extrema pobreza aumenta e pode piorar com pandemiaem outras nações, como colômbia, peru e...

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Sem Opção Veículo: Folha de S. Paulo - Caderno: Mercado - Seção: Não Especificado - Assunto: Economia - Página: A18 - Publicação: 05/04/20 URL Original: Extrema pobreza aumenta e pode piorar com pandemia Extrema pobreza aumenta e pode piorar com pandemia Total de brasileiros abaixo da linha da miséria chegou a 9,3 milhões em 2018 Érica Fraga SÃO PAULO A lenta retomada da economia brasileira nos últimos anos freou a expansão da pobreza, mas não foi capaz de impedir um aumento contínuo da miséria no país. Dados que acabam de ser divulgados pelo Banco Mundial mostram que o número de pessoas vivendo com menos de US$ 1,90 por dia no país passou de 9,25 milhões, em 2017, para 9,3 milhões, em 2018. O cálculo da instituição —baseado em uma taxa de câmbio que reflete diferenças no custo de vida dos países— indicava renda mensal para essa população de R$ 150, no caso do Brasil, em julho de 2019. Mantendo espaço entre si, líderes de ruas da favela Paraisópolis se reúnem no campo de futebol da favela para receber doação de sabão em barra e álcool em gel que serão repassados para os moradores Eduardo Knapp/Folhapress Foi o quarto ano consecutivo de aumento na quantidade de brasileiros vivendo abaixo dessa linha , que, pelos critérios do Banco Mundial, demarca a extrema pobreza. Entre 2014 e 2018, o crescimento da população que sobrevive em condição de miséria no país foi de 67%. Entre 15 países da América Latina para os quais há dados, além do Brasil, apenas Equador, Honduras e Argentina amargaram piora no indicador no período. Em outras nações, como Colômbia, Peru e Uruguai, a extrema pobreza caiu, em alguns casos, significativamente. No México, o número de pessoas vivendo na miséria recuou de 4,6 milhões para 2,2 milhões entre 2014 e 2018. Considerada uma renda individual inferior a US$ 3,20 por dia (R$ 253 mensais, em paridade do poder de compra), também houve uma piora no cenário brasileiro. Em 2017, havia 19 milhões de brasileiros vivendo abaixo dessa marca, que representa uma espécie de meio-termo entre a miséria e a pobreza. Em 2018, o número tinha subido para 19,2 milhões. Nesse caso, também foram registrados quatro anos seguidos de deterioração. Em uma terceira métrica usada pelo Banco Mundial —a de pessoas que recebem menos de US$ 5,50 por dia (R$ 434 mensais, em paridade do poder de compra)—, porém, a pobreza teve uma ligeira queda no Brasil, marcando uma reversão da tendência iniciada em 2015. A quantidade de pessoas vivendo abaixo dessa linha recuou de 42,3 milhões para 41,7 milhões, entre 2017 e 2018. Segundo Liliana Sousa, economista sênior da instituição, a diferença nas trajetórias de pobreza e miséria revela diferenças- chave entre os pobres e os extremamente pobres. “A crise atingiu os mais pobres mais duramente. A recuperação começou mais cedo para aqueles da classe média e estava, gradualmente, atingindo os segmentos pobres”, diz. “Há diferenças importantes entre essas duas populações. Entre os extremamente pobres, 40% vivem na zona rural, e só um terço dessas famílias têm alguma renda do trabalho”, afirma a especialista. Já os que vivem com menos de US$ 5,50 por dia moram normalmente em cidades e 80% têm emprego. Embora a maior parte atue de forma autônoma ou sem carteira de trabalho assinada , 25% são empregados no setor formal e têm benefícios como salário família e abono salarial. A combinação entre baixa escolaridade e poucas oportunidades de emprego, segundo Liliana, explica parte do aumento da miséria no país. Segundo ela, a taxa de desemprego entre a população extremamente pobre é de 24%. “Ou seja, uma em cada quatro pessoas que buscam trabalho nesse grupo não conseguem uma oportunidade”, diz. Isso leva também a uma alta taxa de desalento nesse grupo. A fila de espera para o recebimento do Bolsa Família, que chegou, recentemente, a mais de 1 milhão de famílias, também indica, segundo Liliana, que a política pública vinha falhando em atacar as consequências da severa crise econômica que afetou o Brasil nos últimos anos. O país viveu uma profunda e longa recessão entre o segundo trimestre de 2014 e o último período de 2016 e, desde então, passava por uma lenta recuperação. Agora, com a crise de saúde causada pela pandemia do novo coronavírus, o risco é que a

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    Veículo: Folha de S. Paulo - Caderno: Mercado - Seção: Não Especificado -Assunto: Economia - Página: A18 - Publicação: 05/04/20URL Original:

    Extrema pobreza aumenta e pode piorar compandemiaExtrema pobreza aumenta e pode piorar com pandemiaTotal de brasileiros abaixo da linha da miséria chegou a 9,3 milhões em2018Érica FragaSÃO PAULOA lenta retomada da economia brasileira nos últimos anos freou a expansão da pobreza, mas não foi capaz de impedirum aumento contínuo da miséria no país.Dados que acabam de ser divulgados pelo Banco Mundial mostram que o número de pessoas vivendo com menos de US$ 1,90por dia no país passou de 9,25 milhões, em 2017, para 9,3 milhões, em 2018.O cálculo da instituição —baseado em uma taxa de câmbio que reflete diferenças no custo de vida dos países— indicava rendamensal para essa população de R$ 150, no caso do Brasil, em julho de 2019.Mantendo espaço entre si, líderes de ruas da favela Paraisópolis se reúnem no campo de futebol da favela para receber doaçãode sabão em barra e álcool em gel que serão repassados para os moradores Eduardo Knapp/FolhapressFoi o quarto ano consecutivo de aumento na quantidade de brasileiros vivendo abaixo dessa linha, que, pelos critérios do BancoMundial, demarca a extrema pobreza. Entre 2014 e 2018, o crescimento da população que sobrevive em condição de miséria nopaís foi de 67%.Entre 15 países da América Latina para os quais há dados, além do Brasil, apenas Equador, Honduras e Argentina amargarampiora no indicador no período.Em outras nações, como Colômbia, Peru e Uruguai, a extrema pobreza caiu, em alguns casos, significativamente. No México, onúmero de pessoas vivendo na miséria recuou de 4,6 milhões para 2,2 milhões entre 2014 e 2018.Considerada uma renda individual inferior a US$ 3,20 por dia (R$ 253 mensais, em paridade do poder de compra), tambémhouve uma piora no cenário brasileiro. Em 2017, havia 19 milhões de brasileiros vivendo abaixo dessa marca, que representauma espécie de meio-termo entre a miséria e a pobreza.Em 2018, o número tinha subido para 19,2 milhões. Nesse caso, também foram registrados quatro anos seguidos dedeterioração.Em uma terceira métrica usada pelo Banco Mundial —a de pessoas que recebem menos de US$ 5,50 por dia (R$ 434 mensais,em paridade do poder de compra)—, porém, a pobreza teve uma ligeira queda no Brasil, marcando uma reversão da tendênciainiciada em 2015.A quantidade de pessoas vivendo abaixo dessa linha recuou de 42,3 milhões para 41,7 milhões, entre 2017 e 2018.Segundo Liliana Sousa, economista sênior da instituição, a diferença nas trajetórias de pobreza e miséria revela diferenças-chave entre os pobres e os extremamente pobres.“A crise atingiu os mais pobres mais duramente. A recuperação começou mais cedo para aqueles da classe média e estava,gradualmente, atingindo os segmentos pobres”, diz.“Há diferenças importantes entre essas duas populações. Entre os extremamente pobres, 40% vivem na zona rural, e só umterço dessas famílias têm alguma renda do trabalho”, afirma a especialista.Já os que vivem com menos de US$ 5,50 por dia moram normalmente em cidades e 80% têm emprego. Embora a maior parteatue de forma autônoma ou sem carteira de trabalho assinada, 25% são empregados no setor formal e têm benefícios comosalário família e abono salarial.A combinação entre baixa escolaridade e poucas oportunidades de emprego, segundo Liliana, explica parte do aumento damiséria no país. Segundo ela, a taxa de desemprego entre a população extremamente pobre é de 24%.“Ou seja, uma em cada quatro pessoas que buscam trabalho nesse grupo não conseguem uma oportunidade”, diz.Isso leva também a uma alta taxa de desalento nesse grupo. A fila de espera para o recebimento do Bolsa Família, que chegou,recentemente, a mais de 1 milhão de famílias, também indica, segundo Liliana, que a política pública vinha falhando em atacaras consequências da severa crise econômica que afetou o Brasil nos últimos anos.O país viveu uma profunda e longa recessão entre o segundo trimestre de 2014 e o último período de 2016 e, desde então,passava por uma lenta recuperação. Agora, com a crise de saúde causada pela pandemia do novo coronavírus, o risco é que a

    https://www1.folha.uol.com.br/autores/erica-fraga.shtmlhttps://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/03/pib-do-brasil-cresce-11-em-2019-diz-ibge.shtmlhttps://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/04/crise-empurra-74-milhoes-de-brasileiros-para-pobreza-segundo-dados-do-banco-mundial.shtmlhttps://temas.folha.uol.com.br/desigualdade-global/brasil/sem-norte-serao-15-anos-para-brasil-voltar-a-pobreza-de-2014.shtmlhttps://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/02/informalidade-atinge-recorde-em-19-estados-e-no-df-diz-ibge.shtml

  • miséria se aprofunde ainda mais e a pobreza no Brasil volte a aumentar.Especialistas têm destacado que a população pobre, mais dependente da renda informal, é a mais vulnerável à parada bruscaque a economia sofreu em consequência do isolamento social.Segundo Liliana, as medidas anunciadas pelo governo, após a eclosão da Covid-19, para expandir o Bolsa Família e garantirtransferências diretas de renda para trabalhadores informais e autônomos serão importantes para garantir a sobrevivência dosmais pobres durante a pandemia.Além do aumento da pobreza, economistas temem que a crise possa ter efeito sobre a desigualdade de renda. Os dados doBanco Mundial mostram que, em 2018, a distância entre ricos e pobres no país subiu.Liliana explica que isso é consequência da recuperação mais rápida dos rendimentos dos extratos mais ricos da população,especialmente os que detêm 20% da renda do país.A desigualdade da renda voltou a ocupar, nos últimos anos, um importante espaço no debate econômico internacional. Segundoanalistas, a crise atual deverá acentuar a discussão sobre a adoção de mecanismos de proteção para a população maisvulnerável. Sem dinheiro, o casal Denilson Araujo dos Santos, 22, e Ivanete Ribeiro dos Santos,19, teve que trocar o gás de cozinha pelalenha na hora de cozinhar feijão e mandioca para a filha FRILA/Junior Foicinha/Folhapress“Vamos precisar encontrar um novo contrato social, que dê conta das mudanças que estão ocorrendo no mundo”, afirmaOctavio de Barros, presidente do centro de pesquisa República do Amanhã e ex-economista-chefe do Bradesco e do BBVA.Segundo o especialista, a ordem econômica e social global será afetada de forma permanente pela pandemia. Além detransformações irreversíveis na área da saúde, a crise deverá impulsionar a adoção de mecanismos de proteção aos maispobres. “Acho que benefícios como renda mínima universal serão o futuro”, afirma o economista.No Brasil, especialistas como o sociólogo José Pastore já vinham alertando para a falta de proteção de parte significativa dapopulação adulta que vive na informalidade.Na crise atual, uma parcela desses profissionais precisará de apoio do governo por não ter direito a nenhum benefíciotrabalhista.

    ANÁLISEContextualiza um acontecimento e aprofunda a compreensão de seus diversos ângulos CORONAVÍRUS

    Pensamento míope faz países limitarem exportação decomida durante pandemia de coronavírusReceio de que redes de suprimentos mundiais poderiam entrar em colapsoé infundado

    Rodrigo Zeidan“É proibido exportar comida.” Esse é o pensamento de vários países que restringiram a venda de alimentos para o exterior,enquanto durar a crise mundial da Covid-19.O comportamento desses governos não é muito diferente daquele das famílias assustadas que estocaram comida para meses,mas o custo para a sociedade mundial pode ser muito alto.Segundo a Organização Mundial do Comércio, a Argélia já proibiu a exportação de mais de 1.200 produtos, a maioriaalimentícios. El Salvador proscreveu a saída de feijão até dezembro de 2020. A Tailândia limitou as vendas de ovos, ao exterior,até o dia 30 de abril. E o Quirguistão suspendeu as exportações de vários produtos agrícolas por seis meses.Do ponto de vista global, não há a menor chance de faltar alimento pelo lado da produção. Nenhum país, mesmo com aquarentena mais pesada, vai ordenar que agricultores e caminhoneiros parem de trabalhar.Entretanto, em relação à distribuição e vendas, disfunções em alguns países já estão acontecendo. O Vietnã ordenou asuspensão de novos contratos de exportação de arroz e pretende estocar 270 mil toneladas do produto antes de definir qual olimite que poderá ser exportado. Os distribuidores de arroz na Índia pararam de assinar novos contratos de fornecimento, já quea quarentena no país criou problemas de falta de trabalhadores e de transporte.Contudo, essas questões são temporárias. No caso indiano, pelo tamanho e complexidade da sua economia, e, em relação aoVietnã, porque uma seca limitou a produção local. Ambos os governos já estão liberando os gargalos de produção e distribuição. Na possibilidade de uma paralisação do comércio mundial, que não vai acontecer, o dilema dos países viria do fato de quenenhuma nação produz tudo que consome. Países se especializam. O Brasil, segundo maior exportador de alimentos do mundo,é um importador de trigo, por exemplo.

    https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/coronavirus/https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/coronavirushttps://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/coronavirus/https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/03/portugueses-e-espanhois-lotam-supermercados-e-esgotam-papel-higienico.shtmlhttps://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/04/onu-e-omc-alertam-para-risco-de-escassez-de-alimentos-por-crise-do-coronavirus.shtml

  • Nesse caso, valeria a regra do meu pirão primeiro: limitam-se as exportações, mas continua-se importando. Obviamente, areação dos outros países seria suspender as vendas ao exterior. Ninguém conseguiria importar, e o protecionismo global levariaa uma crise ainda mais sem precedentes do que a atual que estamos vivendo.COMÉRCIO RESILIENTEO cenário apocalíptico não ocorrerá porque a infraestrutura mundial de comércio é muito resiliente, ainda mais com acapacidade ociosa gerada pelo fechamento de várias indústrias manufatureiras no mundo.Ainda assim, vários países estão realmente limitando algumas exportações pelo tempo que durar a crise, aproveitando a brechacriada pela decisão de dezenas de nações de criar barreiras para as exportações de produtos de saúde.São dezenas os países que limitaram as exportações de produtos relacionados ao combate da Covid-19. Há proibições e outrostipos de barreiras. No Brasil, criou-se um regime temporário de licenças prévias antes que alguma empresa possa exportarprodutos relacionados à luta contra a pandemia do coronavírus.É também esse sistema de licença prévia que criou a Argentina, para exportação de alimentos. Isso ainda não limita o que o paísexporta (o que nem faria muito sentido, já que os argentinos têm grande saldo comercial nessa rubrica), mas dá ao governopoder de suspender as exportações quando quiser —basta não soltar nenhuma licença.Ucrânia e Rússia estudam quotas de venda de grãos. Vários outros países também têm planos de contingência se houver umaonda protecionista global nesse sentido.Esses movimentos podem afetar os preços internacionais. Quem mais sofreria seriam os países do oeste africano, muitos quedependem de importações de grãos para alimentar sua população, e outras economias importadoras de grãos.Em razão dos problemas no Vietnã e Índia, os preços do arroz no mercado mundial, que eram de US$ 9,13 por 100 libras paragrãos longos e US$ 9,36 para grãos curtos no início do ano, são agora de US$ 10,15 e US$ 10,82, respectivamente.O receio dos que dependem de importações de alimentos de que as redes de suprimentos mundiais poderiam entrar em colapsoé infundado. O perigo maior é o protecionismo míope de cada país. Nada deve acontecer, a não ser algumas variações de preçosatípicas, e faltas pontuais de alguns produtos. No auge da pandemia na China, era difícil encontrar vegetais e algumas frutas.Para o Brasil, pode ser até bom no agregado, pela alta do preço de produtos que o país exporta, mas ninguém deveria pensarem lucrar com desgraça alheia.De qualquer modo, vai ficar uma lição: como cada país deve promover a segurança alimentar nacional de forma a ser resistentea choques internos e externos? Faltar papel higiênico, tudo bem. Comida, nem pensar.

    28países e organizações (União Europeia e União Aduaneira da África Austral) já impuseram restrições a exportações por causa donovo coronavírus15%foi a alta mundial nos preços do arroz (grão curto) desde o início do ano, segundo o governo americano. No caso dos grãoslongos, a alta foi de 11%