crítica às teorias representacionalistas da percepção musical

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  • Crtica s teorias representacionalistas da percepo musicalAndr Vi!a

    avandrevilla@gmail.comDepartamento de msica Universidade de Paris 8

    MSH Paris Nord

    ResumoA grande maioria das atuais teorias de modelizao da percepo musical esto inseridasnum paradigma representacionalista da cognio e trabalham predominantemente comexemplos baseados em msicas tonais. Estas teorias postulam que nossa percepo realizauma extrao de gestalten do continuum sonoro para formar um grupamento em unida-des perceptivas e que, em seguida, ns organizamos estas unidades em uma hierarquiza-o seqencial. Nesta perspectiva, esta organizao perceptiva vista como umasegmentao da superfcie musical. Evidentemente, o principal e por vezes o nico elemento musical morfofrico ( i.e. portador de forma) levado em considerao em taismodelos a altura musical ( i.e. pitch, hauteur, Tonhhe). Este texto desenvolve uma anlisebaseada na percepo de msicas no-tonais e em alguns exemplos extrados da etno-musicologia e prope uma inverso dos modelos tericos em questo. Em ressonnciacom a fenomenologia, a hermenutica, a fisiologia da ao, a enao e as epistemologiasconstrutivistas, eu entendo a percepo no como um tratamento passivo de informaesdos estmulos de um mundo pr-estabelecido, mas como uma ao constitutiva do fe-nmeno percebido. Neste sentido, perceber as estruturas que compem uma obra musical visto no como a realizao de uma anlise que extrai descontinuidades de uma unidadefuncional global, mais uma atividade que faz emergir um continuo articulado partir doselementos discretos que formam os postulados musicais.

    IntroduoA grande maioria das atuais teorias de modelizao da percepo e da cognio mu-sical esto inseridas num paradigma representacionalista da cognio. Expresses econceitos como representaes mentais, linguagem do pensamento, tratamentodas informaes, sistema interno, codi!cao simblica, emergncia, universais,entre outros, so freqentemente utilizados nos textos cient!cos que trabalhamsobre as questes da cognio musical. Entretanto, ao meu entender, estas utilizaesno re"etem nenhum questionamento sobre a origem e os fundamentos !los!cose epistemolgicos que servem de alicerce ao paradigma representacionalista da cog-nio. Este texto sugere um olhar crtico sobre estas questes.

    Paradigmas representacionalistas e cincias cognitivas: as origens

    Uma grande parte das teorias e dos modelos de percepo musical disponveis na

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  • literatura especializada se dividem basicamente como pertencendo dois diferentesparadigmas: o cognitivismo e o conexionismo. No entanto, ambos esto inseridosnuma abordagem computacional e representacionalista da cognio humana. Issoquer dizer que ambos paradigmas consideram os indivduos como sistemas quetratam as informaes pr-estabelecidas pelo mundo exterior e que, de uma certaforma, em certas partes do nosso crtex existem ativaes neuronais ou estadosmentais que representam os dados do mundo percebido. Evidentemente, em umatal abordagem, existe uma relao de causa e efeito entre o mundo (pr-determinado)e as representaes mentais que ns fazemos deste (a vectorizao sendo obrigatoria-mente neste sentido mundo percepo). De uma maneira extremamente resu-mida, a distino entre os dois paradigmas pode ser apresentada da seguinte forma:

    O cognitivismo clssico admite a existncia de estados mentais consideradoscomo idnticos e dependentes de um dado estado fsico (concepo !sicalistado mundo) e supe a existncia de representaes mentais simblicas que so con-cebidas como enunciados de uma linguagem formal interna ao sistema. Esta lin-guagem formal tambm chamada de linguagem do pensamento possuiassim uma estrutura lgico-sintxica (nvel simblico) que pode ser avaliada se-manticamente (nvel representacional). Os processos cognitivos so entendidoscomo processos computacionais (clculos) efetuados sobre smbolos e repre-sentaes segundo um sistema de regras formais pr-estabelecidas. Os smbolospodem fazer referncias s situaes do mundo (fenmenos externos) e formamentidades estveis. Eles podem ser estocados em memria e transformados se-gundo as citadas regras (o paradigma cognitivista tambm chamado de sim-blico). Estes clculos so conduzidos sequencialmente em um processobasicamente bottom-up sob a direo de centros de controle (top-down) a umalto nvel do processo cognitivo. O processo ocorre portanto de maneira internaao sistema que assim apresentado como sendo linear. O cognitivismo decla-radamente e abundantemente inspirado dos trabalhos sobre o computaciona-lismo e os sistemas formais que deram origem informtica, ao computador eaos primeiros projetos de pesquisa em inteligncia arti!cial (IA). Este paradigmaconsidera assim as relaes entre o fsico e o mental como similar ao modelo dasrelaes entre so"ware e hardware em informtica: o nvel computo-represen-tacional de descrio dos estados e processos mentais (i.e. a cognio humana) amplamente autnomo em relao ao nvel fsico do sistema interno no qualo nvel computo-representacional se desenvolve (i.e. o crtex humano). Pensar calcular torna-se a mxima que exprime o pensamento cognitivista e a m-quina de Turing transforma-se no principal modelo da mente humana.

    O conexionismo se desenvolveu principalmente partir da chamada segunda ci-berntica e considera a cognio como a emergncia de estados globais internosao sistema, sendo este sistema composto por uma rede de componentes simples(e.g. os neurnios humanos, os neurnios formais da informtica). O sistema considerado como sendo dinmico complexo (logo, no-linear) e os clculosso efetuados em paralelo tratamento das informaes de forma massiva

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  • em mltiplas interaes locais efetuadas pelos elementos que compem a rede,o que implica em uma ausncia de centros de controle. Os estados do mundo noso mais representados por smbolos como no cognitivismo, mas por estadosemergentes da rede conexionista (paradigma sub-simblico). Esta emergnciaproduz estados estveis e ocorre de forma auto-organizvel, baseada nos pesosdas conexes locais e na formao de conjuntos atratores no espao do sistema.Vista como o surgimento auto-organizvel de singularidades em sistemas natu-rais e baseada nos substratos materiais, a emergncia conexionista tambm ba-sicamente bottom-up. Neste sentido, o conexionismo assim como ocognitivismo !sicalista (i.e. tese ontolgica segundo a qual os constituintesda realidade so entidades fsicas ou so determinadas exclusivamente por estas)e sustenta uma espcie de realismo semntico numa frmula que consiste em rei-!car por vezes hipostasiar o sentido concebido como entidade objetiva au-tnoma, independente do fato de ser apreendido ou no pela mente humana.

    A percepo como ao constitutiva do fenmeno percebido

    Como crtica ao paradigma computo-representacional, eu utilizo uma abordagemem ressonncia com a fenomenologia, a hermenutica, a !siologia da ao, a enaoe as epistemologias construtivistas.

    A fenomenologia como b!e m"odolgicaA caracterstica essencial da metodologia prpria fenomenologia husserliana depriorizar descrio das estruturas fenomenais que caracterizam a forma pela qualos objetos se apresentam. A fenomenologia no se refere s diferenas entre duassubstncias fechadas em si mesmas (dualismo cartesiano), e prope uma superaoda oposio entre internalismo/externalismo. Ela prioriza a anlise das estruturas quefazem a correlao entre as duas instncias fundamentais de um mesmo fenmeno:um ato intencional (a noesis, ao doadora de sentido) e o objeto correlato deste ato(o noema, subordinado noesis, mas independente pois a unidade ou plurali-dade objetiva das determinaes). Como cita Jean-Luc Marion, a conquista fun-damental da fenomenologia de Husserl que fenmeno [Erscheinung] no se diznem primeiro, nem somente do objeto que aparece, mas tambm da experincia vividana qual e pela qual ele aparece. (Marion, 1989, 85).Husserl e, mais explicitamente, Heidegger e Merleau-Ponty chama nossa aten-o sobre o fato que nossa atividade, nossa interao com o mundo que nos dis-tingue dele e que o dota de sentido para ns. A percepo participa assim ativamenteda constituio do mundo ao nosso redor. A estrutura enquanto organizao prpriade um objeto percebido (e.g. uma obra musical) emerge no carrefour da correlaonoesis-noema. A fenomenologia tambm desenvolve de forma aprofundada muitasquestes sobre os objetos temporais e pode assim funcionar como uma potente e

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  • frutuosa mquina !los!ca para analisarmos a percepo musical (Villa, 2005 e2008).

    Emergncia, hermenutica e enaoO termo emergncia polissmico. A signi!cao que eu atribuo a este termo seaproxima sensivelmente do conceito de enao sugerido e introduzido em cinciascognitivas graas ao trabalho de Francisco Varela. O termo enao uma tentativa de traduzir a nova designao do termo herme-nutica adotada por Martin Heidegger. Para ele, a hermenutica no se refere apenas disciplina da interpretao de textos antigos. Com Heidegger e seu discpulo Ga-damer, a hermenutica passa a designar o fenmeno da interpretao como um todo,entendido como a enao ou fazer-emergir [enactment or bringing forth] da signi!-cao sobre um fundo [from a background] do entendimento (Varela, &ompson eRosch, 1991, 149). Esta hermenutica heideggeriana pressupe o conhecimentodo mundo circundante como inseparvel do ser que o percebe e de suas experinciasvividas. Esta noo de emergncia da signi!cao como uma ao encontra-se j germinadanos fragmentos de Herclito onde a palavra grega [phusis ou physis] designa oprocesso perptuo de emergncia pelo qual as coisas a natureza vm serpara o ser que percebe (Heidegger, 1958, 326). Este processo de emergncia, nos es-creve Jean-Michel Salanskis, desenvolve um sentido cada vez que por ele ou neleh a produo da apario-estabilizao de uma morfologia (Salanskis, 2003, 93).Esta morfologia que, na !nalizao desta emergncia, se impe este mesmo ser quepercebe. Esta de!nio de sentido nos prope a interpretao do compo

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