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O CORDEL COMO LINGUAGEM

uma proposta terica no campo da Comunicao

Maria Gislene Carvalho Fonseca

RESUMO

A proposta desse trabalho discutir a pertinncia dos estudos sobre a linguagem de cordel no campo da Comunicao. Para isso, esta reflexo est estruturada a partir da Teoria da Enunciao de Bakhtin (2011), que entende que os dilogos culturais so fundamentais para a compreenso dos enunciados e que, para seu entendimento, necessrio avaliar todo o contexto da enunciao. O cordel tratado aqui como uma linguagem potica, uma forma de interpretar e ressignificar a realidade cotidiana. Trata-se de um trabalho de reviso conceitual realizado atravs de reviso bibliogrfica. Deste modo, articulamos o conceito de interao para Braga (2011) ao de interao verbal de Bakhtin (2011) e refletimos sobre as disputas ideolgicas manifestas na linguagem do cordel a partir de Hall (2013).

Palavras-chave: Cordel; Comunicao; Interao; Linguagem.

CORDEL AS LANGUAGE

a theoretical proposal of communication

ABSTRACT

The purpose of this paper is to discuss the relevance of studies about cordel's language in the communication. For this, this reflection is structured from the Theory of Enunciation of Bakhtin (2011), who understands that cultural dialogue is fundamental to understanding the statements and that is necessary to evaluate the whole context of enunciation. The string is treated here as a poetic language, a way to interpret and give new meaning to everyday reality. It is a conceptual review of work done through literature review. Thus articulated the concept of interaction to Braga (2011) to the verbal interaction Bakhtin (2011) and reflect on the ideological disputes manifest in the language of string from Hall (2013).

KEYWORDS: Cordel; Communication; Interaction; Language.

Introduo

O cordel uma manifestao cultural comum no Nordeste brasileiro, encontrado tambm em outras regies do Pas, e que tem correspondentes em outras partes do mundo, como na Argentina, no Chile, em Portugal, na Espanha, na Frana, na Alemanha etc. possvel encontrarmos nos folhetos romances, homenagens, histrias cmicas, histrias fantsticas, publicidade, notcias, crticas sociais e tantos outros temas que muitas vezes aparecem juntos compondo um mesmo folheto.

A proposta desse trabalho discutir a pertinncia dos estudos sobre a linguagem de cordel no campo da Comunicao. Para isso, esta reflexo est estruturada a partir da Teoria da Enunciao de Bakhtin (2011), que entende que os dilogos culturais so fundamentais para a compreenso dos enunciados e que, para seu entendimento, necessrio avaliar todo o contexto da enunciao.

O cordel tratado aqui como uma linguagem potica, uma forma de interpretar e ressignificar a realidade cotidiana. Como uma manifestao cultural, sua compreenso passa pelos dilogos entre diversas disciplinas como Literatura, Histria, Antropologia e tambm pela Comunicao, que nosso foco aqui. tratado como linguagem, pois no estaremos detidos ao suporte, ainda que consideremos suas especificidades, em que os versos so apresentados, mas prpria poesia, seja em folheto, seja em texto nas redes sociais, seja em produes audiovisuais que nos permitem explorar a oralidade e a performance da poesia.

A ideia apresentar a poesia de cordel, suas caractersticas, suas estruturas e seus usos a partir da diversidade de materialidades e de contedos identificados nos versos, situando a pertinncia do objeto e apontado formas possveis de estud-lo na Comunicao a partir de uma reflexo terica sobre linguagem, ideologia e cultura, partindo da ideia do cordel como um dispositivo interacional.

1. Pesquisar cordel na comunicao

Pesquisar o cordel na Comunicao um desafio cujos caminhos passam por uma questo chave: o que seria um objeto da Comunicao? Para refletir sobre formas de responder a isso, Braga (2011) nos serve como referncia ao trazer a necessidade de se discutir o campo da Comunicao, que marcado pela interdisciplinaridade, mas que situa um ngulo especfico de olhar para a sociedade e, portanto, para os objetos. a especificidade no olhar para o cordel que nos permite estud-lo na Comunicao.

Braga (2011) aponta que a definio do problema de pesquisa pode auxiliar na definio do campo trabalhado. No caso do cordel, necessrio problematiz-lo no campo da Comunicao. Uma das formas que isso pode ser feito ao refletir sobre o processo de interao entre os sujeitos a partir do uso da poesia como linguagem, observando aspectos simblicos que nos conduzem a uma discusso em torno das prticas culturais que o constituem, atentando para superar uma "disjuno" entre mdia e interao (p. 70).

O cordel um objeto que, como tantos outros, pode ser compreendido a partir de diversos campos do conhecimento como a Lingustica, a Literatura, a Histria, a Sociologia, a Filosofia etc. Tem abordagens que "ainda que transversais a vrios campos, estes diversos temas so facilmente subsumidos ao ngulo de interesse de cada disciplina. No dilogo entre uma disciplina e outra, so essas angulaes especficas que so cotejadas para ampliar o enfoque." (BRAGA, 2011, p. 64) Cabe aqui definirmos o nosso ngulo ao refletirmos sobre o cordel.

Na Comunicao, olhamos para o cordel como um dispositivo, a partir das definies de Agambem (2005, p. 13), ou seja, "qualquer coisa que tenha, de algum modo, a capacidade de capturar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opinies e os discursos dos seres viventes". Este dispositivo interacional, ou seja,

um "lugar epistmico de ocorrncia dos episdios comunicacionais, em que os diversos elementos sociais, heterogneos, se articulam e tensionam, segundo determinados sistemas de relaes, em funo mesmo dos objetivos comunicacionais da sociedade e seus setores. (BRAGA, 2011, p. 76)

A centralidade da mdia, da midiatizao ou, mais especificamente, do cordel como mdia poderia ser tratada aqui como mais uma das formas de estud-lo na comunicao. Mas nossa proposta aqui est focada na linguagem. De todo modo, trata-se de uma linguagem especfica de um produto miditico, a linguagem que estabelece um elo de ligao entre indivduos postos em dilogo, ou seja, um elemento da interao. a linguagem que dota a interao de sentidos.

Compreendendo que o que define o campo de conhecimento pertinente a determinado estudo no o tema, mas a abordagem da pesquisa, como, ento, devemos olhar para o cordel? A princpio, temos que, como objeto miditico, o cordel pode ser um objeto da Comunicao. Mas, alm disso, nossa abordagem a partir da linguagem e, portanto, em dilogo com a Lingustica, diz respeito a um momento especfico do processo interativo do cordel como forma de interao social, que o lugar do texto. Sabemos, ainda, que a comunicao um processo e assim no podemos isolar seus momentos como estanques. O que realizamos aqui uma nfase sobre uma parte do processo como estratgia metodolgica e conceitual, assim como demos nfase comunicao como um dos diversos elementos que constitui uma sociedade a partir de um referencial terico, visto que no conseguimos dar conta de toda a interao possibilitada pelos usos da poesia de cordel.

Com foco na linguagem do cordel, neste trabalho, ento, faz-se necessrio atentarmos para o dilogo possvel entre a comunicao e a lingustica, percebendo as articulaes tericas e analticas, mas sem esquecermos do nosso objetivo fundamental que de, ao tratarmos a poesia de cordel como linguagem, reconhecermos seus traos e caractersticas como parte de uma interao social, dando nfase a perspectiva dos dilogos culturais que o constituem como linguagem.

Segundo Braga (2011, p. 65), precisamos deste modo compreender "o que h de propriamente conversacional e de troca (simblica e de prticas interativas) nas diversas instncias e situaes da vida social". Assim, podemos olhar para nosso objeto com um enfoque comunicacional. Porque ele constitui uma forma de mediao no dilogo em que "a sociedade conversa com a sociedade" (p. 66) a partir da poesia, havendo trocas comunicacionais, seja em folhetos noticiosos, seja naqueles que se propem romances. Porque, de toda forma, h dilogo entre poetas e leitores/ouvintes desde a concepo oral em que o processo de criao leva em considerao uma imagem que o poeta tem de seu pblico e dos provveis interesses de contedo que tm. Trata-se da forma como o cordelista conversa com seu pblico. E essa conversa se d por uma linguagem potica. E diante do cordel pronto, novos dilogos se tornam possveis a partir de novas interaes tambm entre poeta e pblico.

Mas esta conversao no precisa necessariamente de uma resposta imediata, como defende Braga (2011) ao definir interao como

processos simblicos e prticos que, organizando trocas entre os seres humanos, viabilizam as diversas aes e objetivos em que se veem engajados (por exemplo, de rea poltica, educacional, econmica, criativa, ou esttica) e toda e qualquer atuao que solicita co-participao. Mas tambm o que decorre do esforo humano de enfrentar as injunes do mundo e de desenvolver aquelas atuaes para seus objetivos o prprio estar em contato, quer seja solidrio quer conflitivo e provavelmente com dosagens variadas de ambos; por coordenao de esforos ou por competio ou dominao. (BRAGA, 2011, p. 66)

Se, para Braga (2012, p. 26), "as interaes sociais so o lugar de ocorrncia da comunicao" e consideramos o cordel como dispositivo interacional, podemos olhar para a interao a partir da linguagem. Na poesia como dispositivo, temos um ambiente comunicacional que abriga contedos e relaes sociais. Produz sentidos desde sua materialidade e coloca em relao indivduos distintos, interligando suas conscincias por meio da linguagem. Como dispositivo interacional, que, elaborados na prtica social, viabilizam interaes e so por elas tensionadas (p. 27), o cordel tratado como objeto