da representação dos corpos celestes. pedro marques de ... · pdf...

of 14/14
135 Gaudium Sciendi, Nº 5, Dezembro 2013 Pedro Marques de Abreu Faculdade de Arquitectura Universidade de Lisboa Da Representação dos Corpos Celestes. Arte e Ciências do Observatório Astronómico de Lisboa 1 Observatório Astronómico de Lisboa no ínício do século XX (fotografia de autor desconhecido, arquivo OAL) >DeSiderium> Que fazes tu no céu, ó lua, diz-me o que fazes, silenciosa lua? Ergues-te à noite e caminhas, contemplando os desertos; em seguida repousas. Não estás cansada ainda de percorrer os mesmos eternos caminhos? Não te enfadaste ainda, ainda te apetece olhar estes vales? Com a tua vida se parece 1 Arquitecto pela Faculdade de Arquitectura Universidade Técnica de Lisboa (1990), Mestre em "Reabilitação da Arquitectura e Núcleos Urbanos" (1997), e doutorado em Teoria da Arquitectura (2007), também na FAUTL. É actualmente Professor Auxiliar da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa (ex-UTL), onde lecciona disciplinas do âmbito da Teoria da Arquitectura aos alunos de Mestrado Integrado e Doutoramento. Desenvolve investigação sobretudo em Teoria da Arquitectura (Fenomenologia e Hermenêutica da Arquitectura) e Teoria do Restauro Arquitectónico (áreas em que tem vários artigos publicados). É responsável pelo Curso de Especialização em "Arquitectura de igrejas" da Faculdade de Arquitectura. Integra a Direcção da Academia de Escolas de Arquitectura dos Países de Língua Portuguesa (AEAULP). Participou em vários projectos de investigação, nomeadamente o projecto FCT 2002 "Fundamentação e Critérios para a Musealização do Observatório Astronómico de Lisboa", que forneceu o material para o presente artigo.

Post on 05-Mar-2018

214 views

Category:

Documents

1 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • 135 Gaudium Sciendi, N 5, Dezembro 2013

    Pedro Marques de Abreu Faculdade de Arquitectura Universidade de Lisboa

    Da Representao dos Corpos Celestes.

    Arte e Cincias do Observatrio

    Astronmico de Lisboa

    1

    Observatrio Astronmico de Lisboa no ncio do sculo XX

    (fotografia de autor desconhecido, arquivo OAL)

    >DeSiderium>

    Que fazes tu no cu, lua, diz-me o que fazes,

    silenciosa lua?

    Ergues-te noite e caminhas,

    contemplando os desertos; em seguida repousas.

    No ests cansada ainda

    de percorrer os mesmos eternos caminhos?

    No te enfadaste ainda, ainda te apetece

    olhar estes vales?

    Com a tua vida se parece

    1 Arquitecto pela Faculdade de Arquitectura Universidade Tcnica de Lisboa (1990), Mestre em "Reabilitao da Arquitectura e Ncleos Urbanos" (1997), e doutorado em Teoria da Arquitectura (2007), tambm na FAUTL. actualmente Professor Auxiliar da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa (ex-UTL), onde lecciona disciplinas do mbito da Teoria da Arquitectura aos alunos de Mestrado Integrado e Doutoramento. Desenvolve investigao sobretudo em Teoria da Arquitectura (Fenomenologia e Hermenutica da Arquitectura) e Teoria do Restauro Arquitectnico (reas em que tem vrios artigos publicados). responsvel pelo Curso de Especializao em "Arquitectura de igrejas" da Faculdade de Arquitectura. Integra a Direco da Academia de Escolas de Arquitectura dos Pases de Lngua Portuguesa (AEAULP). Participou em vrios projectos de investigao, nomeadamente o projecto FCT 2002 "Fundamentao e Critrios para a Musealizao do Observatrio Astronmico de Lisboa", que forneceu o material para o presente artigo.

  • 136 Gaudium Sciendi, N 5, Dezembro 2013

    Pedro Marques de Abreu Faculdade de Arquitectura Universidade de Lisboa

    Da Representao dos Corpos Celestes.

    Arte e Cincias do Observatrio

    Astronmico de Lisboa

    a vida do pastor.

    Ergue-se aos primeiros alvores;

    conduz o rebanho pela plancie e v

    rebanhos, fontes e ervas;

    depois, cansado, deita-se quando a noite chega:

    mais nada espera.

    Diz-me, lua: de que serve

    ao pastor a sua vida,

    a vs a vossa vida? Diz-me: onde leva

    esta minha errncia breve,

    o teu curso imortal?

    [...]

    Muitas vezes, quando te vejo

    assim muda sobre a plancie deserta

    que em seu crculo distante com o cu confina;

    ou conduzindo o meu rebanho

    me segues passo a passo,

    e quando as estrelas vejo arder no cu,

    digo entre mim, pensando:

    para qu tantas luzes?

    O que faz o espao infinito e o profundo

    Cu sereno? Que significa

    esta solido imensa? E eu, que sou? 2

    esejo: do latim, de-siderium, proveniente ou cado do cu 3. Assim se explica

    como a Poesia, a Arte e, no fundo, todas as iniciativas intrinsecamente

    humanas enquanto dependentes desta procura de cu ou de ideal

    estejam correlacionadas com o espao sideral.

    Desde sempre a contemplao dos astros suscitou no homem a pergunta sobre si

    mesmo e sobre o seu destino (como bem o atesta o poema de Leopardi transcrito). Na solido

    da noite noite em que trabalham os astrnomos e os poetas o relampejar luminoso

    daqueles pequenos corpsculos que povoam o cu parece ser a companhia e o lenitivo

    sustentculo para o corao inquieto do homem: para o corao a quem a simples

    materialidade das coisas no satisfaz, para quem a resoluo das urgncias dos instintos no

    suficiente. Desse flamejar rutilante escapa uma sensao de mistrio, sensao que, no fundo,

    2 Giacomo Leopardi Canto nocturno de um pastor errante da sia. In G. Leopardi Cantos (Traduo

    Albano Martins). Lisboa: Vega, s.d. 3 Desiderium, derivado mediatamente de sidus, por provvel influncia de considero, de tal modo que,

    enquanto este significa examinar, desidero significa deixar de ver, verificar a ausncia de e, a partir da, lamentar a ausncia, procurar, desejar (A. Ernout e A. Meillet Dictionaire tymologique de la Langue Latine (4 edio). Paris: Klincksieck, 1985; sub voce sidus, eris).

    D

  • 137 Gaudium Sciendi, N 5, Dezembro 2013

    Pedro Marques de Abreu Faculdade de Arquitectura Universidade de Lisboa

    Da Representao dos Corpos Celestes.

    Arte e Cincias do Observatrio

    Astronmico de Lisboa

    paradoxalmente, ao invs de assustar, alimenta, conforta, eleva at: aquele que olha mais

    para cima parece estar mais acima. Desse desejo de cu se projecta a Poesia e a Arte, mas

    tambm a se revela a essncia do Eu.

    Diz Saramago (na introduo de um conto de Sophia de Mello Breyner, tambm ele

    estrelar Os trs reis do Oriente):

    Todos os homens caminham na noite, mas o terrvel privilgio do poeta

    sab-lo melhor que ningum. Ou sab-lo de um saber mais agudo, como

    aquele que tendo morrido e ressuscitado, sabe melhor o que a vida porque

    soube j o que a morte. Da se entende o af e a obstinao do poeta

    quando em cada poema vai pendurando estrelas: tudo maneiras de iluminar

    o negro opaco do caminho por onde se alonga o velho cortejo dos homens.

    Dir-se- que isto de estrelas j bordo cansado do arsenal potico. Ser.

    Mas ento tambm as rosas, a esperana e o amor (porque no?) [ ...].

    Talvez pouco tempo reste ao poeta para cantar e ser ouvido, talvez amanh

    lhe esteja reservado o papel (e o martrio) do mgico, do bruxo, do hertico,

    do bicho nocivo. [...] No importa. V o poeta dependurando estrelas e

    acreditando nelas. E apostemos que noutro tempo e noutro planeta, a mil

    anos de agora, e longe daqui cem anos-luz, envolvido nas trevas de um

    mundo que comea, um homem com as nossas feies, herdeiro que supe

    ter desprezado a herana, comear o seu poema, com as exactas palavras

    do eco que ele no reconhece: "Eu caminhei na noite". Ento ser outra vez

    o tempo das rosas e das estrelas. O tempo da esperana. O tempo do amor. 4

    Desde sempre, portanto, o olhar "sobre" os cus foi importante. E talvez assim tenham

    nascido os Observatrios astronmicos para que o Homem, compreendendo os cus, se

    compreendesse a si, e aprendesse a inscrever-se tempestivamente na trajectria do seu

    destino.

    >TleSkopos<

    Telescpio: trata-se de um neologismo constitudo a partir do grego; o prefixo (tle-)

    significa ao longe, de longe, distncia; o radical (skopos, skopeo), olhar atentamente,

    observar, examinar. O vocbulo composto significa qualquer coisa como ver ao longe ou algo

    equivalente. O neologismo, depois divulgado por via italiana, exprime a ideia de um

    instrumento para ver de longe ou distncia.5

    4 Jos Saramago Prlogo de Sophia de Mello Breyner Andresen Os trs reis do Oriente. Lisboa:

    Estdios Cor, 1965; pp. 7-8. 5 Dicionrio. Houaiss, voce Telescpio. Acrescentado por Mrio Jorge de Carvalho.

  • 138 Gaudium Sciendi, N 5, Dezembro 2013

    Pedro Marques de Abreu Faculdade de Arquitectura Universidade de Lisboa

    Da Representao dos Corpos Celestes.

    Arte e Cincias do Observatrio

    Astronmico de Lisboa

    A coisa e o nome so modernos6. No "modernos" no sentido de serem recentes

    sabido que o telescpio uma inveno holandesa (ou italiana) de finais do sculo XVI, depois

    aperfeioada e usada extensivamente em observaes astronmicas por Galileu Galilei (o

    "nome" formulado s em 1611, na Accademia dei Lincei em Roma)7. Mas tambm no

    "modernos", unicamente, enquanto pertencentes poca Moderna. Afirmando a

    modernidade do telescpio quer-se traduzir a sua inscrio numa mundividncia o

    telescpio , de algum modo, o objecto que engendrou o nosso tempo8.

    O telescpio o primeiro instrumento que potencia um rgo sensitivo humano ao

    ponto de as percepes realizadas por meio dele serem discrepantes relativamente s

    imagens obtidas sem o seu auxlio por exemplo, com o telescpio, as estrelas so vistas na

    sua real dimenso, sem o halo que tm a olho-nu; e, em Saturno, Galileu vislumbrou umas

    protuberncias laterais, completamente desconformes imagem esfrica que antes se tinha

    do planeta, e que mais tarde se veio a saber corresponderem aos anis. Este evento

    introduzir uma revoluo (gradual) na compreenso que o homem tinha de si e da realidade.

    Antes acreditava-se que a observao mais fidedigna era aquela em que nada se interpunha

    entre o objecto observado e o seu observador. O telescpio, nos seus sucessivos

    melhoramentos (e seguramente muito devido ao esclarecedor contributo de Kepler sobre a

    lgica do funcionamento ptico, dissipando dvidas acerca do possvel carcter ilusrio das

    imagens por esse geradas9), induzir a discorrer que a realidade mais bem compreendida

    atravs de instrumentos. Ora isso ir perniciosamente infectar com dvida todas as

    observaes anteriormente feitas e, mais dramtico ainda, todas as observaes que so

    feitas sem o auxlio de instrumentos. Assim, de uma assentada, se destitui de validade o

    patrimnio anterior de conhecimento da realidade fsica e, por contgio, a Histria e a

    Tradio e o prprio senso comum; eu j no posso confiar no conhecimento legado pelas

    geraes anteriores; eu no posso sequer confiar nos meus prprios rgos dos sentidos;

    doravante poderei apenas confiar num selecto conjunto de indivduos: aqueles que manejam

    os instrumentos cientficos uma nova classe de eleitos: os novos orculos de Deus. E assim

    se constitui o terreno propcio para o germinar da dvid