Discurso do Presidente da República, Luiz Inácio Lula da ... ?· cerimônia em comemoração ao Dia…

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<p>Presidente da Repblica Federativa do Brasil</p> <p>Palcio Itamaraty - Braslia/DF, 07/05/2009</p> <p>Discurso do Presidente da Repblica, Luiz Incio Lula da Silva, durante cerimnia em comemorao ao Dia do Diplomata </p> <p>Minha querida companheira Marisa,</p> <p>Meu querido companheiro Celso Amorim, ministro das Relaes Exteriores,</p> <p>Embaixatriz Ana Maria Amorim,</p> <p>Embaixador Samuel Pinheiro Guimares, nosso querido secretrio-geral das Relaes Exteriores e paraninfo da turma Villa-Lobos,</p> <p>Embaixador Fernando Reis, diretor-geral do Instituto Rio Branco,</p> <p>Secretrio Marcos Vincius Moreira Marinho, na pessoa de quem cumprimento os formandos da turma Heitor Villa-Lobos,</p> <p>Senhoras e senhores familiares dos formandos,</p> <p>Senhoras e senhores diplomatas,</p> <p>Amigos e amigas,</p> <p>Antes de ler o meu discurso, uma resposta ao Celso. o seguinte: ele nem acabou de preencher as 400 vagas e j reivindicou mais. O dado concreto, Celso, que eu penso que depois dos anos que o nosso pas passou sem crescer economicamente, sem crescer socialmente, depois que o nosso pas durante tanto tempo cedeu ao discurso do Estado mnimo e do mercado mximo, e que as coisas foram se deteriorando neste pas, e depois que a gente comeou a recuperar o papel do Estado - de o pas voltar a crescer, de fazer polticas sociais, de ter mais altivez nas nossas relaes internacionais -, eu no tenho dvida de que duas coisas vo acontecer.</p> <p>Primeiro, eu mesmo tive uma lio importante, que foi a lio de garantir - pelo menos no meu governo ns no mandamos nenhum projeto de lei - que no possvel </p> <p>que a gente no leve em conta o tempo de carreira do embaixador. s vezes, para chegar ao cargo mximo leva 40 anos, 38 anos, as pessoas passam esperando a vida inteira para ter um cargo importante e, quando entra um novo governo, coloca um poltico derrotado no lugar do embaixador. Isso parece fcil, mas eu acho que no tem nada mais importante para valorizar e motivar a carreira do que a gente garantir a fluidez do tempo que as pessoas tm que ocupar os seus cargos. Essa foi uma lio que eu tive, do primeiro para o segundo mandato.</p> <p>A outra coisa que eu no tenho dvida nenhuma de que quem vier, a partir de 2010, com a dinmica da poltica internacional brasileira, as pessoas sabero que preciso contratar mais gente. No precisamos chegar aos 14 mil dos Estados Unidos, at porque ns no queremos ter tanta ingerncia, ns queremos apenas fazer diplomacia. </p> <p>Como j est muito adiantado o horrio e eu criei o projeto Fome Zero, no vou ficar aqui fazendo discurso porque... pblico que nem passarinho novo, a primeira imagem que fica daquele que deu a primeira comida para ele. Se eu fico aqui falando muito tempo, a imagem que vocs vo ter do governo no [ser] a melhor possvel. </p> <p>Eu queria dizer para vocs algumas coisas. Eu no vou ler o meu discurso porque ele est um pouco... o Celso j falou. Acho que a mesma pessoa que escreveu o teu, escreveu o meu. Outras coisas o Samuel j falou de improviso. Eu queria dizer, sobretudo, a vocs jovens que esto se formando hoje. Certamente, vocs tero no futuro muito mais trabalho do que os nossos diplomatas tm no presente e do que muitos tiveram no passado, eu diria, mais recente tambm. </p> <p>Em poltica tem uma coisa que o Brasil fez [durante] muito tempo, depois o Brasil desaprendeu, e o Brasil est aprendendo: que no possvel nenhum interlocutor ser respeitado, se ele no se respeita. O tempo em que um diplomata brasileiro achava que o Brasil no poderia participar de nada, porque o Brasil era pequeno, porque o Brasil no tinha insero na economia, isso acabou. A gente no tem importncia pela quantidade de dinheiro que a gente tem, a gente no tem importncia pela quantidade de bombas atmicas que a gente tem, a gente no tem importncia apenas pela quantidade de conhecimento tecnolgico que ns temos. A gente tem importncia pelo nosso comportamento e, sobretudo, pelos nossos objetivos.</p> <p>Se ns traamos um objetivo, na nossa vida e na vida de um pas, de conquistar espaos polticos, ns sabemos que preciso trabalhar, abrir espaos, porque em poltica ningum d espao de graa para ningum. No esperem benevolncia, no esperem que algum v ter reconhecimento sobre vocs, se vocs no fizerem por merecer. </p> <p>E eu acho que esse o momento que o Brasil vive. Eu posso dizer a vocs que quanto mais o Brasil tiver importncia no cenrio poltico mundial, mais humildade vocs precisam ter. A arrogncia estar falida na diplomacia de um pas como o Brasil, at porque no faz parte da nossa ndole, no faz parte das caractersticas do povo brasileiro a arrogncia - se bem que temos - ns tambm no somos imunes. </p> <p>Mas o grande trabalho que vocs tero pela frente o trabalho de consolidar o que ns comeamos a fazer. No pensem que foi fcil recuperar o Mercosul, no pensem que foi fcil a gente derrotar a idia da rea de Livre Comrcio, a Alca, que os Estados Unidos queriam impor ao Brasil na dcada de 90. No pensem que foi fcil construir a Unasul, no pensem que foi fcil a gente fazer muitas das coisas que ns queramos fazer.</p> <p>Eu vou contar um dado para vocs, sem nenhuma arrogncia, [sobre] o G-8 do ano passado. Eu fui a Berlim no ano retrasado. Quando ns tivemos uma reunio do G-5 (China, ndia, Brasil, [Mxico] e frica do Sul) ns aprovamos um documento. Chegamos em Berlim, ns fomos para a mesa e eu fui o orador do G-5. Entreguei o documento para a Angela Merkel e ela concordou com o meu documento: "No, o G-8 aceita o seu documento". Eu disse: minha querida, o teu documento antagnico ao meu, como que voc aceita o meu assim? Ou seja, eles no falam a mesma lngua. [Eu disse]: vocs esto dizendo uma coisa e ns estamos dizendo outra. A eu comuniquei que eu no iria mais ao G-8. um cafezinho muito caro. Pegar um avio daqui para Berlim para fazer aquela reunio que a gente fazia... Sempre importante, porque tem uma relao de conhecimento, voc sempre conversa com algum. Mas o dado importante que eu disse que no ia mais, comuniquei ao Celso que no ia mais, que no dava para fazer uma reunio, digo, uma viagem de 12 horas para chegar l, ficar 10 minutos em uma reunio [em que] eles j tinham decidido tudo, j tinham elaborado tudo. Eles podem continuar fazendo a reunio deles, mas eu no sou obrigado a ir.</p> <p>Bem, a partir desse momento - tnhamos combinado isso com a ndia, que tambm disse que no iria mais; com a China, que tambm disse que no iria mais - a partir da, o G-8 comeou a mudar, e j comeou a se fazer o discurso de que no tinha mais nenhuma razo de ter G-8, era preciso ter G-13 ou G-14. De vez em quando eles arrumam um pas a mais para colocar, e como ns somos como corao de me, quanto mais arrumar, mais a gente aceita, vai colocando... Ns no temos preconceito de entrarem mais pases. O dado concreto que o G-8 j no mais G-8, o G-13 no mais G-13, o G-14 no mais G-14.</p> <p>O dado concreto, depois da reunio de Londres, do G-20, que o que ficou configurado de articulao poltica mundial que pode decidir, em momentos de crise, exatamente o G-20. Vejam que ns demos um passo extremamente importante. Eu ouvi um discurso do Obama, Celso, que me chamou a ateno, l, em uma das reunies. Ele disse o seguinte: "antigamente era fcil tomar decises em polticas internacionais. Por exemplo, Roosevelt e Churchill se sentavam em torno de uma mesa, tomando uma bebida quente, e tomavam decises para o mundo inteiro". Hoje, no mais assim. Hoje ns temos que saber a diversidade de pases importantes que tem, a diversidade de pases que tm importncia econmica, tecnolgica, militar, diplomtica. O mundo est muito mais complicado do que naquele tempo. Portanto, preciso mais pacincia, mais perseverana e mais vontade de fazer as coisas para que elas aconteam.</p> <p>Eu me lembro que quando ns entramos aqui, ns tnhamos muito mais animosidade histrica com a Argentina, do que animosidade na prtica. Era muito preconceito contra algumas coisas. Contra a Amrica do Sul, contra a Amrica Latina, contra pases pequenos, muito preconceito contra a frica. A nossa cabea raciocina onde os nossos ps pisam. Se um de vocs, recm-formado, for trabalhar em </p> <p>Moambique, daqui a oito meses quando vocs vierem fazer a primeira visita ao Itamaraty, vocs estaro falando exatamente a linguagem do povo de Moambique, aquilo que eles pensam. Vocs estaro vendo o mundo, mais ou menos, de onde eles vem o mundo. Mas se vocs forem para Paris vocs estaro vendo tambm, de l, o restante do mundo. Essa compreenso de que a cabea pensa onde os nossos ps pisam no pode valer para a diplomacia brasileira. A nossa cabea tem que ser mais ampla, mais arejada, e saber que poucos pases do mundo tm a insero que ns poderemos ter, pela simpatia que tem. E vamos reconhecer aqui: uma coisa pela competncia do Itamaraty, uma coisa pelo centro de excelncia que o Itamaraty. Mas as pessoas j vem o Brasil com simpatia pelo futebol. Cada jogador desses, famoso no mundo, virou um representante do Brasil em parte do mundo. Ns somos conhecidos pelo samba, os nossos mulatos e as nossas mulatas j so um pouco da cara da gente. As pessoas vem a gente com essa leveza que no vem um americano, que no vem um russo, que no vem um chins. Essa uma vantagem comparativa do Brasil, no meu modo de ver. Juntando tudo isso competncia do [Instituto] Rio Branco, ns ento viramos esse centro de excelncia que ns somos hoje no mundo.</p> <p>Eu, como leigo, posso dizer para vocs que poucas vezes eu vi diplomacia to respeitada e admirada quanto a brasileira, elogiada em qualquer pas do mundo. E no falo isso agora porque sou presidente, no. Eu e o Marco Aurlio viajamos muito, e essa a vantagem de quem perde muitas eleies para presidente, e eu perdi trs. Eu viajava muito o mundo e em cada lugar que ns chegvamos o Brasil era elogiado pela excelncia da nossa diplomacia. Se a gente juntar essa excelncia de conhecimento terico da nossa diplomacia com o forte contedo poltico - eu no vou contar aqui a pergunta que se fazia para alguns alunos, no. Eu vou... se tem pistolo? No vou contar isso aqui porque tem jornalista a. </p> <p>Eu acho que ns vivemos um momento de ouro. Obviamente que todos ns ficamos lisonjeados com a quantidade de elogios. Eu acho que o Brasil, nesses ltimos 45 dias, teve mais artigos escritos favoravelmente ao Brasil no mundo inteiro, do que nos ltimos 100 anos. Como eu no leio em ingls... mas eu j no aguento mais receber a Newsweek, j no aguento mais... Agora, prestem ateno: se algum diplomata brasileiro achar que porque o El Pas, o Le Monde, o New York Times e tantas outras "times" por a esto falando bem da gente, [isso] motivo de a gente ficar presunoso, tome cuidado porque a gente quebra a cara. A gente tambm no pode trabalhar com a iluso dos elogios. Por conta de elogios, um homem levou um imprio decadncia total, que foi o nosso amigo Gorbachev, que saa todo dia na imprensa brasileira, na primeira pgina. Eu j conhecia mais a mancha da testa dele do que o Marco Aurlio Garcia, porque era Folha, era Estado, era Globo, era em todo jornal do mundo. [Quando] voc comea a acreditar muito nisso e para de olhar o teu cho, voc comea a fazer poltica a partir dos elogios e esquece a realidade. A o caminho do fracasso.</p> <p>Ento, eu queria dizer para vocs, para terminar, que vocs esto comeando, possivelmente, uma das carreiras mais brilhantes que um ser humano quer trilhar. Ou seja, a carreira de um homem, de uma mulher, que aceita a responsabilidade de morar nem sempre em lugar confortvel, nem sempre em pases que tm todas as condies do mundo. Eu conheo o nosso pessoal de pases africanos, e eu sei que a situao muito delicada, sei. Mas esse um aprendizado tambm, e uma coisa extraordinria que ajuda na formao do carter e da qualidade do diplomata brasileiro. Se todo mundo quiser ir s </p> <p>para Paris, s para Londres, s para... a, no tem espao para todo mundo.</p> <p> preciso que haja essa compreenso de que ns vamos abrir mais embaixadas, de que ns vamos ter mais funcionrios, de que ns vamos ter mais insero no mundo, e muito disso vai depender do trabalho de vocs. Eu no tenho dvida nenhuma de que eu tenho hoje, depois de conhecer esta Casa um pouco mais, depois de conviver com tanta gente extraordinria, eu no tenho dvida de dizer para vocs que vocs entraram em uma das carreiras mais brilhantes que este pas tem, e entraram em uma Casa que um centro de excelncia, no apenas de competncia profissional mas, sobretudo, de responsabilidade em defesa da soberania do nosso pas.</p> <p>Por isso, eu quero desejar a todos vocs toda a sorte do mundo. Aos familiares, que tenham pacincia, porque muitas vezes vo ficar meses sem ver o filho, meses sem ver a filha. Eles vo logo, logo, se engajar, porque agora acabou aquela moleza do cidado se formar e ficar aqui o tempo inteiro porque no tinha para onde ir. Porque se no tinha embaixada, voc ia mandar para onde? A nossa ideia de abrir mais embaixadas para que a carreira de vocs possa fluir com muito mais rapidez e para que a gente possa ganhar, enquanto nao, cada vez mais respeitabilidade no mundo.</p> <p>Que Deus abenoe todos vocs.</p> <p>Um abrao.</p>