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O Novo Estdio Municipal de Braga

Rui Furtado Carlos Quinaz Renato Bastos

IntroduoO local era um monte com uma pedreira no seu topo e o Cliente pretendia um estdio com 30.000 lugares. Eduardo Souto de Moura imaginou um estdio com apenas duas bancadas como num teatro grego, uma seria escavada na pedra; a outra surgiria do cho, isolada. Uma opo mais convencional, com 4 bancadas, tinha entretanto sido desenvolvida. Aceitando o risco e o seu maior custo, o Cliente optou pela soluo mais arrojada. Havia pouca informao geotcnica disponvel mas a rocha visvel na pedreira deunos confiana para iniciar o estudo. A questo era saber se encontraramos rocha boa em toda a profundidade, necessria para garantir as inclinaes quase verticais dos taludes que a soluo de projecto exigia. Quanto tempo levaria a escavar o monte numa profundidade de cerca de 50 m e qual seria o custo desta obra? Estvamos no incio de 2000 e o Estdio deveria estar concludo at finais de 2003. Informao preliminar recolhida em diversas fontes e um estudo geotcnico preliminar aliviou as nossas preocupaes fundamentais: existia rocha em profundidade mas teramos que ir adaptando o projecto ao nvel de fracturao e aos lisos que fossemos encontrando. Veios e bolsas de saibro poderiam aparecer, como sempre com o granito. O prazo da obra no seria um problema se a empreitada pudesse comear depressa e o custo da escavao poderia ser reduzido significativamente, vendendo o material escavado. A empreitada de escavao veio a iniciar-se em Agosto de 2000. Nesta altura, era j conhecida a orientao desfavorvel da famlia principal de diclases do talude Sul, o

que obrigou desde logo ao lanamento de uma empreitada especfica de conteno daquele talude. Os mtodos de escavao e o tamanho dos blocos que produziriam eram as principais condicionantes das inclinaes que viramos a obter. Idealmente, os taludes deveriam ser verticais. Partindo do layout geral e considerando margens para fazer face a problemas que pudessem ocorrer durante a escavao, a geometria do grande buraco foi definida e a metodologia e sequncias de operao foram especificadas. A obra foi sendo desenvolvida com um acompanhamento permanente e o projecto ajustado em funo do que se ia encontrando. A situao mais dramtica da obra acabou sendo o aparecimento de um veio de saibro, ligeiramente oblquo em relao face do talude Sul, que no tinha sido possvel detectar no Estudo Geotcnico. Afectando fortemente a inclinao do talude e obrigando a um complicado sistema de conteno, a soluo foi mover a implantao do estdio em cerca de 20 m para Norte de modo a assegurar que o talude possuiria uma espessura de rocha suficiente na sua face exterior. A cobertura constituiu o segundo grande desafio para a equipa. Ela deveria reforar a ideia da integrao do Estdio no ambiente envolvente. Deveria ser to leve e simples quanto possvel: arcos, trelias, postes, cabos e membranas no encaixavam no conceito. Uma cobertura suspensa como a do Pavilho de Portugal na Expo 98 acabou por surgir como a soluo natural. Dispnhamos da rocha para ancorar os cabos e a reaco da cobertura na bancada nascente ajudaria a estabiliz-la. A dvida era o comportamento dinmico de uma cobertura com um vo de 220 m e o facto de que teria de ser construda a 50 m de altura (a pala do pavilho de Portugal tinha sido construda com escoramento total a partir do solo). Clculos preliminares intensivos e o estudo de estruturas semelhantes, em especial de uma ponte de tubos construda na Argentina, revelaram a viabilidade da soluo. Por outro lado, jogando com a geometria e o peso da laje de cobertura seria possvel aspirar ao equilbrio dos momentos na fundao, para combinaes permanentes de aces. Infelizmente, no decurso do projecto, a incluso do programa (bares, instalaes sanitrias, etc) e os necessrios ngulos de viso levaram alterao da inclinao dos montantes da bancada Nascente, afastando-nos daquele objectivo original. Uma estrutura de lminas paralelas garantiria a rigidez necessria da Bancada Nascente e permitiria a integrao de todos os bares, escadas e equipamentos necessrios. Numa atitude conservadora, estvamos ainda agarrados ideia de uma cobertura contnua. Esta soluo, no entanto, no permitia iluminao natural para o relvado. A diviso da cobertura em duas teve ento de ser encarada e testada. Foram efectuados estudos usando uma abordagem esttica do vento, sendo a distribuio dos coeficientes de presso estabelecida usando a bibliografia. O peso e a espessura da laje de cobertura foram inicialmente definidos de modo a anular as foras ascendentes do vento. A primeira anlise dinmica foi feita na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, atravs de um modelo tridimensional de elementos finitos com o qual foi possvel estabelecer os modos de vibrao e as suas frequncias. A resposta estrutural da cobertura aco do vento em estado limite ltimo foi igualmente calculada. Estes resultados mostraram que a soluo com duas lajes independentes era possvel mas que a interaco dinmica entre a cobertura e o vento deveria ser aprofundada em estudos posteriores. O clculo dos esforos principais nos montantes e a adequabilidade do solo de fundao revelou igualmente a razoabilidade da soluo. O processo de construo foi estudado e uma soluo de lajes pr-fabricadas deslizando sobre os cabos, solidarizadas entre si no final, demonstrou ser exequvel

(tinha sido esta a soluo adoptada no aeroporto Dulles, em Washington, h cerca de 30 anos). A estimativa de custos mostrou que a soluo se poderia encaixar no oramento. Outros aspectos foram ainda estudados e confirmados para validar a soluo: em dias ventosos seria um estdio com duas bancadas confortvel para os espectadores? As sombras dos cabos na zona central da cobertura afectariam as transmisses televisivas? A ventilao e exposio ao Sol do relvado seriam adequadas? O Conceito foi ento validado e o Projecto de execuo iniciou-se.

Arquitectura e EngenhariaO programa era novo para toda a equipa. Sem ideias pr-concebidas, comemos do zero. Juntamente com o Arquitecto visitmos diversos Estdios construdos recentemente na Europa, analisando e questionando as suas opes. Para este projecto, Souto de Moura pretendia que as necessidades tcnicas da construo determinassem o desenvolvimento do Projecto. Para alm, naturalmente, do que resulta da definio dos espaos, o resultado esttico da obra adviria de um intenso, exigente e estimulante dilogo entre a arquitectura e a engenharia, em que o processo de busca de solues s terminava quando o resultado agradava a ambas. Critrios claros e rigorosos eram acordados para disciplinar as necessidades tcnicas da construo. As solues tcnicas deveriam segui-los: alinhamentos, traados, espessuras, arestas tudo era sujeito a critrios cuja validade era dada pela inexistncia de solues ad-hoc. Rigor, leveza e simplicidade formal eram os objectivos a perseguir. O resultado devia ser simples na forma e na sua lgica construtiva. Mas a simplicidade formal s alcanada atravs de um demorado e contnuo processo de aproximaes sucessivas que termina, no raras vezes, em solues bem diferentes das ideias que deram origem ao debate. Toda a equipa estava permanentemente disponvel para questionar opes anteriores, deixando mesmo que por vezes o tempo ajuzasse sobre a adequao das solues adoptadas, simultaneamente de um ponto de vista estrutural e arquitectnico. No Estdio de Braga, solues foradas acabaram sempre por, com o tempo, ser alteradas. Arquitectos e Engenheiros trabalharam em conjunto com vista a atingir um fim comum, que no era visto como exclusivo de uns ou de outros. A ideia inicial de encaixar o Estdio na pedreira, com apenas duas bancadas, iniciou um processo de Projecto em que as solues encontradas foram resultando da confirmao e consolidao de ideias cuja viabilidade era, partida, desconhecida. A escolha inicial do caminho a seguir assentou mais frequentemente na sensibilidade e no instinto do que em resultados conhecidos. Seguiu-se-lhe o indispensvel processo de investigao e confirmao, em que o critrio de aceitao das solues assentava numa rigorosa anlise de custo/benefcio (funcional, tcnico, econmico e esttico). Estvamos conscientes dos riscos inerentes ao desafio sistemtico dos limites convencionais, controlando-o atravs de uma intensa metodologia de investigao. Anlise de risco, redundncias, estudo do mesmo problema por equipas independentes, cruzando resultados, permitiram-nos ir gradualmente reduzindo as margens de segurana adicionais com que inevitavelmente partamos. Este processo, que aproveita todos os recursos e espao que lhe forem alocados, tinha que ser convergente. O seu fruto era afinal a construo de uma obra havia prazos e custos para cumprir. O pragmatismo e flexibilidade para isso necessrios tiveram que estar presentes e foi preciso aceitar os limites que no conseguimos

ultrapassar. A variedade e complexidade dos problemas tcnicos que este projecto colocou constituram um grande desafio para toda a equipa mas, simultaneamente, uma oportunidade de aprender que no desperdimos. Uma palavra sobre o papel do Cliente - sem a sua confiana e entusiasmo, em especial do Sr. Presidente da Cmara de Braga, o sucesso do Projecto no teria sido possvel. gratificante chegar ao fim da obra e constatar que falar da estrutura do Estdio tambm falar da sua Arquitectura e que explicar a sua Arquitectura contar a histria dos problemas que a Engenharia foi tendo que enfrentar.

Descrio geralO Estdio Municipal de Braga est localizado em Dume, no recinto do Complexo Desportivo de Braga, que integrar igualmente um pavilho desportivo e uma piscina olmpica. O seu elemento mais visvel , sem dvida, a cobertura. composta por cabos full locked coil aos pares, afastados entre si de 3,75m, sobre os quais apoiam duas lajes de beto que cobrem as duas bancadas do Estdio. Trata-se de uma estrutura indita no s pelo seu vo (202m) como tambm pelo facto de os cabos serem livres na zona central. Dado o seu carcter inovador,

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