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  • Prof. Rmulo de Carvalho O HOMEM E O PEDAGOGO

    Comemorao do 1. Centenrio do Nascimento do Prof. Rmulo de Carvalho

    O PENSAMENTO DE RMULO DE CARVALHO . CONTRIBUTOS PARA UMA DIDCTICA DAS CINCIAS NO JARDIM-DE-INFNCIA

    Isabel Fialho Universidade de vora

    ifialho@uevora.pt

    Rmulo de Carvalho foi um homem notvel da cultura portuguesa do sculo XX, enquanto professor, destacou-se pelas suas qualidades cientficas e pela dedicao ao ensino, entusiasmo e gosto pela cincia. A preocupao com a cultura cientfica e tecnolgica dos cidados e alguns aspectos do seu pensamento sobre o ensino da cincia enquadram-se no paradigma actual da educao em cincia para todos.

    A cultura cientfica dos cidados continua a ser uma questo central da educao convertendo-se, nas duas ltimas dcadas, numa das principais preocupaes de polticos, governantes, educadores e investigadores. Diversas organizaes internacionais (Comisso Europeia, AAAS, NAEP, NRC, NSTA, OCDE) multiplicam os esforos e investimentos em reformas e pesquisas, no mbito da educao em cincia, tendo a educao em cincias para todos e a literacia cientfica como questes centrais. A educao cientfica deve garantir a todos uma formao em cincias adequada s exigncias do mundo moderno, que assegure uma cidadania responsvel e participativa, numa sociedade profundamente marcada pelas realizaes cientficas e tecnolgicas, contribuindo para o reforo e o aprofundamento da democracia.

    Os resultados de estudos internacionais recentes (Pisa 2000 e 2003), vieram reforar a ideia de que fundamental mais e melhor educao em cincias desde os primeiros anos de escolaridade. Na comunidade cientfica existe consenso na ideia de que o modo como os indivduos se relacionam com a cincia est relacionado com as atitudes e valores relativamente cincia desenvolvidos nos primeiros anos de escolaridade. Considerando que a educao cientfica e as actividades experimentais de cincia devem comear o mais cedo possvel e sabendo que estas no so prtica corrente nos jardins-de-infncia e, quando acontecem, geralmente no se enquadram nos actuais pressupostos da didctica das cincias; pareceu-nos oportuno abordar a problemtica das actividades experimentais na educao pr-escolar.

    As cincias esto presentes nas Orientaes curriculares para a educao pr-escolar e 1. ciclo, atravs da rea do conhecimento do mudo e da rea de estudo do Meio, respectivamente. Contudo, o conhecimento de que dispomos da realidade de uma educao cientfica incipiente, com ausncia de actividades experimentais e predominncia de prticas pedaggicas livrescas, no 1. ciclo. As actividades de cincias geralmente tm um carcter subsidirio e marginal, muitas vezes, so vistas como algo no essencial e de menor importncia que vai retirar tempo a outros aspectos mais importantes, tais como sejam a aprendizagem da leitura ou da matemtica (Mata et al., 2004, p. 173).

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    O documento das Orientaes Curriculares para a Educao Pr-Escolar faz referncia educao em cincias e s metodologias recomendadas, mas no claro quanto sua operacionalizao, o que se traduz num afastamento dos educadores em relao s cincias. Por outro lado, as lacunas na educao em cincia dos educadores, a escassez de recursos didcticos adequados e as reservas quanto capacidade de percepo e compreenso que as crianas possuem dos fenmenos que observam, contribuem, ainda mais, para este afastamento.

    No que diz respeito formao dos educadores e professores, S (1994) fala de um dfice de formao ao nvel de conceitos cientficos bsicos1 e Mata et al. referem que dadas as caractersticas da formao recebida pelos professores, surge, por vezes, dificuldades na implementao do ensino da cincia, j que eles sentem falta de confiana nas suas capacidades neste domnio (2004, p. 172). Por outro lado, verifica-se que , durante o seu percurso acadmico, alguns estudantes desenvolveram atitudes negativas em relao s cincias e concepes inadequadas sobre o que a cincia, como se constri o conhecimento cientfico e como se desenvolve, que iro conduzir a abordagens inadequadas da cincia.

    Para que os educadores mudem a sua atitude em relao educao cientfica necessrio intervir ao nvel da formao dos educadores, de modo a sensibiliz-los para a importncia e potencialidades da educao cientfica e ajud-los a adquirir competncias que permitam abordagens adequadas da cincia e a sua articulao com as outras reas curriculares.

    A rea do Conhecimento do Mundo uma das trs reas de contedo das Orientaes Curriculares para a Educao Pr-Escolar que visa a iniciao s cincias, com introduo de aspectos relativos a diferentes domnios do conhecimento humano necessrios para enquadrar e sistematizar a compreenso do mundo: a histria, a sociologia, a geografia, a fsica, a qumica, a biologia, a geologia, a astronomia.

    A rea de Conhecimento do Mundo dever mobilizar e enriquecer os diferentes domnios de Expresso e Comunicao mediante uma abordagem integradora. Atravs das expresses a criana explora as possibilidades e limitaes do seu corpo, as relaes com o espao e com os objectos; as capacidades manipulativas; no domnio da linguagem, desenvolve o vocabulrio e a capacidade de comunicao oral e escrita, no domnio da matemtica, desenvolve o sentido da preciso e do rigor, as capacidades de classificao, seriao, medio e clculo; o pensamento lgico-matemtico quando se estabelecem relaes de causa-efeito. Ao adquirir estes meios a criana passa a poder representar e dar sentido ao mundo, melhorando a sua compreenso da realidade envolvente.

    Tambm a rea de Formao Pessoal e Social proporciona oportunidades da criana se situar na relao consigo prpria, com os outros e com o meio fsico, favorecendo a aquisio de esprito crtico e a interiorizao de valores espirituais, estticos, morais e cvicos. So estas atitudes e valores que vo contribuir para a formao de cidados conscientes e solidrios, capacitando-os para a resoluo dos problemas da vida pessoal e

    1 Muitos dos alunos que chegam Universidade para frequentarem os cursos de Educao de Infncia e de Professor do 1. ciclo do ensino bsico abandonaram as Cincias da Natureza no 9. ano.

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    comunitria. A educao para a cidadania, baseada na aquisio de um esprito crtico e na interiorizao de valores, pressupe conhecimentos e atitudes que podero iniciar-se na educao pr-escolar atravs da abordagem de temas transversais que se relacionam directamente com o Conhecimento do Mundo, tais como: a educao para a sade, a educao ambiental, a educao para a preveno de acidentes, a educao do consumidor, a educao multicultural.

    Porqu as actividades de cincias no jardim-de-inf ncia?

    Rmulo de Carvalho afirma que os primeiros anos da nossa vida so riqussimos em experincias, entrmos num mundo do qual nada conhecemos e, como seres inteligentes, temos necessidade de descobrir o que se passa nesse mundo, como se passa e, at, porque se passa (2004, p. 40). Esta constitui uma das razes pela qual a educao em cincias deve comear o mais cedo possvel, ou seja, no jardim-de-infncia. A rea curricular do Conhecimento do Mundo, tendo por objecto de estudo aquilo que igualmente objecto de uma curiosidade gentica, que se manifesta na criana desde os seus primeiros anos de vida, sem dvida, a que mais naturalmente permite uma abordagem curricular centrada na criana. As actividades de cincias permitem expandir o conhecimento e a compreenso do mundo fsico e biolgico. Atravs destas o educador alarga e contextualiza os conhecimentos da criana, estimulando a sua curiosidade natural e o desejo de saber mais e de compreender os fenmenos naturais que ocorrem no seu quotidiano e os factores que influenciam esses fenmenos. nos contextos sociais, nas relaes e interaces com os outros, que esta vai construindo o conhecimento de si prpria, do mundo e dos valores.

    As actividades cientficas oferecem s crianas a possibilidade de conhecerem o mundo de uma forma mais rigorosa e aprofundada, mediante a utilizao de diversos procedimentos e capacidades (observar, registar, medir, comparar, contar, descrever, interpretar) que no so exclusivos da cincia, existindo por isso, uma forte conexo das cincias com outras reas curriculares, nomeadamente da matemtica e da comunicao e expresses.

    Para qu as actividades de cincias no jardim-de-in fncia?

    So vrias as razes que justificam a importncia das cincias no pr-escolar: 1) satisfazer a curiosidade das crianas, fomentando a admirao, entusiasmo e interesse pela cincia e pela actividade dos cientistas (Cachapuz, Praia e Jorge, 2002; Martins, 2002; Pereira, 2002); 2) contribuir para a construo de uma imagem positiva da cincia (Martins, 2002); 3) desenvolver capacidades de pensamento (criativo, crtico, metacognitivo,) teis noutras reas e em diferentes contextos, como, por exemplo, de tomada de decises e de resoluo de problemas (Tenreiro-Vieira, 2002; Lankin, 2006); 4) promover a construo de conhecimento cientfico til e com significado social, que permita melhorar a qualidade da interaco com a realidade natural (Fumagalli, 1998).

    As actividades de cincias servem para ajudar as crianas a desenvolverem capacidades, a adquirirem procedimentos que lhe permitam explorar o meio participando activamente na construo do seu prprio conhecimento. Estas actividades contribuem para

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    o desenvolvimento de competncias de pensamento potenciadoras da capacidade de aprender a aprender de aprendizagem ao longo da vida. Como salienta Glauert na educao de Infncia, a cincia procura expandir o conhecimento e a compreenso que as crianas possuem acerca do mundo fsico e biolgico e ajud-las e desenvolver meios mais eficazes e sistemticos de descoberta (2005, p. 71). Estes meios so as capacidades que permitem a formao de cidados que se adaptam s mudanas e constroem as mudanas. Pois a cidadania responsvel requer a aquisio de modos de vida, hbitos, valores e costumes que preservem a sade e segurana individuais e colectiva e que respeitem o meio ambiente.

    O qu que cincia no jardim-de-infncia?

    Muitos educadores questionam-se sobre os contedos que devem ser abordados no jardim-de-infncia, desconhecendo que a importncia educativa das cincias, no reside tanto nos contedos que a criana aprende, mas antes nas competncias de pensamento e aco que desenvolve (Harlen, 1988). Neste sentido, Rmulo de Carvalho afirma que o importante no a descoberta que o aluno faz, mas a revelao das qualidades do aluno como experimentador (2004, p. 41). Significa que os contedos em cincia no devem ser vistos como fins, mas como meios, pois mais importante que os resultados so os processos que a criana utiliza para chegar ao conhecimento e as atitudes que revela. Nesta perspectiva, Hodson (1998) defende um currculo de cincias multidimensional que v ao encontro das trs grandes finalidades da educao cientfica (aprender cincia, aprender a fazer cincia e aprender sobre cincia). Trata-se de uma educao em cincia e sobre a cincia, centrada na sua estrutura conceptual e processual; e pela cincia, visando a formao de cidados cientificamente alfabetizados.

    Aprender cincia aquisio de conhecimentos sobre o mundo fsico e biolgico: os seres vivos e seu ambiente, os materiais e as suas propriedades, a luz, as foras, o espao, a Terra, o som, a electricidade, o magnetismo.

    Aprender a fazer cincia desenvolvimento de capacidades: aquisitivas (observar, pesquisar, investigar); organizacionais (registar, ordenar, agrupar, classificar); criativas (planear, prever, inventar); manipulativas (medir, pesar, utilizar instrumentos); comunicacionais (questionar, descrever relatar, discutir, escrever, responder, explicar).

    Aprender sobre cincia compreenso da natureza e dos processos da cincia, a sua histria e evoluo e as interaces entre cincia, tecnologia e sociedade. Apesar do grande impacto que esta dimenso tem na formao do cidado, tem sido a menos valorizada nos currculos. No podemos esquecer que a forma como o educador promove as actividades experimentais contribui, implcita ou explicitamente, para a imagem que a criana desenvolve sobre a cincia e os cientistas. Por este facto, muitas crianas possuem ideias estereotipadas do cientista e da cincia. Neste sentido, importa promover uma imagem positiva da cincia, familiarizando a criana com pessoas que esto envolvidas em actividades cientficas de diferente natureza; evidenciando os elos entre a cincia, a tecnologia e a vida quotidiana; aproveitando o facto das crianas gostarem de ouvir contar histrias, o educador/professor pode contar a vida de alguns cientistas importantes (ajuda a perceber que o cientista uma pessoal comum), pode contar a histria de uma inveno ou

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    de uma descoberta cientfica (ajuda a perceber que a cincia tem avanos e retrocessos, que no definitiva, que no acontece por acaso,).

    Na mesma linha de pensamento de Hodson, Glauert (2005) define quatro reas-chave na educao cientfica do jardim-de-infncia

    Conhecimento e compreenso dos conceitos cientficos acerca dos seres vivos e ambiente, dos materiais e suas propriedades e processos fsicos (electricidade, magnetismo, som, luz, foras e Terra e espao).

    Capacidades, processos e conhecimento dos procedimentos relacionados com a investigao cientfica (utilizar equipamentos lupa, balanas, manes, fita mtrica, usar tabelas para registar observaes ou resultados).

    Atitudes cientficas e qualidades pessoais que facilitam a aprendizagem e contribuem para o desenvolvimento da cidadania. A curiosidade um ponto de partida fundamental; a flexibilidade que permite mudar de ideias e de abordagens; o respeito pela evidncia a perseverana, a cooperao, a predisposio para fazer perguntas, a reflexo crtica que permite reconhecer os erros e aprender com eles. O educador estimula estas atitudes quando elogia a criana que mostra perseverana face a dificuldades, quando est receptivo a novas ideias, quando valoriza as ideias das crianas, quando mostra interesse e entusiasmo pela cincia, quando se mostra disponvel para experimentar coisas novas sem medo de errar, quando estimula as crianas a colocarem questes.

    Ideias acerca da cincia e dos cientistas. A forma como o educador promove a educao cientfica transmite as suas concepes acerca da cincia e dos cientistas, contribuindo, explcita ou implicitamente para o modo como as crianas iro compreender a cincia.

    Como abordar a cincia no jardim-de-infncia?

    A ideia de que as actividades de cincias so complexas, que requerem aparatos complicados, alguns materiais perigosos e utenslios especficos contrariada por Rmulo de Carvalho quando afirma que no necessrio ser-se cientista profissional, nem ter labor...

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