epicteto testemunhos e fragmentos

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EPICTETOTestemunhos e Fragmentos Dinucci A. ; Julien A. (Org.)PRIMEIRA EDIOSO CRISTVO-SE2008Viva Vox -MnemosyneEpicteto: Testemunhos e Fragmentos A gravura da capa foi retirada da traduo do Manual de Epicteto de E. Ivie (1715).Copyright Alfredo Julien & Aldo Dinucci, 2008.ISBN 978-85-7822-053-2PRIMEIRA TIRAGEM: 300 EXEMPLARESCON S E LHOEDITORIALDAUF SLuiz Augusto de Carvalho Sobral (Coordenador do Programa Editorial)Alceu Pedrotti; Antonio Ponciano Bezerra; Maria Augusta Mundim Vargas; Mrio Everaldo de Souza; Terezinha Alves de Oliva.MMnemosyneEstudos sobre Cultura Greco-Romana AntigaVinculado ao Grupo de Estudos de Histria Intelectual e das Idias DHI/UFSContatos: mnemosyne.dhiufs@yahoo.com.brVIVA VOXGrupo de Pesquisa em Filosofia Clssica e ContemporneaDepartamento de Filosofia - Universidade Federal de SergipeContatos: vivavoxsergipe@yahoo.com.brhttp://musoniorufo.zip.net

DINUCCI, A.; JULIEN, A. (ORG)A775mEpicteto: Fragmentos e Testemunhos. Traduo dos fragmentos gregos e notas Aldo Dinucci e Alfredo Julien. Textos de Aldo Dinucci, Alfredo Julien e Fbio Duarte Joly.56 p.

1. Filosofia. 2. tica. 3. Estoicismo. 4. Epicteto. 5. Socratismo. 6. Roma. 7. Escravismo. 8. HistriadasIdiasI. Ttulo.

CDU 17Universidade Federal de Sergipe DHI DFL 2Viva Vox -MnemosyneEpicteto: Testemunhos e Fragmentos A Stoa Poikil (o Prtico Pintado), em Atenas, onde Zeno de Citium teria concebido a filosofia estica.SUMRIO: O MUNDO DEEPICTETO .........................................................................................p.4EPICTETO, UM FILSOFO ENTRE A ESCRAVIDO E A LIBERDADE.................p.12SOBRE OS FRAGMENTOS EPICTETIANOS.............................................................p.19TRADUO BILNGE DOS TESTEMUNHOS E FRAGMENTOS...........................p.22NOTAS AOS FRAGMENTOS........................................................................................p.52Universidade Federal de Sergipe DHI DFL 3Viva Vox -MnemosyneEpicteto: Testemunhos e Fragmentos O MUNDO DE EPICTETOAlfredo Julien (Doutor em Histria pela USP e professor adjunto do Departamento de Histria da Universidade Federal de Sergipe)Ningum livre no sendo senhor de si mesmo. (frag.38)DuranteossculosIeIId.C., oImprioRomanoatingiaseus pontos mximos de extenso e poderio. Era uma organizao poltica, burocrtica e militar que impunha seu controle sobre grande variedade de povos, que apresentavam culturas e costumes distintos. Sua extenso abrangia regies da atual Turquia, Oriente Mdio, Norte da frica e da Europa. Epicteto viveu nesse mundo como escravo e como liberto.Imprio Romano nos tempos de EpictetoEpicteto foi um dos principais representantes da filosofia estica deseutempo. NasceuemHierpolis, umacidadegreganaento Universidade Federal de Sergipe DHI DFL 4Viva Vox -MnemosyneEpicteto: Testemunhos e Fragmentos regio da Frgia. A data de seu nascimento no conhecida, podendo apenas ser aproximadamente avaliada. Anica data segura que temos a seu respeito que, emconseqncia do decreto de Domiciano expulsando os filsofos da Pennsula Itlica, por volta de 94, abandonouRomaesedirigiuparaNicpolis, umaimportante cidade localizada na costa oeste da Grcia. Centro poltico, econmico e ponto de passagem de muitos dos que viajavam entre a Itlia e a Grcia, a cidade provavelmente foi escolhida para o local emquefixariasuaescolapor seucarter metropolitanoepelas facilidadesqueproporcionava. Lseusjovensalunosencontravam alojamento, alm de ambiente urbano estimulante, condizente com seus anseios e de seus pais. Existemcomentrios indicandoque EpictetoteriaretornadoaRomanapocadoImperador Adriano (SpartianusVit. Hadr.16), mas nohnadaconclusivosobreisso, havendo mesmo crticasde que talno corresponderia realidade dosfatos. bemprovvel que, apssuasadadeRoma, noteria vivido em outro lugar a no ser Nicpolis.Nadasabemostambmsobreascircunstnciasdesuamorte. Segundo Suidas (Lxico) e Themistos (Orat.V.ad. Jovian. Imp.), Epicteto ainda viveria durante o reinado de Marco Aurlio (161-180). Porm, tal poca colocada como muito avanada pela crtica, pois nesse caso teria de ter morrido com mais de cem anos. Contra essa possibilidade temos ainda que Marco Aurlio, ele prprio um seguidordoestoicismoeadmiradordeEpicteto, mencionaapenas Junio Rstico1, um discpulo de Epicteto, como seu professor, e que Aulo Glio, escrevendo durante o reinado de Antonio Pio (138 161), se refere a Epicteto como morto h algum tempo. Quantos anos ele teriaquandoseretiroudeRoma?Nosabemos. Assimcostuma-se determinar seu nascimento durante o imprio de Nero (54-68), e sua morte por volta de 120-135, antes de Antonio Pio.Durante a poca de Epicteto, a escravido no designava uma nica realidade. Embora identificasse uma condio jurdica comum a todos os escravos, a de no ser cidado, se apresentava de formas mltiplas evariadas. Suascondies devidavariavamdeacordo 1 Jnio Rstico foi um dos mais distintos filsofos de sua poca. Consultado constantemente porMarcoAurlioarespeitodosmaisdiversosassuntos, tantopblicoscomoprivados, recebeu tratamento honrado por parte do imperador. Por duas vezes foi eleito cnsul e, aps sua morte, obteve do senado esttuas erguidas em sua homenagem.Universidade Federal de Sergipe DHI DFL 5Viva Vox -MnemosyneEpicteto: Testemunhos e Fragmentos com a atividade em que eram empregados. Assim tnhamos escravos trabalhandoacorrentados, sobpssimascondies, comotambm haviaos queocupavamfunes importantes, quelhes conferiam privilgios e prestgio nos quadros da hierarquia social. A aristocracia romana mantinha uma gama de escravos como funcionrios responsveis por gerirem seus negcios, como tesoureiros, gerentes de lojas, de empreendimentos comerciais e capatazes para administraremsuas propriedades rurais. Era uma sociedade que no via com bons olhos o regime de assalariamento de homens livres, pois considerava que tal tipode relaono inspiravaaconfiananecessria, nempermitiacontrolesuficiente, pois o homem livre no estaria sujeito s punies que se poderiam impingir aos escravos. Assim, nomeiourbano, encontramos uma srie de atividades praticadas por escravos, desde as mais humildes, at as que conferiampoder e benefcios materiais. Embora no conheamos muitas coisas sobre a vida de Epicteto, bem provvel que ele no tenha trabalhado na lavoura, nem nas oficinas artesanais, massomentenombitodomstico, secretariandoseussenhorese comoprofessor, oque, aoquetudoindica, nooisentoudeser tratadocomdureza, atribuindo-semesmooproblemaquepossua em uma perna, que o fazia manco, aos castigos impingidos a ele2. O liberto era o ex-escravo que havia recebido a liberdade de seu senhor. Um liberto de um cidado romano tornava-se homem livre, possuindo os direitos cabveis que a cidadania romana lhe conferia. Seus filhos nasciam cidados, apagando assim, pelo menos formalmente, a condiode libertoe de ex-escravode seupai. Porm, embora o liberto se definisse pela sua condio de liberdade, ele, diferentemente dos cidados romanos nascidos livres, estava sujeito a uma sria de obrigaes. O liberto devia ao seu ex-senhor o obsequium, o respeito que um filho devia ao seu pai, que tinha de ser manifestado por meio de atitudes prticas, envolvendo desde dedicatrias einscriesvotivassdivindades, ataproibiode levar o seu patrono aos tribunais.O patrono tambm tinha direito s operae, obrigaesqueconsistiamemumaquantidadedediasde trabalho por ano, que o liberto devia ao seu patrono. 2Suidas apresenta a verso de que o problema em sua perna teria sido motivado por um reumatismo desenvolvido em sua velhice. Oldfather desenvolve um argumento interessante questionando tal possibilidade. Universidade Federal de Sergipe DHI DFL 6Viva Vox -MnemosyneEpicteto: Testemunhos e Fragmentos Nosabemos se Epictetofoi escravode nascimentooufoi escravizado. No mundo romano havia muitas maneiras de um homem livre tornar-se escravo. Podia-se ser vendido pelo seu pai, ser raptadoevendidocomoescravoemalgummercadodomundo mediterrnico, oumesmo, motivadopelapobreza, vender-seasi prprio para assim entrar para os servios de algum que lhe pudesse oferecer algumtipodesustento. bemprovvel queEpictetoj tenhanascidoescravo, masarespeitodissonopossvel afirmar nada categoricamente, embora um epigrama annimo (Joo CrisstomoPatrol.Gr.LX. 111;Macrob. Sat.I. 11, 45;Anto. Pal.VII. 676.), permita tal inferncia: ' .Pobre como Iros, corpo estropiado e amigo dos imortais,Eu, Epicteto, nasci (fui) escravoAutilizaodesseepigramacomoevidnciahistricaencerra problemas. Primeiro annimo e sua autoria pode apenas ser conjecturada. Depois o problema de sua traduo em uma questo fundamental:overbo,.,.uc.tradicionalmente traduzido nesse contexto por nascer. Oldfather, naediodaLoeb,apresenta um bomargumentocorroborandotal hiptese, masaobservaode Schenkel de queaqui tambmpoderiasignificar ser lanaum ponto de dvida que no pode ser descartado. Assim, embora nossas simpatias pendam para a possibilidade dele ter nascido escravo, no julgamos conveniente optar por nenhuma das duas opes. Anossafaltadeinformaes tambmcompletanoquese refere ao modo pelo qual ele se tornou liberto. Sabemos que quando de sua estada emRoma, ainda escravo, seu senhor Epafrodito franqueou-lhe realizar estudos com Musnio Rufo, filsofo estico de grande renome, a quemEpictetodeveumuitode sua formao (Diatribes1.9.29). Deve ter sido j nessa poca que ele, seguindo os passosdeRufo, esobsuaorientao, iniciousuavidadefilsofo, ministrandoaulas paraos jovens rapazes daeliteromana. Quais teriamsido os motivos que levaramEpafrodito a permitir que Universidade Federal de Sergipe DHI DFL 7Viva Vox -MnemosyneEpicteto: Testemunhos e Fragmentos Epicteto seguisse as aulas de Rufo e de t-lo tornado liberto? Paul Veyne (1990, p.95) tece alguns comentrios a esse respeito. Para ele pelo menos trs coisas poderiam levar um senhor a libertar seu escravo. Primeiro, o amo, vendo que seu escravo se encontraria beira da morte, poderia querer dar-lhe o direito a uma sepultura dos homens livres. Segundo, oamo, aomorrer, poderiapor meiode testamento libert-