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The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives Zbigniew Brzezinski Sofia Dias Ramos Aluna nº: 212430 Mestrado: Estratégia Unidade Curricular: Geopolítica Aplicada Docente: Professor Catedrático Heitor Romana Lisboa 19 de Janeiro de 2015

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The Grand Chessboard: American Primacy

and Its Geostrategic Imperatives

Zbigniew Brzezinski

Sofia Dias Ramos

Aluna nº: 212430

Mestrado: Estratégia

Unidade Curricular: Geopolítica Aplicada

Docente: Professor Catedrático Heitor Romana

Lisboa

19 de Janeiro de 2015

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Índice

Capa p. 1

Índice p. 2

1. Considerações Iniciais p. 3

2. Introdução p. 4

3. “Hegemony of a New Type” p. 5

4. “The Eurasian Chessboard” p. 7

5. “The Democratic Bridgehead” p. 9

6. “The Black Hole” p. 11

7. “The Eurasian Balkans” p. 12

8. “The Far Eastern Anchor” p. 13

9. Conclusão p. 15

10. Considerações Críticas p. 17

11. Bibliografia p. 21

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1. Considerações Iniciais

Numa era em que é evidente a intensificação da fricção entre o pólo de maritimidade

atlântica e o pólo de continentalidade eurasiática, é indispensável olhar para a natureza dessa

relação que nunca deixou de estar presente na competição geopolítica característica das

relações internacionais. Neste âmbito, "The Grand Chessboard: American Primacy and Its

Geostrategic Imperatives", da autoria de Zbigniew Brzezinski, apresenta-se como uma obra

essencial para a compreensão das dinâmicas desta temática. Consequentemente, uma análise

crítica ao tema central desta obra, isto é, os instrumentos e acções para a permanência dos

EUA como a única superpotência global, é de extrema actualidade e relevância.

Zbigniew Brzezinski é um cientista político, geoestratega, professor (na Universidade de

Harvard entre 1953 e 1960, na Universidade de Columbia entre 1960 e 1989 e actualmente na

Universidade Johns Hopkins, em Washington), investigador (no Centro de Estudos

Estratégicos e Internacionais da Universidade Johns Hopkins) e autor de diversas obras

publicadas nas aréas da Ciência Política, das Relações Internacionais, da Geopolítica, da

Geoestratégia e da Política Externa, nascido em Varsóvia, na Polónia, e naturalizado norte-

americano desde 1958, que serviu como Conselheiro de Lyndon Johnson, entre 1966 e 1968,

e como Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos da América (EUA) durante a

presidência de Jimmy Carter, entre 1977 e 1981.

Em "The Grande Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives", uma

das suas obras de referência, Brzezinski defende que os EUA são o primeiro e actual poder

global e que a Eurásia é o centro de massa terrestre onde se dá a luta pela aquisição e

manutenção do poder hegemónico e, de seguida, formula uma geoestratégia eurasiática para

os EUA, na qual conclui que é imperativo que não emerja um challenger capaz de dominar a

zona da Eurásia e de desafiar a proeminência global norte-americana. Nesta óptica, Brzezinski

é influenciado pelo conceito de Heartland tributário da teorização de Halford Mackinder, pelo

conceito de Rimland de Nicholas Spykman e pelo conceito de Cordon Sanitaire, de George

Kennan, bem como pelas teorias dos gerais dois primeiros: a potencialidade da perspectiva

continental do espaço e a necessidade de uma estratégia de Containment por parte dos EUA.

Brzezinski dedica, para além dos capítulos introdutório e conclusivo, um capítulo à

descrição da natureza da hegemonia dos EUA, um ao que considera ser o tabuleiro de xadrez

eurasiático, um à Europa, um à desintegração da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas

(URSS) e respectivas consequências, um à zona dos Balcãs e um à República Popular da

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China (RPC) e ao Japão, a dupla âncora necessária à proeminência dos EUA. Todas são áreas

de extrema importância geopolítica para a prevalência da supremacia norte-americana.

Depois, importa clarificar alguns termos que Brzezinski aplica ao longo de toda a obra.

Em primeiro, lugar, o autor define Geoestratégia como "the strategic management of

geopolitical interests" (Brzezinski, 1997, p. 31). Em segundo lugar, defende que "the exercise

of American global primacy musyt be sensitive to the fact that political geography remains a

critical consideration in international affairs" (Brzezinski, 1997, p. 37), pois apesar do

declínio dos nacionalismos e das ideologias ter esvaziado a componente emocional da política

os Estados Soberanos continuam a ter um papel central no sistema mundial, e que, portanto,

"geographic location is still the point of departure for the definition of a nation-state's

external priorities, and the size of national territory also remains one of the major criteria of

status and power" (p. 38). Por fim, classifica os Estados quanto à sua actuação externa,

dividindo-os em players geoestratégicos e pivots geopolíticos. Os primeiros "have the

capacity and the national will to exercise power or influence beyond their borders" (p. 40)

para alterar a situação geopolítica em vigor, "seek to attain regional domination or global

standing" (p. 40) e são impulsionados por motivações complexas, profundas e muito

enraizadas. A importância dos segundos deriva "from their sensitive location and from the

consequences of their potentially vulnerable condition" (p. 41) e têm "a special role either in

defining access to important areas or in denying resources to a significant player" (p. 41).

Assim, propomo-nos a realizar uma abordagem analítico-crítica, capítulo a capítulo, a fim

de perceber as premissas que Brzezinski defende para as várias áreas regionais para delinear o

conjunto de imperativos geoestratégicos necessários à política externa norte-americana no que

concerne à manutenção do estatuto de única grande potência com alcance global.

2. Introdução

A introdução que Brzezinski faz ao tema que irá desenvolver engloba um conjunto de

argumentos que são o ponto de partida para as hipóteses finais que propõe. Desde o início das

interacções políticas entre Estados que a "Eurasia has been the center of world power"

(Brzezinski, 1997, p. XII). A última década do século XX "has witnessed a tectonic shift in

world affairs" (Brzezinski, 1997, p. XII), com a fragmentação e desmembramento da URSS e

a ascensão dos EUA como único e primeiro verdadeiro poder global, e pela primeira vez na

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História "a non-Eurasian power has emerged not only as the key arbiter of Eurasian power

relations but also as the world's pramount power" (p. XII).

Contudo, a Eurásia mantém a sua importância geopolítica. A sua fronteira ocidental

(Europa) e a sua fronteira oriental (Ásia) tornaram-se centros vitais de crescimento económico

e de influência política, e a questão central para a capacidade de supremacia global norte-

americana depende de "how a globally engaged America copes with the complex Eurasian

power relationships" (Brzezinski, 1997, p. XIII) e "whether it prevents the emergence of a

dominant and antagonistic Eurasian power" (Brzezinski, 1997, p. XIII). Os EUA precisam,

pois, de ter sempre em conta a dimensão geopolítica do poder e de exercer influência de

forma a criar estabilidade na região eurasiática.

A "Eurasia is thus the chessboard on which the struggle for global primacy continues to

be played" (Brzezinski, 1997, p. XIII) e os EUA só concretizarão as suas ambições de

domínio global se projectarem o seu poder e influência nessa região. Ora, o fim último da

política externa norte-americana deverá ser a concepção de uma comunidade global

cooperativa, sempre tendo em mente que "it is imperative that no Eurasian challenger

emerges, capable of dominating Eurasia and thus also of challenging America" (Brzezinski,

1997, p. XIII). Neste sentido, Brzezinski afirma que o propósito do livro é a "formulation of a

comprehensive and integrated Eurasian geostrategy" (p. XIII).

3. “Hegemony of a New Type”

A necessidade de hegemonia, o sentimento de domínio, a percepção de posse de poder são

fenómenos transversais à História da existência humana e em particular das relações

competitivas entre Estados. Porém, Brzezinski defende que "America's current global

supremacy is distinctive in the rapidity of its emergence, in its global scope, and in the

manner of its exercise" (Brzezinski, 1997, p. 3).

A reivindicação norte-americana de um estatuto especial como garante da segurança

ocidental tem raízes multidimensionais: as motivações históricas, nomeadamente a

industrialização e a cultura nacional, contribuindo para o crescimento económico e para a

expansão do poder nacional, e os grandes episódios bélicos - a 1ª e 2ª Guerras Mundiais e a

Guerra Fria - que surgiram como janelas de oportunidade para a projecção de poder, para a

expansão de ambições geopolíticas e para a emergência dos EUA, dos seus valores e dos seus

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princípios na arena internacional e para o envolvimento do país na (re)organização do mundo

e na resolução das grandes questões internacionais de então.

O período "dominated by the bipolar American-Soviet contest for global supremacy"

(Brzezinski,1997, p. 5) foi decisivo: colocou em confronto "the world's leading maritime

power, dominant over both the Atlantic and the Pacific Oceans" (Brzezinski, 1997, p. 6) e

"the world's leading land power, paramount on the Eurasian heartland" (p. 6). Cada parte

dominava o seu espaço geopolítico e projectava uma ideologia à escala mundial, e o advento

das armas nucleares, com ampla capacidade de destruição e de provocar danos, gerou uma

"extraordinary self-restraint on the part of both rivals" (p. 6). De um lado, um regime

comunista hierárquico, estagnado na tecnologia e na economia mas militarmente forte. Do

outro, uma democracia "much richer, technologically much more advanced, military more

resilient and innovative, socially more creative and appealing" (p. 8) mas com aliados

geoestratégicos mais fracos. O conflito deu-se em grande parte nas periferias da Eurásia e a

contenção bem-sucedida dos EUA provou que a flexibilidade ideológica, o dinamismo

económico e o apelo cultural se tornaram factores importantes na luta por poder e influência.

A aliança liderada pelos EUA manteve-se unida. O bloco sino-soviético fragmentou-se: a

RPC tornava-se um desafio à hegemonia ideológica soviética e para os satélites da Europa

Central e para os povos não-russos a URSS significava isolamento e domínio imperial por um

povo culturalmente inferior. A assimetria entre as partes era favorável aos norte-americanos e

a razão foi a emergente dimensão cultural do poder: “America was widely perceived as

representing the future, as a society worthy of admiration and deserving of emulation“

(Brzezinski, 1997, p. 8). Como tantos outros impérios, o Império Soviético implodiu, com

consequências económicas e sociais internas que se prolongam até à actualidade e que por

isso ainda não deixaram de limitar as capacidades de projecção de uma geopolítica afastada e

até de projecção de uma geopolítica próxima por parte da hoje Federação Russa.

O colapso da rival URSS colocou os EUA numa posição única, tornando-se “the first and

the only truly global power“ (Brzezinski, 1997, p. 10). Apesar de algumas similitudes com

impérios existentes anteriormente, dado que “the exercise of American “power“ is derived in

large measure from superior organization“ (Brzezinski, 1997, p. 10) de meios económicos e

tecnológicos para fins militares e de apelo cultural (American way of life), Brzezinski afirma

que nenhum desses impérios – Mongol, Romano, Chinês, Britânico, Espanhol, Holandês e

Francês – eram verdadeiramente globais e que, por isso, as diferenças são preponderantes.

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Assim sendo, é em contraste que “the scope and pervasiveness of American global power

today are unique“ (Brzezinski, 1997, p. 23), na medida em que os EUA são supremos nos

quatro domínios nucleares do poder global: possuem “military capability for amphibious

shore control“ (Brzezinski, 1997, p. 23) sem igual, o seu poder económico “remains the main

locomotive of global growth“ (p. 24), o seu poder tecnológico mantém “its strong competitive

advantage in the economically decisive information technologies“ (p. 23) e o seu poder

cultural goza de uma atractividade sem rival. Esta combinação confere ao país “a political

clout that no other state comes close to matching“ (p. 24) e um poder global abrangente.

A proeminência internacional norte-americana ultrapassa o âmbito territorial: “American

global power is exercised through a global system of distinctively American design that

mirrors the domestic American experience“(Brzezinski, 1997, p. 24). Porém, a opinião

pública norte-americana é ambígua e revela “an inclination toward a more limited definition

of American responsibilities abroad” (Brzezinski, 1997, p. 25), pelo que o sistema global dos

EUA prima pela cooptação e partilha de poder como nenhum anterior sistema imperial fez.

Os ideais democráticos, o domínio cultural e o modelo económico liberal criam, assim, “a

more congenial setting for the exercise of the indirect and seemingly consensual American

hegemony“ (Brzezinski, 1997, p. 27), através de um sistema complexo de alianças e

coligações como a Organização do Tratado Atlântico-Norte (OTAN), a participação no

Fórum de Cooperação Económica da Ásia-Pacífico, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e

o Banco Mundial (BM). Neste sistema, o “power is exercised through continuous bargaining,

dialogue, diffusion, and quest for formal consensus” (Brzezinski, 1997, p. 28).

A supremacia dos EUA “produced a new international order that not only replicates but

institutionalizes abroad many of the features of the American system” (Brzezinski, 1997, p.

28). O país prima pela estabilidade, evita o confronto bélico e a sua hegemonia global sem

precedentes não encontra rival. Mas até quando este cenário permanecerá assim?

4. “The Eurasian Chessboard”

Os EUA são o poder não-eurasiático prevalecente na Eurásia e a sua proeminência “is

directly dependent on how long and how effectively its preponderance on the Eurasian

continent is sustained” (Brzezinski, 1997, p. 30). A sua retirada da região faria emergir um

rival bem-sucedido e originar instabilidade e até a anarquia mundial. Neste contexto, “how

America “manages” Eurasia is critical” (Brzezinski, 1997, p. 31).

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Este espaço repleto de players dotados de vários graus de poder é o maior continente do

mundo, integra duas das três economias mais avançadas do mundo, impele ao controlo de

África e alberga 75% da população mundial, 60% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial e

¾ dos recursos energéticos conhecidos. Nele situam-se vários Estados politicamente

dinâmicos, os seis maiores investidores em armamento militar depois dos EUA, os dois mais

populosos aspirantes à hegemonia regional e influência global e os potenciais challengers à

primazia norte-americana. Todos estes factores lhe conferem importância geopolítica e

geoestratégica: “cumulatively, Eurasia’s power vastly overshadows America’s” (Brzezinski,

1997, p. 31), ainda que demasiado grande para obter unidade política.

O poder dos EUA alcança directamente as três periferias da Eurásia – ocidental, leste e

Sul – mas a sua profundidade é superficial e por isso baseada apenas em exercício de

influência: alguns Estados eurasiáticos limitam a capacidade de controlo directo de uma

região “too large, too populous, culturally too varied, and composed of too many historically

ambitious and politically energetic states to be compliant” (Brzezinski, 1997, p. 35) perante

um poder global democrático que por isso não consegue ser autocrático na sua projecção

externa. A diplomacia e as coligações “have become the key ingredientes of the successful

exercise of geostrategic power on the Eurasian chessboard” (Brzezinski, 1997, p. 36).

Brzezinski afirma que depois de o debate, por iniciativa pioneira de Halford Mackinder,

durante décadas se basear “whether land power was more significant than sea power and

what specific region of Eurasia is vital to gain control over the entire continent” (Brzezinski,

1997, p. 38), a discussão “has moved from the regional to the global dimension, with the

preponderance over the entire Eurasian continent serving as the central basis for global

primacy” (Brzezinski, 1997, p. 39). Nesta lógica, é necessária “the formulation of American

geostrategy for the long-term management of America’s Eurasia geopolitical interests” (p.

39) pelo manejo dos Estados dinâmicos em termos geoestratégicos e pela formulação de

políticas para preservar e promover os interesses vitais norte-americanos na região.

Para o autor, o espaço central da Eurásia corresponde maioritariamente à Rússia, a antiga

URSS que “was once committed to the goal of pushing America out of Eurasia“ (Brzezinski,

1997, p. 34), um pivot geoestratégico com ambiciosos objectivos geopolíticos e com impacto

significativo nos recém-independentes Estados, que perdeu alguns dos seus espaços-chave

mas que continua a ser um player muito relevante. O espaço Sul representa a Ásia Central,

onde “lies a politically anarchic but energy-rich region of potentially great importance”

(Brzezinski, 1997, p. 34), com influxos da Turquia pelo Mar Negro e pelo Mar Mediterrâneo

9

e do Irão pelo Mar Cáspio e pelo Leste do Golfo Pérsico. O espaço ocidental consiste na

Europa Ocidental e de Leste, onde merecem especial atenção a Ucrânia e a Polónia, dois

pivots geopolíticos importantes e influentes na evolução da Rússia e do espaço eurasiático. No

espaço a Leste devem ser focalizados a China e o Japão e o papel securitário dos EUA, com

especiais obrigações para com o Japão em prol da estabilidade da região asiática e em

simultâneo com necessidade de se relacionar estrategicamente com a RPC.

Todos os actores identificados permitem reconhecer os dilemas dos EUA e antecipar

potenciais desafios na Eurásia: que tipo de Europa é desejável, que tipo de Rússia é do

interesse norte-americano e o que podem os EUA fazer nesse campo, como podem os EUA

gerir a emergência da Ásia Central, que papel deveria a China assumir e as implicações disso

para os EUA e para o Japão e que coligações são possíveis na Eurásia e que perigos disso

advêm. Os EUA “may have to determine how to cope with regional coalitions that seek to

push America out of Eurasia, thereby threatening America’s status as a global power”

Brzezinski, 197, p. 55). Seja como for, a primazia norte-americana na Eurásia sofrerá

perturbações pontuais e manter-se-á mais estável onde existirem sistemas socio-políticos

propícios à incorporação nos enquadramentos multilaterais dominados pelos EUA.

5. “The Democratic Bridgehead”

A Europa é um aliado natural dos EUA, pois partilha os mesmos valores democráticos e a

mesma herança religiosa, é “the most multilateral organized region of the world” (Brzezinski,

1997, p. 57) e é “America’s essential geopolitical bridgehead on the Eurasian continent”

(Brzezinski, 1997, p. 59), servindo como “springboard for the progressive expansion of

democracy deeper into Eurasia” (p. 57), de forma a atrair Estados fronteiriços para a órbita

geoestratégica ocidental e a tornar-se o pilar “of an American-sponsored larger Eurasian

structure of security and cooperation” (p. 59). A dependência entre as partes é mútua: a

projecção do âmbito europeu torna-se a expansão da influência norte-americana.

Porém, não existe um conceito de Europa, com uma identidade e uma visão, não há

unidade política, há um declínio da vitalidade económica e há uma falta de confiança que leva

ao afastamento do debate das questões internacionais. Os dois grandes líderes europeus, a

França e a Alemanha, estão “committed to the goal of shaping and defining a Europe that

would truly be Europe” (Brzezinski, 1997, p. 60) mas cada um com uma visão diferente e

nenhuma dos dois com força suficiente para prevalecer sobre o outro, o que cria uma

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oportunidade estratégica para uma intervenção decisiva dos EUA, através da gestão do

alcance da União Europeia (UE) e da OTAN.

O objectivo geoestratégico central dos EUA é então no sentido de construir uma Europa

baseada na aliança franco-germânica, que seja viável e sustentável, ligada aos EUA e que

alargue o âmbito do sistema internacional de cooperação democrática do qual a primazia

global norte-americana muito depende. Neste contexto, Brzezinski refere três necessidades: o

envolvimento dos EUA na unificação europeia para compensar as incapacidades internas da

região, o fomento de maior identidade política e militar europeia de carácter mais confederal e

o envolvimento na resolução das ambiguidades no que toca à definição dos limites

geográficos da Europa e na relação com a Rússia no que toca ao estatuto das Repúblicas

Bálticas e da Ucrânia no seio do sistema europeu. A massa continental eurasiática e esta

bridghead democrática têm, sem dúvida, bastante significado geopolítico para os EUA e a

preservação e expansão da última “are directly relevant to America’s security” (Brzezinski,

1997, p. 72). Uma Europa deixada à sua mercê e desmedida na ampliação do seu papel global

incorre em graves custos económicos, políticos e sociais e corre o risco de ser explorada por

ideologias nacionalistas e extremistas.

O compromisso norte-americano para com a Europa, contribuindo para a expansão e

unificação do continente e estimulando o seu papel no mundo, tem que ser “not only to

declare unambiguously that it is prepared to accept the consequences of Europe becoming

truly Europe but to act accordingly” (Brzezinski, 1997, p. 74). Uma Europa unida “will

increasingly become an important political player on the Eurasian chessboard” (Brzezinski,

1997, p. 76) e só assim poderá ser um parceiro político e securitário para os EUA, através da

OTAN. Na OTAN deve haver um relacionamento próximo dos EUA com a França e a

Alemanha, em particular com a segunda, “promoting the eastward expansion of Europe” (p.

79). A Europa ainda não está completa, está a emergir, “and if that new Europe is to remain

geopolitically a part of the “Euro-Atlantic” space, the expansion of NATO is essential” (p.

80). Em sequência, uma geoestratégia dos EUA para a Eurásia também só será exequível com

esse alargamento. Em prol da protecção dos EUA e em sequência da Europa, qualquer

expansão da OTAN é coincidente com uma expansão da UE. Dos Estados referidos pelo autor

que, de então em diante, haviam de aderir à UE e à OTAN só a Ucrânia ainda não o fez.

Com todo este cenário em emergência, a intensificação das tensões com a Rússia não pode

ser descurada. Face a isso, o objectivo geoestratégico central dos EUA na Europa deve ser,

portanto, “to consolidate through a more genuine transatlantic partnership the U.S.

11

bridgehead on the Eurasian continent” (Brzezinski, 1997, p. 86) para que “an enlarging

Europe can become a more viable springboard for projecting into Eurasia the international

democratic and cooperative order” (Brzezinski, 1997, p. 86).

6. “The Black Hole”

O colapso e a desintegração da URSS, em 1991, deixaram um vazio geopolítico na

Eurásia, o que colocou desafios críticos e mantém ainda hoje por cumprir a principal tarefa:

“encourage Russia’s democratic transformation and economic recovery while avoiding the

reemergence of a Eurasian empire” (Brzezinski, 1997, p. 87) que obstaculize o sistema euro-

atlântico delineado pelos EUA. Esta situação originou uma crise nas condições internas russas

com impactos na situação geopolítica do país, o que levou à necessidade de redefinição

geopolítica da região. Como sucessoras da URSS surgiram a Federação Russa e a

Comunidade de Estados Independentes (CEI), o que não impediu a Rússia de sofrer alterações

de fronteiras, de perder importantes parcelas do seu Lebensraum (Espaço Vital) e grande parte

do seu poder continental e estatuto internacional de outrora.

A perda do Cáucaso “revived strategic fears of ressurgente Turkish influence”

(Brzezinski, 1997, p. 88), a perda da Ásia Central “generated a sense of deprivation

regarding the enormous energy and mineral resources of the region as well as anxiety over a

potential Islamic challenge” (Brzezinski, 1997, pp. 88-89), o acesso ao mar Báltico tornou-se

mais limitado, dada a incapacidade de controlo ideológico e político dos Estados recém-

independentes, girando em torno da OTAN e da UE, e a alteração do estatuto na bacia do Mar

Cáspio impediu a Rússia de continuar a dispor dos recursos aí existentes. A independência da

Ucrânia foi a perda mais problemática porque “deprived Russia of its dominant position on

the Black Sea, where Odessa has served Russia’s vital gateway to trade” (p. 92) com o resto

do mundo, ficando a Rússia a braços com a questão historicamente vital dos direitos sobre a

região da Crimeia. O fim da URSS findou de vez a aliança sino-soviética e a China, cada vez

mais avançada, reverteu a situação e fez da Rússia o elo mais fraco da relação.

Tudo isto afectou o sentido de segurança da Rússia pós-imperial, sem acesso facilitado ao

resto do mundo, convulsionada internamente, destituída do território onde a Essência Russa

nasceu e vulnerável a conflitos multidireccionais. Perante isso, Brzezinski equacionou as três

opções aparentes relativamente ao que a Rússia pode fazer em relação aos EUA – uma

parceria estratégica fortalecida, a ênfase na política do “Estrangeiro Próximo” (Near Abroad)

12

e uma contra-aliança para reduzir a preponderância norte-americana – e afirmou que todas

“evade the only choice that is in fact open to Russia” (Brzezinski, 1997, p. 118).

A real alternativa geoestratégica para a Rússia é a Europa, nomeadamente a UE e a

OTAN, com a qual terá inevitavelmente que se relacionar se quer evitar o isolamento

geopolítico. Esta é a opção que de facto “could give Russia a realistic international role and

also maximize the opportunity of transforming and socially modernizing itself” (Brzezinski,

1997, p. 118). Para concretizar a sua única alternativa viável, a Rússia terá que cortar com o

seu passado imperial e aceitar os laços da Europa com os EUA, aceitando o pluralismo

geopolítico no espaço pós-URSS e a independência ucraniana; contribuir para o fomento de

uma real cooperação com a comunidade transatlântica; e articular “the vision of a democratic,

national, truly modern and European Russia” (Brzezinski, 1997, p. 120) – desejável para os

EUA e para a Europa – pois “a genuinely nonimperial Russia will still be a great power” (p.

120). Isto acontecerá por fases e os Estados importantes neste contexto são o Azerbeijão, o

Uzbequistão e a Ucrânia, em que o possível aprofundamento da sua ligação com a UE e a

OTAN influencia a postura russa “in the sense that Ukraine’s choice in favor of Europe will

bring to a head Russia’s decision regarding the next hase of its history” (p. 122): ser parte da

Europa ou ser um pária eurasiático, nem europeu nem asiático e encurralado pelos seus

conflitos com o Near Abroad. Concomitantemente, é favorável aos EUA a perpetuação deste

dilema para que não emerjam challengers ao poder global norte-americano.

Concluindo, Brzezinski demonstra que “the faster Russia moves toward Europe, the

sooner the black hole of Eurasia will be filled” (Brzezinski, 1997, p. 122) e que o dilema da

alternative única “is no longer a matter of making a geopolitical choice but of facing up to the

imperatives of survival” (Brzezinski, 1997, p. 122).

7. “The Eurasian Balkans”

Os Balcãs eurasiáticos, correspondem a partes do Sudeste europeu, da Ásia Central, do

Sul da Ásia, do Golfo Pérsico e do Médio Oriente, incluindo assim nove países: o

Cazaquistão, o Quirguistão, o Tajiquistão, o Uzbequistão, o Turquemenistão, o Azerbaijão, a

Arménia, a Geórgia e o Afeganistão, alguns destes impreparados para a independência plena,

e potencialmente a Turquia e o Irão, ambos players geoestratégicos concorrentes para a

influência regional e para a limitação da aproximação ao Ocidente, em conjunto com a

Rússia. Estas são áreas politicamente instáveis pelas suas fronteiras voláteis e Estados

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heterogéneos, repletas de conflitos étnicos, religiosos e territoriais, e, ainda que com potências

externas como árbitros da região, com elevada importância pelas suas reservas de petróleo e

gás natural, cada vez mais valorizadas à medida que o consumo energético aumenta.

A Turquia e o Irão, enquanto maiores Estados na região, são também eles pivots

geopolíticos, e por isso internamente instáveis, “whose own internal condition is of critical

importance to the fate of the region” (Brzezinski, 1997, p. 134). A Turquia é um Estado pós-

imperial a redefinir a sua identidade e o Irão está à procura do seu papel geoestratégico. Além

destes, a competição actual na região inclui a Rússia, que apesar de usar o mecanismo da CEI

como instrumento “is too weak politically to seal off the region entirely from the outside”

(Brzezinski, 1997, p. 141), a China, que pode vir a ter um papel central, e os EUA, um player

indirecto em contrapeso em prol do pluralismo geopolítico da região. As motivações de

diversos tipos, a desconfiança endógena e a eventual colisão de interesses podem ter um

“cumulative impact of their external rivalry could contribute to regional chaos” (p. 136).

Neste quadro, o futuro da região mantém-se em aberto. Os EUA são “too distant to be

dominant in this part of Eurasia but too powerful not to be engaged” (Brzezinski, 1997, p.

148) e os países da região vêem o seu envolvimento como uma necessidade à sua

sobrevivência enquanto Estados independentes, enquanto a Rússia “is too weak to regain

imperial domination over the region or to exclude other from it, but i tis also too close and

too strong to be excluded” (Brzezinski, 1997, p. 148). Assim sendo, o principal interesse

norte-americano deve ser “to help ensure that no single power comes to control this

geopolitical space and that the global community has unhindered financial and economical

access to it” (p. 148). Para isto, é necessária uma parceria estratégica o quanto baste com a

Rússia, a Turquia, o Irão e a China e algum grau de acomodação aos seus interesses para um

equilíbrio do poder regional, pois “the attainment and consolidation of that regional balance

has to be a major goal in any comprehensive U.S. geostrategy for Eurasia” (p. 150).

8. “The Far Eastern Anchor”

Para Brzezinski, “an effective American policy for Eurasia has to have a Far Eastern

Anchor” (Brzezinski, 1997, p. 151), pelo que os EUA não podem descurar a sua presença na

Ásia, nomeadamente através de uma relação próxima com o marítimo Japão e de uma

cooperação estratégica com a China continental. Nesta região economicamente cada vez mais

dinâmica e politicamente cada vez mais incerta, a interacção entre estes três importantes pólos

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de poder “is almost certain to generate geopolitically tectonic shifts” (Brzezinski, 1997, p.

151). A China é um poder em ascensão, o papel securitário dos EUA na região depende cada

vez mais da colaboração com o Japão, o Japão procura um papel político mais definido e

autónomo, o papel da Rússia diminuiu, a Ásia Central tornou-se objecto de disputas

internacionais e a divisão da Coreia é cada vez menos sustentável. Este dinamismo asiático

origina duas grandes questões: o papel regional da China e o papel internacional do Japão.

O século de humilhações por parte das potências ocidentais e do Japão impulsionou na

RPC um plano de recuperação do poder e do prestígio de outrora. Assim, são os EUA e o

Japão que “pose the most serious problems for China, and it is in the interaction with them

that China’s regional and global role will be substantively defined” (Brzezinski, 1997, p.

159). Ainda assim, a emergência da China como poder global deve ser encarada com cautela e

cepticismo. Porque “it is far from certain that China’s explosive growth rates can be

maintained” (Brzezinski, 1997, p. 160) a longo-prazo e é provável um aprofundamento do

gap entre as áreas interiores rurais e as áreas costeiras urbanas, porque o sistema político, com

a ideologia comunista como instrumento burocrático, e o sistema económico, um socialismo

de mercado com características chinesas, são incompatíveis e correm o risco de colidir, e

nesse quadro surge a alternativa de democratização, que em nome da sobrevivência do regime

e do Partido Comunista Chinês (PCC) tem sido evitada. Deste modo, “it is quite unlikely even

under the best of circumstances that China could become truly competitive in the key

dimensions of global power” (p. 164), pois o alcance de um poder global exigiria mudanças

profundas para as quais faltam vontade e capacidades e encontraria fortes oposições externas.

Isto não impede que se torne no poder preponderante no Sudeste Asiático, já com uma esfera

de influência em formação. O objectivo central da China, deve, portanto, ser “to dilute

American regional power to the point that a diminished America will come to need a

regionally dominant China as its ally and eventually even a globally powerful China as its

partner” (p. 172), prevenindo a consolidação da cooperação EUA-Japão.

A aliança EUA-Japão é, pois, um factor crítico e a emergência da RPC coloca a questão

de por quanto tempo mais ela durará. O Japão está desde a 2ª Guerra Mundial focado na sua

recuperação económica e na busca de uma missão nacional e “is simultaneously rich,

dynamic, and economically powerful, but i tis also regionally isolated and politically limited”

(Brzezinski, 1997, p. 174). A elite política não está unida e o país mantém-se vulnerável e

ambíguo quanto ao seu futuro geopolítico. Pela sua proximidade ao Ocidente, nomeadamente

aos EUA, não está totalmente confortável na Ásia. O único consenso é o de que “the

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emergence of more multilateral Asia-Pacific cooperation is in Japan’s interest” (Brzezinski,

1997, p. 182) por ter três efeitos positivos: ajudaria a envolver a China, a manter os EUA na

Ásia e a mitigar o anti-niponismo. Apesar de “it is unlikely to create a Japanese sphere of

regional influence, it might gain Japan some degree of regional deference” (pp. 182-183).

Quanto aos EUA, a tarefa consiste em gerir e estabilizar as interacções do triângulo

estratégico com base “on careful strategic calculus: how to channel Japanese energy in the

international direction and how to steer Chinese power into a regional accommodation”

(Brzezinski, 1997, p. 185). Só assim “America will be able to forge on the eastern mainland

of Eurasia a geopolitically congenial equivalent to Europe’s role on the western periphery of

Eurasia” (Brzezinski, 1997, p. 185). Então, para os EUA, o Japão deve ser um parceiro na

construção de um sistema global de cooperação e a China deve sê-lo “in the more traditional

domain of power politics, helping thereby to foster a Eurasian balance of power” (p. 193).

9. Conclusão

É imperativa a formulação e a prossecução, pelos EUA, de uma geoestratégia integrada,

abrangente e de longo-prazo para a Eurásia. O seu poder mundial continua sem nenhum

challenger e a anarquia internacional é a única alternativa, se riscos sérios de fragmentação,

com a degradação da condição humana e os desafios mundiais que vão para além das

capacidades e limites dos Estados soberanos, se abaterem sobre o actual sistema internacional.

“America is now Eurasia’s arbitrer, with no major Eurasian issue soluble without

America’s participation or contrary to America’s interests” (Brzezinski, 1997, pp. 194) mas é

necessário acomodar e gerir os principais players e pivots no xadrez eurasiático para que esta

primazia seja estável e longa. Na Europa, os actores-chave continuam a ser a França e a

Alemanha “and America’s central goal should be to consolidate and expand the existing

democratic bridgehead” (Brzezinski, 1997, p. 195) na periferia ocidental eurasiática,

combatendo as ideologias extremistas em emergência. No Extremo Oriente, é necessário um

consenso estratégico com a China, para apoio político e para essa não se tornar um

desestabilizador regional e um limitador à relação EUA-Japão. O espaço central da Eurásia

“will remain a geopolitical black hole at least until Russia resolves its inner struggle over its

postimperial self-definition” (p. 195). Assim, nem os recentes problemas globais nem as

preocupações tradicionais “are likely to be resolved, or even contained, if the underlying

geopolitical structure of global power begins to crumble” (p. 197).

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O ponto de partida para a tal geoestratégia são três condições que definem a actual ordem

geopolítica: pela primeira vez na História “(1) a single state is a truly global power, (2) a

non-Eurasian state is globally the preeminent state, and (3) the globe’s central arena,

Eurasia, is dominated by a non-Eurasian power” (Brzezinski, 1997, p. 197) e urge reconhecer

os limites do poder norte-americano. Isto implica, portanto, selectividade no emprego dos

recursos. O prestígio dos EUA tenderá a diminuir ao longo do tempo e por isso importa gerir

a ascensão dos poderes regionais que possam ameaçar a supremacia global norte-americana.

A curto-prazo, a tarefa “is to make certain that no state or combination of states gains the

capacity to expel the United States from Eurasia or even to diminish significantly its decisive

arbitrating role” (Brzezinski, 1997, p. 198). A médio-prazo, fomentar parcerias genuínas com

uma Europa politicamente mais unida, para que seja possível partilhar a liderança da OTAN e

a gestão da expansão da aliança para a orla periférica russa, uma China regionalmente

proeminente, uma Rússia pós-imperial orientada para a Europa e uma democrática e

estabilizadora Índia. Nesta lógica, a Rússia terá que fazer uma escolha quanto à sua

autodefinição, da qual depende o seu papel na Eurásia. Seja qual for essa escolha, “Russia will

remain in charge of the world’s largest single piece of real estate” (p. 202) e, pelas pressões

que advêm disso, terá que modernizar-se internamente se quiser recuperar o seu estatuto ou

até sobreviver no espaço em que se insere. O falhanço dos esforços de alargamento da OTAN

poderia despertar desejos ainda mais ambiciosos da Rússia, pelo que uma relação de

cooperação, sem permitir que a Rússia recupere a sua esfera de influência e efective as suas

ambições, e uma definição clara das prioridades globais dos EUA é o desejável.

Uma Rússia orientada para a Europa e não direccionada para a opção da vertente imperial

seria melhor aceite como regionalmente proeminente e isso seria mais provável se os EUA

enveredassem pelo imperativo de “reinforcing the prevailing geopolitical pluralism in the

post-Soviet space” (Brzezinski, 1997, pp. 202-203), combatendo assim os impulsos imperiais

russos, e percepcionaria o papel dos EUA como um contributo para a estabilidade regional e

para a redução da possibilidade de ocorrência de conflitos. Isto faz com que o apoio político e

económico dado aos recém-independentes Estados da área, a não exclusão da Turquia e da

Índia, o aprofundamento da relação estratégica com a China, através de uma relação próxima

com o Japão e pela integração de um poder que não se tornará para já global, e a diminuição

da hostilidade para com o Irão sejam parte da estratégia norte-americana para a Eurásia.

Assim sendo, o autor propõe um Sistema de Segurança Trans-Eurasiático que abarque a

expansão da OTAN aliada à cooperação estratégica com a Rússia, a China e o Japão e a

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promoção do diálogo com a Organização de Segurança e Cooperação na Europa (OSCE).

Depois, institucionalizar-se-ia um sistema securitário que pela primeira vez abarcaria todo o

continente, para “gradually relieve America of some of its burdens, even while perpetuating

its decisive role as Eurasia’s stabilizer and arbitrator” (Brzezinski, 1997, p. 209).

A longo-prazo, o poder hegemónico é cada vez menos sustentável e cada vez menos

susceptível e incompatível à concentração nas mãos de um único Estado. O “multinational

and exceptional character of American society has made it easier for America to universalize

its hegemony” (Brzezinski, 1997, p. 210) mas o poder norte-americano já começou

sensivelmente a estagnar, e Brzezinski questiona qual será o seu legado, dada a incerteza em

que o mundo passou a viver: o fim da bipolaridade levou à ascensão dos EUA enquanto único

poder global mas fez surgir também, dada a interdependência entre os actores e a emergência

de novos fenómenos globais que exigem respostas globais, a necessidade de multilateralismo.

Os EUA têm, portanto, que propagar “a public understanding of the continuing

importance of American power in shaping a widening framework” (Brzezinski, 1997, p. 214)

para a estabilidade geopolítica, através de um sistema de responsabilidades partilhadas, em

concordância com as actuais realidades da distribuição do poder, que evite a anarquia

internacional e a emergência de um challenger rival. Só assim, de acordo com Brzezinski, os

EUA conseguirão forjar o ambicionado “informal global system that is inherently congenial

to more institutionalized and inclusive global cooperation” (Brzezinski, 1997, p. 215) e

deixar um legado de primeiro, único e último verdadeiro superpoder global.

10. Considerações Críticas

Em suma, a tese de Zbigniew Brzezinski baseia-se numa proposta de contenção da

emergência de um challenger cujo poder se torne equiparável ao dos EUA e que por isso faça

os norte-americanos perderem o seu estatuto ímpar. Para isso, defende o envolvimento dos

EUA em todos os hotspots regionais referidos em cada capítulo da sua obra e o consequente

relacionamento com os players geoestratégicos e pivots geopolíticos no seio dos mesmos e a

gestão, acomodação e conjugação, por parte dos norte-americanos, do mindset geopolítico,

interesses, objectivos, impulsos e ambições de todos eles. Neste sentido, confere uma

importância central à região da Eurásia e ao seu poder continental no período pós-soviético e

a partir daí faz uma análise geopolítica, enquadrada óbvia e evidentemente, dada a sua

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nacionalidade e percurso profissional, no imperialismo norte-americano, que reflecte um

conjunto de imperativos geoestratégicos para a manutenção da posição e poder dos EUA.

“The Grande Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives”

contribui, com a sua componente discursiva, para a “production of knowledge to aid the

practice of statecraft and further the power” dos EUA (Tuathail & Agnew, 1992, p. 192) e,

com a sua componente prática, para a compreensão da importância da análise geopolítica e do

enquadramento da mesma no imperialismo dos EUA para o entendimento da realidade

geoestratégica contemporânea desde o final do século XX até à actualidade. Nesta óptica, a

grande dialéctica evidenciada por Brzezinski localiza-se entre o poder global norte-americano

e o poder pós-imperial russo. As virtualidades da perspectiva concebida pelo autor são, assim,

as que decorrem da sua capacidade de cenarização relativamente ao futuro da dinâmica do

poder no sistema internacional. Esta perspectiva contém, no entanto, vulnerabilidades, que

reflectem fragilidades decorrentes da adopção, por Brzezinski, da visão imperialista

característica dos EUA no contexto da dualidade EUA-Rússia. Além disto, importa, de modo

a complementar a análise realizada pelo autor, esclarecer a influência do discurso na

reconceptualização da Geopolítica, “the study of the spatialization of international politics by

core powers and hegemonic states” (Tuathail & Agnew, 1992, pp. 192), em termos de

aplicação, na percepção dos fenómenos resultantes.

A obra de Brzezinski é essencial para a compreensão, em geral, da ordem internacional

pós-Guerra Fria e, em particular, dos imperativos geoestratégicos para a manutenção da

supremacia imperial norte-americana resultante do fim da bipolaridade. A capacidade de

cenarização do autor faz da sua análise geopolítica uma das mais importantes para o estudo

das temáticas em apreço. Ainda que com algum enviesamento, decorrente da adopção de um

ponto de vista e desta “highly ideological and deeply politicized form of analysis” (Tuathail &

Agnew, 1992, p. 192), a análise de Brzezinski contribui para o principal objectivo de um

exercício desta natureza, e que é a essência do estudo da Geopolítica Aplicada: perceber e

interpretar a dinâmica dos fenómenos geopolíticos observados.

Interceptando o contexto e a conjuntura em que se insere o poder norte-americano, ainda

que assumindo a possibilidade de uma Rússia orientada para a vertente europeia quando

sempre tem sido notório que a Rússia tem intenções de consolidar a sua buffer zone, um

espaço de relativa neutralidade que defende o território russo do avanço expansionista dos

EUA, o autor cumpre os três requisitos de uma correcta e adequada análise geopolítica. Faz

uma análise primordialista em que ressalta os factores que num contexto específico, o período

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pós-Guerra Fria, caracterizam a projecção externa dos EUA no sistema geopolítico mundial e

determinam os seus interesses, faz uma análise funcionalista em que a consideração basilar

nas fronteiras políticas norte-americanas, na sua base civilizacional e no discurso nacional no

exterior contribui para perceber os fenómenos geopolíticos e com isso retirar vantagens

competitivas que levam à obrigatoriedades de adaptação no que toca às prioridades de política

externa e interesses nacionais, e faz uma análise ao grau de incerteza, o grande desafio deste

exercício, em que consegue claramente acomodar a volatilidade dos major players no sistema

internacional de modo a diminuir de forma razoável a ambiguidade e perceber tendências para

acções em prol menos de um futuro possível do que de um futuro desejável.

Quanto aos pressupostos sugeridos pelo autor, enquadram-se na perspectiva imperialista

norte-americana, na medida em que “o fim da guerra fria originou uma tentação ainda maior

de reformular o ambiente internacional à imagem da América” (Kissinger, 2007, p. 703), a

única superpotência desde então, e fez com que a Federação Russa e os Estados ex-satélites

da URSS ficassem “divididos entre a desintegração e um novo imperialismo” (Kissinger,

2007, p. 705). Porém, “o poder tornou-se mais difuso e os assuntos para os quais a força

militar é relevante diminuíram” (p. 703) e “a capacidade de a América usar o poder para

modelar o resto do mundo de facto diminuiu” (p. 706). Estão a emerger outros centros de

poder, todos enunciados por Brzezinski, o que faz daquilo que propôs a melhor postura para

os EUA manterem a preponderância global: a partilha de poderes e a cooptação de

responsabilidades, sempre em linha com os ditames, necessariamente redefinidos, da política

externa norte-americana. Em termos geopolíticos, “a América é uma ilha ao largo da grande

massa continental da Eurásia, cujos recursos e população excedem de longe os dos Estados

Unidos” (p. 709), tentando manter autoridade sobre a sua periferia, mas “a pressão geopolítica

dominante tem sido a tentativa da Rússia para recuperar a sua superioridade em todos os

territórios antes controlados” (p. 711) pela URSS. Logo, deve existir mais diálogo na relação

EUA-Rússia, para “influenciar as atitudes russas e compreender os cálculos russos” (p. 714).

Uma análise da dicotomia EUA-Rússia tem portanto que ser baseada em mais do que uma

resenha das teorias da Geopolítica Clássica. Importa, pois, incluir, no âmbito da Geopolítica

Crítica, a influência e importância do discurso dessas teorizações e das subsequentes

narrativas geopolíticas criadas, que fundamentam as comunidades imaginadas, nas acções e

reacções, nas posturas e projecções de poder, e no próprio determinismo geográfico defendido

pelo autor, que revela que há de facto condições e características inerentes a determinadas

entidades que as tornam atreitas a posturas e cenários específicos. Numa abordagem holística

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ao Estado russo como um dos mais singulares do mundo e aos EUA como um poder único da

História e às suas projecções externas, o discurso surge “as sets of capabilities people have,

as sets of socio-cultural resources used by people in the construction of meaning about their

world and their activities” (Tuathail & Agnew, 1992, pp. 192-193). É através dele que os

líderes actuam e “trough the mobilization of certain simple geographical understandings that

foreign-policy actions are explained” (Tuathail & Agnew, 1992, p. 191).

Concluindo, o certo é que os grandes contendores do período da Guerra Fria não

desapareceram na sua essência e a falta de diálogo russo-americano enunciada por Brzezinski,

e que ainda hoje é evidente, reflecte que o cenário desse período se mantém: as afrontas são

feitas por procuração. A constante defesa acérrima do espaço natural com o qual a Rússia

concebe a sua existência e a vontade de consolidação do “Near Abroad” (fora e perto) e do

“Inner Abroad” (fora mas dentro), a área de influência russa na qual se destaca o peso

específico da Ucrânia, indicam uma “política coerente baseada nos interesses estratégicos

imperiais russos” (Lara, 2013, p. 37) e são vitais para a sua sobrevivência. A subjugação da

Rússia à órbita de poder dos EUA para além de ser improvável criaria desequilíbrios no

sistema internacional. Em contraponto, para a sobrevivência do estatuto dos EUA, impõe-se a

necessidade de alargamento da OTAN, e mais uma vez aqui se insere o valor da Ucrânia.

Dada a natureza complexa e evolutiva do sistema internacional, a cooperação com a

Rússia na implementação de uma geoestratégia para a Eurásia é, tal como Brzezinski previu

nesta obra do final do século XX, fundamental para a manutenção da proeminência global

norte-americana neste início do século XXI. “O fim da política de Blocos, longe de ter trazido

uma sociedade mais segura, produziu a proliferação da incerteza, da insegurança e do medo”

(Lara, 2011, p. 276) e, com a desintegração da URSS, “mudou radicalmente a essência, o

método e, acima de tudo, o alcance das relações internacionais” (Kissinger, 2007, p. 705).

Colocou em destaque a única democracia e Estado não-eurasiático que alguma vez alcançou

hegemonia internacional e que domina a Eurásia: os EUA. Mas manteve esse país, tal como

anteriormente, em contenda com o Estado continental mais poderoso do mundo.

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11. Bibliografia

Livros

BRZEZINSKI, Zbigniew (1997) - The Grand Chessboard: American Primacy and Its

Geostrategic Imperatives. New York: Basic Books.

KISSINGER, Henry (2007) - Diplomacia. Lisboa: Gradiva.

LARA, António de Sousa (2011) - Subversão e Guerra Fria. Lisboa: ISCSP-UTL.

Artigos em publicações periódicas

TUATHAIL, G. Ó. & AGNEW, J. (1992). Geopolitics and discourse: Pratical

geopolitical reasoning in American foreign policy. Political Geography, 11(2),

pp.190-204.

Capítulos em obras colectivas

LARA, António de Sousa (2013) - “8. A Geopolítica da Rússia” em Lara, António de

Sousa (coord.) - A Crise e o Futuro. Pedro Ferreira Editor: Rio de Mouro, pp. 35-39.