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N DOI: 10.18065/RAG.2018v24n2.3

ELABORANDO TRADIES NA CONTEMPORANEIDADE: AUSIER E A PRESERVAO

DO CHORINHO

Elaborating traditions in contemporaneity: Ausier and the preservation of chorinho

Elaborando tradiciones en la contemporaneidad: Ausier y la preservacin del chorinho

RobeRta Vasconcelos leiteMiguel Mahfoud

Resumo: Objetivamos investigar o modo como a tradio elaborada por um guardio de memrias contemporneo: Ausier Vincius dos Santos, fundador do bar musical Pedacinhos do Cu (Belo Horizonte MG). Realizamos entrevista semiestruturada, analisada fenomenologicamente. Respondendo ao chamado a constituir uma obra de preservao, o sujeito elabora o passado e a alteridade como presenas a partir das quais se d conta do prprio ser. Aceitar sacrifcios para dedicar-se ao que vem do outro significa para ele ser fiel prpria experincia, abrindo caminho para a atualiza-o da tradio num processo pessoal de buscar contribuir para a constituio do mundo. Conclumos que para dar continuidade de modo prprio ao que lhe foi transmitido, Ausier reafirma a centralidade dos valores que convergem num ideal que a tradio suscita em si. Dando-se conta de que seu ideal lhe foi dado e o supera, vive sua obra como gratido e doao de si a algo que lhe d um lugar no mundo e realiza o prprio ser. Palavras-chave: Tradio; Guardies de memrias; Fenomenologia

Abstract: We aim to investigate how the tradition is elaborated by a contemporary guardian of memories: Ausier dos Santos, founder of the musical bar Pedacinhos do Cu (Belo Horizonte - MG). We conducted a semi-structured in-terview, analyzed phenomenologically. Responding to the call to constitute a work of preservation, he elaborates the past and otherness as presences from what he realizes his own being. Accepting sacrifices to dedicate oneself to what comes from another means that he is faithful to his own experience, opening the way for the update of the tradition in a personal process of seeking to contribute to the constitution of the world. We conclude that to give continuity in his own way what has been transmitted to him, Ausier reaffirms the centrality of the values that converge in an ideal that tradition provokes in itself. Realizing that his ideal was given to him and overcomes himself, he lives his work as gratitude and given himself to something that gives a place in the world and realizes his own self.Keywords: Tradition; Guardians of memories; Phenomenology

Resumen: Objetivamos investigar cmo la tradicin es elaborada por un guardin de memorias contemporneo: Ausier dos Santos, fundador del bar musical Pedacinhos do Cu (Belo Horizonte - MG). Realizamos una entrevista semiestruc-turada, analizada fenomenolgicamente. Respondiendo al llamado a constituir una obra de preservacin, el sujeto ela-bora el pasado y la alteridad como presencias a partir de las cuales se da cuenta del propio ser. Aceptar sacrificios para dedicarse a lo que viene del otro significa para l ser fiel a la propia experiencia, de modo que la tradicin se actualiza en un proceso personal de buscar contribuir a la constitucin del mundo. Concluimos que para dar continuidad de modo propio lo que le fue transmitido, Ausier reafirma la centralidad de los valores que convergen en un ideal que la tradicin suscita en s. Dndose cuenta de que su ideal le fue dado y lo supera, vive su obra como gratitud y donacin de s a algo que le da un lugar en el mundo y realiza el propio ser.Palabras clave: Tradicin; Guardianes de recuerdos; Fenomenologa

Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestltica - XXIV(2): 145-156, mai-ago, 2018

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Introduo

Um menino que aprendia a tocar cavaquinho apresentado ao choro e obra do msico conside-rado como o maior expoente naquele instrumento1. Cresce dedicando-se pesquisa de sua vida e obra, cria um bar musical em homenagem a ele, torna-se amigo de sua viva e filha, faz o que estiver ao seu alcance para divulgar as composies do mestre que no chegou a conhecer. Destaca-se no cenrio artsti-

1 O presente artigo apresenta resultados parciais da pesquisa de doutorado Experincia ontolgica e tradio na experincia de guardies de memrias (Leite, 2015) desenvolvida no mbito do Programa de Ps-Graduao em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais, com bolsa CAPES.

co da cidade e segue concebendo o prprio trabalho como tributo quele que se tornou sua grande refe-rncia e inspirao musical.

Em experincias como esta, vemos que algo precioso no se conserva por si: preciso que al-gum reconhea como valor e lhe dedique cuida-dos. Nos dias atuais, a vinculao com o passado problematizada como algo a ser superado e as expresses mais caractersticas do sujeito tendem a ser lidas como processos de inveno da prpria subjetividade. Nesse cenrio, produes em cin-cias humanas que se ocupam de temas como a per-cepo do sujeito sobre ele mesmo ou a tradio tendem a tom-los como processos antagnicos,

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Phenomenological Studies - Revista da Abordagem Gestltica - XXIV(2): 145-156, mai-ago, 2018

Roberta Vasconcelos Leite

tornando-se difcil compreender o caso dos guar-dies de memrias contemporneos2: sujeitos que num movimento pessoal decidem se dedicar a algo que vem do passado, estruturando obras de cuida-do de memrias. Imersos em verdadeiras socie-dades do esquecimento (Simson, 2003), pergun-tamo-nos como entender a preservao quando o novo dita o ritmo e a volta ao antigo pode at ser moda, mas dificilmente constitui-se efetivamente como critrio de orientao. Como compreender vivncias de reconhecimento de si mobilizadas pelo empenho em registrar memrias empoeira-das, em cuidar de tradies esquecidas, em dar vez a personagens que o discurso oficial no tornou protagonistas para o senso comum?

Diante de tantos questionamentos possveis, interessa-nos compreender como o ato de se de-dicar causa da memria pode unir o que mais profundamente individual ao patrimnio de ge-raes pretritas. Para muitos esses polos seriam irreconciliveis: a insero nos quadros sociais amplos, como as tradies de um povo, sempre significariam subjugamento da expresso pessoal. Nessa vertente, a tradio tende a ser associada a contextos sociais retrgrados e hermticos que impediriam o florescimento da subjetividade indi-vidual (Calligaris, 1998). Por outro lado, identifi-camos tambm o risco de que a subjetividade seja tomada to somente como chave de acesso a ten-ses, representaes e discursos que atravessam a trajetria pessoal. Nessa perspectiva, a nfase nos processos amplos inscritos nas experincias pes-soais pode resultar na subjugao da individuali-dade aos contextos socioculturais (Manica, 2010).

Esse cenrio remete ao ainda recorrente an-tagonismo entre psicologismo e sociologismo em teorias das cincias humanas. Nesse contexto, en-quanto o centramento em processos intrapsqui-cos introduz o risco do esquecimento ingnuo das tenses sociais que atravessam o sujeito, a nfase em processos macroestruturais pode conduzir ao achatamento da subjetividade, inviabilizando a compreenso da pessoa como elemento criativo e dinamizador das matrizes sociais (Gonzalez-Rey, 2001; Moreno Mrquez, 1988). Percebemos que esta polarizao tem sido problematizada em di-ferentes frentes, como a ttulo de exemplo o faz Paiva (2013) no campo dos estudos literrios ao perguntar-se como a tradio cultural faz-se contempornea ao nosso tempo, ou no modo como ns a reatualizamos incessantemente (p. 45). In-serindo-nos nesta vertente, objetivamos nessa pes-quisa investigar o modo como a tradio elabo-rada na contemporaneidade por um guardio de memrias, isto , uma pessoa que se dedica pre-servao cultural.

2 Simson (2005) indica que o papel social de guardies de me-mrias cabe aos idosos em sociedades da memria, funo que foi sendo gradativamente obliterada na histria ocidental. Entendemos ser interessante tomar a mesma expresso para designar pessoas que tomam iniciativa de se dedicarem ao cultivo da memria em contextos contemporneos justamente como forma de explicitar a peculiaridade de experincias desse tipo.

Demarcando o campo: que a tradio?

Como referencial terico-metodolgico, adotamos a Fenomenologia Clssica3 de Husserl (1913/2006, 1954/2012) e seguidores (Stein, 1917-9/2005, 1936/2007; van der Leeuw, 1933/1964; Ales Bello, 1997/1998). Nessa vertente, a compreenso do que venha a ser a tradio articula-se intimamente noo de mundo-da-vida. vinculada reflexo sobre a radicalidade do contexto intersubjetivo de significao para a constituio da realidade expe-rimentada pelo homem que Husserl (1954/2012) te-matiza a noo de mundo-da-vida, mundo sociohis-trico concreto com seus usos e costumes, saberes e valores (Zilles, 1997). Por referir-se ao que ha-bitual e estvel, o mundo-da-vida constitui-se como base da experincia cotidiana, oferecendo respostas, recortes que permitem ao sujeito lidar com o real a partir de perspectiva compartilhada e integrada. m-bito originrio das formaes de sentido, ele ancora as experincias particulares, permitindo juzos de certeza e conferindo segurana ao, j que o sujei-to no precisa reinventar continuamente o mundo: existem solues disponveis que abrem caminho para que ele elabore o real inclusive em seu aspecto desconhecido de modo situado. Embora seja pr--reflexivo, o mundo-da-vida pode se tornar objeto de reflexo, e justamente por isso que o sujeito pode se posicionar diante do que recebeu das mais diferentes formas: aderindo, reformulando, refutando, contem-plando possibilidades outras.

no bojo da conceitualizao do mundo-da-vi-da que se situa a compreenso husserliana do con-ceito de tradio4. Segun