Da Ontologia à Ana Monteiro Ferreira Antropologia de ... ?· da Alma Ana Monteiro ... latente à sua…

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<ul><li><p>Da Ontologia Antropologia de </p><p>Maat: A Dimenso Metafsica e tica </p><p>da Alma </p><p>Ana Monteiro Ferreira </p><p>Eastern Michigan University (USA) </p><p>Gaudium Sciendi, Nmero 6, Junho 2014 174 </p><p>1</p><p> Ba e Ka </p><p>O chamado progresso da civilizao ocidental do mundo moderno, merc do </p><p>seu domnio absoluto sobre os paradigmas cientficos, desde as cincias puras, </p><p>passando pelas cincias sociais at s mais modernas tecnologias de informao, </p><p>acabou por transformar os seres humanos em mercadorias, objectos de compra e </p><p>venda, em autmatos, quais sombras de uma humanidade perdida numa realidade </p><p> 1 Ana Monteiro-Ferreira Professora Auxiliar do Departamento de Africology and African American Studies na Eastern Michigan University. doutorada e mestre em Estudos Africano Americanos pela Temple University (Filadlfia) e tambm mestre em Estudos sobre as Mulheres pela Universidade Aberta (Lisboa). Integra estas duas reas no seu trabalho docente e de investigao em histria, literatura e cultura Africana/Africana Americana com forte nfase na discusso das estruturas epistemolgicas, tericas, filosficas e culturais da(s) sociedade(s) contempornea(s). Dos seus trabalhos, publicados em Portugal, no Brasil e nos Estados Unidos destaca-se aqui o mais recente The Demise of the Inhuman (SUNY, 2014). A autora no adere ao projecto do novo acordo ortogrfico. </p></li><li><p>Da Ontologia Antropologia de </p><p>Maat: A Dimenso Metafsica e tica </p><p>da Alma </p><p>Ana Monteiro Ferreira </p><p>Eastern Michigan University (USA) </p><p>Gaudium Sciendi, Nmero 6, Junho 2014 175 </p><p>virtual. Metfora de todo esse mundo baudrillardiano, a trilogia de Matrix2</p><p>A este conceito de desumanidade desencarnada gostaria aqui de opor uma </p><p>reflexo simultaneamente filosfica e antropolgica que nos remete para uma </p><p>perspectiva holstica da existncia e do mundo da primeira grande civilizao humana, </p><p>Kemet (Antigo Egipto) enquanto raiz do conhecimento ontolgico e cosmognico e de </p><p>uma tica de responsabilidade individual para com um projecto integral de </p><p>sustentabilidade humana e social com a natureza e o mundo. </p><p>, convida-</p><p>nos a um questionamento desse tremendo coma social generalizado (Borges, 2006) </p><p>dos objectivos das desumanizadas sociedades contemporneas onde a busca da </p><p>felicidade se faz depender do acesso a bens materiais e de consumo de necessidades </p><p>artificialmente criadas, do hedonismo enquanto mito progressista, do puro prazer, da </p><p>competio e do excessivo e antropofgico individualismo. </p><p>Encontramos em Maat, a herana espiritual e tica do Antigo Egipto, um </p><p>projecto profundamente humanista de uma constante procura de harmonia e </p><p>recuperao de equilbrio (serudj ta) dentro de uma concepo inclusiva do mundo em </p><p>que o passado, o presente e o futuro so inseparveis, a vida antes do nascimento e </p><p>depois da morte. </p><p>Nesta orientao cosmognica kemtica que abarca o universo inteiro, existe </p><p>uma relao ntima entre todos os seres humanos, vivos, por nascer, ou j </p><p>desaparecidos em harmonia com o cosmos seguindo os ciclos da vida e os ritmos </p><p>circulares da natureza. </p><p> Esta viso reflecte os conceitos espirituais e filosficos dos antigos Egpcios </p><p>acerca das origens dos seres humanos e do universo a partir de um momento de </p><p>perfeita harmonia e equilbrio de todos os elementos, um simblico Big Bang a que </p><p> 2 Referimo-nos s trs produes cinematogrficas dos irmos Wachowski, Matrix de 1999, Matrix Reloaded e Matrix Revolutions de 2003. </p></li><li><p>Da Ontologia Antropologia de </p><p>Maat: A Dimenso Metafsica e tica </p><p>da Alma </p><p>Ana Monteiro Ferreira </p><p>Eastern Michigan University (USA) </p><p>Gaudium Sciendi, Nmero 6, Junho 2014 176 </p><p>chamaram Zep Tepi, um Primeiro Acontecer, o momento da criao ou a manifestao </p><p>do poder gerador de uma Fora Imutvel num momento de harmonia vital e absoluta </p><p>(James, 1954; Asante, 2000). neste contexto que a concepo do ser humano como </p><p>uma totalidade fsica, espiritual, e metafsica se insere. Numa perspectiva </p><p>interaccionista, holstica, e integrante quase impossvel de apreender na sua </p><p>totalidade pelo pensamento dicotmico ocidental, o ser humano , na filosofia </p><p>kemtica, uma entidade complexa que engloba dentro de um corpo fsico e material, </p><p>khat, os mais valiosos e inseparveis elementos da sua humanidade, os conceitos ib </p><p>(corao/mente), ren (nome), ba (alma), ka (fora vital), e sheuti (sombra) que o </p><p>definem como uma entidade fsica e espiritual. Concebido como uma actualizao do </p><p>poder espiritual no momento do nascimento pela instilao do sopro divino, a </p><p>finalidade ltima do ser humano a responsabilidade permanente de manter o </p><p>equilbrio da ordem csmica sendo o significado da existncia o dessa procura de </p><p>Maat, de harmonia entre seres humanos e entre os seres humanos e a natureza </p><p>traduzidas nos preceitos ticos e nas formulaes rituais e estticas de uma prtica </p><p>social justa, de rectido moral e justia social (Asante, 1998; Karenga, 2006). </p><p>Maat, a ideia moral central do Antigo Egipto, um conjunto de premissas, </p><p>regras e orientaes de vida e princpios que traduzem o modelo do pensamento tico </p><p>e moral das civilizaes clssicas do Vale do Nilo. A filosofia kemtica, desenvolvida a </p><p>partir de um elevadssimo sentido de bem e de mal, de certo e de errado, de justia e </p><p>de injustia traduzia-se numa prtica relacional de interaces sociais e de obrigaes </p><p>morais e regras de conduta que definiam o indivduo e valorizavam o alto grau de </p><p>humanidade do seu carcter, sendo por isso um elemento fundamental, constante e </p><p>inalienvel da sociedade do Antigo Egipto (Karenga, 2006, 3). </p><p>Na sua extensa e aprofundada anlise tico-filosfica dos Pyramid Texts, </p><p>Declarations of Innocence, Coffin Texts, Book of Coming Forth by Day e outros textos </p></li><li><p>Da Ontologia Antropologia de </p><p>Maat: A Dimenso Metafsica e tica </p><p>da Alma </p><p>Ana Monteiro Ferreira </p><p>Eastern Michigan University (USA) </p><p>Gaudium Sciendi, Nmero 6, Junho 2014 177 </p><p>seminais, Karenga (2006) identifica na profunda complexidade de Maat trs </p><p>dimenses morais e espirituais: o reino do Divino; o reino do natural; e o reino do </p><p>social. Maat deve, por isso, e de uma forma abrangente, ser entendido como uma </p><p>grandeza integrada de rectido que exige e o resultado de uma prtica de relaes e </p><p>comportamentos adequados em relao a Deus, natureza e aos seres humanos. </p><p>O estudo dos Coffin Texts, leva autores como Bilolo (1988) e Obenga (1990) a </p><p>definir Maat como um ideal (1) de conhecimento; (2) moral da verdade, da justia e da </p><p>rectido; e (3) metafsico do amor e do conhecimento do ser. Morenz (1984), por sua </p><p>vez, define-o como princpio e fora constitutiva da criao. esta ideia que nos </p><p>aparece no excerto em que Nun a representao das guas primordiais no momento </p><p>da criao diz a Atum, o Criador (CT I, 35): </p><p>"Kiss your daughter Maat. Put her to your nose that her heart may live."3</p><p>Atravs deste sopro divino instilado no momento da criao Maat congrega em </p><p>si esse momento perfeito das leis da harmonia, do ordenamento divino do mundo, da </p><p>justia, da rectido, do equilbrio, da verdade e da existncia humanas. </p><p>Com Karenga (2006) podemos ver como o carcter divino desse ordenamento </p><p>do mundo contm implicaes ticas, ontolgicas e antropolgicas e, sobretudo, </p><p>como a responsabilidade moral dos seres humanos na manuteno deste equilbrio </p><p>espiritual e csmico o elemento fundamental dos princpios ticos da filosofia </p><p>kemtica. </p><p> 3 Cf. Karenga, 2006: 8, 181. </p></li><li><p>Da Ontologia Antropologia de </p><p>Maat: A Dimenso Metafsica e tica </p><p>da Alma </p><p>Ana Monteiro Ferreira </p><p>Eastern Michigan University (USA) </p><p>Gaudium Sciendi, Nmero 6, Junho 2014 178 </p><p>Assim, Kemet constituiu-se desde o incio como uma sociedade onde o ser </p><p>humano se define pela sua capacidade de estar em completa e total harmonia com a </p><p>perfeio do ordenamento divino da criao. A questo tica e moral , portanto, a de </p><p>perceber a importncia e o lugar do ser humano nessa harmonia csmica. A noo de </p><p>ser humano no , no entanto, apenas o resultado de um acto de conscincia </p><p>individual (ib-corao/mente). , acima de tudo, um conceito relacional que traduz a </p><p>forma como o indivduo se conduz em sociedade, se relaciona com a famlia, interage </p><p>no dia-a-dia com rectido e justia e executa os rituais adequados. </p><p>Vemos assim, que esta necessidade de estar em permanente harmonia com o </p><p>ordenamento divino da criao e com a natureza simultaneamente uma prtica </p><p>social consciente e uma preocupao metafsica. uma prtica social que implica </p><p>obrigaes de reciprocidade, expectativas de conduta social correcta e justa, bem </p><p>como responsabilidade individual e colectiva de praticar o bem a fim de manter a </p><p>harmonia na comunidade. </p><p> Maat </p><p>, por outro lado, uma constante preocupao metafsica que radica no </p><p>conceito ontolgico de Maat uma vez que as duas esferas esto, como vimos, </p><p>intimamente relacionadas no pensamento filosfico e espiritual da sociedade do </p><p>Antigo Egipto. </p><p>O processo de criao visto como uma passagem de um potencial de vida </p><p>latente sua manifestao ou, segundo Allen (1988) um dilogo entre o no-existente </p></li><li><p>Da Ontologia Antropologia de </p><p>Maat: A Dimenso Metafsica e tica </p><p>da Alma </p><p>Ana Monteiro Ferreira </p><p>Eastern Michigan University (USA) </p><p>Gaudium Sciendi, Nmero 6, Junho 2014 179 </p><p>e o potencial de existncia. Neste processo de criao Karenga (2006) identifica cinco </p><p>elementos ontolgicos bsicos de Maat, todos eles com elevada relevncia tica como </p><p>adiante veremos, pela forma como se articulam com outros tantos elementos </p><p>antropolgicos do conceito maatiano. </p><p>O primeiro elemento ontolgico o potencial, aquilo a que chamo o poder de </p><p>actualizao do ser. O segundo elemento, derivado deste, o conceito de </p><p>ordenamento harmonioso ou estruturao ordenada do cosmos que permite a </p><p>realizao/actualizao da possibilidade/potencial de existncia. O terceiro elemento </p><p>bsico a continuidade do ser segundo o qual no existe qualquer distino </p><p>conceptual entre as espcies, entre esprito e matria, corpo e alma, ou o mundo de </p><p>Deus e o dos homens (Finnestad, 1898; Karenga, 2006). A continuidade do ser deriva </p><p>do facto de que o Criador fonte de toda a existncia; a criao a actualizao do </p><p>Divino em formas vrias, uma evoluo da sua essncia, um produto de ib: esprito e </p><p>corao (pBremner-Rind 28, 24-25 in Karenga, 206, 196). </p><p>Este processo de criao que envolve a transmisso da essncia divina e de </p><p>energia , na complexidade do ser humano, traduzida por ka. Nos Pyramid Texts (PT </p><p>1652) pode ler-se You put your arms around them as the arms of ka that your </p><p>essence (ka) may be in them (Karenga, 2006, 197) em que ka se torna na metfora da </p><p>unidade entre o Criador e a sua criao. Ka a essncia divina, a energia, a fora vital </p><p>do ser humano. O quarto conceito ontolgico bsico de Maat com elevado valor tico </p><p> a noo de bondade essencial do ser humano que nos remete uma vez mais para a </p><p>noo de perfeio da criao imbuda de divino. O quinto e ltimo elemento o </p><p>conceito de eternidade e da possibilidade de vida eterna. De facto, a ideia do </p><p>julgamento depois da morte, enunciada pela primeira vez na histria da humanidade </p><p>na viso ontolgica e tica do Antigo Egipto, traduz uma perspectiva metafsica numa </p></li><li><p>Da Ontologia Antropologia de </p><p>Maat: A Dimenso Metafsica e tica </p><p>da Alma </p><p>Ana Monteiro Ferreira </p><p>Eastern Michigan University (USA) </p><p>Gaudium Sciendi, Nmero 6, Junho 2014 180 </p><p>prtica que justifica o direito imortalidade atravs da conduta moral do ser humano </p><p>em vida. </p><p>Estes cinco elementos bsicos da ontologia de Maat articulam-se com os seus </p><p>cinco princpios antropolgicos fundamentais cuja descrio pode ser encontrada ao </p><p>longo dos textos de cariz tico religioso como Book of Vindication, Declarations of </p><p>Virtues, Book of Coming Forth by Day, Book of Knowing the Creations, entre outros, e </p><p>que so: (1) o ser humano como imagem do Divino; (2) a capacidade do ser humano </p><p>para atingir a perfeio; (3) a capacidade do ser humano para aprender; (4) a </p><p>capacidade humana de livre arbtrio; e (5) a condio de sociabilidade do ser humano. </p><p>No sendo possvel neste limitado espao uma discusso, ainda mesmo que </p><p>superficial, da forma como todos estes nveis se articulam, definem uma filosofia </p><p>metafsica e determinam uma responsabilidade moral e colectiva na sociedade do </p><p>Antigo Egipto, gostaria, no entanto, de colocar em destaque o complexo conceito do </p><p>ser humano no intrincado relacionamento dos seus elementos que considero </p><p>particularmente relevantes desta viso holstica e tica humanstica das grandes </p><p>civilizaes clssicas do Vale do Nilo, especialmente os conceitos de ren, ka, ba, ib e </p><p>akh. </p><p>Embora a existncia material do indivduo acontea no momento do </p><p>nascimento com o aparecimento de um corpo fsico, o ser humano apenas se constitui </p><p>na sua plenitude terrena no acto simblico da atribuio do nome (ren) que, com </p><p>frequncia, remetia para a unio com o deus, transmissor da sua forca vital (ka) e </p><p>espiritual (ba) concentrada na (ib) albergadas dentro de um corpo (khat) que garantia, </p><p>juntamente com o nome, uma identidade fsica e espiritual nica que permitia </p><p>alcanar a plenitude da vida eterna. </p><p>A mumificao dos corpos, os rituais fnebres, a capacidade de preservar o </p><p>bom nome e de ter descendncia que assegurasse essa preservao, a conduo de </p></li><li><p>Da Ontologia Antropologia de </p><p>Maat: A Dimenso Metafsica e tica </p><p>da Alma </p><p>Ana Monteiro Ferreira </p><p>Eastern Michigan University (USA) </p><p>Gaudium Sciendi, Nmero 6, Junho 2014 181 </p><p>uma vida seguindo os preceitos ticos e sociais de Maat, todos no seu conjunto </p><p>assinalavam que o sentido do corpo era o de intermediar a harmonia com o </p><p>ordenamento divino e garantir a existncia da vida eterna. </p><p>Embora a energia vital ka abandonasse o corpo fsico no momento da morte, </p><p>ela no desaparecia. Juntamente com ba, a dimenso divina da imortalidade, o </p><p>esprito divino transmigrado para o corpo no momento do nascimento (e dificilmente </p><p>traduzvel por alma, uma vez que o conceito muito mais complexo do que o </p><p>pensamento dicotmico ocidental contempla) elas sero os elementos da </p><p>imortalidade a que ib permite elevar ren, passada com distino a prova da balana da </p><p>pena de Maat ou julgamento aps a morte. </p><p>, portanto, uma vez mais, a conduta moral que permite julgar ib, centro das </p><p>emoes, das decises e dos pensamentos, com severidade ou torn-lo to leve </p><p>quanto a pena de Maat e abrir as portas da eternidade, momento final da reunio do </p><p>Divino e do humano, na interseco dos paradigmas ontolgicos e antropolgicos de </p><p>Maat e de uma profunda responsabilidade tico-religiosa humana e social. Mas para </p><p>que o esprito se reencontre com a fora vital e o nome seja lembrado, preciso um </p><p>corpo, preciso proceder aos rituais apropriados. Da a centralidade dos rituais de </p><p>mumificao, da construo dos templos e das cmaras de venerao e oferendas a </p><p>ka, a simbologia da ave com cabea de deus e corpo de falco de ba, a abertura </p><p>minscula nos tmulos que permite, depois do julgamento de Maat, a re-conexo de </p><p>ba com o corpo mumificado e com a sua ka. </p><p>Atravs da sua conduta moral, seguindo os princpios ticos de Maat, o ser </p><p>humano de elevado carcter atinge a harmonia do divino, e torna-se, depoi...</p></li></ul>

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