damatta, roberto. o ofício de etnólogo, ou como ter "anthropological blues"

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O Ofcio de Etnlogo, ou como Ter "Anthropological Blues"1ROBERTO DAMATTA This glory, the sweetest, the trues or rather the only true glory, awaits you, encompasses you already; you will know all its brilliance on that day of triumph and joy on which, returning to your country, welcomed amid our delight, you will arrive in our walls, loaded with the most precious apoils, and bearers of happy tidings of our brothers scattered in the uttermost confines of the Universe. Degrando2 Introduo Em Etnologia, como nos "ritos de passagem", existem trs fases (ou planos) fundamentais quando se trata de discorrer sobre as etapas de uma pesquisa, vista pelo prisma do seu cotidiano. A primeira, aquela caracterizada pelo uso e at abuso da cabea, quando ainda no temos nenhum contato com os seres humanos que, vivendo em grupos, constituem-se nos nossos objetos de trabalho. a fase ou plano que denomino de terico-intelectual, marcada pelo divrcio entre o futuro pesquisador e a tribo, a classe social, o mito, o grupo, a categoria cognitiva, o ritual, o bairro, o sistema de relaes sociais e de parentesco, o modo de produo, o sistema poltico e todos os outros domnios, em sua lista infindvel, que certamente fazem parte daquilo que se busca ver, encarar, enxergar, perceber, estudar, classificar, interpretar, explicar, etc... Mas esse divrcio e bom que se diga isso claramente no diz respeito somente ignorncia do estudante. Ao contrrio, ele fala precisamente de um excesso de conhecimento, mas de um conhecer que terico, universal e midiatizado no pelo concreto e sobretudo pelo especfico, mas pelo abstrato e pelo no vivenciado. Pelos livros, ensaios e artigos: pelos outros. Na fase terico-intelectual, as aldeias so diagramas, os matrimnios se resolvem em desenhos geomtricos perfeitamente simtricos e equilibrados, a patronagem e a clientela poltica aparecem em regras ordenadas, a prpria espoliao passa a seguir leis e os ndios so de papel. Nunca ou muito raramente se pensa em coisas especficas, que dizem respeito minha experincia, quando o conhecimento permeabilizado por cheiros, cores, dores e amores. Perdas, ansiedades e medos, todos esses intrusos que os livros, sobretudo os famigerados "manuais" das Cincias Sociais teimam por ignorar.1

Trabalho apresentado na Universidade de Braslia, junto ao Departamento de Cincias Sociais, no Simpsio sobre Trabalho-de-Campo, ali realizado. Expresso meus agradecimentos aos Profs. Roberto Cardoso de Oliveira e Kenneth Taylor, que na poca eram, respectivamente, Chefe do Departamento de Cincias Sociais e Coordenador do Curso de Mestrado de Antropologia Social, pelo convite. Posteriormente, o texto foi publicado no Museu Nacional como Comunicao n. 1, Setembro, 1974, em edio mimeografada. Desejo agradecer a Gilberto Velho, Luiz de Castro Faria e Anthony Seeger pelas sugestes e encorajamento, quando da preparao das duas verses deste trabalho.2

Joseph-Marie Degrando, The Observation of Savage Peoples (1800), traduzido do Francs por F.C.T. Moore, Berkeley e Los Angeles: University of California Press, 1969.

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Uma segunda fase, que vem depois dessa que acabo de apresentar, pode ser denominada de perodo prtico. Ela diz respeito, essencialmente, a nossa antevspera de pesquisa. De fato, trata-se daquela semana que todos cuja pesquisa implicou uma mudana drstica experimentaram, quando a nossa preocupao muda subitamente das teorias mais universais para os problemas mais banalmente concretos. A pergunta, ento, no e mais se o grupo X tem ou no linhagens segmentadas, moda dos Nuer, Tallensi ou Tiv, ou se a tribo Y tem corridas de tora e metades cerimoniais, como os Krah ou Apinay, mas de planejar a quantidade de arroz e remdios que deverei levar para o campo comigo. Observo que a oscilao do pendulo da existncia para tais questes onde vou dormir, comer, viver no nada agradvel. Especialmente quando o nosso treinamento tende a ser excessivamente verbal e terico, ou quando somos socializados numa cultura que nos ensina sistematicamente o conformismo, esse filho da autoridade com a generalidade, a lei e a regra. No plano prtico, portanto, j no se trata de citar a experincia de algum heri-civilizador da disciplina, mas de colocar o problema fundamental na Antropologia, qual seja: o da especificidade e relatividade de sua prpria experincia. A fase final, a terceira, a que chamo de pessoal ou existencial. Aqui, no temos mais divises ntidas entre as etapas da nossa formao cientfica ou acadmica, mas por uma espcie de prolongamento de tudo isso, uma certa viso de conjunto que certamente deve coroar todo o nosso esforo e trabalho. Deste modo, enquanto o plano terico-intelectual medido pela competncia acadmica e o plano prtico pela perturbao de uma realidade que vai se tornando cada vez mais imediata, o plano existencial da pesquisa em Etnologia fala mais das lies que devo extrair do meu prprio caso. por causa disso que eu a considero como essencialmente globalizadora e integradora: ela deve sintetizar a biografia com a teoria, e a prtica do mundo com a do ofcio. Nesta etapa ou, antes, nesta dimenso da pesquisa, eu no me encontro mais dialogando com ndios de papel, ou com diagramas simtricos, mas com pessoas. Encontro-me numa aldeia concreta: calorenta e distante de tudo que conheci. Acho-me fazendo face a lamparinas e doena. Vejo-me diante de gente de carne e osso. Gente boa e antiptica, gente sabida e estpida, gente feia e bonita. Estou, assim, submerso num mundo que se situava, e depois da pesquisa volta a se situar, entre a realidade e o livro. vivenciando esta fase que me dou conta (e no sem susto) que estou entre dois fogos: a minha cultura e uma outra, o meu mundo e um outro. De fato, tendo me preparado e me colocado como tradutor de um outro sistema para a minha prpria linguagem, eis que tenho que iniciar minha tarefa. E ento verifico, intimamente satisfeito, que o meu ofcio voltado para o estudo dos homens anlogo prpria caminhada das sociedades humanas: sempre na tnue linha divisria que separa os animais na determinao da natureza e os deuses que, dizem os crentes, forjam o seu prprio destino. Neste trabalho, procuro desenvolver esta ltima dimenso da pesquisa em Etnologia. Fase que, para mim e talvez para outros, foi to importante. I Durante anos, a Antropologia Social esteve preocupada em estabelecer com preciso cada vez maior suas rotinas de pesquisa ou como tambm chamado o exerccio do oficio na sua pratica mais imediata, do trabalho de campo. Nos cursos de Antropologia 2

os professores mencionaram sempre a necessidade absoluta da coleta de um bom material, isto , dados etnogrficos que permitissem um dilogo mais intenso e mais profcuo com as teorias conhecidas, pois da, certamente, nasceriam novas teorias segundo a velha e, porque no dizer, batida dialtica do Prof. Robert Merton. Desse esforo nasceram alguns livros na Amrica e fora dela ensinando a realizar melhor tais rotinas. Os dois mais famosos so o notrio Notes and Queries in Anthropology, produzido pelos ingleses e, diga-se de passagem, britanicamente produzido com zelo missionrio, colonial e vitoriano, e o no menos famoso Guia de Investigao de Dados Culturais, livro inspirado pelo Human Relations Area Files, sob a gide dos estudos "cross-culturais" do Prof. George Peter Murdock. So suas peas impressionantes, como so impressionantes as monografias dos etnlogos, livros que atualizam de modo correto e impecvel essas rotinas de "como comecei fazendo um mapa da aldeia, colhendo duramente as genealogias dos nativos, assistindo aos ritos funerrios, procurando delimitar o tamanho de cada roa" e "terminei descobrindo um sistema de parentesco do tipo Crow-Omaha, etc.... Na realidade, livros que ensinaram a fazer pesquisa so velhos na nossa disciplina, e podese mesmo dizer sem medo de incorrer em exagero que eles nasceram com a sua fundao, j que foi Henry Morgan, ele prprio, o primeiro a descobrir a utilidade de tais rotinas, quando preparou uma srie de questionrios de campo que foram enviados aos distantes missionrios e agentes diplomticos norte-americanos para escrever o seu superclssico Systems of Consanguinity and Affinity of the Human Family (1871)3. Tal tradio obviamente necessria e no meu propsito aqui tentar denegri-la. No sou D. Quixote e reconheo muito bem os frutos que dela nasceram e podero ainda nascer. E mesmo se estivesse contra ela, o mximo que o bom senso me permitiria acrescentar que essas rotinas so como um mal necessrio. Desejo, porm, neste trabalho, trazer luz todo um "outro lado" desta mesma tradio oficial e explicitamente reconhecida pelos antroplogos, qual seja: os aspectos que aparecem nas anedotas e nas reunies de antropologia, nos coquetis e nos momentos menos formais. Nas estrias que elaboram de modo tragicmico um malentendido entre o pesquisador e o seu melhor informante, de como foi duro chegar at a aldeia, das diarrias, das dificuldades de conseguir comida e muito mais importante de como foi difcil comer naquela aldeia do Brasil Central. Esses so os chamados aspectos romnticos da disciplina, quando o pesquisador se v obrigado a atuar como mdico, cozinheiro, contador de histrias, mediador entre ndios e funcionrios da FUNAI, viajante solitrio e at palhao, lanando mo destes vrios e insuspeitados papis para poder bem realizar as rotinas que infalivelmente aprendeu na escola graduada. curioso e significativo que tais aspectos sejam cunhados de "anedticos" e, como j disse, de "romnticos", desde que se est consciente e no preciso ser filsofo para tanto que a Antropologia Social uma disciplina da comutao e da mediao. E com isso quero simplesmente dizer que talvez mais do que qualquer outra matria devotada ao estudo do Homem, a Antropologia aquela onde necessariamente se estabelece uma ponte entre dois universos (ou subuniversos) de significao, e tal ponte ou mediao realizada com um mnimo de aparato institucional ou de instrumentos de mediao. Vale dizer, de modo artesanal e p