exposição internacional do centenário da independência

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EXPOSIO INTERNACIONAL DO CENTENRIO DA INDEPENDNCIA DO BRASIL A Exposio Internacional comemorativa do Centenrio da Independncia do Brasil (1822-1922) foi inaugurada no dia 7 de setembro de 1922 e se prolongou at o dia 24 de julho do ano seguinte. Realizada no mesmo ano de outros eventos relevantes para a histria brasileira, como a Semana de Arte Moderna, a fundao do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a Revolta do Forte de Copacabana, a Exposio do Centenrio vem despertando crescente interesse da historiografia preocupada com o tema da identidade nacional na dcada de 1920. AS VITRINES DO PROGRESSO A celebrao do Centenrio da Independncia foi reclamada com bastante antecedncia. Um exemplo relevante dessa vigilncia comemorativa foi dado pela Revista do Brasil, fundada em janeiro de 1916. Logo em seu primeiro nmero, a revista, com razovel antecedncia de seis anos, pregava a necessidade de se comemorar festivamente esse primeiro marco glorioso da existncia nacional. A realizao de uma Exposio Universal no Rio de Janeiro, ento capital federal, destacou-se como a mais ambiciosa das atividades comemorativas ento programadas. Desde a primeira exposio internacional em Londres (1851), cujo smbolo foi o Palcio de Cristal, as chamadas vitrines do progresso sempre apresentaram alguns aspectos em comum, entre os quais se destacavam, entre outros, as motivaes comerciais, o afluxo de divisas e turistas, o impacto sobre a infraestrutura urbana, e a difuso de valores e de padres de conduta. O mais importante, e ainda hoje assim, era a afirmao do prestgio nacional, representado pelos pavilhes de cada pas que constituam a ossatura das exposies. A participao brasileira nessas vitrines do progresso se iniciou de maneira muito discreta na Exposio Internacional de Londres de 1862. Antes disso, em 1861, a Sociedade Auxiliadora da Indstria Nacional (SAIN) havia organizado uma Exposio Nacional no prdio da Escola Politcnica, no largo de So Francisco, no Rio de Janeiro. De maior porte foi a Exposio Nacional de 1908, em comemorao do Centenrio da Abertura dos Portos brasileiros ao comrcio internacional. Tendo como objetivo a preparao da participao brasileira na Exposio Internacional de Bruxelas (1910), o evento de 1908 visava igualmente a apresentar a nova capital saneada e urbanizada a partir das grandes reformas realizadas durante a gesto do prefeito Pereira Passos. A EXPOSIO Em junho de 1920, Ralph de Cobham, representante de um grupo de capitalistas estrangeiros no Brasil, sugeriu ao Ministrio da Agricultura, Indstria e Comrcio a realizao de uma exposio internacional de comrcio e indstria para a comemorao do Centenrio da Independncia. Coube ao senador Paulo de Frontin, um ms depois, propor ao Congresso Nacional a emisso de cem mil contos para financiar o evento, provocando intenso debate sobre a disponibilidade de to vultosos recursos em conjuntura de grave crise financeira. Pelo Decreto n 4.175, de 11 de novembro de 1920, foi enfim determinada a realizao da exposio dentro do programa de comemoraes do Centenrio. A regulamentao oficial das atividades comemorativas s ocorreu quase um ano depois, com o Decreto n 15.066, de 24 de outubro de 1921, que previa, alm da exposio, a realizao de numerosas conferncias e a publicao de dicionrios, mapas e livros comemorativos. Coube ao Ministrio da Agricultura, Indstria e Comrcio, ento chefiado pelo engenheiro Joo Pires do Rio, a organizao da exposio, que deveria compreender as principais modalidades do trabalho no Brasil, relacionadas lavoura, pecuria, pesca, indstria extrativa e fabril, ao transporte martimo, fluvial, terrestre e areo, aos servios de comunicao telegrficos e postais, ao comrcio, s cincias e s belas artes. Era prevista ainda a concesso de uma rea contgua aos pavilhes nacionais para que governos ou industriais estrangeiros pudessem construir, por conta prpria, pavilhes destinados exibio de seus produtos. Para cumprir o objetivo de ser a expresso da vida econmica e social do Brasil em 1922, a parte nacional da exposio se comporia de 25 sees representativas das principais atividades do pas: educao e ensino; instrumentos e processos gerais das letras, das cincias e das artes; material e processos gerais da mecnica; eletricidade; engenharia civil e meios de transporte; agricultura; horticultura e arboricultura; florestas e colheitas; indstria alimentar; indstrias extrativas de origem mineral e metalurgia; decorao e mobilirio dos edifcios pblicos e das habitaes; fios, tecidos e vesturios; indstria qumica; indstrias diversas; economia social; higiene e assistncia; ensino prtico, instituies econmicas e trabalho manual da mulher; comrcio; economia geral; estatstica; foras de terra e esportes. A seleo dos expositores seria feita por comisses julgadoras encarregadas de dar parecer sobre a escolha conveniente dos produtos expostos, bem como de avaliar a qualidade e a quantidade daqueles que deveriam ser admitidos na exposio. Estavam ainda previstas atividades paralelas, como a exibio de filmes sobre assuntos que se relacionassem com a produo nacional e as riquezas naturais do pas, bem como a realizao de conferncias sobre temas econmicos. As obras de preparao da rea da exposio mobilizaram a populao carioca. A demolio do morro do Castelo, bero da cidade, para dar lugar construo dos pavilhes e palcios nacionais e estrangeiros, provocou aceso debate entre os que consideravam o arrasamento um imperativo da modernidade, e aqueles que viam o desaparecimento da colina sagrada como um verdadeiro sacrilgio. Os gastos excessivos com um empreendimento to custoso, especialmente em uma poca de dificuldades financeiras, bem como a demora na construo dos prdios, muitos s concludos aps a inaugurao da exposio, provocaram, de parte a parte, ataques contundentes e defesas inflamadas. De qualquer modo, importante lembrar que a edificao de um espao especialmente criado para a exposio tinha o intuito de revelar a capacidade do anfitrio de realizar empreendimentos excepcionais. De modo semelhante, para a Exposio de Saint Louis (EUA), em 1904, lagos foram aterrados e rios desviados. A Exposio do Centenrio foi festivamente inaugurada na data magna, 7 de setembro de 1922. A seo nacional localizou-se na Misericrdia, entre o antigo Arsenal de Guerra e o novo mercado, estendendo-se em parte da rea conquistada ao mar com o desmonte do morro do Castelo. Nesse local, concentraram-se oito pavilhes: do Comrcio, Higiene e Festas; das Pequenas Indstrias; da Viao e Agricultura; da Caa e Pesca; da Administrao; de Estatstica, aos quais se somavam os palcios das Indstrias e dos Estados. Na avenida das Naes, que se estendia do antigo Arsenal at o palcio Monroe onde funcionava o bureau de informaes , alinharam-se os palcios de honra das representaes estrangeiras. Treze pases a se fizeram representar: da Amrica, Estados Unidos, Argentina e Mxico; da Europa, Inglaterra, Frana, Itlia, Portugal, Dinamarca, Sucia, Tchecoslovquia, Blgica e Noruega; da sia, o Japo. Apenas quatro desses prdios resistiram ao tempo e especulao imobiliria: o pavilho da Administrao (Museu da Imagem e do Som); o palcio da Frana (Academia Brasileira de Letras); o palcio das Indstrias (Museu Histrico Nacional); e o pavilho de Estatstica (rgo do Ministrio da Sade). Passadas as festas de inaugurao, a exposio ficou aberta aos visitantes que, oriundos da capital e dos outros estados, acorreram em massa aos palcios e pavilhes, bem como ao alegre e movimentado parque de diverses. Os registros apontam para o ms de fevereiro de 1923, considerado fraco pelo calor que assolava a cidade, uma frequncia de 175 mil visitantes, com piques de at 14 mil pessoas em um s dia. Primeira exposio a se realizar aps a Grande Guerra, o grande desafio da Exposio do Centenrio foi o de traduzir a vontade de renovao que ento mobilizava o mundo. Se a nfase nos mostrurios dos palcios nacionais ainda recaiu sobre as riquezas naturais do pas, o que deveria ser ressaltado, e efetivamente o foi, era a possibilidade de explorao desses recursos naturais. No sculo XX, quem dava as cartas era a cincia, expressa na confiabilidade dos dados estatsticos, nas maravilhas da qumica, nas luzes da eletricidade, na magia do rdio. A primeira transmisso de rdio no Brasil ocorreu justamente durante a inaugurao da Exposio do Centenrio, com o discurso do presidente Epitcio Pessoa. Marly Motta FONTES: KESSEL, C. Vitrine; MOTTA, M. Nao; SAMPAIO, C. Arrasamento; SAMPAIO, C. Memria.