. . . .. . . .. . . .. . . .. . . . . . . . . . . . .. 40Capitulo 4o universal ... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 62Capitulo 5A morte . . . . . . . . . . . . . . .. 82Indica~ao de leitura. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. 90SOcratesno seutempo .. . . . . . . . . . . . . . . . . .. 94

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    Capitulo10enigma

    Talvez Socrates jamais tenha sido urn fil6sofo, nosentido que damos a palavra. E no entanto, para afilosofia assim como para a consciencia popular,ele e muito mais: e 0 fil6sofo. Adornado, aos olhosdos fil6sofos, com todas as virtudes sacramentaisdo "totem" - para empregar a bela expressao de __J. Brunschwig -, a do pai simb61ico assassinado,do her6i fundador da Iinhagem, todos, ou quasetodos, ha vinte seculos reivindicam a heranca, paradefender-Ihe a mem6ria, para retomar sua buscaradical ou para tentar libertar-se de sua imagemfascinante: 0 pr6prio Nietzsche rendia tributo aocu Ito ao tentar derru bar 0 (dolo. Investido, paraa mem6ria popular, da aura religiosa lido" sabio.em algum lugar do Panteao dos sfrnbolos entrePitaqoras, Jesus e Confucio, 0 papel que S6cratesdesempenha e 0 de urn mito vivo: todo pensamentoque e sufocado pelo mundo afara, todo intelectualperseguido par suas ideias, e e Socrates que se

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    8 o ENIGMAassassina! Todo pensamento que se exercita nasinterroqacoes essenciais, toda voz intransigente quese eleva para resistir as consciencias satisfeitas oudenunciar os desatinos coletivos, e e S6crates querevive! A fortuna foi proplcia ao mito, que alimentaas paqinas mais I(ricas acerca da "consciencia" mal-dita, assim como as mais estereotipadas tagarelicesdo moralismo escolar.o que opor ao mito-S6crates? Talvez uma data.Para 0mais frio dos historiadores da filosofia, S6cratese pelo menos um ponto de referencia. IIAntes"de S6crates, entre aqueles que chamamos justamentede "Pre-Socraticos", um pensamento rico, profundo,urn questionamento sem duvida fundamental, masque permanece, para n6s, um pouco estranho, exoticamesmo. "Depois" de S6crates e como se estivessernosem casa: 0 panorama mudou, os "lampejos lumi-nosos" dos Pre-Socraticos deixaram lugar para asdernonstracoes encadeadas, e as suas visoes c6smicassubstitu (rarn-se os problemas derivados de nossaspreocupacoes vitais. Em suma, "com" S6crates,como diz CIcero, "a filosofia desceu do ceu paraa terra, introduziu-se nas casas e na praca domercado". E clare que se deve desconfiar dessasdivis5es demasiado n ttidas, que talvez nao passemde ilus5es de perspectiva, da mesma maneira quenao se pode atribuir somente a responsabilidadede S6crates a transforrnaeao de modos de pensar,da qual ele tera side sem duvida apenas a testemunhaou 0 porta-voz. Em todo caso, e preciso atentarpara este evento marcante de nossa cultura: Socrates

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    marca epoca mesmo para os menos "rnistifica-dos".Por outro lado, e diHcil se Iivrar do mito, tantomais que, antes dele, houve a lenda, na qual S6cratesse transformou a partir, e atraves, de sua morte. Desdeque no ano de 399 a.C. 0 estado ateniense 0condenou a beber a cicuta mortal, um verdadeirogenero literario nasceu da noite para 0 dia: a "dis-cussao socratica". E, semelhantemente ao que se dacom esses fora-da-Iei que 0 patfbulo transformaem martires e destina as cancoes de gesta, invocava-sea sua lembranc;:a, citava-se seus grandes feitos eseus atos corriqueiros, defendia-se sua causa - comoa suprir 0 testamento espiritual que ele nao deixara.De toda esta producao. em grande parte perdida,eleva-se para n6s a obra monumental de Platao,que soube nos seus Dialogos transfigurar 0 genero- e sem duvida tambern a personagem - para dar-Ihea forma perfeita requerida pelo seu proprio geniofilosofico. Ao lade de tais obras-primas, a figuratalvez mais fiel, mas sem 0 mesmo relevo, que nosmostram as obras apoloqeticas de Xenofonte (Memo-rabilia e Apologia de S6crates) empal idece porefeito da cornparacao. Cada urn tern 0 S6crates quepode.E da mesma forma que 0 mite ainda pode encerraruma verdade, a de urn ponto de reterencia, a lendaja duplicava a hist6ria. Pois, deste "socratismo"generalizado de que quase todo pensamento se vaireclamar doravante, nascia no IV seculo a.C. a maiorfebre filos6fica que 0 Ocidente conheceu: Socrates

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    HUm povo tao apaixonadopela beleza das formas. ; . a

    ponto de ve-Ia semprecom urn dom divino ... "

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    nada escrevera, e escrevia-se em seu nome; nuncadirigira escola, e estas se fundavam as dezenas, etad as Socraticas, Tronco comum dos "GrandesSocraticos", (a Academia de Platao, depois 0 Liceude Arist6teles) e dos "Pequenos Socraticos" (Cfnicos,Megaricos, Cirenaicos) e ainda outros dos quaiss6 nos restam vest (gios, S6crates talvez valessesobretudo como emblema. No entanto, como explicarque filhos assim tao diversos tenham podido reivin-dicar a mesma paternidade? Como explicar que setenham considerado socraticos - ao mesmo tftuloe aparentemente com os rnesmos direitos - 0ascetismo estrito, a mcrtificacao provocante, aironia misantropa de um Dioqenes - 0 homemdo tonel, a quem Platao chamava de "S6cratesenlouquecido" - e 0 hedonismo sorridente e tran-qiiilo de urn Aristipo, "0 amigo do prazer"? Comoexplicar que Platao, por exemplo, nos mostre sempreseu "querido amigo Socrates" avido de encontrara realidade par detras das palavras, sempre prontoa desencavar as racioclnios capciosos de seus inter-locutores, e que toda uma gerac;:ao de "refutadores",amantes de estranhos paradoxos verba is, tenhapod ida invacar a mesma mestre? Nao sera porquea lenda socratica revela tarnbern uma verdade, ade uma personagem enlqrnatica, cuja opacidadeencobria todas estas contradicoes e cuja riquezapermitiu todas estas tensOes antagonistas? .

    E, de fato, antes do mito, antes da morte e dalenda, S6crates ja aparecia aos seus contemporaneoscomo urn rnisterio. "Ninquem conhece esse sujeito",

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    12 o ENIGMAconfessava 0 belo Alcebiades no Banquete (Platao)em meio a dais solucos de embriaguez. Qual e paiseste misterio ?Antes de mais nada, S6crates e feio: rosto amas-sado, nariz chato, narfnas abertas, olhos bovinos a fu-gir da face, labios qrossos. E negligente: sujo, enfei-tado, faca sol ou chuva, com 0 velho manto e 0mesma cajado. Nota-sa como excepcional 0 fato deter ele ida ao jantar de Agaton "bern lavado e comsandall as". Que importa?, pade-se dizer. Nao

    julgamos Kant ou Gandhi pela aparencia ou_elegan.cia!Claro mas ha uma coisa: para urn povo tao aparxo-nado' pela beleza das forrnas, tao amoroso pelaharmonia plastica a ponto de ve-la sempre comourn dam divino, urn signa de perfeicso interior,S6crates e uma contradicso viva: e feia tanto quantasua inteliqencia e viva e sua sabedoria lum~n?sa,"semelhante a esses satires expostos nas oficlnasdos escu Itores e que as artistas representam comurn p(faro au urna flauta: abertos ao meio, encontra-se em seu interior estatuetas de deuses" (Platao,Banquete). Sua teiura e provocante, mas no sentidode que provoca a reftexao: ele nao aparece comobela ~s Ii bela na realidade; e feio no corpo, masbela' na alma. Feiura decididamente essencial parao seu destina e consubstancial ao mito que faz delea pai de nossa tradic;:ao metafisica: S6crates encarnaaos olhos dos gregos a oposicao do ser e do parecer,da alma e do corpo, oposicao que eles tornaramo fundamento de sua retlexso e da qual somosainda tributaries,

    SOCRATES 13Mas alern desta contradlcao que tanto chocouseus conternporaneos, ha ainda todas as esquisiticesde sua conduta. Se alquern caminha junto a ele,

    conversando, ei-Io "que fica para tras, imovel,mergulhado em suas medltacoes". Conviva refinadoe delicado, aparece sempre no meio das refeic;:o:_s.Nao Ihe faltarn recursos, mas vive como se naotivesse nenhum; anda descalco e frequents a melhorsociedade. Passa par mis6gino mas filosofa com asrneretrizes. Sabe-se que seus dotes oratorios saonulos mas seu verba e tao poderoso que nenhum, -de seus interlocutores resiste a sua forca de atracao:sera para paralisa-los, "como a raia-eletrica" (Platao,Menon), au para desperta-los, "como a moscarda"?(Platao, Apologia). Desconcertante esse S6crates,na verdade. E, de fato, esta "estranheza" que fascinaas que Ihe sao proximos, ele mesmo a endossa comtranqulltdade e sem fanfarronice, persuadido ~eque ela Ihe vern "d'alhures": "No passado, confiaele, dificilmente se encontraria um outro caso, esem duvida nenhum", que fosse assim "tornado".Originalidade assumida com confianca serena, porvezes mesmo um pouco provocante, como diantede seus ju (zes: li e sabidamente urn fato, diz a eles,que S6crates se distingue em alguma coisa do restodos homens" (Platao, Apologia).Entao, dir-se-a: chega de mitos e de lendas! Chegade eniqrnaticas estranhices! Queremos a verdadeiroS6crates, 0 S6crates historicol Seria bern paradoxa I,e ate mesmo escandaloso, que, daquele que seesforc;:ou toda a vida para resolver. os enigmas,

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    14 a EN IGMAesvazrar as lendas e ironizar os mitos, nos teriharestado s6 urn conto da carochinha, born apenaspara fazer sonhar os colecionadores de caricaturasde romance! Facil de dizer e no ent

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