economia solidária nobrasil

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<p>Economia Solidria. Uma outra economia ou uma economia de pobre para pobre? EditorialA 3 Feira de Economia Solidria do Mercosul, realizada de 06 a 08 de julho de 2007, em Santa Maria, RS, foi a inspirao do tema de capa da edio desta semana da IHU On-Line. Juntamente com a realizao da grandiosa e imponente Feira, aconteceu a 14 Feira Estadual do Cooperativismo, a 6 Feira Nacional da Economia Solidria, a 7 Mostra de Biodiversidade e Feira da Agricultura Familiar e o 3 Seminrio Latino-Americano de Economia Solidria. Segundo as informaes publicadas nas Notcias do Dia da pgina eletrnica do Instituto Humanitas Unisinos IHU, aproximadamente noventa mil pessoas passaram pela Feira. A Economia Solidria j foi reiteradas vezes tema de capa da revista IHU On-Line. Assim, a edio nmero 21, de 10 de junho de 2002, tratou das Redes Locais de Troca. Vinte semanas depois, a edio nmero 42, de 11 de novembro de 2002, falou sobre Economia Solidria: Teoria e prtica. Mais 24 edies e a revista nmero 66, de 30 de junho de 2003, teve como tema de capa Economia Solidria e a crise do mundo do trabalho. Depois de um intervalo de quase 50 edies, voltamos ao tema na IHU On-Line nmero 115, de 13 de setembro de 2004, que tratou de Economia social e consumo tico. Todas as edies citadas esto disponveis no stio do IHU. Para a edio desta semana, entrevistamos Benedito (Ben) Anselmo Martins de Oliveira, coordenador nacional da Rede de Incubadoras Tecnolgicas de Cooperativas Populares - ITCPs, membro da coordenao nacional do Frum Brasileiro de Economia Solidria e do Conselho Nacional de Economia Solidria; a economista Maria Nezilda Culti, do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Maring UEM e coordenadora do GT do Programa Nacional de Economia Solidria da Unitrabalho; o socilogo uruguaio Pablo Guerra; o coordenador-geral de estudos da Secretaria Nacional de Economia Solidria (SENAES) Roberto Marinho Alves da Silva; o assessor de grupos de reciclagem Roque Spies; a professora Vera Regina Schmitz, do IHU e que coordena a Fase III do Mapeamento da Economia Solidria no Rio Grande do Sul; e a Irm Lourdes Dill, coordenadora do Projeto Esperana/Cooesperana, desenvolvido pela Diocese de Santa Maria (RS), juntamente com a Critas Regional RS. Complementando o tema de capa desta edio, publicamos vrios depoimentos de pessoas que atuam diretamente em Empreendimentos de Economia Solidria. A trajetria de Odete Maria Faustino Spies, narrada no Perfil Popular deste nmero, ilustra bem a fora e tambm a debilidade desta experincia. H tempos um filme americano no me emocionavaSO LEOPOLDO, 30 DE JULHO DE 2007 | EDIO 229</p> <p>1</p> <p>tanto quanto Bobby, testemunha Amir Labaki. O filme de Emilio Estevez se refere s grandes perdas dos Estados Unidos nos anos 1960 - Martin Luther King, John e Robert Kennedy, os trs assassinados. Bobby e Saneamento bsico O filme so os filmes desta edio. A todas e todos uma tima leitura e uma excelente semana!</p> <p>Leia nesta edioPGINA 01 | Editorial</p> <p>A. Tema de capa ENTREVISTAS</p> <p>PGINA 04 | Benedito Anselmo de Oliveira: H muito mais de Economia Solidria no Brasil do que possamos observar PGINA 11 | Roberto Marinho da Silva: A Economia Solidria no Brasil est avanando na sua organizao poltica PGINA 18 | Luiz Incio Gaiger: O caminho de afirmao de uma outra forma de economia PGINA 20 | Lourdes Dill: A vida e o ser humano esto acima do capital PGINA 22 | Roque Spies: Alcanar a autogesto um dos maiores desafios dos grupos de reciclagem PGINA 25 | Pablo Guerra: A nica esperana para a humanidade passa por incorporar maiores doses de solidariedade PGINA 28 | Maria Nezilda Culti: Empreendimentos da Economia Solidria ultrapassam faturamento de R$ 6 bilhes por ano PGINA 32 | Vera Regina Schmitz: Rio Grande do Sul mapeou 450 novos empreendimentos da Economia Solidria</p> <p>B. Destaques da semana Teologia Pblica PGINA 36 | Luiz Alberto Gmez de Souza: Simplesmente cristo Filmes da Semana PGINA 40 | Bobby, de Emilio Estevez PGINA 42 | Saneamento Bsico, o filme, de Jorge Furtado Analise de Conjuntura PGINA 43 | Destaques On-Line PGINA 46 | Frases da semana</p> <p>C. IHU em Revista PERFIL POPULAR: PGINA 48| Odete Maria Faustino Spies IHU REPRTER PGINA 52| Beatriz Marocco</p> <p>SO LEOPOLDO, 30 DE JULHO DE 2007 | EDIO 229</p> <p>2</p> <p>A Economia Solidria na prticaDEPOIMENTOS DE QUEM VIVE OS VALORES DA ECOSOL NO DIA-A-DIA</p> <p>A IHU On-Line conversou com algumas pessoas que convivem de perto e sabem, na prtica, o que significa Economia Popular Solidria. Confira os depoimentos no decorrer desta edio:</p> <p>Comecei a me envolver com a Economia Solidria quando as mulheres que trabalhavam com artesanato e alimentao, com as quais eu compartilhava atividades, precisaram ir a uma feira. Nesse evento, s era permitida a inscrio de grupos. Surgiu, assim, o grupo Mos Dadas, em fevereiro de 2005. Cada uma das pessoas do Mos Dadas fazia coisas diferentes, como tortas, bombons e artesanato em geral. A organizao em grupo, e no mais individualmente, muito importante para ns, estreita laos, torna tudo mais fcil. Somos dez pessoas no Mos Dadas: trs na alimentao, seis no artesanato e uma na administrao. Desde a primeira reunio, entramos para o Frum da Economia Solidria. A Prefeitura de So Leopoldo deu todo apoio ao nosso grupo. Isso muito positivo, pois essa possibilidade abre portas. Acredito que as pessoas em grupo tm muito mais fora, se apiam. Por exemplo,</p> <p>quando acontece uma feira, nos revezamos na banca. Na hora de produzir, trocamos idias e calculamos preos em conjunto. No sou necessariamente a lder do Mos Dadas, mas, por minha caracterstica agregadora, as meninas do grupo me procuram, pedem orientaes e dicas. Sobre as trocas, temos o relato da feira popular da qual participamos no ano passado. Aconteceu uma oficina de trocas e marcamos presena. Fomos a encontros do Clube de Novo Hamburgo e feiras estaduais de trocas. Assim, estabelecemos negociaes para o futuro, contatos importantes. Na economia das trocas, leva-se o que se tem e se traz o que precisa. Vejo um futuro extremamente positivo para essa realidade. Adriana Cludia Longo Dias, participante do grupo Mos Dadas, da Economia Solidria, e trabalhadora em um escritrio da oficina familiar.</p> <p>SO LEOPOLDO, 30 DE JULHO DE 2007 | EDIO 229</p> <p>3</p> <p>H muito mais de Economia Solidria no Brasil do que possamos observarENTREVISTA COM BENEDITO ANSELMO MARTINS DE OLIVEIRA</p> <p>Na opinio de Benedito (Ben) Anselmo Martins de Oliveira, h muito mais de Economia Solidria no Brasil do que possamos observar. Estamos s no comeo disto tudo. H muita histria para ser construda e contada ainda. A declarao faz parte da entrevista a seguir, concedida por Ben IHU On-Line, por e-mail. Graduado em Administrao de Cooperativas pela Universidade Federal da Paraba (UFPB), cursou mestrado em Administrao pela Universidade Federal de Lavras (UFLA) e doutorado em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), com a tese As cooperativas populares e seus desafios, limites e possibilidades: Casos de cooperativas da cidade do Rio de Janeiro. Ben coordenador nacional da Rede de Incubadoras Tecnolgicas de Cooperativas Populares - ITCPs, membro da coordenao nacional do Frum Brasileiro de Economia Solidria e do Conselho Nacional de Economia Solidria. Escreveu captulos de livros e artigos relacionados a cooperativas populares como, por exemplo, As contribuies da incubadoras tecnolgicas de cooperativas populares para o desenvolvimento da economia solidria e para a construo de um novo modelo de extenso universitria (In: Abreu, Janio Caetano de. (Org.). Cooperativismo Popular e Redes Solidrias. So Paulo: All Print, 2007, v. , p. 121-132); As cooperativas populares como ambientes de multiplicao de capital social e de sustentao da economia solidria (In: Maria Jos Carneiro; Luiz Flvio. (Org.). Cadernos de Textos do CPDA. 22 ed. Rio de Janeiro, 2006, v. 01, p. 103-123). Confira a entrevista.</p> <p>SO LEOPOLDO, 30 DE JULHO DE 2007 | EDIO 229</p> <p>4</p> <p>IHU On-Line - Que alternativas o senhor prope para criar uma outra economia? Como seria essa outra economia? Benedito de Oliveira - No Brasil, existe um enorme predomnio do que convencionamos chamar de economia capitalista, que tem no liberalismo a sua sustentao ideolgica e que possui no mercado a sua estratgia de expanso. Este tipo de economia se assenta em pelo menos dois princpios fundamentais: o da competitividade, que acirra a disputa por nichos cada vez maiores de consumidores, e o do lucro, que serve para remunerar o capital aplicado nos empreendimentos. Este tipo de economia requer, para seu desenvolvimento e fortalecimento, um tipo de relao com o Estado, que pressupe o seu distanciamento das questes econmicas, ou seja, preciso que ele se distancie o mais possvel das questes do mercado. A esta tese, que considerada como um dos pressupostos liberais, chamamos de livre mercado ou desregulamentao. Com este tipo de suporte, a economia capitalista predomina, se expande e se fortalece, sobretudo nos pases perifricos, onde os governos cedem s presses das grandes corporaes e de grupos econmicos, atingindo o pice do favoritismo, criando mecanismos de apoio para este tipo de atores da economia, que vo desde os incentivos fiscais at o perdo de dvidas, passando pelas famosas re-negociaes de emprstimos, que, no Brasil, possui como exemplo o caso das empresas do setor do agrobusiness. Normalmente, este tipo de economia necessita para suas bases de sustentao, ou seja, para as empresas - que em muitos casos so travestidas de cooperativas, consrcios, redes etc. -, trs elementos: crdito, mercado e disponibilidade tecnolgica. Neste sentido, as empresas dispem, especificamente no caso brasileiro, de variadas linhas de crdito, principalmente dos bancos pblicos, nas quais, por exemplo, para a questo dos grandes empreendimentos, o BNDES - Banco</p> <p>Nacional de Desenvolvimento Econmico e Social - tem sido o grande financiador. Sendo por esta razo, pode-se afirmar que o crdito no um problema para as empresas capitalistas no Brasil. Quanto ao segundo elemento, o mercado, as empresas capitalistas possuem uma franca hegemonia no domnio do mercado nacional, sendo este, em sua quase totalidade, completamente dominado por suas orientaes ou demandas. Passando desde a completa liberdade de propaganda consumista at o argumento que os economistas chamam de gerar a sua prpria demanda, que se configura numa estratgia de mercado, as empresas, na perspectiva de no terem clientes a sua disposio, foram a atrao destes com os chamados credirios prprios ou bancos/financeiras prprias, pelos quais, por exemplo, a prpria vendedora de veculos empresta o dinheiro para que o cliente compre o seu carro. Ento, o que se presencia um mercado extremamente favorvel para as condies de desenvolvimento da economia capitalista. O terceiro elemento utilizado pelas empresas capitalistas o da questo da disponibilidade tecnolgica. No caso brasileiro, s para citar dois exemplos, estas empresas possuem um sistema de formao e qualificao que, em boa medida, financiado pelo governo e que conhecemos pelo nome de Sistema S1. Este sistema prepara e qualifica trabalhadores e trabalhadoras talhados para serem agentes defensores do lucro e da competitividade. Em segundo lugar, elas contam com a ajuda de muitas universidades, que fortemente destinam suas atividades de ensino, pesquisa e extenso, para formarem profissionais com o perfil do que eu posso1</p> <p>Sistema S: O Sistema S foi criado h 60 anos com o objetivo de</p> <p>promover a formao profissional e assegurar assistncia social ao trabalhador. Ele composto por entidades ligadas aos setores da indstria, comrcio, transportes e agricultura. Esse o nome pelo qual ficou convencionado de se chamar ao conjunto de onze contribuies de interesse de categorias profissionais, estabelecidas pela Constituio Brasileira. (Nota da IHU On-Line)</p> <p>SO LEOPOLDO, 30 DE JULHO DE 2007 | EDIO 229</p> <p>5</p> <p>chamar de almas empresrias. Nesta perspectiva, sem a necessidade de se fazer maiores reflexes cientficas, podemos afirmar que a economia de mercado, no Brasil, tem todas as condies de se desenvolver e se afirmar cada vez mais como a nica via de sustentao das propostas de desenvolvimento e que sua matriz de sustentao se baseia nas prticas de competitividade e busca de lucro. Entretanto, na mesma medida em que esta economia cresce e se fortalece, ela tambm gera desdobramentos, que passam a ser preciosos na formao de eventos, os quais, pelo menos nas ultimas trs dcadas, sobretudo, provocaram estragos visveis na composio do tecido social brasileiro. Estou falando de eventos como desemprego, excluso social, pobreza e misria. Por esta razo, a sociedade civil organizada e, em boa medida, as universidades brasileiras, tm buscado elementos para enfrentar estas situaes. Cada uma a seu modo, mas, em vrios momentos, muito ligadas - e isto um elemento novo no Brasil -, apontam pistas para novos caminhos de desenvolvimento. Enquanto estes caminhos so apontados, evidentemente que os movimentos sociais os incorporam em suas agendas e passam a pressionar, o estado e as empresas, a reduzirem seus passos no sentido de frearem suas aes de desmantelos sociais. nesta perspectiva que surgem e se reforam os movimentos contra o desemprego, a excluso social e a pobreza. Este tipo de movimentao traz consigo ou incorporado s aes de outros movimentos sociais, que tm lutado contra, por exemplo, a destruio da natureza, o desrespeito aos diretos de cidadania, a concentrao de terras em regimes de latifndios - sejam estes produtivos ou no etc. Muitas destas movimentaes possuem como fonte de abastecimentos ideolgica, poltica e prtica, as atividades do Frum Social Mundial. Uma destas movimentaes conhecida como a Economia Solidria que, precisamente, se apresenta numa expectativa de ser uma proposta de organizao, inicialmente</p> <p>econmica, que consiga ser apresentada como alternativa matriz de desenvolvimento econmico adotada no Brasil. Esta proposta est conectada com um tipo de desenvolvimento que considera a solidariedade e a cooperao como seus princpios estruturantes, em negao aos princpios da competitividade e da busca do lucro, que so adotados pela empresas capitalistas. Neste sentido, esta outra economia se assenta na negativa da economia de mercado. Ela deve ser includente, distribuidora de renda e poder e ter o papel fundamental de promover incluso social, diminuio da pobreza e do desemprego/desocupao. Trata-se de uma economia que, observando prticas e aes estruturantes, visa a organizar um sistema econmico que no ameace os povos nem a natureza. Por isso, vai requerer, para sua sustentao, elementos de crdito, mercado e tecnologias, diferentes daquelas de que dispem as empresas capitalistas. IHU On-Line Qual o papel das ONGs e do poder pblico para as economias solidrias? Benedito de Oliveira - Sob o desenvolvimento da Economia Solidria esto duas atividades, ou aes, que so muito importantes: a do estado e a da sociedade civil organizada...</p>