ECONOMIA POPULAR SOLIDÁRIA E IGREJA CATÓLICA: A ...

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<ul><li><p>ANAIS DO III ENCONTRO NACIONAL DO GT HISTRIA DAS RELIGIES E DAS RELIGIOSIDADES ANPUH -Questes terico-metodolgicas no estudo das religies e religiosidades. IN: Revista Brasileira de Histria das Religies. Maring (PR) v. III, n.9, jan/2011. ISSN 1983-2859. </p><p>Disponvel em http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pub.html __________________________________________________________________ </p><p>ECONOMIA POPULAR SOLIDRIA E IGREJA CATLICA: A EXPERINCIA </p><p>DOS MINI-PROJETOS ALTERNATIVOS (MPAS) EM CHAPEC/SC, PERODO </p><p>DE 1989 A 2005 </p><p>Elisete Gesser Della Giustina Dacoregio </p><p>Universidade Federal de Santa Catarina PPGSP </p><p>zete.dg@ibest.com.br </p><p>Resumo: A Igreja Catlica tem atuado como motivadora e articuladora de movimentos sociais e de </p><p>mobilizaes populares no Brasil, especialmente nas dcadas de 70 e 80, inspirados pela Teologia da </p><p>Libertao. Nos ltimos anos algumas pastorais e organismos da Conferncia Nacional dos Bispos do </p><p>Brasil (CNBB), instituio permanente que congrega os Bispos da Igreja catlica no Brasil, aps </p><p>reformulaes, voltaram a priorizar o trabalho de base junto a comunidades empobrecidas rurais e </p><p>urbanas contribuindo na formao e constituio de cooperativas e grupos de gerao de trabalho e </p><p>renda que podem ser consideradas sementes do que hoje chamada de economia popular solidria. </p><p>Dos trabalhos apoiados pela Igreja Catlica em Santa Catarina merece destaque a experincia dos </p><p>Mini-Projetos Alternativos, coordenados pela CNBB - Regional Sul IV. O presente artigo objetiva </p><p>analisar as relaes que envolvem estas experincias de Economia Solidria e procura investigar as </p><p>relaes materiais e simblicas da igreja catlica com os mini-projetos alternativos e a economia </p><p>solidria, em Chapec, no perodo de 1989-2005. </p><p>Palavras-chave: Igreja Catlica, Mini-Projetos Alternativos, gerao de trabalho e renda, </p><p>economia solidria, cidadania. </p><p>Introduo </p><p>O mundo vive atualmente uma transio de paradigmas histricos. A sociedade </p><p>industrial est esgotando suas reservas e uma nova fase da histria tem incio e se estrutura </p><p>sobre o conhecimento. O novo paradigma traz consigo mudanas de conceitos e padro. Ele </p><p>apresenta um novo conjunto de oportunidades e desafios os quais precisam ser </p><p>compreendidos. </p><p>Vivemos numa sociedade complexa estruturada a partir de um sistema capitalista que </p><p>estabelece um modo de vida de consumo e de desenvolvimento. Prevalece lgica do </p><p>crescimento econmico na tica dos interesses de quem detm o poder econmico </p><p>internacional, em detrimento importncia dos demais elementos constituintes da vida </p><p>humana. </p><p>O processo de globalizao do planeta vem provocando profundas transformaes. Para </p><p>Giddens1, o capitalismo um sistema de produo de mercadorias, centrado sobre a relao </p><p>mailto:zete.dg@ibest.com.br</p></li><li><p>ANAIS DO III ENCONTRO NACIONAL DO GT HISTRIA DAS RELIGIES E DAS RELIGIOSIDADES ANPUH -Questes terico-metodolgicas no estudo das religies e religiosidades. IN: Revista Brasileira de Histria das Religies. Maring (PR) v. III, n.9, jan/2011. ISSN 1983-2859. </p><p>Disponvel em http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pub.html __________________________________________________________________ </p><p>2 </p><p>entre a propriedade privada do capital e o trabalho assalariado sem posse de propriedade, esta </p><p>relao formando o eixo principal de um sistema de classes. </p><p>Temos a conscincia de que vivemos num mundo moderno, com uma economia </p><p>capitalista globalizada, com fortes influncias deste sistema econmico. Percebem-se </p><p>mudanas favorveis como os avanos tecnolgicos, novos conhecimentos... Isso no impede, </p><p>portanto, de percebermos tambm as mudanas desfavorveis como constantes agresses </p><p>dignidade humana: a fome, as guerras, o preconceito..., a destruio do meio ambiente entre </p><p>outras. O avano do capitalismo, nos ltimos tempos, como modo de produo dominante foi </p><p>desestruturando, com velocidade e profundidade variadas, tantos os fundamentos da vida </p><p>material como as crenas e os princpios morais, religiosos, jurdicos e filosficos. Menos </p><p>visveis, mas tambm profundos foram os efeitos no universo das relaes afetivas. </p><p>Segundo Heerdt2 est em curso: </p><p>um novo surto de universalizao do capitalismo, como modo de produo e </p><p>processo civilizatrio. O desenvolvimento do modo capitalista de produo, </p><p>em forma extensiva e intensiva, adquire outro impulso, com base em ovas </p><p>tecnologias, criao de novos produtos, recriao da diviso internacional do </p><p>trabalho e mundializao dos mercados. As foras produtivas bsicas, </p><p>compreendendo o capital, a tecnologia, a fora de trabalho e a diviso </p><p>transnacional do trabalho, ultrapassam fronteiras geogrficas, histricas e </p><p>culturais, multiplicando-se assim as suas formas de articulao e </p><p>contradio. Esse um processo simultaneamente civilizatrio, j que </p><p>desafia, rompe, subordina, mutila, destri ou recria outras formas de sociais </p><p>de vida e trabalho, compreendendo modos de ser, pensar, agir, sentir e </p><p>imaginar. </p><p>As grandes mudanas sociais no costumam acontecer de repente, de maneira sbita, </p><p>sendo imperceptveis para aqueles que nelas esto imersos. Vivemos atualmente pocas de </p><p>grandes mudanas, de transformaes que exercem um mtuo efeito multiplicador e gerador </p><p>de desigualdades sociais. Nossa sociedade passou por profundas alteraes nas formas de </p><p>agir, pensar e ser das pessoas. Podemos dizer que hoje, no limiar do sculo XXI, estamos na </p><p>modernidade. </p><p>Modernidade que de acordo com Giddens3 refere-se a estilo, costume de vida ou </p><p>organizao social que emergiram na Europa a partir do sculo XVII e que ulteriormente se </p><p>tornaram mais ou menos mundiais em sua influncia. </p><p>O tema de estudo surgiu da necessidade de contribuir para a reflexo sobre a relao </p><p>entre a Igreja Catlica e o nascimento de um novo e vigoroso movimento social em Santa </p></li><li><p>ANAIS DO III ENCONTRO NACIONAL DO GT HISTRIA DAS RELIGIES E DAS RELIGIOSIDADES ANPUH -Questes terico-metodolgicas no estudo das religies e religiosidades. IN: Revista Brasileira de Histria das Religies. Maring (PR) v. III, n.9, jan/2011. ISSN 1983-2859. </p><p>Disponvel em http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pub.html __________________________________________________________________ </p><p>3 </p><p>Catarina: a economia popular solidria atravs de um estudo sobre os grupos de economia </p><p>popular solidria da cidade de Chapec. </p><p>1 A Igreja e a questo social na Amrica Latina </p><p>Na Amrica Latina e Caribe, como se sabe, os documentos conclusivos dos encontros </p><p>da Conferncia Episcopal Latino-americana (CELAM) em Medelln Colmbia (1968), em </p><p>Puebla Mxico (1979), e em Santo Domingo Repblica Dominicana (1992) e agora </p><p>recentemente Aparecida (2007), tiveram o mrito de traduzir para este continente as </p><p>orientaes gerais da Doutrina Social Igreja, em particular do Conclio Vaticano II. </p><p>O ncleo central das intervenes dos bispos latino-americanos , sem dvida, a opo </p><p>pelos pobres, com vistas a fortalecer aes pastorais para a erradicao da pobreza e da </p><p>violncia institucionalizada no continente. </p><p>Medelln expressou o compromisso transformador das estruturas como </p><p>desenvolvimento e libertao. Os textos de Medelln defendem vigorosamente a participao </p><p>popular, as organizaes comunitrias e toda solidariedade que procure a justia. </p><p>A Igreja latino-americana julga dever orientar-se para a formao de </p><p>comunidades nacionais, que refletem uma organizao global, onde toda a </p><p>populao, porm, especialmente as classes populares, tenham, atravs de </p><p>estruturas territoriais, uma participao receptiva e ativa, criadora e decisiva, </p><p>na construo de uma nova sociedade.4 </p><p> Por isso, no Brasil e em outros pases latino-americanos que surgiram e proliferaram-</p><p>se as clulas do "novo jeito de ser igreja": as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) </p><p>definidas como grupos catlicos que se renem regularmente para discutir a bblia, </p><p>relacionando os escritos desta com os problemas sociais que vivem. </p><p>Segundo Heerdt, Mauri5 </p><p>as Comunidades Eclesiais de Base so verdadeiras expresses de </p><p>organizaes autnomas, autogeridas. A ampliao da democratizao em </p><p>todas as esferas das relaes sociais, incluindo-se a democracia no trabalho, </p><p> uma de suas bandeiras de luta. </p><p>Estes grupos foram muito importantes na difuso das idias da Teologia da Libertao, </p><p>uma corrente terica que orientaria e animaria o engajamento poltico dos catlicos. Esse </p><p>movimento se estende depois a outros pases do continente e encontra, a partir dos anos 70, </p><p>uma expresso cultural, poltica e espiritual na Teologia da Libertao. Os dois principias </p></li><li><p>ANAIS DO III ENCONTRO NACIONAL DO GT HISTRIA DAS RELIGIES E DAS RELIGIOSIDADES ANPUH -Questes terico-metodolgicas no estudo das religies e religiosidades. IN: Revista Brasileira de Histria das Religies. Maring (PR) v. III, n.9, jan/2011. ISSN 1983-2859. </p><p>Disponvel em http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pub.html __________________________________________________________________ </p><p>4 </p><p>telogos da libertao brasileiros so Leonardo Boff e Frei Betto que resumem a idia central </p><p>da Teologia da Libertao em uma s frase: opo preferencial pelos pobres. </p><p>Para Scherer-Warren, a Teologia da Libertao: </p><p>nasce e se desenvolve enquanto expresso de problemas da realidade social </p><p>latino-americana, no desejo de transcend-la atravs da criao de uma </p><p>sociedade mais justa e igualitria. Trata-se do encaminhamento de uma nova </p><p>viso para o papel da Igreja, da prtica crist e do pensar teolgico, at ento </p><p>apoiado numa teologia feita a partir da realidade exgena europia.6 </p><p>Scherer salienta ainda que as ideias bsicas em torno das qual Teologia da Libertao se </p><p>desenvolvem podem ser assim sintetizadas: parte-se do princpio de que, como a filosofia em </p><p>geral, a teologia tambm tem uma dimenso histrica. Valoriza-se o compromisso com a </p><p>realidade histrica presente em que a Igreja exerce sua misso. Todavia, este compromisso </p><p>implica uma avaliao das condies de existncia da maioria populacional. Como na </p><p>realidade histrica latino-americana a maioria do povo encontra-se submetido a situaes de </p><p>opresso, misria, a no cidadania, a meta fundamental desta teologia vem a ser a busca de </p><p>mecanismos que possibilitem a libertao destas variadas formas de opresso. </p><p>Segundo Sell, a Teologia da Libertao pode ser entendida a partir de dois aspectos ou </p><p>dimenses: </p><p>Como movimento intelectual, ela trouxe para a igreja catlica uma nova </p><p>proposta de metodologia teolgica. J como movimento eclesial, ela prope </p><p>uma nova forma de organizao religiosa centrada na ideia de </p><p>comunidade. E, como movimento poltico, a teologia da libertao prope </p><p>uma atuao explcita e direta da igreja em questes de ordem poltica e </p><p>social, tendo como horizonte utpico o socialismo. [...] Como movimento </p><p>terico, a teologia da libertao prope um novo mtodo para fazer teologia. </p><p>De acordo com seus idelogos, a teologia devia partir da prpria realidade </p><p>social para ento indagar os textos bblicos e eclesisticos sobre que tipo de </p><p>ao desenvolver na prtica. Na linguagem de seus tericos, portanto, trata-</p><p>se de uma teologia da prxis.7 </p><p>Recentemente o documento de Aparecida retoma uma tradio latino-americana da </p><p>Igreja ligada a Teologia da Libertao reafirmando alguns o mtodo ver julgar agir; </p><p>confirmando a opo preferencial pelos pobres (como opo cristolgica); retomando as </p><p>comunidades eclesiais de base so retomadas; voltando a insistir nas aes em favor da </p><p>promoo humana, da justia social e da libertao integral como parte fundamental da </p><p>evangelizao. </p></li><li><p>ANAIS DO III ENCONTRO NACIONAL DO GT HISTRIA DAS RELIGIES E DAS RELIGIOSIDADES ANPUH -Questes terico-metodolgicas no estudo das religies e religiosidades. IN: Revista Brasileira de Histria das Religies. Maring (PR) v. III, n.9, jan/2011. ISSN 1983-2859. </p><p>Disponvel em http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pub.html __________________________________________________________________ </p><p>5 </p><p>Segundo Boff: </p><p>viver a f em Jesus Cristo Libertador supe um compromisso com a </p><p>libertao histrica dos/as oprimidos/as. A partir de um compromisso real </p><p>(lugar social) se procura dar relevncia a todas as dimenses libertadoras </p><p>presentes no ministrio de Jesus Cristo. Enfatiza-se a prtica libertadora do </p><p>Jesus histrico, pois como Filho encarnado proclamou uma determinada </p><p>mensagem e se comportou de tal forma que tinha como efeito a produo de </p><p>uma alvissareira atmosfera de liberdade para todo o povo.8 </p><p>Neste sentido, entende-se que a f em Cristo, nesta abordagem, um compromisso </p><p>com a libertao dos/as oprimidos/as, ou seja, um compromisso libertador que diz respeito s </p><p>estruturas econmicas, sociais, polticas e ideolgicas, que atue sobre as estruturas buscando </p><p>mudar as relaes de fora entre os grupos sociais para que nasam estruturas novas que </p><p>comportem mais participao dos/as excludos/as. </p><p>Dom Demtrio Valentin ressalta que: </p><p>ao desafio da crescente excluso preciso responder com a articulao </p><p>organizada da solidariedade. Se o princpio da solidariedade fosse colocado </p><p>como inspirador de toda a organizao social, tudo comearia a tomar um </p><p>rumo diferente. A solidariedade chamada, especialmente, a apontar a </p><p>direo que deve tomar o processo poltico e econmico, para que ele </p><p>encontre sentido e dimenso humana. A solidariedade precisa se tornar a </p><p>alma inspiradora da nova sociedade que vai emergir das grandes </p><p>transformaes por que passa o mundo de hoje.9 </p><p>Entre os grupos da sociedade civil apoiados pela Igreja catlica merece especial ateno </p><p>devido sua grande articulao nacional e at internacional os grupos de gerao de trabalho </p><p>e renda denominados de grupos de economia popular solidria. Trabalhos desenvolvidos </p><p>associados Teologia da Libertao, as CEBs, como aponta Sell, foram importantes na </p><p>constituio de grupos comunitrios: </p><p>Do ponto de vista externo, diversos autores (Krischke, 1985 e Macedo, </p><p>1986) mostraram que a ideologia radicalmente democrtica das CEBs foi </p><p>fundamental para que seus membros participassem das organizaes </p><p>comunitrias (associaes de moradores, sindicatos, etc.), tornando-se assim </p><p>uma das principais agncias de formao de militantes para os </p><p>movimentos sociais e os partidos polticos, principalmente no decorrer dos </p><p>anos 70 e 80. [...] ajudaram a preparar o terreno para a ideia de formar </p><p>grupos de leigos que conciliavam sua vida religiosa com a prtica social.10</p><p>Nesse sentido, pode-se concluir que a Teologia da Libertao tenha criado uma </p><p>oportunidade poltica que facilitou a emergncia dos movimentos sociais, bem como, o </p><p>movimento da economia solidria no Brasil. </p></li><li><p>ANAIS DO III ENCONTRO NACIONAL DO GT HISTRIA DAS RELIGIES E DAS RELIGIOSIDADES ANPUH -Questes terico-metodolgicas no estudo das religies e religiosidades. IN: Revista Brasileira de Histria das Religies. Maring (PR) v. III, n.9, jan/2011. ISSN 1983-2859. </p><p>Disponvel em http://www.dhi.uem.br/gtreligiao/pub.html __________________________________________________________________ </p><p>6 </p><p>Sell aponta que: </p><p>entre os intelectuais que acentuam especialmente os fatores positivos da </p><p>influncia da teologia da libertao destacam-se novamente os cientistas </p><p>sociais organicamente ligados a este movimento, como Lus Eduardo </p><p>Wanderley (1978 e 1984), Souza Lima (1979), Ivo Lesbaupin (1980), Pedro </p><p>Ribeiro de Oliveira (1977) ou ainda cientistas sociais independentes como...</p></li></ul>