crise da racionalidade, crise da religião - início - instituto ?· 2012-11-14 · crise da...

Download Crise da racionalidade, crise da religião - Início - Instituto ?· 2012-11-14 · Crise da racionalidade,…

Post on 21-Nov-2018

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • Crise da racionalidade, crise da religioPaul Valadier

  • UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS UNISINOSReitor

    Marcelo Fernandes de Aquino, SJ

    Vice-reitorJos Ivo Follmann, SJ

    Instituto Humanitas Unisinos

    DiretorIncio Neutzling, SJ

    Gerente administrativoJacinto Schneider

    Cadernos Teologia PblicaAno IX N 72 2012

    ISSN 1807-0590

    Responsveis tcnicosCleusa Maria Andreatta

    Marcelo Leandro dos Santos

    TraduoFrancys Silvestrini Ado, SJ

    RevisoLus Carlos Dalla Rosa

    Editorao eletrnicaRafael Tarcsio Forneck

    ImpressoImpressos Porto

    EditorProf. Dr. Incio Neutzling Unisinos

    Conselho editorialMS Ana Maria Formoso Unisinos

    Profa. Dra. Cleusa Maria Andreatta UnisinosProf. MS Gilberto Antnio Faggion UnisinosDr. Marcelo Leandro dos Santos Unisinos

    Profa. Dra. Marilene Maia UnisinosDra. Susana Rocca Unisinos

    Conselho cientficoProfa. Dra. Edla Eggert Unisinos Doutora em TeologiaProf. Dr. Faustino Teixeira UFJF-MG Doutor em Teologia

    Prof. Dr. Jos Roque Junges, SJ Unisinos Doutor em TeologiaProf. Dr. Luiz Carlos Susin PUCRS Doutor em Teologia

    Profa. Dra. Maria Clara Bingemer PUC-Rio Doutora em TeologiaProfa. MS Maria Helena Morra PUC Minas Mestre em Teologia

    Profa. Dra. Maria Ins de Castro Millen CES/ITASA-MG Doutora em TeologiaProf. Dr. Rudolf Eduard von Sinner EST-RS Doutor em Teologia

    Universidade do Vale do Rio dos SinosInstituto Humanitas Unisinos

    Av. Unisinos, 950, 93022-000 So Leopoldo RS BrasilTel.: 51.35908223 Fax: 51.35908467

    www.ihu.unisinos.br

  • Cadernos Teologia Pblica

    A publicao dos Cadernos Teologia Pblica, sob a responsabilidade do Instituto Humanitas Unisinos IHU, quer ser uma contribuio para a relevncia pblica da teologia na universidade e na sociedade. A teologia pbli-ca pretende articular a reflexo teolgica em dilogo com as cincias, culturas e religies de modo interdisciplinar e transdisciplinar. Busca-se, assim, a participao ativa nos

    debates que se desdobram na esfera pblica da socieda-de. Os desafios da vida social, poltica, econmica e cultu-ral da sociedade, hoje, especialmente, a excluso socioe-conmica de imensas camadas da populao, no dilogo com as diferentes concepes de mundo e as religies, constituem o horizonte da teologia pblica. Os Cadernos Teologia Pblica se inscrevem nesta perspectiva.

  • 5

    Crise da racionalidade, crise da religio

    Paul Valadier

    Costuma-se situar uma em relao outra: crise da racionalidade e crise da religio1. Ou, para ser mais exato, a filosofia moderna ao menos desde a Renas-cena geralmente fez da racionalidade ou da razo a fonte e a causa da crise da religio. Nesse sentido, a atitu-de frequente consiste em pensar a crise da religio como consequncia e resultado do aumento da potncia da ra-zo, definida tanto como desenvolvimento das racionali-dades cientficas quanto como razo pura (especulativa) e prtica (moral) para empregar a distino de Kant. Segundo essa perspectiva, a razo em seu pleno desen-volvimento e segurana abalaria os fundamentos da re-ligio: seja atacando as bases escriturais ou dogmticas do judasmo e do cristianismo (cf. Baruch Spinoza ou

    1 Crise da religio crist, pois dela que trataremos aqui.

    Richard Simon); seja identificando religio e fanatismo ou obscurantismo (cf. iluminismo francs); seja anun-ciando o desaparecimento das religies no horizonte da histria, com verses bastante diferentes, segundo Marx (fim da alienao religiosa em vista do Reino da liber-dade) ou Nietzsche (desmoronamento do monotesmo diante de um divino politesmo ou diante da vitria do niilismo negativo). Todos conhecem a radicalidade tan-to da crise modernista na Igreja catlica, na virada dos sculos XIX-XX, como da crise dos liberalismos protes-tantes, contra a qual Karl Barth reagiu com tanta fora. Essas crises tinham origens claras numa crtica das racio-nalidades contra as prprias fontes do cristianismo (no-vas leituras das Escrituras, fundamentos histricos dos dogmas...). Sem dvida, tal crise inacabada, e talvez sem termo definvel ou previsvel, tanto as racionalida-

  • 6

    des em obra se renovam e se diversificam. Assim, o novo papel da lingustica, da semntica, da psicanlise na in-terpretao dos textos renova os termos de uma interro-gao que se tornou permanente. Contudo, em tal crise, so a razo e as racionalidades renovadas que, em seu desenvolvimento, colocam em perigo o universo da re-ligio ou, ao menos, obrigam as religies a uma espcie de aggiornamento permanente.

    Ora, podemos legitimamente nos perguntar se essa figura essencialmente crtica da relao entre razo e religio, entre conhecimento do mundo e aspirao religiosa, entre abordagem racional e abordagem de f no est desaparecendo, ou ao menos se apagando. Tudo leva a pensar que a crise no atinge somente a esfera religiosa, mas que a razo e as racionalida-des a ela vinculadas (nas tcnicas e nas cincias ditas naturais ou humanas) entraram, elas prprias, numa crise profunda, mesmo intransponvel. Ainda melhor: pergunta-se aqui ou acol se no seria a religio (institu-cional) ou a f (como caminho pessoal) o recurso neces-srio ou possvel ao desmoronamento da razo. Assim, ns assistiramos a uma reverso da situao em relao poca triunfante do racionalismo, ao ponto que a f ou a religio incitaria a razo a no desesperar de si mesma. H vinte anos, a Revista Catlica Internacio-

    nal Communio j intitulava seu 100 nmero: salvar a razo (XVII, 2-3, maro-junho de 1992). Um programa revelador! Da a questo: a razo no teria se tornado vtima de suas prprias crises e no seria atacada em suas pretenses e, sem dvida, mesmo em seu projeto de conhecimento do real?

    Tal reverso convida, ento, anlise, reflexo e ao senso crtico: o que gostaramos de tentar fazer aqui, propondo algumas reflexes demasiado curtas em relao a este assunto imenso e delicado.

    Indcios de uma reverso

    Podemos partir de uma situao estranha e para-doxal. So dois papas contemporneos primeiramente Joo Paulo II, na Encclica Fides et Ratio (1998), e em seguida Bento XVI que, em textos de grande alcance, convidaram a razo a se mobilizar mais do que tem fei-to, para responder as grandes interrogaes s quais a humanidade atual confrontada. Ambos, com acentos certamente diferentes (o que no importante para nos-sa anlise), insistiram sobre a importncia do trabalho da razo, contra a timidez ou as renncias que, segundo eles, caracterizam demasiadamente a filosofia atual. Eles

  • 7

    no somente incitaram os filsofos e os pensadores em geral a no renunciar colocao das questes decisivas para o presente e o futuro do homem, mas tambm afir-maram, com fora, que a f no podia esperar nenhum benefcio de uma razo fraca, hesitante, marcada pela dvida e pelo ceticismo; uma f no provocada por uma razo confiante em si mesma cairia no fidesmo, isto , numa atitude incapaz de prestar homenagem ao Criador pelo trabalho da inteligncia. No somente o desmoro-namento da razo seria um evento temeroso e catastrfi-co para o prprio homem, mas igualmente tal desmoro-namento se faria custa da f. Da o apelo convergente dos papas para que a razo se mobilize contra suas pr-prias tentaes de renncia e para que as pessoas de f no tenham medo de avanar no terreno das racionalida-des diversas para sustent-las, mobiliz-las, assumi-las em todas suas dimenses. reveladora esta passagem de Joo Paulo II: ilusrio pensar que a f, frente a uma razo dbil, possa ter uma maior fora; ao contrrio, ela cai no grande perigo de ser reduzida a um mito ou a uma superstio. Do mesmo modo, uma razo que no tenha mais uma f adulta frente a ela no estimulada a se interessar novidade e radicalidade do ser (Fides et Ratio, 48). Em lugar de uma rivalidade considerada frequentemente como evidente, esses papas declararam

    repetidas vezes que o mundo da razo e o mundo da f, o mundo da racionalidade secular e o mundo da f reli-giosa, precisam um do outro e no devem temer entrar num dilogo profundo e contnuo (ongoing), para o bem de nossa civilizao (cf. Bento XVI em Westminster, em setembro de 2009).

    Contrariamente a diversas interpretaes, no se trata de opor dois blocos numa espcie de guerra fria segundo uma economia do erro, como pude ler em certas leituras partidrias. Trata-se de uma mobilizao no melhor sentido da palavra dos recursos humanos, no para defender um territrio, mas pelo bem da civi-lizao; trata-se, ento, que f e razo conjuguem seus esforos ou e meam uma em relao outra, para dar sentido a um futuro comum. Ns estamos longe de um jogo de foras no qual a Igreja, por exemplo, defende-ria suas posies e no qual a razo se levantaria contra o erro ou o obscurantismo religioso. Ns nos situamos, mais precisamente, diante dos desafios comuns a todos, os quais somente espritos cegos insistem em ignorar (futuro do planeta, violncias de todo tipo em favor do reconhecimento mtuo, perigos dos fundamentalismos no somente religiosos, mas tambm racionalistas, na-cionalistas ou cientificistas...). Entretanto, essas posies pontificais no poderiam ser interpretadas como pedi-

  • 8

    dos de socorro? F e razo no estariam em situao difcil, ambas abaladas pela era secular, como o mostrou Charles Taylor recentemente em A secular age (2011)?2 Uma e outra subsistem, mas enfraquecidas, marcadas pela confuso, fora das certezas de outrora, o que afeta tanto as racionalidades quanto a f. Consequentemen-te, ser que dois enfermos, duas fraquezas, dois doentes podem realmente se ajudar e cooperar, ou somente par-tilhar sua aflio comum?

    A razo enfraquecida: o niilismo

    Pode-se reconhecer facilmente que as grandes certezas racionalistas esto amplamente apagadas: de um lado, longe das profecias inspiradas pelo iluminismo, das quais o marxismo foi o substituto de um modo mais militante e mais visvel, religies e f no desaparec

Recommended

View more >