educação musical na escola pública: um olhar sobre o projeto

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1 FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA NÚCLEO DE CIÊNCIAS HUMANAS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DA EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO STRICTO SENSU EM EDUCAÇÃO MESTRADO EM EDUCAÇÃO LLÍTSIA MORENO PEREIRA EDUCAÇÃO MUSICAL NA ESCOLA PÚBLICA: UM OLHAR SOBRE O PROJETO “MÚSICA PARA TODOS” PORTO VELHO, RO 2011

Author: buidiep

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    FUNDAO UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDNIA

    NCLEO DE CINCIAS HUMANAS

    DEPARTAMENTO DE CINCIAS DA EDUCAO

    PROGRAMA DE PS-GRADUAO STRICTO SENSU EM EDUCAO

    MESTRADO EM EDUCAO

    LLTSIA MORENO PEREIRA

    EDUCAO MUSICAL NA ESCOLA PBLICA:

    UM OLHAR SOBRE O PROJETO MSICA PARA TODOS

    PORTO VELHO, RO

    2011

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    LLTSIA MORENO PEREIRA

    EDUCAO MUSICAL NA ESCOLA PLICA:

    UM OLHAR SOBRE O PROJETO MSICA PARA TODOS

    Dissertao apresentada ao Programa dePs-Graduao, no Ncleo de CinciasHumanas da Universidade Federal deRondnia, tendo como linha de pesquisaFormao Docente, como requisito paraobteno do grau de Mestre em Educao.Orientadora: Dra. Maria do Socorro Pessoa.

    PORTO VELHO, RO

    2011

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    ____________________________________________________

    Moreno, Lltsia Pereira

    EDUCAO MUSICAL NA ESCOLA PBLICA: Um olhar sobre o projeto Msicapara Todos. / Dra. Maria do Socorro Pessoa, Orientadora. 2011

    Dissertao de Mestrado Ncleo de Cincias Humanas, Universidade Federalde Rondnia, Porto Velho, 2011.

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    LLTSIA MORENO PEREIRA

    EDUCAO MUSICAL NA ESCOLA PBLICA:

    UM OLHAR SOBRE O PROJETO MSICA PARA TODOS.

    Dissertao apresentada para obteno dograu de Mestre em Educao, Departamentode Cincias da Educao. UniversidadeFederal de Rondnia. rea de concentrao:Formao Docente.

    Data de aprovao:

    Banca Examinadora:

    Maria do Socorro Pessoa Orientadora

    Doutora

    Universidade Federal de Rondnia

    Membro

    Titulao

    Instituio

    ____________________________________________________________________________Membro

    Titulao

    Instituio

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    A meus pais, Alina e Orlando (in memoriam),pelo amor e a vida. A meu amado filhoJanim, pela alegria e o otimismo de vencer.A meu marido, Jos Neumar, pelo apoioincondicional, a generosidade, o amor e aparceria. A meu irmo Orlando, pelasolidariedade. A esperana de um musical,no currculo escolar do Pas. s crianas doBrasil.

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    AGRADECIMENTOS

    Aos professores do Mestrado do Ncleo de Cincias Humanas pelosconhecimentos partilhados e aos demais professores do Departamento deCincias da Educao.

    professora doutora Maria do Socorro Pessoa, orientadora, pela pacinciae empenho na leitura e apreciao deste trabalho.

    coordenadora do mestrado professora doutora Tnia Suely Brasileiropelas correes precisas.

    Universidade Federal de Rondnia por me tornar umapesquisadora-educadora mais consciente.

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    As crianas nascem para ser felizes.

    (Jos Marti)

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    SUMRIO

    LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS 3

    RESUMO 4

    ABSTRACT 5

    INTRODUO 6

    1. ESTUDOS TERICOS. A MSICA NA VIDA E NA ESCOLA 11

    1.1. A msica como arte na histria da humanidade 11

    1.2. Msica e sociedade 18

    1.3. Educao musical 20

    1.4. Educao musical e ensino fundamental 28

    1.5. Educao musical em Rondnia 41

    2. O ENSINO DA MSICA NO BRASIL E SUA INCLUSO NAS ESCOLAS 44

    2.1. Educao musical brasileira 44

    2.2. O sculo XX 48

    2.3. Silncio musical nos currculos escolares 58

    2.4. A legislao e os PCNs na educao musical do Brasil 62

    2.5. Formao e preparo do educador musical 70

    2.6. Experincias de sucesso nas escolas pblicas do Brasil 79

    2.7. Viso panormica de Rondnia e o ensino da educao musical em

    Porto Velho 84

    3. OBJETIVOS E METODOLOGIA DA PESQUISA 92

    3.1. Objetivo da pesquisa 92

    3.2. Compreendendo o fazer da pesquisa qualitativa 93

    3.3. O estudo do projeto como opo metodolgica 94

    3.4. Procedimentos e tcnicas utilizados 95

    4. O PROJETO MSICA PARA TODOS DADOS, ANLISE DA APLICAOE PERSPECTIVAS PARA A PRTICADA EDUCAO MUSICAL

    97

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    4.1. Dados constatados: objetivos do projeto Msica para Todos 97

    4.1.1. O Projeto Msica para Todos Descrio 98

    4.2. A Escola de Ensino Fundamental Saul Bennesby 101

    4.2.1. Localizao 101

    4.2.2. Equipe executora do projeto 102

    4.2.3. A implantao do projeto Relao com os PCNs 102

    4.2.4. Execuo do projeto 102

    4.3. O Material Pedaggico para a educao na execuo do projeto Msica

    Para Todos 104

    4.3.1. Depoimentos das professoras do ensino fundamental sobre a execuo doprojeto 105

    4.3.2. Depoimento da educadora musical 107

    4.3.3. A equipe gestora e os olhares sobre a aplicao do projeto Msica

    Para Todos 109

    4.3.4. O projeto e a viso dos alunos 111

    4.4. Anlise, resultados e perspectivas sobre o projeto Msica para Todos. 111

    4.4.1. Possibilidades e desafios do projeto 117

    CONSIDERAES GERAIS 121

    REFERNCIAS 123

    APNDICE A ENTREVISTAS 127

    APNDICE B TERMO DE COMPROMISSO 128

    ANEXOS 129

    1. Histrico do Instituto Maria Auxiliadora2. A nossa identidade educativa e eclesial Colgio Dom Bosco3. Decreto n 47 que cria o Curso Normal Regional do Territrio Federal do

    Guapor (Escola Estadual Carmela Dutra)4. Parecer sobre o Projeto Msica para Todos (Dade/Semed)5. Projeto Pedaggico da Escola de Ensino Fundamental Saul Bennesby6. Apostila Musical Pedaggica do Projeto Msica para Todos

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    LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

    Abem Associao Brasileira de Educao Musical

    Anped Associao Nacional de Pesquisadores em Educao

    Anppom Associao Nacional de Pesquisa e Pos-Graduao em Msica

    Capes Centro de Capacitao e Apoio ao Pesquisador

    CNPq Centro Nacional de Pesquisa

    Dade Diviso de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino

    EaD Educao Distncia

    FMI Fundo Monetrio Internacional

    LDB Lei de Diretrizes e Bases

    MEC Ministrio de Educao e Cultura

    PCNs Parmetros Curriculares Nacionais

    SEF Secretaria de Educao Fundamental

    Sema Superintendncia de Educao Musical e Artstica

    Semed Secretaria Municipal de Educao

    SESu Secretaria de Ensino de Segundo Grau

    Sinapem Simpsio Nacional sobre Pesquisa e o Ensino Musical

    Unesco Organizao das Naes Unidas pela Educao, Cincia e Cultura

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    RESUMO

    O enfoque desta pesquisa de campo foi a educao musical nas sriesiniciais do Ensino Fundamental, a partir da experincia do projeto Msica paraTodos, implantado em Porto Velho, Rondnia, pela Secretaria Municipal deEducao, em parceria com a Escola de Msica Jorge Andrade, no ano de 2007.A metodologia utilizada na pesquisa investigativa de cunho qualitativo,configurando-se como um estudo de caso e as tcnicas para a coleta de dadosforam a observao participante, as entrevistas semi-estruturadas e o dirio decampo. Ressaltamos a contradio do projeto Msica para Todos que, na suaprtica pedaggica, atende um nmero mnimo de alunos, refletindo ainda umaeducao musical excludente. Acreditamos, atravs deste trabalho, contribuir comtodos os educadores envolvidos na busca de caminhos para conduzir a educaomusical s escolas pblicas do pas.

    Palavras chave: Msica, Educao, Excluso, Formao Docente.

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    ABSTRACT

    This field study aimed to analyze music education at the early grades of elementary school,based on the experience of the project "Music for All", introduced in Porto Velho,Rondonia, by the County Education in partnership with the School of Music Jorge Andradein the year 2007. The methodological approach was a qualitative classification, setting it asa case study and the techniques for data collection consisted of participant observation,semi-structured interviews and field journal. We point out the contradiction of the project"Music for All" in their teaching that still attend a minimum number of students, reflectingan exclusive musical education. We believe that through this work, we will contribute to allthe educators involved in order to find proper way to bring music education to publicschools.

    Keywords: Music, Education, Exclusion, Teacher Education.

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    INTRODUO

    A preocupao e o interesse por realizar a pesquisa, objeto de nossainvestigao, surgiu a partir de uma experincia pessoal, como professora depiano na Escola Municipal de Msica Jorge Andrade, em Porto Velho, Rondnia,que oferece, gratuitamente, aulas de msica para crianas de toda a comunidade.

    Nascida e formada dentro de um sistema social, o cubano, que ainda noperfeito, busca, atravs da educao, oferecer igualdade de direitos para todas ascrianas, desde os primeiros anos de vida.

    A educao musical est presente nos crculos infantis, assim chamadas ascreches em Cuba, onde educadores e especialistas, na rea infantil, sopreparados para, de forma consciente, educar e estimular a percepo, asensibilidade emocional, os gostos estticos e o amor vida e a tudo o que nosrodeia, auxiliados pela educao musical. Vale ressaltar que a prtica educativamusical, neste pas, planejada com critrio e rigor, dentro do sistemaeducacional, desde as primeiras etapas da vida.

    Tive a oportunidade, ademais, de ser pianista acompanhante de ballet, nosdiferentes nveis da dana e vivenciei, atravs do piano, a relao corpo/msica,na fora da expresso corporal. Acredito que a educao musical, investigadaneste caso especfico, como linguagem erudita universal, educa e prepara o serhumano, desenvolvendo o equilbrio emocional, comportamental, estimulando ocognitivo, a intelectualidade, em sua relao corpo/mente.

    Na sua amplitude formativa funcional, o estudo da msica destina-setambm para formar talentos musicais, futuros instrumentistas e compositores,podem ser formados nas escolas de msica e esta prtica pedaggica requerespecial ateno e cuidado por parte dos docentes que atuam na rea daformao erudita. Por isso a preocupao e o interesse por realizar a pesquisa,objeto de nossa investigao, surgiram a partir de uma experincia pessoal comoprofessora de piano na Escola Municipal de Msica Jorge Andrade em PortoVelho, Rondnia, a qual oferece, gratuitamente, aulas de msica, para crianasde toda a comunidade.

    A partir dessas prticas, surgiram inquietudes para conhecer a formaomusical dos alunos em sries iniciais do ensino escolar, j que a msica est forados currculos escolares na maioria das escolas pblicas ou particulares.

    comum na maioria das escolas, principalmente em sries iniciais, o usoexcessivo do canto, s vezes de forma mecnica, por parte do professor, que em

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    muitos casos no apresenta um preparo para elaborar um programa musicalvinculado aos interesses, conhecimentos, experincias, criatividade e expectativadas crianas. O planejamento musical feito a partir de um calendrio com dataspatriticas e festivas.

    Perante esta realidade, acreditamos que o silencio musical nas escolas seinstalou no ensino fundamental, entre outros fatores, em grande parte, peloincorreto uso da msica nas salas de aula, produto da falta de apoio pedaggicomusical e da deficiente formao dos professores para atuarem na rea musical.

    Levam-se em conta as novas maneiras de aprender e assimilar a realidadeeducacional atual, uma poca em que resistir ao desconhecido, ou s mudanasqualitativas, no a melhor maneira de abordar o contexto atual da nossa cultura,cercados de representaes transitrias, instantneas, de televiso, dosvideogames, internet, de que fazem parte crianas e jovens nos momentos extraescolares (Loureiro, 2007). Nesse sentido, a atual prtica pedaggica musicalpode ajudar a destacar o valor da educao musical dentro do contexto social.Podemos, atravs da msica, fazer uma ponte com a aprendizagem escolar, pormeio de uma linguagem a musical atualizada e adequada ao meio em queestamos inseridos.

    A msica, quando bem utilizada, contribui para elevar a auto-estima dascrianas, pois programas que enfatizam o potencial da msica no processo deintegrao social, vem crescendo com sucesso em algumas camadas sociais e seintegrando cada vez mais nas escolas brasileiras.

    A educao musical, como recurso pedaggico, est sendo cada vez maisaproveitada nas escolas para alfabetizar, resgatar a auto-estima das crianasmais carentes e sua integrao social (LOUREIRO, 2007).

    Para isso formas e estilos musicais precisam ser colocados em contato comas crianas que apresentam desinteresse escolar e desestruturao familiar,pouca concentrao e baixo rendimento acadmico.

    Atentos aos resultados e s transformaes positivas, que a msica vemcausando nas crianas e jovens do pas, em 2007, a Secretaria de Educao doMunicpio de Porto Velho mostrou-se empenhada em implantar o ensino damsica nas escolas pblicas da rede municipal.

    Com o ttulo Msica para Todos, o projeto em estudo uma iniciativa daSecretaria Municipal de Educao em conjunto com a direo e professores daEscola Municipal de Msica Jorge Andrade. Este projeto oferece uma propostapara acolher alunos da rede municipal de ensino, que tenham oportunidade dereceber aulas de teclado, violo, flauta doce, canto, com a finalidade de cultivar,em todas as crianas, a musicalizao, elemento prprio das capacidades do serhumano e explorar os rgos dos sentidos: audio, expresso, ritmo, melodia,criatividade, sensorialidade e a emotividade.

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    Percebemos que o objetivo do projeto atender s crianas mais carentesda populao, aquelas que no tm acesso ao estudo da msica, uma realidadeda educao brasileira. Dentro desta marginalidade, surge essa perspectivaeducativa para incorporar as crianas e os jovens numa prtica educativa maisconsciente, atravs da msica e dentro de sua comunidade, na instituio escolarde seu bairro.

    Ainda na sua justificativa o projeto Msica para Todos reafirma amusicalizao infantil atravs da vivncia e a compreenso musical numalinguagem que representa uma concepo musical, elaborada pela equipe deprofessores de msica da Escola Jorge Andrade, tomando como base terica,para sua fundamentao, a metodologia musical dos pedagogos Kodaly,Dalcroze, Schaffer, Gainza, Villa-Lobos e o cancioneiro infantil brasileiro e ainda aexperincia profissional dos membros da equipe. Diante do desafio de levar oensino da msica para as crianas da rede pblica do ensino municipal, o projetopreviu a implantao dos plos musicais que atenderiam a um grupo de escolasdo municpio de Porto Velho.

    Foram contempladas quinze escolas de diferentes bairros de Porto Velho,envolvendo no s as mais tradicionais, como tambm aquelas de recentecriao, possibilitando um maior acesso s diversidades sociais e culturais.

    Nesta pesquisa verificamos que a prioridade do projeto Msica para Todos musicalizar as crianas das primeiras sries do ensino fundamental e que o cursode musicalizao apresenta trs etapas: a primeira etapa consiste nodesenvolvimento das capacidades perceptivas. A segunda consiste noconhecimento terico da simbologia e a nomenclatura musical, com carga horriade quarenta horas/aula. A terceira etapa de conhecimentos prticos, tem comoobjetivo vincular a teoria prtica, atravs do estudo dos instrumentos musicais,como a flauta doce, teclado, violo e canto.

    Esta pesquisa configura-se um estudo do Projeto Msica para Todos, numaescola da rede pblica municipal de Porto Velho, que est situada num bairro daperiferia, cujos alunos atendidos so de baixa renda. A escola foi fundada em1994 e conta atualmente com 524 alunos da 1 4 srie do ensino fundamental,distribudos em dez salas, nos dois turnos, matutino e vespertino.

    Uma preocupao presente nesta pesquisa foi referente ao interlocutor,onde os autores entrevistados preferem preservar sua identidade e no seroidentificados. Nesse sentido, esto assim denominados: Professoras: letras A, B eC; Diretora; Supervisora; Educadora Musical; Alunos 1, 2 e 3.

    Selecionamos esta escola em decorrncia de atender as propostas iniciaispara nossa investigao. A mesma atende educao musical no ensinofundamental. A escola se encontra inserida no projeto Msica para Todos numatentativa da Secretaria Municipal de Educao de Porto Velho de implantar oensino da msica nas escolas pblicas do municpio.

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    A educadora musical, que atua na rea atendendo s crianas do projetoMsica para Todos, possui experincias em sala de aula na Escola de MsicaJorge Andrade e atualmente cursa a Licenciatura em msica pela Universidade doRio Grande do Sul numa parceria com a Secretaria Municipal de Educao dePorto Velho. Ela participou do curso de capacitao elaborado pela equipe deprofessores de educao musical da Escola de Msica Jorge Andrade, com baseterica fundamentada em aulas de canto para a colocao da voz infantil, a flautadoce e orientaes para trabalhar com a bandinha rtmica.

    Para a realizao desta pesquisa foram consultados artigos em revistas,livros de pesquisadores nacionais e internacionais, na rea musical e daeducao em geral, sempre considerando o contexto da realidade educacional dopas e do estado de Rondnia.

    A dissertao est organizada em quatro captulos. No primeiro captulo,tratamos, auxiliados por enciclopdias e dicionrios, das razes da msica e suarelao com o ser humano. Abordamos a teoria da educao musical, apoiadosna fundamentao dos especialistas. Ainda apoiados em pesquisas bibliogrficas,destacamos os avanos da pesquisa em msica no Brasil. Contribuies damsica e benefcios da educao musical para a formao integral do serhumano. Inclumos relatos de experincias de sucesso com a educao musicalnas escolas do Brasil. No segundo captulo, ainda apoiados em pesquisasbibliogrficas, ressaltamos a evoluo musical no Brasil e sua incluso nasescolas. Viso panormica do Estado de Rondnia e trajetria da educaomusical em Porto Velho. Ilustramos como se deu a excluso da msica dentro doscurrculos escolares no Brasil. A formao e o preparo do educador musical,tambm sero abordados nesse captulo. No terceiro captulo, tratamos dametodologia utilizada na pesquisa. No quarto captulo, dedicamos especialateno anlise do estudo do projeto Msica para Todos, acertos e desafios nasua execuo.

    Vale ressaltar a volta da educao musical nas escolas pblicas do Brasil,amparada pela Lei 11.769/08, que regulariza o ensino obrigatrio da msica noscurrculos escolares. Esta obrigatoriedade, no nosso modo de ver, traz benefciosscio-educativos, a exemplo de criar cargos de professores de msica atravs deabertura de concursos pblicos, levantamentos de situaes ou necessidadesentre secretarias estaduais e municipais para instalar programas culturais emusicais nas escolas, promover discusses atravs da Secretaria eCoordenadorias Regionais, fomentando o estabelecimento de parcerias para quesejam pensadas formas de implantar a nova lei nas escolas, considerandoprincpios dentro de uma educao nacional, mas tambm propondo aesviveis ou possveis dentro de cada contexto e regio do pas.Dentro de anlisesabsorver o que j existe de positivo no trabalho musical e propor novas aes,que venham somar-se ao que j existe na prtica, como: bandas, fanfarras,corais, grupos musicais, oficinas, festivais e outros. Aquisio de material didtico

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    e pedaggico para auxiliar e apoiar as aes do educador musical, procurandodar mais apoio para sua formao. Assim formulamos os seguintes objetivos paranortear nosso estudo:

    Importncia da educao musical na formao integral dos indivduosa partir das primeiras etapas da vida.

    A educao musical como disciplina na escola de ensino fundamental. Formao e preparo do educador musical.

    Com base nesses objetivos, como educadores musicais, interessados emotivados em entender como est sendo aplicada a educao musical na escola,formulamos questes fundamentais:

    Qual o significado da educao musical? Qual o lugar que a educao musical ocupa no atual currculo do

    ensino fundamental? Quais as possibilidades e os limites para a educao musical no

    ensino fundamental? Qual a formao do atual educador musical?

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    1. ESTUDOS TERICOS: A MSICA NA VIDA E NA ESCOLA

    A msica como manifestao artstica acompanha a humanidade ao longode sua histria, desenvolvendo qualidades essenciais no ser humano. Atravs damsica os povos expressam seus sentimentos, sejam patriticos, amorosos,religiosos, sociais ou morais. De acordo com o Dicionrio Larousse (1998) a arteda msica se define como uma atividade especfica humana que envolve certasfaculdades sensoriais, estticas e intelectuais. A msica, nesse sentido, por setratar de uma manifestao artstica, uma criao prpria do ser humano,porque expressa os direitos para com o bem estar, a dignidade, os valores para odesenvolvimento intelectual multifactico e integral, constituindo-se em conjuntode condies necessrias para a humanidade, que contribui com a formao dehbitos sociais indispensveis para se exercer a cidadania plena.

    1.1. A msica como arte na histria da humanidade

    No caso especfico da msica, objeto da nossa investigao, constitudapor um conjunto de regras e tcnicas que regem todas as demais artes. Seusprincpios e frmulas orientam o modo como devem ser feitas as aes atravsdas artes, do abstrato ao concreto. Esta propriedade agudiza ao mximo ascapacidades sensoriais, as que so treinadas longe de uma forma real, dentro deuma tica subjetiva. A ao humana criativa atravs das artes denuncia, exalta eevoca, seja na pintura, na msica, na representao, na dana, na fotografia, nacinematografia, formas belas para um mundo real, concreto, atravs dos rgossensoriais, despertando afetos e emoes da sensibilidade humana, atravs daintelectualidade criadora dos artistas, que estimulam a percepo do belo e dosublime.

    O desenvolvimento das artes, em especial da msica, produto da evoluohumana e reflete o nvel da conscincia esttica da sociedade. Ao materializar osresultados das impresses artsticas, as artes so um meio eficaz e eficiente paraeducar, de forma integral, a espcie humana, ideolgica e emocionalmente.

    Assim, as civilizaes criaram as artes, na busca de aes civilizadoras emum conjunto de caracteres prprios da vida intelectual, artstica e moral das

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    sociedades, ao longo da histria. Assim, definiram suas culturas atravs das artese identificaram tambm as diferentes civilizaes e posies ideolgicasscio-culturais das sociedades atuais, manifestando-se como um novo tipo deidentidade para as artes, destacando-se como uma possvel soluo para osproblemas globais da nossa poca, dentro do progresso social da humanidade,na busca de soluo para as desigualdades sociais.

    A linguagem musical tem sido registrada, interpretada, entendida e definida,atravs da histria da msica, de vrias maneiras em cada poca e cultura. Damsica e a evoluo do homem, Larousse (1998) destaca que:

    a evoluo do homem se reconhece graas a distintos tiposde instrumentos (pedras talhadas e pedras polidas), indciosde assentamentos. Isto indica uma evoluo contnua apartir dos primatas desaparecidos, que so ao mesmotempo nossos antepassados at chegar ao que somos hoje.(LAROUSSE, 1998, p. 527)

    A faculdade humana de se comunicar expressa, representa e transmiteidias por meio de um sistema de smbolos que seriam a linguagem falada e alinguagem escrita, que servem para comunicarmos. No existia, ainda, estesistema de fonemas que conhecemos. Da a necessidade de o homem expressarsuas idias e emoes atravs dos traos nas pedras. Assim, surge a pintura, osdesenhos rupestres talhados nas cavernas da era da pedra. A expresso corporale vocal ajudaram a enfatizar, com gritos, alaridos e batidas no corpo, sentimentose necessidades de expressar idias. Assim surge a dana atravs dosmovimentos corporais, que ajudavam na descrio de imagens. Os alaridos egritos deram passo ao canto, que nosso instrumento musical nato e com pedraspolidas, experimentaram diferentes batidas e resultados sonoros. Assim surgiramos primeiros sinais de instrumentos musicais (Larousse, 1998).

    As civilizaes humanas evoluem nas realizaes materiais e espirituais,destacando-se a harmonia social, sinnimo de civilizao e cultura. Atravs daarte podemos distinguir perodos e civilizaes na evoluo da humanidade, queencontrou seu auge na cultura grega, que influenciou as diversas civilizaes peloequilbrio social alcanado atravs das diferentes manifestaes artsticas, quefizeram da Grcia um referencial histrico de beleza e esttica, que marcaram edefiniram conceitos. A msica, na histria da humanidade, como arte, foi cultivadatradicionalmente na Grcia. Nos revela o Dicionrio Grove da Msica (1994) que,nos tempos homricos, o Aedo cantava os poemas picos, acompanhado pelactara. O instrumento tpico dos pastores era a flauta de p. O aulo, tubo depalheta dupla com som nasal, estava associado ao culto de Dionsio. Os gregostambm usaram a harpa com vinte cordas e combinavam poesia, msica e dana.A teoria musical grega tendia especulao matemtica e ao simbolismonumrico, astronomia e ao misticismo. Destaca-se o filsofo e matemticogrego Pitgoras que procurou estabelecer as propores numricas dosintervalos consonantes musicais, que regem o sistema de afinao atual.

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    Na Grcia, de acordo com Jaeger (apud LOUREIRO, 2007, p.35) desde ainfncia, as artes j faziam parte do desenvolvimento social, tornando-se a msicaalvo do estudo disciplinar e escolar, surgindo, assim, os primeiros indcios dapedagogia musical. Para os gregos, com o estudo da msica enriquecia-se aparte espiritual da alma e, com a ginstica, a fora fsica, traduzindo-se umequilbrio entre a mente e o corpo. O ser humano devia preparar-seespiritualmente. A msica como arte pode introduzir, no esprito do ser humano, osentido de ritmo e harmonia, pois uma pessoa, corretamente educada na msica,pelo fato de assimil-la espiritualmente, sente desabrochar, dentro de si, desdesua mocidade. Numa fase ainda inconsciente, sente uma certeza infalvel desatisfao pelo belo e de repugnncia pelo feio. Este humano, educado no valordas artes e da msica, reconhece e valoriza o papel da educao musical.

    A cultura greco-romana, atravs da igreja, influenciou a civilizao europia.Os modos eclesisticos da Idade Mdia originam-se das escalas gregas. Ocantocho, antigo canto romano, um repertrio litrgico de melodias com textoslatinos. o canto oficial da Igreja Catlica Romana. As frmulas meldicaspadronizadas com melismas e linhas meldicas flexveis, todo vocal, semacompanhamento instrumental, sendo um canto genuinamente vocal, sorecitados salmos e oraes (Grove, 1994, p.387).

    A exemplo de outras civilizaes humanas, os gregos valorizaram a msicacomo arte, dentro de seu patrimnio cultural para perpetuar e consolidarconjuntos de caracteres prprios capazes de identificar sua prpria cultura.Trazemos para este captulo exemplos da Europa, Rssia, China, frica, ndia eAmrica Latina.

    Continuando com os apontamentos do Dicionrio Grove de Msica (1994),recebemos grande influncia cultural da civilizao europia, onde se destaca opredomnio do cristianismo, que simbolizou os pases civilizados. Constantinoreconheceu o cristianismo como religio oficial atravs do dito de Milo, em 313(apud Larousse, 1998). Durante a Idade Mdia, se estendeu por todo o mundocivilizado. Os confrontos separaram e debilitaram a Igreja Bizantina, surgindo aReforma no sculo XVI, que separou o protestantismo da igreja romana. Esta sedifundiu por todo o mundo, devido s misses e aos movimentos ecumnicos.

    A igreja catlica, prevendo o seu enfraquecimento, partiu em busca de novosterritrios atravs de conquistas. O descobrimento e a colonizao de territriospor Espanha e Portugal levaram ambos pases a declarar, em 1494, o tratado deTordesilhas, que estabeleceu uma linha divisria entre as posiesextra-europias da Espanha e Portugal. Pedro lvares Cabral tomou conta doBrasil, em 1500, influenciando o pas com a musicalidade trazida da Europa e quese fundiu com a cultura indgena e a africana. A musicalidade portuguesaapresenta influncias espanholas e rabes, a exemplo dos cantos queapresentam livres improvisaes em suas linhas meldicas com amplos melismas

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    e acompanhamentos de violo, tendo o Fado como um canto tipicamenteportugus (Larousse, 1998, p. 1134).

    As civilizaes Eslovnia e Russa foram outros exemplos marcados pelamusicalidade atravs da histria, desde o cantocho dos eslavos ortodoxosorientais, que assimilaram a religio e o ritual cristo dos gregos. Seus cnticosso inteiramente vocais, mondicos e sem acompanhamentos. Uma das maisantigas coletneas de que se tem conhecimento so dos sculos XI e XII. Anotao se havia desenvolvido e o cntico sofria a influncia de melodias russas(basicamente canes folclricas). Surge o cntico demestvennii melismticopara cantores especialmente treinados no Sculo XVI (Grove, 1994, p.809)

    Segundo Grove, ainda, os estilos e a notao da polifonia ocidental foramabsorvidos pela msica eclesistica russa atravs da Polnia, provavelmente nosculo XVI. As primeiras partituras eram de cnticos demestvenni, mas, por voltado sculo XVII, as obras tinham muito em comum com a msica coral alem. Foinessa poca que surgiram partituras de cnticos silbicos para trs vozes, emblocos de acordes (Kant). Os que tinham textos seculares logo se difundiram.

    No sculo XVII os compositores italianos influenciaram, com seu estilo, aigreja russa. Segundo Glinka (1830), o primeiro compositor russo a trazer oelemento nacionalista para a msica, a msica eclesistica tornou-se modalmenteharmonizada. Foi nos anos de 1860 que surgiu a conscincia nova de um idiomarusso. Os documentos do final do sculo XVIII ainda mostram aspectosbizantinos. Somente em meados do sculo XIX surgiram as partituras polifnicasde msica srvia.

    Depois da segunda guerra mundial se constituiu a Unio das RepblicasSocialistas Soviticas, que desempenharam um papel fundamental para todas asrepblicas, com o emprego da lngua russa e a consolidao dos valores culturaisdo sistema socialista sovitico. Entretanto, a partir de 1985, Mijail Gorbachovimplantou um programa de reformas econmicas e polticas, conhecido comoperestroika e glasnost, respectivamente. As aspiraes populares por mudanasdo sistema aumentaram rapidamente, provocando a desintegrao do sistemasovitico.

    A exemplo de outras civilizaes, que tambm valorizaram a msica comoarte dentro de seu patrimnio cultural para criar, perpetuar e consolidar conjuntosde caracteres prprios, capazes de identificar sua prpria cultura, temos a China,pas continental que abrange uma vasta regio, habitada por muitos grupostnicos culturalmente distintos. Assim os gneros musicais so numerosos e seusestilos variados. Ao longo de toda a histria musical chinesa certos temasprevaleceram: a crena no poder da msica e a relao metafsica entre a msicae o mundo natural, conforme o Dicionrio Grove de Msica (1994, p. 192), idiascultuadas em centenas de tratados do perodo antigo at o moderno.

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    Pouco se sabe a respeito da sonoridade da msica chinesa antiga, mas,documentos escritos fornecem algumas informaes sobre a msica naquelasociedade. A histria musical chinesa sempre esteve indissoluvelmente ligada poltica e cada novo governo mantinha um departamento responsvel pelamsica. Os filsofos chineses, inclusive Confcio, logo reconheceram a fora damsica sobre a mente e as emoes, alm de sua importncia na educao.Recomendavam, assim como os antigos gregos, seu controle pelo estado devidoao poder sobre a moral das massas populares.

    O teatro regional mais famoso da China a pera de Pequim que sedesenvolveu no final do sculo XVIII. Aps a implantao da Repblica Popularda China em 1949, a pera tradicional virtualmente desapareceu. Novos textos econvenes enfatizam o patriotismo e eliminaram a reverncia cerimonial e outrosgestos de humilhao. Foi composto um novo repertrio, comemorando o triunfodo socialismo marxista. O instrumento padro tem sete cordas de sedas, cujocomprimento de 3 ps e 6,5 polegadas, simbolizando os 365 dias do ano. Oorifcio da ressonncia chamado Lago do Drago mede 8 polegadas,simbolizando as oito direes dos ventos. A parte superior do instrumentosimboliza os cus e a parte inferior a terra (Grove, 1994).

    A China e o Vietnam, em conjunto com a ex-Unio Sovitica, mantiveramuma linha educativa de realce aos valores artsticos nacionais, coerente com asprincipais ideologias do sistema socialista e que visava a educao massiva paraformar as populaes para exercerem a cidadania plena.

    Em sintonia com dados pesquisados, destacamos o valor do ex-sistemasocialista sovitico, que agrupou o bloco dos pases do leste europeu. Estesistema visava a propriedade social dos meios de produo, ausncia de classesdominantes e da explorao do homem pelo homem. Esta era a proposta destesistema, que, ademais, visava altos nveis de disciplina e intelectualidade.Tambm se propunha superar, mundialmente, o sistema educacional e cultural dosistema capitalista. Esta cultura educacional, conquistada pelos ex-pasessocialistas, influenciou a cultura, em grande medida, atravs dos aportesmetodolgicos na esfera educacional (Dicionrio de Filosofia 1984).

    Grove (1994) ressalta tambm a valiosa contribuio musical do continenteafricano, uma das regies musicalmente mais diversificadas do planeta. Comgrandes contrastes geogrficos, montanhas, vastos desertos, cinturo desavanas, florestas equatoriais e apesar de tanta diversidade possvel identificarelementos comuns. A msica africana basicamente percussiva. Predominam ostambores, chocalhos, sinos e gongos. Os cantores improvisam, os ritmos socomplexos para os padres europeus e predominam as execues coletivas. Aregio norte da frica foi influenciada pelo isl, o que se reflete em melodiasrituais, modos, e no canto litrgico. Igualmente, os africanos conheceram todasas artes e transmitiram ao mundo a tcnica do bronze e a que introduziu oislamismo, atravs das caravanas pelo continente africano. Foram influenciados,

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    pelo cristianismo, via colonizadores europeus, e que se reflete em melodias rituaise modos no canto litrgico.

    Na frica, a msica parte integrante da vida cotidiana nos ritos depassagem, no trabalho, nos divertimentos. Estes tambm foram importantes navida das cortes africanas tradicionais. Alguns estudos demonstram que a msicacomunitria mais comum que no ocidente. A notao musical rara na frica. Apercia e o conhecimento so passados de mestre para o discpulo por tradiooral. Os instrumentos africanos mais famosos so os tambores de membrana,tocados em Gana. Tocam-se harpas, principalmente ao norte, em uma amplafaixa que se estende de Uganda at a savana ocidental. Existem as rebecas nafrica Oriental e o arco musical feito, com um arco de caa tocado com tcnicasvariadas e grande sofistificao. Variedades de instrumentos de sopro so,provavelmente, influncia da cultura islmica. Aprecia-se que o continenteafricano influenciou em grande medida, o universo musical da Amrica Latina. Aoserem trazidos os africanos, como mo de obra escravizada, aqui deixaram seulegado musical.

    Destacamos a Amrica Latina com suas ricas e variadas culturas dasAmricas Central, do Sul, das ilhas do Caribe, onde se misturam tradies dospovos autctones, africanos e europeus. Na msica folclrica apresentaelementos puramente indgenas, dos povos das montanhas da Bolvia, Peru eEquador, zona das florestas tropicais da Amaznia. A msica, na maior partehispnica da Argentina, e o estilo peculiar do Brasil, que mistura formasindgenas, africanas e portuguesas. Minorias, como os indo-asiticos de Trinidade da Guiana, os javaneses do Suriname e os alemes do sul do Brasil, completamesse rico cenrio musical.

    Segundo Grove (1994) na regio andina da Bolvia, do Peru e do Equador, amsica indgena nativa absorveu elementos espanhis, processo esse quecomeou sob a influncia dos missionrios cristos do sculo XVI. As melodiasandinas so essencialmente europias. A msica folclrica afro-hispnica especialmente importante no Brasil, na Venezuela e na Colmbia. Ascomunidades negras do Brasil preservam um estilo muito prximo de seusdescendentes africanos, com ritmos agitados, formas dialogadas e compredomnio dos instrumentos de percusso.

    As combinaes de caractersticas portuguesas e africanas soparticularmente evidentes nas tradies musicais brasileiras, incluindo o samba, obatuque, o jongo, o lundu e formas urbanas mais recentes como a bossa-nova.Foi no repertrio dos cultos que a msica africana foi melhor preservada no NovoMundo, especialmente no lucumi de Cuba e no candombl no Brasil. Os rituaisdos cultos africanos nestes dois pases apresentaram o sincretismoreligioso-cultural ao conservar as formas africanas como ritmos complexos,acompanhados de percusso, inventando novas formas musicais, inteiramentenovas. Estes povos contriburam com os estilos musicais internacionais. Com o

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    novo repertrio, destacam-se o Jazz latino, o jazz afro-cubano, o calipso, o regge,a salsa e a bossa-nova (Grove, 1994, p.9).

    Com base nas fontes pesquisadas, constatamos como o tronco musicalafricano deixa as suas marcas expressivas no Brasil, em Cuba e na Venezuela,devido s tribos africanas em comum, levadas para estes pases. A presena dapercusso, nessas culturas constitui-se uma marca e um estilo afro-musical, quemarca o folclore e as tradies afro-descendentes com nfase nos instrumentosde percusso, destacando-se a improvisao, as danas na expresso corporalque unifica os povos.

    Destacamos, tambm, as razes andinas presentes no sul da AmricaLatina, a exemplo do Equador, Bolvia, Peru e Chile.

    A msica nativa da Amrica Latina a dos indgenas, que durante o perodoanterior colonizao, constituram-se em pequenos grupos nmades. So asculturas amplamente desenvolvidas dos maias, astecas e incas. A msicaindgena atual inclui canes para a caa e a pesca, e outras canes de trabalhoe, tambm, msicas para expressar o lamento, as conquistas e outros rituais,cujos textos preservam a herana mtica das tribos. O estilo essencialmentevocal, acompanhamentos com instrumentos de percusso e de sopro tpicos decada grupo cultural. Encontram-se, tambm, cantos polifnicos entre os ndios doBrasil, Peru, Equador e Venezuela.

    Grove (1994) diz que a msica instrumental mais importante entre osndios sul-americanos do que entre os da Amrica do Norte. Os instrumentosnativos de cada grupo incluem flautas, apitos, chocalhos, maracs, trombetas deargila, casca de rvore, bambu e vrios tipos de tambores. Os instrumentoscostumam ter significado ritual, particularmente zumbidores, maracs, bastes deritmo, guizos, trombetas de madeiras e certas flautas dos ndios cunaspanamenhos, os conjuntos de flautas de p dos aimars da Argentina, Bolvia ePeru e os duos de flauta dos camaiurs do Brasil. Os tzotzils do Mxico, queusam violinos, harpas e violes, so influncias da msica folclrica caractersticadas formas puramente indgenas destes povos.

    Pretendemos ilustrar como a humanidade cultivou a msica ao longo de suahistria, dentro de suas faculdades, junto com os conhecimentos e os avanoscientficos, manifestando-se a intelectualidade e os valores artsticos quecaracterizam as sociedades. Apoiados na filosofia marxista, destacamos que,atravs das artes, manifesta-se um conjunto de fatos ideolgicos que se refletemna cultura das massas. Atravs de sua propriedade comunicativa, a msica,igualmente, exerce influncias sobre a conscincia social e individual,conjugando-se, assim, valores materiais e espirituais, num processo de prticascio-histrica.

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    Destacamos, ademais, que nesse processo evolutivo, a msica sedesenvolve em dependncia das formaes scio-econmicas. Existem diversasinterpretaes sobre essa temtica.

    Segundo Strickland (2002) em Arte comentada: da pr-histria aops-moderno, os estudiosos destacam que a arte parecida com a vida. Passado interesse sobrenatural para o natural, onde a beleza tem que ser convulsiva.No o que voc v, mas o que voc sabe que ela . Busca-se incessantementeuma liberdade radical de expresso na direo da pura abstrao que domina asartes, podendo a mesma existir s nas mentes humanas.

    Dentro do enfoque dialtico, nas sociedades divididas em classes, as artesadquirem um carter classista, tanto pelo seu contedo ideolgico como pela suaorientao prtica metodolgica. Este carter classista se evidencia claramentena atividade educativa cultural. A educao, como um instrumento de preservaoou de transformao do sistema, pode ser definida como um sistema desobrevivncia. Definiremos assim porque entendemos que, atualmente, ahumanidade se debate frente aos novos desafios e paradigmasscio-econmicos, indo alm das prprias limitaes. As artes e a msicacaminham, nesta etapa, ao encontro da educao e da superao intelectual doser humano, atravs de uma formao integral, no resgate da dignidade e dacidadania. No existe uma rea geograficamente privilegiada pela educaomusical. A humanidade evoluiu na inteligncia e com ela a imaginao da qualbrotou a criatividade. Esta criatividade equilibra e prepara os indivduos dentro dosistema que apresenta elementos que tm relaes e conexes entre si e formamuma determinada integridade, j que o sistema desempenha um papel importantenos dias atuais, influenciando tambm as artes.

    1.2. Msica e sociedade

    Por ser o sistema uma unidade indissolvel com o meio, este se caracterizoupela existncia de um processo de transmisso de informao e de direo quepode sofrer alteraes devido aos conflitos na prtica social, onde os homensadquirem um sentido da vida. Atravs dos conflitos o homem se identifica e sehumaniza como ser social. No caso especfico do Brasil, que apresenta umasociedade dividida em classes, o desafio educativo aumenta na busca pelaincluso na dignidade humana, onde a luta pela superao educacional nogarante, ainda, o direito superao intelectual integral para uma maioriaexcluda.

    Nesta perspectiva, visando a incluso, a dignidade, a solidariedade atravsdas artes, a educao musical dever ser enfocada para preparar indivduosaptos para agir no sistema com uma conscincia social de ao etransformao, com bases emocionais fundamentadas no desenvolvimento dasartes. Atravs da msica propomos uma percepo criativa emocional que auxilie

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    na assimilao e compreenso na busca de solues dos problemas do sistemaatual.

    Percebe-se que, hoje, a espcie humana luta pela existncia de seu prprioEu. Mas, esta existncia est unida a uma essncia que lhe permite conhecerao indivduo a razo de sua existncia como um processo histrico. Para oresgate deste auto conhecimento, a educao artstica deve lapidar aspersonalidades para no embrutecerem sem o domnio das emoes. Atravs daeducao prepara a essncia dos indivduos interligados com o mundo exterior edentro das aes sociais.

    Interligamos as marcas do trabalho artstico deixadas pelos homensprimitivos do perodo paleoltico, aproximadamente 20 a 40 milnios antes denossa era, onde as artes eram uma necessidade, fazendo parte do trabalho comoforma da expresso humana. Posteriormente, as artes se integram a todos ossetores da sociedade, convertendo-se em um reflexo da ao social, no af desatisfazer as suas necessidades estticas, proporcionando alegrias e deleite deacordo com as leis da beleza. Atravs da educao musical poder serassimilada, de forma positiva, a esttica da realidade dentro das contradiessociais: opresso x liberdade, misria x dignidade, incluso x excluso. Aqui, osdesafios em desenvolver, atravs da msica em sala de aula um carter histrico,desenvolvendo e formando indivduos com pleno domnio intelectual, e com suascapacidades criativas do real tornando-se o belo atravs das artes. O caminho reconduzir a msica como arte para as escolas do Brasil.

    Como princpio bsico, partiremos da musicalidade presente em toda ahistria da civilizao, fazendo da msica uma expresso corporal imprescindvelatravs do canto.

    Em Larousse (1998) aprendemos que a msica : a) arte de combinar ossons, b) srie de signos que permitem dar forma grfica a uma idia musical.

    Interpretamos, na definio (a) que se manifesta a forma subjetiva eespontnea de se expressar a msica, atravs dos rgos dos sentidos, que sopossibilidade que temos para criar. Combinar os sons que nos possibilitamilimitadas combinaes sonoras atravs das nossas criaes. Com referncia definio (b) entendemos que se manifesta a msica atravs dos rgos dossentidos treinados, educados, atuando de forma regrada sobre o intelecto e opensamento criador, treinando-o dentro de uma evocao abstrata e subjetiva dasartes, para oferecer um resultado final, real, dentro de um mundo concreto,objetivo, visvel e registrado graficamente. Isto permite fazer da obra musical umlegado histrico cultural para a sociedade e, com o passar do tempo,desenvolveu-se, dando origem a vrias teorias e vertentes musicais, que seroabordadas dentro da nossa temtica.

    A msica recebe especial ateno ao longo da histria. Diferentescompositores, professores e instrumentistas vm se dedicando a estudar a

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    influncia da mesma na formao mais completa do ser humano, focando,principalmente, as primeiras etapas da vida, que nos possibilitam formar valorescognitivos e emocionais na integrao do indivduo sociedade. Portanto, amsica, como um dos elementos primrios da histria da humanidade, envolveregras e princpios que fazem dela uma disciplina.

    De acordo com Koellreutter, (apud TECA, 2003) msica a linguagem queorganiza, intencionalmente, os signos e o silncio, no contnuo espao-tempo. Amsica est presente num jogo dinmico de relaes que se simbolizam emmicroestruturas sonoras, a macroestrutura do universo. Koellreutter considera quea linguagem musical pode ser um meio de ampliao da percepo e daconscincia, porque permite vivenciar e conscientizar fenmenos e conceitos.

    Assimilar outros conceitos de grande importncia para a evoluo sonorada humanidade. Ainda Teca (2003) cita Cage e Shafer que afirmam que msica esom esto presentes nossa volta, mesmo estando dentro ou fora da sala deconcerto. Atravs da audio damos forma e sentido para a msica, numprocesso de dentro para fora. Atravs dessa faculdade criativa conhecemos eouvimos a criao de outros povos.

    No contexto e continuando com Teca (2003), no sculo XX foi Dalcroze(1865-1950) que se preocupou com o corpo como meio para o desenvolvimento,no s musical, mas tambm na mudana da personalidade das crianas. Elecriou uma disciplina chamada euritmia, sistematizando o trabalho dos contedosmusicais por meio do corpo.

    Igualmente, Michel Delalande, compositor e organista francs (1657-1726)descreve nesta linha da msica, expressada atravs dos rgos dos sentidos,que: as atividades relacionadas ao fazer musical devem ser encaminhadas para aescuta e anlise de modo que ocorra uma efetiva interao entre ao erecepo. Esta recepo leva um tempo para ser treinada, j que um processopaulatino e constante em que o indivduo vai recebendo, processando eorganizando, no crebro, informaes meldicas que recebe atravs dossentidos. Assim, podemos desenvolver a relao sujeito-objeto na compreensodo indivduo com a sociedade.

    1.3. Educao musical

    Atravs da fundamentao dos especialistas, entendemos que a educaomusical contribui para desenvolver a criatividade e pode ser oferecida a todos,atravs do sistema educacional. Podemos argumentar que, a criatividade no um dom ou privilgio de poucos, levando-se em considerao as capacidades dosindivduos em consultas feitas. Como destaca o Dicionrio de Filosofia (1984): acapacidade mais generalizada num ser humano a sensibilidade, que sedesenvolve, se aperfeioa ao longo da vida de cada indivduo. Assim, explica

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    que, as capacidades no se determinam s pela atividade do crebro, nem pelaspeculiaridades anatmico-fisiolgicas herdadas pelos indivduos. Isto se soma aodesenvolvimento histrico-cultural alcanado pela sociedade. Indissolvel paraesse desenvolvimento o trabalho, a organizao social e o sistema de instruo,que desempenham um papel fundamental e permitem mudanas de princpiospara outras esferas da criatividade.

    As capacidades devem e podem ser desenvolvidas, desde etapas iniciais davida, para ampliarmos a formao do intelecto humano e proporcionar aomercado profissionais e indivduos preparados para novos processos decrescimento intelectual.

    Por isso (....) estimular a criatividade envolve no apenasestimular o indivduo, mas tambm afetar o seu ambientesocial e as pessoas que nele vivem. Se aqueles quecircundam o indivduo no valorizam a criatividade, nooferecem um ambiente de apoio necessrio, no aceitam otrabalho criativo quando este apresentado, ento possvel que os esforos criativos do indivduo encontremobstculos srios, se no intransponveis. (STEIN apudMARZULLO, 2001, p.15).

    Entendemos de acordo com a autora que este trabalho estimulativo atravsdos rgos dos sentidos, se faz necessrio no ambiente escolar, j que namaioria dos casos os alunos no apresentam um lar condicionado para oatendimento e o desenvolvimento dos sentidos. Destacando, ademais, aimportncia do rgo auditivo

    ... a audio um processo contnuo, queiramos ou no,mas o fato de possuirmos ouvidos no garante a suacompetncia. De fato, muitos professores tem se queixadoque sentem uma crescente deficincia nas habilidadesauditivas de seus alunos. Isso srio: nada to bsico naeducao quanto a educao dos sentidos; e, entre eles, osouvidos so uns dos mais importantes (SCHAFER apudMARZULLO, 2001, p. 15)

    (...) a audio musical inseparvel do movimento: spercebemos verdadeiramente aquilo que sentimosmusicalmente, ou seja, aquilo que somos capazes dereceber atravs do movimento (Pesquisas de ThrseHursch no livro Musique et reducation, apud MARZULLO,2001, p.15).

    Continuando nossa fundamentao terica, Marzullo (2001) nos traz amsica e a expresso corporal interrelacionadas, j que o corpo capaz deexpressar o que sente, atravs dos movimentos corporais. A msica se traduzatravs do corpo, expressando-se atravs da dana. Nesse sentido, podemosanalisar a msica como suporte emocional, que tambm auxilia as atitudescomportamentais das crianas nas escolas.

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    (...) o movimento-atividade... condio principal da vida dacriana, pois sem movimento ela enfraquecer fsica ementalmente. O ritmo musical movimento, por isso fcilcompreender a importncia das experincias musicais parao psiquismo e a fisiologia da criana, atravs dos efeitospsicomotores que provocam.

    ... o ritmo tem um papel importante na formao eequilbrio do sistema nervoso. Isto porque toda expressomusical ativa age sobre a mente, favorecendo a descargaemocional e a reao motora ( como reflexo rtmico) ealiviando as tenses (WEIGEL, apud MARZULLO, 2001, p.16)

    Encontramos, ademais, nos fundamentos da Escola Dalcroze (apudMARZULLO, 2001, p.16) as seguintes diretrizes:

    Audio musical desenvolve, na criana, a percepo auditiva da alturados sons.

    Senso rtmico fazer a criana sentir e desenvolver o ritmo pela recreaomotora.

    Movimentos rtmicos levar a criana a alcanar o domnio dos diversosritmos atravs de sua mobilidade natural.

    O trabalho artstico nas etapas iniciais da vida, atravs da msica, setrabalha o corpo como um todo. Atravs do trabalho expressado no corpo semanifesta uma atitude humana para com a natureza, j que o indivduotransforma, atravs do trabalho, a si mesmo e a prpria natureza, de acordo comas suas necessidades.

    Esta separao entre corpo e mente deve ser superada nas primeirasetapas formativas. Por que no refletir sobre essa deficincia apoiados naevoluo humana, a exemplo das comunidades primitivas, onde as artes eramsinnimo de trabalho? Atravs das mesmas a comunidade expressava suasnecessidades, portanto, no poderia existir a separao entre corpo e mente.Ademais, o trabalho era coletivo, a convivncia era em comunidade. No existianesse modo de vida a propriedade privada, nem a excluso social.

    Com o passar do tempo, as transformaes sociais se deram atravs de formassuperiores de explorao. A cultura, na sociedade, desenvolveu-se paralelamenteneste processo, sofreu uma mutilao corporal cada vez maior devido divisosocial do trabalho, onde se enaltece o trabalho intelectual em detrimento dotrabalho manual. A prtica cultural requer um esforo fsico e este d um carterideolgico sua prtica. Ser um desafio resgatar e ressaltar o acervo culturalatravs da educao musical, unificando corpo e mente.

    A educao musical contribui para fundamentar valores como:

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    A msica um meio de comunicao, que se serve de umalinguagem. Pode-se concluir que contribui para a tomada deconscincia do novo, ou do desconhecido, seja uma dasmais importantes, seno a mais importante funo(KOELLREUTER, apud LOUREIRO, 2007, p.108).

    De acordo com estas definies, a linguagem musical universal, que seatribui msica, contempla a pluralidade cultural presente na sociedade, numantagonismo social, entrelaando vrios setores, compreendendo os valores damsica dentro de seu poder transformador como arte.

    Os valores hierarquizam uma concepo de vida, dehomem, de educao, de arte e de qualquer outro aspecto eapontam os caminhos do fazer educacional. Os valoresexistem em toda a prtica escolar, independente at daprpria conscincia dos mesmos. (TROPE, apudLOUREIRO, 2007, p. 11)

    Identificados com Loureiro (2007), atravs dos valores adquiridosculturalmente podemos introduzir, nas novas geraes, significados positivos ounegativos, valores estticos de beleza, valores ticos de normas e princpiosmorais, em mbito ideolgico dentro da sociedade. Quanto mais completa for aformao do indivduo, mais disposio ter para resolver os mltiplos problemasque uma sociedade em contnuo processo de mudana possa apresentar.

    A educao musical no orientada para a profissionalizao de musicistas,mas aceitando-a como um meio que tenha a funo de desenvolver apersonalidade do indivduo como um todo, de despertar e desenvolver faculdadesindispensveis ao profissional de qualquer rea de atividade, ou seja, porexemplo, as faculdades de percepo, de comunicao, de concentrao(autodisciplina), de trabalho em equipe

    (...) as faculdades de discernimento, anlise e sntese,desembarao e autoconfiana, (...) o desenvolvimento decriatividade, do senso crtico, do senso de responsabilidade,da sensibilidade de valores quantitativos e da memria,principalmente, o desenvolvimento do processo deconscientizao de tudo, base essencial do raciocnio e dareflexo (...).(KOELLREUTER, apud LOUREIRO, 2007, p.115).

    Trata-se de um tipo de educao musical que aceita como funo educativanas escolas a tarefa de formar conscincia e idias, atravs da educao musical,criando uma nova realidade, resultante de mudanas sociais. O homem comoobjeto da educao musical, atuante na sociedade, contribuindo para o progressoda mesma.

    Como refletimos, a msica atravs da educao, apresenta-se como umaforma de conhecimento, que formula princpios tericos, que contribuem paraconstituir valores necessrios ao cidado. Relembrando Morin (2001) quando

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    expressa, em suas reflexes a respeito dos saberes necessrios que as artes socomo um passaporte ao mundo globalizado de hoje, j que os artistas transitamlivremente nas fronteiras dos cinco continentes, levando suas culturas, interagindocom as outras. Isto demonstra a necessidade do homem liberdade emocional,espiritual e intelectual, atravs das artes. Neste caso especfico da msica,pode-se preparar e formar o indivduo livre da opresso social, sem estar alheioaos conflitos, participando da diviso das classes, ser capaz como artista depropor, atravs de sua arte, uma expresso libertadora, levando uma proposta desublimao para os indivduos em uma reflexo para a busca de solues,induzindo, atravs das artes, para que o outro aprenda a utilizar os recursos e osvalores de princpios sociais, histricos, que nos unificam e identificam.

    Neste legado cultural em pleno sculo XXI, onde muito se fala de incluso edo acesso educacional, no podemos deixar de refletir sobre papel da culturaquando expressa que:

    A democracia necessita ao mesmo tempo de conflitos deidias e de opinies, que lhe conferem sua vitalidade eprodutividade. Mas a vitalidade e a produtividade dosconflitos s podem se expandir em obedincia s regrasdemocrticas que regulam os antagonismos, substituindo aslutas fsicas pelas lutas de idias. (MORIN, 2001, p. 108)

    Assim, focados na democracia e na incluso pelo direito educao cultural,aposta no confronto de idias. Como o autor, observamos a intolerncia, cada vezmais presente, nas atitudes humanas e na incompreenso social. Apostamos nopreparo integral e intelectual dos indivduos para superar os novos paradigmas.Ressaltamos o ensino da msica como arte nas escolas do pas, principalmentenas etapas iniciais da vida escolar, fundamentada no papel que a msicadesempenha ao longo da histria humana, a exemplo das transformaes sociaise na conscientizao da populao, casos que vimos observando em outrasculturas, onde a msica acompanha o desenvolvimento humano.

    Propomos no deixar de fora as outras expresses artsticas. No casoespecfico, referimo-nos a linguagem musical como inquietude da investigao edo processo da evoluo humana, vinculada ao processo educativo, abrindocaminhos para a criatividade de forma consciente. Para isto, propomosfundamentar a msica dentro das transformaes significativas para as novasgeraes, de modo a poder definir tendncias, dentro da prtica musical, aexemplo do carter absoluto da msica, onde a mesma colocada atravs deum nico enfoque, num deleite esttico puro, negando-se os valores que amesma leva cognoscitivamente, inculcando-se, atravs desse conhecimento,ideologias adequadas. De outro modo sem negarmos estes valores intrnsecosdas artes e, especificamente, da msica, reconduziremos as jovens geraes auma mentalidade alienante, em que o artista ou indivduos seriam colocados emseparado da sociedade, e rotulados como sujeitos livres das responsabilidadescom seu povo e com seu tempo.

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    Desta forma, a educao musical formaria indivduos e artistas incompletos,extremamente subjetivos, individualistas, apolticos, fundamentados na consignaa arte no depende da sociedade, dentro de uma viso da arte pela arte. Estatendncia ainda predomina e est impregnada em diversos setores da sociedadee da comunidade escolar. Estes setores vem as artes como um dom ou umainspirao divina, uma sensibilidade espontnea de alguns poucos privilegiados.Essa corrente se ope a uma pedagogia musical e ao processo de ensino dasartes, atravs das metodologias e destacam, afirmativamente, que a musicalidade um privilgio de poucos e que a grande maioria precisa trabalhar para subsistir.A esse respeito os especialistas no assunto concordam que, esta viso seencontra arraigada h anos em muitos segmentos da sociedade. Este fator podeatribuir ao trabalho artstico nas escolas uma importncia apenas secundria ouindireta. Destacando a significao dos valores artsticos e o significado social damsica

    a educao musical, que deve ser indissoluvelmentecultural, gestual e emocional, enquadra-se numa formaoglobal da personalidade. Com vista a esta finalidadefundamental, a busca de recursos pedaggicos permaneceindefinida; tanto quanto nos outros setores tambm aqui noexistem receitas infalveis, mas apenas opes e direesmais ou menos fecundas ou esterilizadoras em funo danica coisa que nos importa: fazer da msica uma dimensointegrante da personalidade, uma permanente exigncia davida. (FORQUIM, apud LOUREIRO, 2007, p.117)

    Busca-se, na educao atravs da msica, estratgias de formaoinclusiva, transformadoras do sistema, cada vez mais excludente e individualista.No se comporta o estudo da msica apoiado somente no valor do sentidoesttico das artes, na forma sublime de abstrao dos pensamentos

    a esttica musical achava-se intimamente vinculada imagem mecanicista do mundo, ou seja, um determinismorigoroso. A partitura era vista como algo incontestvel edefinido como algo inteiramente casual e lgico lgico nosentido da lgica racionalista. Tudo o que acontecia na obramusical bem composta, possua uma causa determinada(...) acreditava-se que a obra musical pudesse ser descritacom objetividade (...) sem sequer mencionar o ser humanoou ouvinte (...) os valores qualitativos dos signos sonoros edas ocorrncias musicais (...) Esta esttica da msicaaparentemente objetiva, tornou-se o ideal da apreciao, dacrtica e do ensino musical, esttica que ainda hojepredomina em quase todos os conservatrios edepartamentos universitrios da msica. (KOELLREUTER,apud LOUREIRO,2007, p. 118)

    Anlise, como a do professor Koellreutter norteia, para ns, o caminho daeducao musical no pas. Ele foi um profundo estudioso da evoluo destatemtica. Hoje, a escola deve fazer as definies necessrias para clarear o papel

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    das artes, seus valores estticos e ticos na sociedade atual, para assimilar opositivo do modelo proposto anteriormente e somar novos valores prtica,equilibrando as leis da beleza e a conscincia social, para garantir o direito a umaformao integral, baseada nas leis das artes.

    Cada ser humano nasce com um potencial de capacidades e habilidades.Como educadores na rea musical podemos contribuir para desenvolver edespertar esse potencial, nos indivduos, focando, principalmente, odesenvolvimento da criatividade nas etapas iniciais da vida. Podemosdesenvolver, como maior facilidade, as atividades corporais motivadas pelosestmulos multissensoriais, cinsticos e de coordenao motora fina, o que seconstitui um processo importante no desenvolvimento psicofsico dos indivduos,dentro de uma formao de base, num processo de desenvolvimento integral.

    Exemplos significativos da busca de uma educao integral atravs da msicaso contnuos e ininterruptos em vrios pases do mundo. A educadora Marzullo(2001 p.15), destaca que no Japo h um interesse em manter viva a fantasia dacriana atravs de jogos, canes, leituras, participao e elaborao de peasteatrais. Neste pas as artes so consideradas de crucial importncia, sobretudodurante os anos da pr-escola, e, so praticadas intensivamente a partir dos trsanos quando a criana entra para o jardim da infncia. A criana se envolve e seentrega a inmeras atividades artsticas. Este fator tem sido apontado como umdos responsveis pela inexistncia de analfabetos. Gostaria de lembrar o trabalhomusical que Cuba vem desenvolvendo nos primeiros anos de vida nos crculosinfantis, onde a msica est presente a partir do primeiro ano de vida no sistemade prvulos.

    Pestalozzi valorizou a importncia que tinha a educao musical a partir doprimeiro ano de vida, ressaltando principalmente a influncia que esta exercesobre a personalidade infantil (Savin, 1972).

    O psiclogo Fenarey em suas pesquisas, refere aos sons diferenciados, emum tom que podem ser percebidos pelo feto. Deste modo h uma coincidnciaentre o psiclogo e o educador hngaro Zoltan Kodaly que dizia que a msicadeve ensinar-se meses antes do na scimento

    Somente o que a criana recebeu enquanto bebatravs dos rgos dos sentidos sem ser afetado em suavida psquica e em sua sensibilidade, poder mais tardeconstruir uma base suficiente para suas capacidades depercepo e um alimento para toda a sua vida. (HOWARD,apud TRABA, 1980, p. 49).

    Com a Educao Musical desenvolvemos a Educao Esttica da criana,necessria para a maturao de todos os processos perceptivos na educao desuas emoes e sentimentos, na criao de hbitos, de conduta. Criamos suaideologia como ser social que ama a ptria, as tradies folclricas, tem amor natureza e s suas mais belas expresses no mundo que o rodeia.

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    Segundo Vanguer (apud Savin, 1972) a viso e a audio so os sentidosmais desenvolvidos, desde os primeiros dias do nascimento. Para fortalecer oaparelho fsico da fontica necessrio, primeiramente, que a educadoraapresente criana uma linguagem falada de boa pronncia e dico corretas.Para este caso, as letras das canes devem enriquecer seu vocabulrio infantil elhe oferecer modelos de belas expresses literrias, dando-lhe possibilidades deusar corretamente os eptetos, metforas e outras formas elegantes do uso dalinguagem.

    A Educao Musical essencial para o bom desenvolvimento emocional detodo ser humano. Se este trabalho educacional for dirigido por professores epesquisadores atualizados com o campo emocional humano pode enriquecer ascapacidades do indivduo, a criatividade que tende a desaparecer com o tempo,devido a outros fatores que regem nossa vida social. atravs da educaomusical que o ser humano se conscientiza do real valor das percepes queexistem dentro de seu prprio ser.

    Precisamente, nas etapas iniciais da vida onde as artes e, neste casoespecfico, a educao atravs da msica tem um papel fundamental, destacandoademais que, no pas, o ensino fundamental, j desde as sries iniciais, visa acompetitividade intelectual nos altos ndices acadmicos, na busca de resultadosconcretos atravs de mdias de pontuao, de gabaritos, esquecendo-se, cadavez mais, do conjunto e da unidade que deve existir entre todas as matrias docurrculo escolar, o que integra o intelecto e o corpo e determina o indivduo sociale o forma como um todo.

    O sistema escolar no Brasil est, em sua essncia classista, privilegiando emantendo, at hoje, relaes desiguais dentro do sistema, que no privilegia asatividades coletivas que visam as relaes mtuas do indivduo, o que est sendoum desafio para os que defendem relaes humanas mais completas atravs deuma educao integral. A literatura musical deve ressaltar os benefcios para asnovas geraes, partindo-se de uma postura crtica, j que atravs das artes ohomem expressa os sentimentos de forma coletiva e isto pode criar conscinciapara a busca de solues atravs da percepo, superando-se a idia de que asartes so somente beleza e felicidade, como em uma utopia espiritual.

    Atravs do estudo analtico da msica, destaca Diaz (2000), podemosexplorar a ludicidade, o desenvolvimento das capacidades criativas, sendo asmais importantes nos seres humanos para consolidar aptides como a fluidezpara o raciocnio lgico e espontneo das idias, a flexibilidade que possibilitamudar a direo na produo das idias, a originalidade nos significados e nasanlises dos mesmos, elaborao e produo de novas idias.

    Neste sentido, Diaz (2000) enfatiza que, a criatividade est internamenterelacionada com a arte, j que a mesma criao e envolve precisamente o

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    desenvolvimento intelectual, psquico emocional da sensibilidade, que devem serdestaques na educao atual.

    Sugere-se capacitar, integralmente, os sujeitos, e, no reduzir-los a merosreceptores informativos, mas sim, em seres pensantes na busca da formaointegral com aptides e atitudes. Capacitar integralmente envolve despertar eestimular o potencial criativo individualmente e com os mtodos adequados. Aeducao, com freqncia, imita o passado e se concentra majoritariamente naessncia disciplinar e tende a ignorar a individualidade humana, tornando-se, namaioria das vezes, um processo tedioso que pode destruir os impulsos criativos.Como vimos explicando, a educao atravs da msica poder favorecer acriatividade, devido s propriedades criativas da msica.

    1.4. Educao musical e ensino fundamental

    Acreditamos que, a educao musical nas primeiras etapas do ensinofundamental, no pretende, em princpio, formar artistas e sim, crianas eadolescentes que possam compreender a msica, desfrut-la e conserv-la,podendo despertar interesse vocacional. O que interessa, acima de tudo, obenefcio na formao integral do jovem como ser humano, atravs de suainfluncia individual e social no convvio do coletivo escolar, desenvolvendo-se,assim, o juzo crtico.

    Fala-se, constantemente, da falta de criatividade nos currculos escolares. Afalta de preparo por parte dos polticos e gestores para a educao evidente eaumenta a necessidade de orientar mtodos educativos numa perspectivacriativa. A criatividade uma capacidade humana que quando bem estimulada,pode tornar-se uma ameaa, assim como destaca

    Talvez seja o medo que sentem os adultos que osfilhos sejam diferentes. As crianas no se preocupam porserem diferentes. Com o passar do tempo e em anosposteriores a tendncia individualizar-se e compreendemperfeitamente a importncia de serem consideradosdiferentes e divergentes. (DIAZ, 2000, p. 84)

    Compartilhando com o pensamento de Diaz (2000), so as pessoas criativasque tendem a observar a realidade, a partir de um ngulo que lhes oferece umaoutra viso. A msica oferece um amplo campo sonoro. Sua verdadeiracompreenso vem das vivncias auditivas dos indivduos: escutar, explorar, criar.Princpios bsicos para desenvolver a divergncia e pensamentos criativos.

    A educao, atravs das artes, oferece integralidade para as novasgeraes. Com a ausncia da disciplina nos currculos escolares fica um gritoengasgado nas escolas pblicas: salve-se quem puder. Diante do descaso edespreparo das escolas pblicas, que negam o direito aquisio e consolidao

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    de hbitos e habilidades criativas atravs das artes, a msica oferece mais quecriatividade, j que se apia no desenvolvimento cognitivo e na evoluo dodesenvolvimento artstico das crianas.

    (...) dedicou-se a investigar as caractersticas dodesenvolvimento artstico das crianas e identificou a etapaque transcorre dos 6/7 anos at 12/13 como um momentodecisivo para a educao artstica. De acordo com o autorno seu livro Arte, mente e crebro: uma aproximaocognitiva da criatividade artstica no desenvolvimentocognitivo, identificam-se em diversas etapas. Aps umaprimeira etapa que se situa do nascimento at os dois anos,a criana entra no que se tem caracterizado como a idadede ouro da criatividade infantil. Essa etapa se estende dos2 aos 6/7 anos e nela as crianas aprendem a dominar osmbolo da sua cultura. A crianas se relaciona com seuentorno de forma direta atravs de aes, comunica-seatravs de formas simblicas como aquisio da linguagemo que lhes permite recrear o passado e antecipar o futuro. Odesenho tambm utilizado para se expressaremlivremente e sem preconceitos. (GARDNER, apudDOMINGOS, 2000, pg. 158).

    Ainda Gardner afirma:

    Observa-se que aparentemente uma espcie de foraexterna corruptiva destri todo impulso criativo,convertendo-nos em adultos atrofiados. neste momentoque comeam a aparecer as regras, normas e convenes.E todas as reas de atividades criativas se verorigorosamente submetidas a essas regras ou normas: ojogo, o emprego dos smbolos a experimentao do novo,tudo o que caracteriza a etapa anterior d passagem aomundo real o que tambm denominado etapa literal.(GARDNER, apud DOMINGOS, 2000, p. 159).

    Este processo de transformao cerebral a que somos submetidos, com opassar do tempo, na convivncia social, influenciados pelas regras e normas queregem a mesma, afetam o hemisfrio cerebral que influencia a criatividade e aespontaneidade das etapas iniciais da vida. Dentro desta influncia destacamos amisria cultural dos meios massivos de comunicao. Observa-se que, no existepor parte dos mesmos, uma seleo adequada para a formao cultural dasnovas geraes. A falta de informao das famlias leva ao desconhecimento e,na maioria dos casos, no conseguem suprir as necessidades culturais dos filhosno lar.

    A educao musical, nas salas de aula, requer atendimento especficodentro dos centros educativos para que desde as primeiras etapas da vida, osindivduos aprendam o sentido das artes. magnfico obter resultados massivosde formao atravs das artes, especialmente atravs da msica, com aspossibilidades que a modernidade nos oferece, despertando sensibilidades de

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    atitudes positivas perante a vida, experincias estticas dentro do processoeducativo. Estas atividades dirigem-se a desenvolver nas crianas a capacidadede perceber, compreender e desfrutar a msica, escutar com ateno e reagir apartir de seu contedo emocional e carter. Alegrar-se, entristecer-se, iniciar-seno conhecimento e distino de alguns gneros musicais: marchas, cantos,danas, canes de ninar, rodas infantis, perceber seu ar ou dinmica: lento,rpido, muito rpido, seus matizes ou intensidades sonoras: suave, forte, menosforte, reconhecer qualidades dos sons: grave ou agudo, durao: comprido oucurto. Desenvolver a memria musical, distinguindo uma msica da outra,recordando sua letra e linha meldica. Desenvolver o sentido de ritmo eexpresso corporal, descobrindo as possibilidades do corpo para fazer msica.

    Atravs de um trabalho artstico musical, podemos mostrar a musicalidadedas naes indgenas do pas, a exemplo de como criam seus instrumentosmusicais, como expressam, atravs das danas, seus sentimentos, as formosaslinhas meldicas de suas canes, seus cantos de guerra para defender seusterritrios. Nas naes indgenas possumos, hoje, uma das principais fontes decriatividade e sabedoria do homem primitivo. Elas podem e devem ser uma fontede inspirao para a atividade criativa. Se entendermos que o trabalhopedaggico musical, realizado no espao, um processo de construoconstante que envolve: perceber, sentir, experimentar, imitar, criar e refletir, o qualavana a passos muito lentos pela ausncia da disciplina nas escolas pblicas,evitaremos deixar sem dvida, a educao musical defasada com relao sdemais reas do conhecimento, sendo preciso lembrar que a msica umalinguagem, cujo conhecimento se constri com base em vivncia e reflexes.

    Reflexes que nos levam a compartilhar o trabalho investigativo de EmileJacques Dalcroze, encontrado em Teca (2003) a autora aponta que o msicopreocupado com o desenvolvimento integral do indivduo estudou o corpo e suarelao com a expresso musical. Assim ele criou uma disciplina chamadaeuritmia, obtendo resultados surpreendentes. Igualmente a escola francesaestuda benefcios nas condutas das crianas atravs da msica. Em Teca (2003,p. 36) destaca-se a nfase ldica que Piaget aplicava em seus estudos dalinguagem musical. Ele classifica as categorias de conduta em: explorao,expresso e construo, referente ao jogo sensrio-motor ao jogo simblico e aojogo de regras. Delalande, apud Teca (2003) afirma que uma criana de um anoque se distrai fazendo ranger uma porta explora uma relao de causa e efeitoentre um gesto e um rudo. Ele defende o surgimento de novos estilos musicais,atravs das condutas humanas, observando na infncia suas reaescomportamentais atravs da msica. Podemos compreender melhor as condutashumanas dos adultos se conhecermos as etapas infantis.

    Faz-se necessrio analisar os benefcios da educao musical para aformao integral dos jovens brasileiros, dentro de uma ruptura que se produz aospoucos com o calar dos cantos e o silncio dos instrumentos na maioria das

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    escolas pblicas do pas. Criar as bases para uma correta aprendizagem ser odesafio do educador musical contemporneo, que tem a responsabilidade depropor atividades pedaggicas que estimulem a apreciao, a percepo, aexecuo e a criao, que so elementos que compem a linguagem musical. Poroutro lado, as expectativas e a esperana depositadas no valor do resgatemusical nas escolas pblicas, onde at hoje o privilgio educao atravs dasartes e em especial da msica, pertence ao setor privado da educao no pas um grande desafio. Da mesma forma, esta realidade oferece aos indivduos,formados nas escolas particulares, um certo benefcio, ou mais familiaridade comas atividades perceptivas e de criao, mas isso no impede, como professoreseducadores, que saibamos o valor cultural que os alunos das escolas pblicastrazem das suas comunidades. Estes valores se tornam vivncias que poderomarcar pontos de partida para o trabalho musical na prtica e nos currculosescolares.

    Os benefcios obtidos pela educao atravs da msica devem partir do seioda comunidade, levando em conta as mudanas da sociedade. Os modelosanteriores oferecem bases e fundamentos de benefcios que orientaro as nossasaes educativas na busca da superao em uma sociedade mais exigente,diversificada e complexa. Os avanos no campo da neurocincia aplicada pedagogia traam caminhos baseados nas representaes mentais auditivas.Pedagogos e investigadores da rea oferecem metodologia, com vista a facilitar oprocesso do ensino e o entendimento para o aprendizado. Os estudiososcoincidem, utilizando a linguagem prpria do seu tempo, com o objetivo deinvestigar os benefcios da msica para o ser humano, atravs da prtica musical,possuindo uma audio musical interna, treinada e consciente. Do mesmo modo,se estudou a influncia sobre a memria musical, que envolve certacomplexidade, j que pode se ver que o sujeito vai construindo sua memriamusical passo a passo, dependendo, fundamentalmente, de seu fazer musicalpara construir suas imagens. Os processos fundamentais para a construodessas imagens seriam: primeiro a assimilao, segundo a acomodao.

    O primeiro processo se ocupa da apropriao doobjeto com os esquemas j existentes no sujeito. Osegundo consiste no processo de adaptar, alterar oesquema ou conhecimento j existente nova situao.(PIAGET, apud BEYER, 1998, p. 200).

    A acomodao das estruturas mentais do sujeito e as caractersticas doobjeto geram assim, a construo do significante na criana pr-operatria. Porfim, refletindo a respeito desse processo, podemos constatar que a msica,embora muitos a conheam de forma mais intuitiva ou emocional, pode ser vistacomo uma forma de representao, contedo, significado e significante, semelhana da linguagem verbal. Estes so os elementos que poderiamlevar-nos construo de uma epistemologia musical, que os alunos possammostrar e demonstrar o discurso musical, trabalhando significantes e significados,

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    assimilando e acomodando, gradativamente, estruturas musicais mais complexas.Assim, ser possvel construir uma prxis na educao musical, que poder levara uma construo histrica de equilbrio entre teoria e prtica, corpo e mente,entre cincia e arte. Na busca deste equilbrio os pesquisadores vmdemonstrando como a msica processada atravs do crebro, nosso sistemanervoso central, j que atravs dele que processamos os estmulos e oequilbrio emocional. Este processo vem sendo investigado pela cincia que hojeocupa o campo das terapias para readaptar o ser humano, mediante aesmusicais, ao cotidiano social.

    Tomamos como referncia neste assunto que

    Indicam a musicoterapia com uma perspectivacontextualizada, atuando sobre as questes da formao denatureza e da subjetividade humana. Indicando anecessidade de transio dos paradigmas tecno-cientficospara os tico-estticos, propondo o modelo de elaboraoartstica para inspirar as prticas sociais, pedaggicas eteraputicas, contribuindo com a estabilidade emocional doser humano. (VALLE, 1998, p. 203).

    Para essa pesquisadora a obra de arte constitui-se como um smbolosensorial, no discursivo, uma forma expressiva, isto , uma totalidade perceptvelou imaginvel, anloga a outra totalidade, no perceptvel ou facilmenteimaginvel. Assim, a obra de arte, enquanto projeo exterior da vida interior,contem caractersticas formais articuladas de um modo que, simbolicamente,esto vinculadas prpria vida. Entende-se o desafio para as prticasteraputicas atravs da musicoterapia, o fazer com que a simbologia que encerraas obras de arte passe a ser interiorizada pelos indivduos e, ao apropriar-sedesta, sejam capazes de experimentar o equilbrio emocional atravs das artes.No caso da msica, emergindo enquanto uma entidade concreta e viva,carregada de sentimentos, propsitos e intencionalidades.

    Lembramos as contribuies da musicoterapia, como um processoteraputico singular, que se vale das possibilidades de utilizao profiltica ecurativa, num processo em que o terapeuta usa a msica em todas as suasdimenses fsicas, emocionais, mentais, sociais, estticas, espirituais, para ajudaros indivduos a restaurar e manter o equilbrio fsico e mental. A autora nos traz,ademais, os resultados obtidos atravs da experincia musical como a melhoriada ateno vinculada ao treinamento motor e cognitivo, desenvolvimento dashabilidades scio-comunicativas, o favorecimento da expresso emocional e doesclarecimento, estmulo do pensamento e da reflexo sobre a situao de vidada pessoa.

    Estas contribuies da msica para a psicossomtica, em benefcio doequilbrio emocional humano, cada vez mais apreciada no campo da medicina.A procura por consultrios teraputicos cresce cada vez mais e os congressosanuais de musicoterapia no pas assim o demonstram. Com ajuda da msica os

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    indivduos expressam sentimentos reprimidos, timidez e insegurana. Ainda deacordo com Valle (1998, p. 203) expressa que, para Gainza, a msica propicia:

    - a participao pessoal e ativa no prprio fazer musical, instantneo e vivo;

    - o exerccio do ouvido, o desenvolvimento da sensibilidade e do sentidoesttico das faculdades intelectuais, imaginao e memria;

    - a livre explorao do mundo sonoro e a expresso das prprias idiasmusicais, vinculando-se sade fsica, mental e espiritual;

    - o contato, ativao e restaurao do arquivo sonoro interno, absoro deformas novas e expresso do que j se possui. Nessa linha, caracteriza-se comoatividade receptiva e projetiva o que leva a comunicao e a auto-percepo,passando por diversos graus de conscincia;

    - a vivncia do processo, a ao improvisadora e a criao musical, oresultado final da improvisao.

    Nesta relao afetiva com o outro, atravs da msica, Valle (1998, p. 204)aporta:

    - a expresso de sentimentos difceis de manifestar verbalmente;

    - o desenvolvimento de habilidades interpessoais;

    - o estabelecimento de comunicao em coletivo;

    - o desenvolvimento do senso de identidade;

    - a experimentao de novos papis comportamentais, normas e padresinterativos;

    - o desempenho conforme as capacidades de cada um;

    - a aquisio ou treinamento para criar habilidades para fazer escolha etomar decises.

    Como vemos, a msica se aplica s relaes da existncia humana. Suasfunes atuam na percepo, conscincia, afetividade, expresso, comunicao,participao, ludicidade, integrao, individualidade, criatividade, ordenao,configurao, significao, deciso e sntese. Estes so alguns dos fatoreshumanos onde ela pode agir. A partir de uma concepo que aborde o serhumano, com a integralidade necessria e uma viso mais amplabio-fsica-psico-social, dimenses humanas podero ser atingidas e superadasatravs do trabalho musical.

    Outro valioso aporte atravs da educao musical para a formao integraldo ser humano so os avanos junto s tecnologias. Os indivduos modernosconvivem em um meio que os estimula a desenvolver uma forma de pensamento

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    mais dinmico e programado para tempos especficos, que respondem ao tempotecnolgico. A msica, igualmente, com o passar dos anos, foi se transformandona busca contnua de novas propostas sonoras. O som, como elemento acstico,passa a ser pesquisado. Foram criadas novas notaes e registros musicais. Otempo espacial tecnolgico passa a ditar ritmo nas novas pesquisas tecnolgicasmusicais, dando passagem aos meios digitais como ferramentas de trabalho,denominando-se revoluo musical.

    A segunda revoluo vem acontecendo com o processo deedificao da msica no sculo XX: com a introduo econsolidao da gravao eletroacstica como novo tipo defixao transmemorial mediada tecnicamente e como meiode produo e reproduo do som. Isto significa umaprofunda transformao do exerccio da composio atravsdo aparato eletroacstico no estdio da gravao. (...) Aaparelhagem destinada produo e elaborao do somvem se tornando acentuadamente menor e mais barata ecom isso mais acessvel individualmente. (...) Desta maneiradelineia-se aqui a formao de um enorme potencial deimanncia poltica no apenas de democratizao dosprocessos de recepo, mas tambm da paroduo musical(MAYER, apud LIMA, 1998, p. 300).

    No que se refere interao e surgimento de novos processosmultidisciplinares no discurso musical

    A questo da gerao de novas interfaces deextrema importncia para o desenvolvimento da msica,pois estamos acostumados a pens-la segundo um padrode sonoridade que pouco se modificou nos ltimos sculose a represent-la atravs de um sistema notacional queexiste desde o renascimento. (...) A transio de um sistemaonde colcheias e semnimas so executadas por um violinoou obo, para um sistema de valores digitais quecorresponde a sons e que pode ser controlados por ummouse atravs de alteraes grficas na tela docomputador, representa a transio de um paradigmamusical para outro e deve ser tratada com seriedade.(LAZZETTA, apud LIMA, 1998, p. 300).

    De acordo com Snia Lima (1998) as tecnologias eletrnicas e digitais soaliadas ao processo musical. A educao musical abre seu leque para formarouvintes, compositores ou intrpretes nas reas da tecnologia. Anos atrs erauma rea fechada e delimitada a um grupo seleto, com a rpida difuso e acessoaos equipamentos eletrnicos se produz a interao e a experimentao sonora,trazendo as modificaes significativas. Novos tipos de criadores surgem, aexemplo do que cria o som acstico e apresenta uma nova gravao o qual j considerado um novo compositor. O indivduo que cria o novo aparelho eletrnicomusical j um novo construtor de instrumento musical. Com a evoluo

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    tecnolgica, a educao musical tem a responsabilidade de contextualizar a tradecompositor, construtor e ouvinte, em um discurso musical contemporneo.

    Com a origem de outro discurso, criam-se novos vnculos entre as artes, acincia e a tecnologia.

    Especialmente com a fixao digital da msica, abre-se umnovo campo de trabalho e investigao. Na memria de umcomputador ou outro suporte digital qualquer, o som podeser codificado em formas simblicas, nmeros, por exemplo,que representam a sua estrutura fsi