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    ENSINO AFETIVO: REFLEXES SCIO-EDUCACIONAIS A PARTIR DOS FILMES

    NENHUM A MENOS E O JARRO

    RENATO F. GROGER, jornalista graduado pela UNESP, bacharel em Teologia pelo UNASP, e ps-graduando em Docncia Universitria pelo UNASP, renato.groger@unasp.edu.br

    RENATA SIEIRO FERNANDES, pedagoga, mestre e doutora em Educao pela UNICAMP, bolsista Pro-Doc pela Capes na Faculdade de Educao, Unicamp, 2009-2010, rsieirof@hotmail.com

    Resumo: O presente artigo prope reflexes sobre a prtica educacional em contextos de pobreza e excluso social, tomando como objeto de estudo os filmes Nenhum a Menos, de Zhang Ymou (1999), e O Jarro, de Ebrahim Foruzesh (1992), ambos focados na temtica das relaes entre professor e alunos, e entre esses e a sociedade. As consideraes tecidas ao longo do artigo giram em torno de dois eixos principais: o papel da escola como agente transformador e redutor de desigualdades, e a importncia da afetividade no processo de ensino/aprendizagem. Alm de apreciar as obras cinematogrficas mencionadas, o artigo busca apoio terico em bibliografia pertinente ao tema.

    Palavras-chave: educao, sociedade, afetividade, cinema

    AFFECTIONATE TEACHING: SOCIO-EDUCATIONAL REFLECTIONS FROM THE MOVIES NENHUM A MENOS AND O JARRO

    Abstract: This essay proposes a reflection upon the educational praxis in the context of poverty and social exclusion. The objects of this study were the movies Nenhum a Menos, of Zhang Ymou (1999), and O Jarro, of Ebrahim Foruzesh (1992), both focusing the relations between teacher and students, and among these, the society. The considerations developed through the essay are under two main axes: the role of the school as a shifting and reducing agent of inequalities and the importance of the affection in the teaching/learning process. Aside from analyzing the cinematographic works mentioned, this essay searches theoretical basis in the bibliography relevant to the subject.

    keywords: education, society, affectivity, cinema

    Educao

  • Reflexes scio-educacionais a partir dos filmes Nenhum a Menos e O Jarro72

    Introduo

    A insero da escola em contextos marcados por conflitos, desigualdades e lutas sociais faz com que ela se constitua em um campo de possibilidades no interior das quais seus agentes podem comprometer-se efetivamente com prticas voltadas para a transformao social e a superao das desigualdades (Pacheco e Zan, 2003, p.13). Registrado como frase introdutria de artigo sobre um projeto de formao continuada de professores da rede de ensino fundamental1, esse pensamento enfatiza uma das tarefas fundamentais a cargo do professor contemporneo imerso naqueles referidos contextos: a de atuar como um agente transformador.

    Utilizando como pano de fundo o papel social da escola que o texto supracitado de Pacheco e Zan demarca, este artigo prope algumas reflexes sobre a prtica educacional a partir de duas obras cinematogrficas especficas: o filme chins Nenhum a Menos, de Zhang Ymou (1999), e o iraniano O Jarro, de Ebrahim Foruzesh (1992). Dentre os aspectos relevantes ao tema ensino/aprendizagem que emergem da anlise dessas obras, bem como da comparao das mesmas entre si, dedica-se aqui especial ateno ao planejamento e ao vnculo relacional. Embora ambos os filmes foquem contextos scio-culturais particulares e as tenses da decorrentes, sugere-se a possibilidade de extenso das reflexes aqui apresentadas atividade docente em geral.

    Cumpre destacar que no se pretende com o presente trabalho disponibilizar mais uma resenha crtica dos filmes selecionados (j existe bom material nessa direo), mas especificamente trazer a lume algumas consideraes educacionais suscitadas pelos enredos. Procurou-se, portanto, guardar distncia tanto quanto possvel dos julgamentos, adjetivaes, comparaes e demais elementos de anlise prprias daquele tipo de texto.

    O cinema, como narrativa que permite o reconhecimento da realidade ao mostrar-se como uma impresso da realidade (METZ, 1972), embora construdo como exerccio ficcional, ajuda a ver e escutar a nossa prpria realidade mesmo quando nos apresenta um contexto particular e distanciado do nosso. Abre-se como uma janela em que os espectadores se pem a espreita, atentos e abertos para o desenrolar que se apresenta frente, como algo revelador e como lugar de projeo (por identificao e/ou por oposio).

    O recurso da narrativa pela linguagem dos filmes, neste artigo, usado como material de anlise, de reconstruo e reconhecimento dos prprios meandros do fazer educacional, da ao docente e como encantamento com esse fazer que se torna histria e memria e que pode ser compartilhado com diferentes pblicos, tanto especficos como leigos em geral.

    Educao e sociedade

    ponto pacfico que as desigualdades sociais constituem uma marca milenar da histria da humanidade. O avanar dos sculos no parece indicar grandes mudanas nesse sentido. As promessas de uma sociedade mais justa e igualitria inferidas do chamado modernismo, que surgiu com o Renascimento, ganhou corpo com as idias iluministas e

  • Acta Cientfica Cincias Humanas 2 Semestre de 2009 73

    desembocou na Revoluo Industrial, foram fatalmente eclipsadas por duas grandes guerras mundiais e seus desdobramentos.

    A sociedade atual ao contrrio do que pareciam em princpio direcionar as caractersticas pelas quais alguns a denominam de global, outros de tecnolgica mantm o padro de despropores econmicas e sociais. Nesse sentido, John Taylor2, em recente artigo abordando os desafios do educador contemporneo na ps-modernidade, expe as mazelas sociais decorrentes especialmente das revolues industrial e tecnolgica:

    Em vez da harmonia social e a utopia econmica prometidas por filsofos do Iluminismo, como Jean-Jacques Rousseau, e por economistas, como Karl Marx, a sociedade parecia cair espiraladamente no abismo do terror e da loucura. Guerras mundiais, revolues e dita-duras, e o surgimento do extremismo sobrepuseram as construes de poder e de cultura sobre a autonomia do homem. A cincia avanou a passo formidvel, mas trouxe em sua sombra a destruio massiva de forma nunca vista. A tecnologia, buscando melhorar as condies de vida e comodidade, resultou na devastao do mundo natural. Tanto os siste-mas scio-polticos socialistas, quanto os capitalistas, desenhados para prover o bem-estar da humanidade, resultaram em vastos nmeros de indivduos e ainda comunidades e naes inteiras, excludos dos benefcios econmicos da sociedade prevalecente (2008, p. 80).

    impossvel ignorar, portanto, a existncia de um elevado contingente populacional concentrado principalmente nos pases em desenvolvimento que se encontra em situao de marginalidade parcial ou mesmo absoluta com relao aos recursos financeiros, s oportunidades de crescimento intelectual, ao preparo tcnico-cientfico, participao justa no mercado de trabalho etc. Por um lado, uma considervel massa humana convive nas grandes cidades com problemas como complicaes no trnsito, falta de moradia decente, insuficincia de vagas nas escolas, violncia urbana e medo. Quem mora nas zonas rurais, por outro lado, enfrenta outros tipos de dificuldades, como observa Gabriel Chalita3 ao escrever sobre a realidade brasileira:

    Ainda h no Brasil muitas reas sem postos de sade, sem infra-estrutura de saneamento bsico, sem meios de transporte, sem os cuidados que poderiam ser oferecidos ao homem do campo para que no campo permanecesse. O xodo rural se deve ausncia de recursos no campo. Desde a falta de soro contra picada de cobra at de mtodos adequados de plan-tio e colheita. E todo tipo de carncia representa obstculo ao desenvolvimento das zonas rurais. Os fatores geogrficos terminam por acentuar os problemas: montanhas, rios cauda-losos, serto inclemente no podem ser transpostos facilmente e, muitas vezes, separam as comunidades rurais umas das outras e da escola. Dificuldade que o governo, com todos os instrumentos de que dispe, no conseguiu ainda solucionar devidamente (2004, p. 61).

    Como se encaixa a educao nesse contexto aparentemente desanimador? Se a utopia funciona como um ponto para alm do alcanvel, porm servindo como motivador para melhorias, transformaes e metamorfoses do institudo, talvez o parmetro mais razovel para lidarmos com as problemticas contemporneas seja do das discretas esperanas, ttulo de um livro de Olgria Matos (2006).

  • Reflexes scio-educacionais a partir dos filmes Nenhum a Menos e O Jarro74

    natural que o papel do ensino em tais condies se centralize na figura do professor, que no raro aparece como nica ponte possvel entre a realidade desses indivduos e uma possibilidade de superao e insero social. Nesses termos, no sem fundamento que Demerval Saviani4 preconiza uma vinculao continuamente presente entre educao e sociedade, condenando os mtodos tradicionais que consideram professor e alunos em termos individuais, quando eles deveriam ser tomados como agentes sociais (2008, p. 79).

    Mesmo que os eventos da histria da humanidade sinalizem no sentido da dificuldade de uma superao universal das desigualdades, se pode afirmar que a escola reconhecidamente o lugar onde se d a produo, seleo, transmisso, troca e construo de conhecimentos ou saberes ainda possui significativo papel no tocante reduo das desigualdades e transformao social. No pequena a influncia que um professor pode exercer sobre o educando no sentido de estimular seu desejo por crescimento e aperfeioamento pessoal, seja no campo fsico, relacional, intelectual, profissional, etc. O professor pode e deve ser agente estimulador do aperfeioamento pessoal de seus alunos, independentemente do contexto social em que estejam imersos.

    Educao em contexto de pobreza

    As duas obras cinematogrficas a servirem de anlise tratam do processo educacional em contextos de flagrante pobreza ou mesmo de miserabilidade poder-se-ia lembrar de conjunturas muito