dermeval saviani - sobre a concepção de politecnia

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Ministrio da Sade Fundao Oswaldo Cruz Politcnico da Sade Joaquim Venncio

SOBRE A CONCEPO DE POLITECNIA (*)Dermeval Saviani (**)

(*)

Apresentado durante os trabalhos do "Seminrio Choque Terico", realiza do no Politcnico da Sade Joaquim Venncio, da Fundao Oswaldo Cruz, nos dias 2, 3 e 4 de dezembro de 1987.

(**) Professor Titular da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP).

Rio de Janeiro, 1989

Ministro da SadeSeigo Tsuzuki

APRESENTAO

Presidente da Fundao Oswaldo CruzAkira Homma

Vice-Presidente de EnsinoLuiz Fernando R. Ferreira

Diretor do Politcnico da SadeAntenor Amncio Filho

Politcnico da Sade Joaquim Venncio Av. Brasil, 4.365 - Manguinhos 21.040 - RIO DE JANEIRO, RJ - BRASIL Tel. (021) 230-1565

Saviani, Dermeval Sobre a concepo de politecnia/Dermeval Saviani. Rio de Janei ro: FIOCRUZ. Politcnico da Sade Joaquim Venncio, 1989. 51p. cm. Trabalho apresentado durante o "Seminrio Choque Terico", reali zado no Politcnico da Sade Joaquim Venncio, FIOCRUZ, nos dias 2, 3 e 4 de dezembro de 1987. 1. Politecnia-Concepo 2. Educao politcnica Seminrio - Poli tcnico da Sade Joaquim Venncio I. Ttulo. CDU 370.12061 370.115 370.118 370.19

O Politcnico da Sade Joaquim Venncio, Unidade Tcnico Cientfica da Fundao Oswaldo Cruz criada no final de 1985, respon de por atividades de ensino, pesquisa e extenso, direcionadas para pessoal de nvel elementar e mdio na rea da sade. Tem suas aes implementadas na perspectiva de uma formao politcnica, pela qual se busca propiciar ao educando a aquisio dos conhecimen tos tcnico-operacionais e dos fundamentos cientficos e filosficos que orientam determinada modalidade de trabalho. Com essa concepo e em um processo de articulao entre os setores educao e sade, o Politcnico dedica-se elaborao e execuo de programas e projetos com o objetivo de formar, aperfei oar, qualificar e treinar pessoal que atua ou venha a atuar na rea da sade. Para se alcanar essa clareza de propsitos e unidade de pensamento, no sentido de que as aes do Politcnico reflitam em sua prtica tal proposio a nvel do conjunto do seu corpo funcional, desenvolveu-se no interior da Unidade uma srie de estudos, debates e reflexes. Para aprofundar questes que possibilitassem o surgimento desse eixo comum de pensamento e, conseqentemente, de ao, no decorrer de 1987 essas reunies foram intensificadas. Iniciativa de fundamental importncia para que, de maneira coletiva, fossem ques tionadas e mais claramente estabelecidas as diretrizes da Unidade, sua rea de atuao, sua insero com as demais Unidades da FIO CRUZ e, principalmente, a reafirmao da politecnia como o referen cial terico norteador das aes do Politcnico da Sade. Nesse clima e estando em andamento a adoo das medidas necessrias implantao do Curso Tcnico de 2 Grau, de carter regular, com habilitaes especficas do setor sade e utilizao do po tencial da Fundao Oswaldo Cruz como um todo, foi realizado no fi nal de 1987 um Seminrio denominado Choque Terico. Como subsdio ao Seminrio, ocorrido nos dias 2, 3 e 4 de de zembro, foi elaborado e previamente distribudo entre participantes e expositores, um documento-base intitulado Escola Politcnica de Sade: uma utopia em construo, apontando as questes centrais para discusso. O evento possibilitou um amplo debate entre os pro

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fissionais do Politcnico e especialistas da rea de educao sobre a proposta especfica do Curso Tcnico e, de forma mais abrangente, a discusso e anlise quanto ao papel a ser desempenhado pelo Poli tcnico no contexto da educao e da sade. A abordagem consisten te de temas como filosofias educacionais, metodologias de ensino, ei xos curriculares, relao professor aluno, educao e trabalho e, fun damentalmente, a concepo de educao politcnica como forma de possibilitar ao homem o exerccio de uma profisso como condio de humanizao e de transformao social, fizeram do Seminrio marco histrico na existncia do Politcnico da Sade. Junto com o Professor Dermeval Saviani (UNICAMP), cujo tex to da conferncia pronunciada na ocasio, bem como o contedo do de bate por ele mantido com os participantes do Seminrio, ora temos imensa satisfao em trazer a pblico, atuaram ainda como exposito res as Professoras Miriam Jorge Warde (PUC/SP), Nilda Alves (UFF), e Zaia Brando (PUC/RJ), cujos trabalhos, nos moldes deste, esperamos poder trazer a lume em breve. Importante mencionar que a realizao do Seminrio deveuse, e muito, ao apoio e incentivo do ento Presidente da FIOCRUZ, Professor Antnio Srgio Arouca e dos Professores Luiz Fernando Fer reira e Arlindo Fbio Gmez de Sousa, respectivamente Vice-Presidentes de Ensino e de Desenvolvimento da instituio, companheiros nos sos de longa data e de inmeras lutas comuns. Registramos aqui nossos agradecimentos aos expositores, nosso reconhecimento ao Professor Gaudncio Frigotto (UFF/FGV), pela introduo e anlise crtica dos temas abordados e ao Professor Joaquim Alberto Cardoso de Melo (ENSP/FIOCRUZ), pelo apoio me todolgico dado ao Seminrio. Imprescindvel ainda, para realizao do evento, o trabalho de organizao, resultado de idealismo e persistn cia, desenvolvido por Bianca Antunes Cortes, Jlio Cesar Frana Lima, Andr Malho e Tirza Barbosa, profissionais do Politcnico a quem atribumos, de maneira muito especial, o xito do Seminrio Choque Terico. Antenor Amncio FilhoDiretor do Politcnico da Sade Joaquim Venncio

SOBRE A CONCEPO DE POLITECNIA

Lendo o documento Utopia em Construo, que serve de refe rencial a este Seminrio, fiquei entusiasmado com a proposta de ins taurar uma atividade na perspectiva da politecnia, porque se trata de uma experincia que promete oferecer subsdios para se repensar a di reo do sistema de ensino no Pas. Isso, claro, traz alguns compli cadores, pois trata-se de articular o presente com o futuro formulando uma proposta no interior de um sistema de ensino cuja ordenao no corresponde exatamente ao esprito dessa proposta. De qualquer for ma, me parece que esse o movimento do real. Temos que, a partir das condies existentes, encontrar os caminhos para a superao dos limites do existente. Isso vale, tambm, para a questo legal. Quando participamos da elaborao de um parecer para o Sistema de Ensino de So Paulo, indagvamos se fazia sentido efetuar alguma reformu lao s vsperas de uma nova Lei de Diretrizes e Bases. Ento, havia a possibilidade de se fazer apenas adaptaes secundrias e aguardar a nova Legislao para ter novas normas que efetuassem modifica es substantivas. Se adotssemos essa atitude, era possvel que a nova Legislao no avanasse o quanto poderia avanar se ns nos antecipssemos a ela. Nesse sentido que consideramos ser impor tante fazer propostas, e implantar j medidas que apontam para uma nova situao, porque luz destas propostas e da experincia da decorrente que se pode incorporar Legislao Geral do Ensino no pas medidas mais consistentes e mais avanadas. , tambm, nesse sentido que vejo a experincia do Politcnico da Sade. Claro que en quanto ela se implantar a partir da Legislao existente, ter que fazer alguns ajustes, levando em conta as normas existentes. Mas medida em que ela avana, pode ser um patamar, uma base para que a nova Legislao, em vias de ser elaborada no prximo ano, j incor pore esses avanos e nos liberte das amarras que a atual nos impe. De incio penso que talvez pudesse dar alguma contribuio re tomando a concepo bsica de Politecnia, porque me parece funda mental que isso esteja suficientemente claro para que possamos to mar as medidas mais prticas relativas organizao curricular. A no o de politecnia deriva basicamente da problemtica do trabalho, Pa rece-me importante considerar que o nosso ponto de referncia a noo de trabalho, o conceito e o fato do trabalho como princpio edu cativo geral. Toda a educao organizada se d a partir do conceito e do fato do trabalho, portanto, do entendimento e da realidade do tra balho. Nesse sentido possvel perceber que, na verdade, toda a Edu

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cao e, por conseqncia, toda a organizao escolar, tem por funda mento a questo do trabalho. E por que isso? Porque basicamente so aquelas noes gerais que costumamos encontrar nos enunciados re lativos Educao: que a Educao diz respeito ao homem, que o pa pel da Educao a formao do homem, e assim por diante. Na ver dade ficamos com esses enunciados num plano muito genrico e abs trato, porque, via de regra, no nos colocamos a questo o que o homem. O que define a existncia humana, o que caracteriza a reali dade humana exatamente o trabalho. O homem se constitui como tal, medida em que necessita produzir continuamente a sua prpria existncia. isso que diferencia o homem dos animais: os animais tm sua existncia garantida pela natureza e, por conseqncia, eles se adaptam natureza; o homem tem que fazer o contrrio, ele se constitui no momento em que necessita adaptar a natureza a si, no sendo mais suficiente adaptar-se natureza. Ajustar a natureza s ne cessidades, s finalidades humanas, o que feito atravs do traba lho. Trabalhar no outra coisa seno agir sobre a natureza e trans form-la. Ora, essa ao sobre a natureza, que a transforma, uma ao guiada por objetivos. Este outro elemento diferenciador da ao hu mana, que trabalho, das demais aes que no so trabalho. Os animais tambm agem, tambm exercem uma atividade, mas essas atividades no so guiadas por objetivos, isto , eles no antecipam mentalmente o que vo fazer, ao passo que o homem antecipa mentalmente o que vai realizar. No incio do quinto captulo do Livro Um d0 Capital, Marx, tratando do processo de trabalho em geral, dis tingue o pior dos arquitetos da mais hbil das abelhas pelo fato do ar quiteto antecipar mentalmente o que ir realizar, ao passo que a abe lha realiza uma ao por instinto. Se o trabalho que constitui a realidade humana, e se a forma o do homem est centrada no trabalho, isto , no processo pelo qual o homem produz a sua existncia, tambm o trabalho que define a exist

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