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CONDOMNIOS VERTICAIS RESIDENCIAIS NA CIDADE DE SO PAULO (2000-2008): CONDOMNIOS - CLUBE

Alguns condomnios adotam como estratgia de circulao dois acessos. Uma por-

taria social e outra de servios. A portaria social (principal), na maioria das vezes se

apresenta cercada por altas grades, envidraada com pelcula protetora escura (para

no oferecer acesso visual ao interior) e com o esquema do pulmo (portes duplos,

contendo entre si uma rea de espera para o visitante, que deve ser liberado ao aces-

so depois de verifi cadas suas credenciais). O porto consiste em duas barreiras, sendo

assim, como estratgia de segurana o visitante acessa o primeiro estgio e somente

depois da liberao do acesso do visitante por um vigilante de portaria, permitido o

acesso ao interior do condomnio.

Condomnio Paulistania, situado do Bairro do Brooklin: Acessos, pela rua Pensilvnia e pela

rua padre Antonio Jos dos Santos. Fonte: . Acesso em 25/set/2009

No Condomnio Paulistania, a implantao revela a presena do acesso para pe-

destres e a entrada principal, pela Rua Pensilvnia, e dois acessos s garagens, pela Av.

Padre Antonio Jose dos Santos. A linha vermelha do desenho representa a diviso da

parte residencial com o bosque de rea privativa , mas de uso pblico.

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Captulo 2 | TRANSFORMAES URBANSTICAS DA CIDADE DE SO PAULO

Vista da entrada principal do condomnio La dolce Vita Mooca localizado na Rua Catarina

Braida, no bairro da Mooca. Nota-se o pulmo (dois lances de portes) e a portaria enclau-

surada.

Fonte: SAMPAIO, 15/set/2009.

Esquema de um pulmo, para segurana da portaria. Ilustrao realizada pela autora

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CONDOMNIOS VERTICAIS RESIDENCIAIS NA CIDADE DE SO PAULO (2000-2008): CONDOMNIOS - CLUBE

Alm do item segurana ser enfatizado nos condomnios residenciais, outras ca-

ractersticas importantes devem ser discutidas.

Nos empreendimentos residenciais, a viabilidade econmica pode ser alcanada

aproveitando terrenos grandes, devido relao entre Taxa de Ocupao e Coefi ciente

de Aproveitamento. No caso de categoria de uso conjunto residencial vertical, com o

coefi ciente de aproveitamento igual a dois, o empreendedor verifi car, atravs do es-

tudo de viabilidade, que verticalizando o mximo possvel (vivel em termos de custo),

poder dispor de rea livre no pavimento trreo (no necessariamente no nvel da rua)

e neste instalar equipamentos para lazer. Assim o empreendimento se torna vivel

para o construtor e para o incorporador.

Elaborao prpria sobre imagem area . Acesso em 25/out/2009.

As ilustraes acima mostram a diferena de ocupao do solo nas reas desta-

cadas com o tracejado em vermelho. A primeira (de cima para baixo) confi gura um

quarteiro inteiro (o quadriltero formado pelas Ruas Camilo, Aurlia, Tito e Rua Es-

prtaco) ocupado por um nico condomnio residencial vertical, o La Dolce Vita, na Vila

Romana. A segunda destaca um quarteiro prximo, ocupado por uma categoria mista

e predominantemente de edifi caes de um ou dois andares (Rua Esprtaco, Rua Cami-

lo, Rua Vespasiano e Rua Marcelina). Na terceira, no Bairro da Pompia, destacam-se

vrios edifcios residenciais (cada um com sua rea de lazer) e algumas edifi caes bai-

xas e de uso misto (Rua Desembargador do Vale, Rua Baro do Bananal, Rua Ministro

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Captulo 2 | TRANSFORMAES URBANSTICAS DA CIDADE DE SO PAULO

Ferreira Alves e Rua Raul Pompia). Essa comparao revela a importncia dos estudos

e diretrizes de uso do solo urbano. Para Antunes (2009)27, um condomnio de grande

porte, como os condomnios-clube, verticalizam ao mximo os edifcios, liberando o

pavimento trreo para lazer e gerando reas mais abertas, ajardinadas e permeveis.

Ao regularizar um conjunto residencial, a legislao usou essa categoria de uso com o

objetivo de aumentar os espaos destinados a reas verdes e de lazer, mas os condom-

nios contriburam para reforar o isolamento e a segregao dos espaos.

Fazendo-se um paralelo critica de projetos residenciais em So Paulo, Diane Ghia-

rardo (2002), apresenta em seu livro criticas a projetos de usos diversos e a relao com

o espao coletivo refl etindo sobre os prdios pblicos onde os acessos esto restritos de

uma forma ou de outra, e diz que os arquitetos no so a causa de tal situao, mas

tampouco se pode afi rmar que a combatem. (id. 2002,p.121)

Este tipo de implantao (dos condomnios) evidencia a importante valorizao

atribuda s reas no interior dos lotes, atravs das mudanas e exigncias da legisla-

o ou pela publicidade imobiliria que coloca grande importncia na quantidade de

equipamentos de lazer. Por outro lado, demonstram alteraes no hbito e costume da

populao expressando a valorizao dada ao espao privado28. Os projetos dos conjun-

tos de vrios edifcios em lotes de maiores dimenses, com grandes espaos livres, so

planejados de forma mercadolgica e acabam por incitar a segregao social e espacial

do entorno. O lazer oferecido pelos condomnios torna o empreendimento mais valori-

zado, embora nem sempre os qualifi quem como produto.

Assim como nesses exemplos apresentados, a maioria dos empreendimentos atuais

minimiza a relao do edifcio com a rua pela presena dos muros. Devido s diretrizes

dadas pela lei de uso e ocupao do solo, os projetos dos condomnios podem obter

resultados distintos. Em algumas solues verifi ca-se projeto do pavimento que com-

portar as garagens acima do nvel da rua, sendo estipulado como sobresolo. Outras

vezes, as garagens so muitas vezes propostas no nvel da rua e o tratamento em rela-

o a esta ignorado, resultando simplesmente em isolamento com muro. Num nvel

acima deste est o pavimento que contm o programa voltado ao lazer e convivncia,

e pode-se observar na foto abaixo, solues que contribuem para esse isolamento e

excluso.

27 Em depoimento autora

28 Ver resultado da Pesquisa pos ocupao no capitulo 3 deste.

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CONDOMNIOS VERTICAIS RESIDENCIAIS NA CIDADE DE SO PAULO (2000-2008): CONDOMNIOS - CLUBE

Rua Carlos Weber Vila LeopoldinaFonte:SAMPAIO. 12/nov/2008.

Outro exemplo que permite analisar as caractersticas de excluso da dimenso

pblica em relao privativa o do Condomnio Parque Cidade Jardim, localizado

na regio do Campo Belo, na zona sul de So Paulo. Compe-se de nove edifcios resi-

denciais, trs torres comerciais e o Shopping Cidade Jardim (este ltimo tendo um dos

acessos ao pblico e outro acesso direto ao restante do complexo). Incorporado pela

JHSF, deve ser concludo totalmente no ano de 2012.

Foto da maquete do empreendimento Fonte:http://www.parquecidadejardim.com.br. Acesso em 6/nov/2009

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Captulo 2 | TRANSFORMAES URBANSTICAS DA CIDADE DE SO PAULO

Imagem da vista do condomnioFonte:http://www.parquecidadejardim.com.br. Acesso em 6/nov/2009

Implantao. Da esquerda para direita, as trs primeiras torres so comerciais e as outras

nove, residenciais.Fonte:http://www.parquecidadejardim.com.br. Acesso em 6/nov/2009

O empreendimento ocupa um terreno de 72 mil m, sendo 50mil m de rea verde.

Completam o empreendimento uma academia, um spa de 12.000m e quadras de tnis

e de squash.

Fachadas dos prdios residenciais Fonte:http://www.parquecidadejardim.com.br. Acesso em 6/nov/2009

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CONDOMNIOS VERTICAIS RESIDENCIAIS NA CIDADE DE SO PAULO (2000-2008): CONDOMNIOS - CLUBE

As nove torres residenciais dispem de apartamentos de 235m, 533m, 673m,

765,00m, 1342,21m e 2.036,34 m .

Os apartamentos de escritrios variam a metragem entre 92 m a 1824,10 m.

Fachada dos prdios comerciaisFonte:http://www.parquecidadejardim.com.br. Acesso em 6/nov/2009

A excluso do espao pblico da cidade, a diferenas entre as pessoas e o medo do

inesperado to impactante para os paulistanos que o blasfemo (no sentido de horr-

vel) empreendimento, cria para os ricos, um bairro privativo.

Essa tipologia no aparece integrada cidade e no qualifi ca a paisagem, pelo

contrrio, so produtos mercadolgicos. Os empreendedores capitalistas preocupados

como lucro, levam produo de edifcios destitudos de qualquer valor cultural.

Como subproduto destas novas centralidades temos aqui em So Paulo, h

muito tempo, a chaga urbana dos condomnios fechados, horizontais ou

verticais, que nada mais so do que a expresso fsica da vontade das elites

de se segregarem espacialmente do restante da populao e, por conseq-

ncia, da prpria cidade. As incorporadoras e corretoras abocanharam este

fi lo de ouro e, sob o pretexto de uma duvidosa segurana (...) So estes con-

domnios os verdadeiros destruidores da urbanidade, das prticas sociais e

culturais da cidade, do papo no caf ou no bar da esquina, dos encontros

casuais, do confronto das diferenas, da convivncia entre classes, etc.. Com

esta negao do espao pblico fecha-se o comrcio de vizinhana, erguem-

se shopping-centers um atrs do outro para os que possuem automveis e

a vida urbana, to rica na diversidade que lhe prpria, vai aos poucos se

esvaindo, enquanto que a pobreza inevitavelmente segregada desta cida-

de global, deslocando-se para a sua periferia. (Oliveira 2008)

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Captulo 2 | TRANSFORMAES URBANSTICAS DA CIDADE DE SO PAULO

Foi com essa viso que o arquiteto Euclides Oliveira e sua equipe, formada por

pelos arquitetos Carolina de Carvalho e Dante Furlan e o paisagista e arquiteto Sid-

ney Linhares, ganharam o primeiro lugar no concurso pblico nacional Bairro Novo

Concurso Nacional para um Projeto Urbano, promovido em 2004 pela Prefeitura do

Municpio de So Paulo, atravs da Empresa Municipal de Urbanizao EMURB e or-

ganizado pelo Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento de So Paulo IAB/SP.

Perspectiva do projeto Bairro NovoFonte:www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq104/arq104_03.asp.Acesso em 11/out/2009.

O projeto urbanstico teria uma proposta que envolveria a iniciativa privada (para

a construo dos edifcios) e a prefeitura iria oferecer a infra-estrutura.Localizado na

Barra Funda, o terreno, com rea de 107, 6266 Ha, limitado ao norte pela Avenida

Marginal do Rio Tiet , pela rua Jos Neto Lorenzon a oeste, pela Ponte Jlio de Mes-

quita Neto a leste e pela Avenida Francisco Matarazzo ao sul. O local contava com

dois corredores expressos para nibus (um

na Francisco Matarazzo e outro na Avenida

Marqus de So Vicente), faz fronteira com

a linha de trens suburbanos da CPTM e est

a menos de um quilmetro da estao in-

termodal da Barra Funda (metr/ trem/

nibus). A regio concentrava grandes ter-

renos com pouca ou nenhuma ocupao.

Eram propriedades pblicas e particulares

que abrigavam, por exemplo, uma garagem

do Detran, os centros de treinamento dos ti-

mes de futebol So Paulo e Palmeiras e um

espao que pertencia antiga Telesp.Foto area do local na poca do concurso Fonte:www.vi truvius .com.br/arquitextos/arq104/

arq104_03.asp.Acesso em 11/out/2009.

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CONDOMNIOS VERTICAIS RESIDENCIAIS NA CIDADE DE SO PAULO (2000-2008): CONDOMNIOS - CLUBE

O idealizado projeto tinha a inteno de propiciar a criao de espaos pblicos e

privados abertos para a diversidade, ao contrrio de intensifi car as diferenas sociais,

como agem os condomnios fechados. Algumas habitaes de interesse social seriam

distribudas por todos os quarteires do bairro, homogeneizando as caractersticas das

classes sociais. (Oliveira ,2008)

A Equipe tinha em mente um plano

urbanstico que contemplava um sistema

virio e que promovesse a valorizao do

pedestre e diminusse a necessidade do

uso do automvel, as caladas seriam com-

plementadas por galerias.

Canal gua BrancaFonte:www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq104/arq104_03.asp.

Acesso em 11/out/2009

Exemplo de quarteiroFonte:www.vitruvius.com.br/arquitextos/arq104/arq104_03.asp.Acesso em 11/out/2009.

Os edifcios de uso residencial e misto (hab/com/servios) seriam formados em

uma volumetria defi nida, integrada e complementar, formando as confi guraes dos

espaos urbanos pblicos (ruas, praas, parque) e privados (o interior das quadras). Os

edifcios seriam alinhados s vias de circulao, sem recuos laterais e com gabarito de

altura nico. As ruas e praas internas contariam com edifcios exclusivamente residen-

ciais e as vias principais contariam com edifi caes de uso misto (com comrcio nas

galerias do trreo). O projeto paisagstico contaria com dez praas com rea de cerca

de 6.500 m cada, um parque urbano com 74.500 m e a arborizao da malha viria.

(idem, 2008)

O projeto no foi realizado, pois a proposta do concurso foi idealizada e realizada

na gesto da prefeita Marta Suplicy, mas a aprovao fi nal da interveno fi cou a cargo

da administrao posterior, a de Jos Serra, o qual no aprovou o projeto, concretizando

sua anulao.

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Captulo 2 | TRANSFORMAES URBANSTICAS DA CIDADE DE SO PAULO

Para o arquiteto Bruno Padovano (2009), a cidade est fi cando mais perigosa de-

vido existncia da privatizao exemplifi cada pela prioridade dos muros e excluso

do espao pblico pela sociedade.

Os incorporadores e construtores pensam no lucro do empreendimento e

no na cidade como um todo, as leis tambm no ajudam muito, pois for-

talecem essa tipologia. O que a legislao est fazendo com a cidade um

crime. O uso de espao para comrcio (lojas) no permetro dos condomnios

e o incentivo aos pedestres, seriam importantes fatores de desenvolvimento

urbano para revitalizar a cidade e humaniz-la. (ibidem.2009).

A forma urbana consagrada resultante da relao de alguns fatores, a saber, o s-

tio natural, o sistema virio pr-existente e a legislao e conseqente parcelamento do

solo vigente (ANTONUCCI, 2006). Por forma urbana se entende a formao da cidade,

em sua relao com a estrutura fundiria, o parcelamento do solo, formas do loteamen-

to, provimento de infra-estrutura e a edifi cao nessas circunstncias (id., ibid.).

Segundo Somekh (1987) a produo de edifcios verticalizados em So Paulo deve

ser analisada luz das transformaes da lei de zoneamento. Dessa maneira, at 1972,

verifi cou-se o fenmeno denominado por essa autora de Verticalizao do Milagre

(1967-1972), em que a liberao de recursos do FGTS signifi cou expressivo crescimento

imobilirio. A Lei de Zoneamento de 1972 (SOMEKH, 1987) representaria a desacelera-

o do setor imobilirio, devido reduo do coefi ciente de aproveitamento previsto, o

que faria crescer, a procura de terrenos de grandes dimenses, espraiando a cidade e a

des-verticalizando. Inicia-se ento a marcha em busca de terrenos grandes localizados

em reas perifricas, desvalorizadas.

A legislao urbanstica e as possibilidades de estrutura urbana que dela decorrem,

bem como suas transformaes representam uma varivel relevante para a compre-

enso das confi guraes espaciais da cidade. Claro est que as relaes entre espaos

pblicos e privados, bem como entre massa edifi cada e espaos vazios tambm se expli-

ca a partir das potencialidades de confi guraes urbanas propiciadas pelos dispositivos

legais de uso de solo em vigncia. Tais relaes passam necessariamente pela ao do

Estado, enquanto agente de regulao do uso do solo, promotor das melhorias advindas

de investimentos infra-estruturais e mediador da prestao de servios urbanos (CAM-

POS FILHO, apud ANTONUCCI, 2006).

Alm da regulao urbanstica, suscita-se uma outra questo, de grande importn-

cia para os objetivos deste trabalho, de compreender porque importantes contribuies

que vm da tradio do Projeto Urbano em pases europeus, que envolvem a quadra

aberta, a aplicao do uso misto e que implicam, portanto, uma crtica ao urbanismo

modernista reforado entre ns pela compreenso da cidade nos moldes propostos

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CONDOMNIOS VERTICAIS RESIDENCIAIS NA CIDADE DE SO PAULO (2000-2008): CONDOMNIOS - CLUBE

pela Lei de Zoneamento de 1972, fi cam margem da prtica do urbanismo no Brasil

e em So Paulo.

Tome-se como exemplo para discusso destes temas o Edifcio Brascan Century Pla-

za, projeto de Jorge Knigsberger e Gianfranco Vannucchi, de 2000, localizado no Itaim

Bibi, onde o espao semi-pblico e a transio do pblico, semi-pblico e privado se

faz de modo imperceptvel.

Para defi nio de espao semi-pblico, Hertzberger (1999), expe como uma um

espao de diferenciao gradual entre estes plos pblico e privado, e centra suas pers-

pectivas na questo da acessibilidade dos usurios e da forma de uso.

O complexo do Brascan Century Plaza, cujas obras foram terminadas em 2003,

compreende um terreno de 12.600 m, e tem 93.805 m de rea construda. Ocupa

quase (trs quartos) da quadra formada pelas ruas Joaquim Floriano, Bandeira Pau-

lista, Tamandar Toledo e Dr. Renato Paes de Barros, onde durante anos funcionou a

indstria de chocolates Kopenhagen, reafi rmando Melendez (2003), para quem Nas

transformaes pelas quais passou o bairro, a mudana de indstrias para outras regi-

es deixou vagas reas de terrenos fabris.

O projeto Brascan aplica o princpio do uso misto, procurando obter como resul-

tado um ambiente em que as cesuras entre espao pblico e privado consigam ser

amenizadas, estimulando a permeabilidade. A iniciativa proporciona acesso coletivo

em solo privado, entretanto o BRASCAN nasceu como proposta diferenciada de abrigo

de um complexo comercial de alto padro, em que as atividades coletivas so pro-

gramadas como eventos. Os espaos abertos consistem bem mais em instrumentos

de consolidao das funes comerciais especfi cas e controladas (cinemas Kinoplex,

shopping center etc..), do que reas francamente voltadas expresso da cidadania e

do lazer coletivo. No entanto, trata-se de iniciativa que sinaliza a possibilidade de trans-

formao da ocupao do solo e mudana dos padres de sensibilidade em relao ao

uso da cidade, expressos pelo conceito de condomnio-clube.

Inicialmente, o proprietrio do terreno tinha a inteno de ali implantar um sho-

pping center, mas a parceria entre os arquitetos com a incorporadora Brascan resultou

na elaborao do projeto fundamentado no conceito de quadra multifuncional. Este

conceito seria mais adequado ao local e articularia o espao pblico ao privado. O pro-

jeto foi realizado em 2000 e a data de concluso da obra foi junho de 2003 (Melendez

, 2003).

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Captulo 2 | TRANSFORMAES URBANSTICAS DA CIDADE DE SO PAULO

1 - Acesso de pedestres

2 - Acesso de veculos

3 - Praa

4 - Hotel

5 - Torre de escritrios

6 - Complexo de cinemas

7 - Torre corporativa

8 - Servios

Implantao Fonte:. Acesso em 12/set/2009

A concepo arquitetnica do Brascan Century Plaza rene um edifcio de hotel,

um outro destinado a conjuntos de escritrios e o terceiro destinado a instalaes cor-

porativas. O complexo conta ainda com centro de convenes, centro comercial, praa

de alimentao e seis (06) cinemas.

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CONDOMNIOS VERTICAIS RESIDENCIAIS NA CIDADE DE SO PAULO (2000-2008): CONDOMNIOS - CLUBE

Vista do pavimento trreoFoto:Nelson Kon Fonte:. Acesso em 12/set/2009

Vista dos edifi ciosFoto:Nelson Kon Fonte:. Acesso em 12/set/2009

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Captulo 2 | TRANSFORMAES URBANSTICAS DA CIDADE DE SO PAULO

A torre de escritrios destinada a pequenas salas comerciais localiza-se possui laje

de 776 e 906 metros quadrados, podendo ser dividida em unidades de 38 m com at

dezesseis salas por andar.

Plantas tipo da Torre de Escritrios Fonte:. Acesso em 12/set/2009

A torre corporativa possui lajes de 726m e est equipada para receber piso eleva-

do, ar condicionado individual e sistemas de segurana predial.

Planta tipo da Torre CorporativaFonte:. Acesso em 12/set/2009

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CONDOMNIOS VERTICAIS RESIDENCIAIS NA CIDADE DE SO PAULO (2000-2008): CONDOMNIOS - CLUBE

O hotel possui pavimentos de 3040 m que comportam trs tipos de unidades.

Plantas tipo do Edifcio Hoteleiro Fonte:. Acesso em 12/set/2009

Mas neste projeto realmente merece destaque a concepo da implantao devido

ao tratamento das reas comuns. A distribuio dos edifcios no lote e a disposio da

circulao propiciada pela adoo da quadra multifuncional garantem uma razo po-

sitiva relacionada escala humana e amplia o espao coletivo em territrio privado.

Espaos para uso diurno e noturnoFoto:Nelson Kon Fonte:. Acesso em 12/set/2009

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Captulo 2 | TRANSFORMAES URBANSTICAS DA CIDADE DE SO PAULO

O projeto paisagstico de Benedito Abbud conta com rvores de espcies nativas

e tambm com esculturas de grande porte de autoria de Elisa Bracher.

Praa de acesso coletivo, paisagista Benedito Abbud Foto:Nelson Kon Fonte:. Acesso em 12/set/2009.

No que diz respeito relao entre a qualidade espacial e a produo imobiliria,

Fonseca (2004) aponta a relao da rua com o lote, isto , o compromisso que os edif-

cios tm ou no com a cidade ou com as reas pblicas de seu entorno um dos fatores

fundamentais a serem incorporados ao debate crtico. guisa de exemplo, o autor

mencionado destaca o Edifcio Louveira, situado no Bairro de Higienpolis ( Praa

Villaboim), projetado pelos arquitetos Joo Batista Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi,

onde os espaos pblicos e privados se inter-relacionam, estruturam o lugar, o espao

que se pode apropriar da cidade. A relao entre o edifcio e a cidade direta. (Fonse-

ca, 2000: 362).

Deve-se frisar que a legislao urbanstica (ANTONUCCI, 2006) acarreta a implanta-

o de uma forma pr-elaborada, fruto de um acordo entre o Estado e o setor privado,

uma vez regulamentadas as prticas de produo do espao urbano. O zoneamento e

a legislao urbanstica constituem os marcos regulatrios atravs de que possvel

compreender seus efeitos enquanto cidade real e histrica, construda em funo dos

interesses de atores variados (FELDMAN, 2005).

A implantao de edifcios verticalizados na cidade teve grande impulso com o C-

digo de Obras Arhur Saboya, de 1929 (Lei 3.427), que disciplinou a edifi cao urbana e

introduziu o conceito de ambiente construdo. Passam a integrar a legislao elementos

tais como normas de fachadas, gabaritos e volumetria, estimulando a implantao de

edifcios altos (ANTONUCCI, 2006). A construo efetiva de um zoneamento para So

Paulo, ocorreu defi nitivamente entre 1947 e 1957, atendendo prioritariamente aos in-

teresses do mercado imobilirio. De 1967 a 1972 se completa o ciclo iniciado em 1947

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CONDOMNIOS VERTICAIS RESIDENCIAIS NA CIDADE DE SO PAULO (2000-2008): CONDOMNIOS - CLUBE

de consagrao do zoneamento como fator decisivo para a construo da paisagem

paulistana.

O Edifcio Louveira de 1949, formado por duas lminas paralelas apoiadas

sobre pilotis e interligadas por rampas. Cria-se um espao interior quadra e insters-

ticial aos edifcios, que permite excepcional continuidade visual em relao Praa

Villaboim (id., ibid.). Essa continuidade visual, presente no exemplo do Louveira e em

grande parte dos edifcios verticais residenciais de Higienpolis permite integrao en-

tre a via pblica e os jardins, presentes quase que como regra nos edifcios do bairro

construdos entre 1945 e 1980.

Deve-se observar que os edifcios desse perodo se apresentam muitas vezes em

lminas paralelas, interligadas por rampas de acesso, e marquises que se insinuam

via pblica, contribuindo com seu desenho de conjunto para uma ambincia urbana

muito signifi cativa quanto relao espao pblico e espao privado.

Praas internas aos conjuntos de edifcios funcionam hoje em sua grande maioria

como elemento de continuidade visual, borrando fronteiras quanto percepo de

dentro e fora, mas deve-se salientar que nos anos cinqenta e sessenta, a maior

parte dessas praas e passagens se encontrava permevel, tornando fl uida a presena

de espaos semi-privados dos edifcios, que em seu trreo abrigavam lojas, galerias,

praas e passagens.

Implantao Ed. LouveiraFonte: Fonseca, 2004: 362

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Captulo 2 | TRANSFORMAES URBANSTICAS DA CIDADE DE SO PAULO

Vista da Praa Vila Boim para o edifcio LouveiraFonte: .Acesso em 6/abr/2009

Ainda hoje, um passeio pelo Bairro de Higienpolis permite identifi car essa conti-

nuidade visual e integrao das vias aos jardins, constituindo-se agradvel ambincia

que se completa pela massa arbrea consolidada.

No entanto, esse interessante padro analisado no se perpetuou, e recentemente

a produo de mercado vem se apresentando em conjuntos com mais de uma torre por

lote, maior nmero de apartamentos com rea til menor, que se realizam onde h

terrenos grandes e baratos.

H procura por localizaes que correspondem a eixos ou ligaes entre bairros,

tais como Avenida Luis Carlos Berrini, Vila Nova Conceio, Ipiranga, Chcara Klabin,

Tatuap, Jardim Anlia Franco, Penha, Alto de Santana (ANTONUCCI, 2006). Observa-se

o baixo comprometimento dos empreendimentos imobilirios recentes com o meio

urbano e espao pblico, introvertendo-se em meio a uma quadra inteira, obtida por

vezes atravs de remembramento de lotes.

possvel dizer, que de maneira geral, a verticalizao da cidade de So Paulo

crescente nos dias atuais, e a paisagem tomada por edifcios altos e condomnios,

murados ou gradeados.

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CONDOMNIOS VERTICAIS RESIDENCIAIS NA CIDADE DE SO PAULO (2000-2008): CONDOMNIOS - CLUBE

O apelo segurana e ao fechamento introvertido dos edifcios em seus gran-

des terrenos desvaloriza os outrora generosos espaos pblicos, solapando caladas e

passeios pblicos, intimidando praas e jardins coletivos. Para obter melhor apelo de

venda, parece que incorporadoras apostam em reas de lazer e sacadas, fazendo jus

observao de que os prdios parecem querer competir uns com os outros, em adornos

e imponncia, mas negando a rua e se impondo sobre esta em isolamento ostensivo.