cinema pernambucano

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novo cinema pernambucano

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  • Um rpido olhar pela produo ci-nematogrfica pernambucana atual revela panorama diversificado, com nomes j consolidados como Clu-dio Assis, Adelina Pontual e Lrio Ferreira, e diretores estreantes com trabalhos sendo muito bem recebi-dos pela crtica, como os premiados O som ao redor (2012), de Kleber Mendona Filho; Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda e Boi Neon (2015), de Gabriel Mascaro. O movimento, que tem sido chamado de Novo Ci-nema Pernambucano, resultado de uma combinao de fatores entre eles polticas pblicas estaduais de incentivo produo, com a apro-vao de leis que tornaram o audio-visual uma poltica de Estado, e a mobilizao coletiva dos produtores, em intenso dilogo entre si e com os representantes governamentais. O exemplo de Pernambuco sugere que a consolidao e ampliao desses elementos criariam condies para que o momento atual no seja apenas um ciclo passageiro, mas o ponto de partida para uma trajetria de conti-nuidade na produo audiovisual em Pernambuco, que pode, inclusive, ser repetida em outros lugares.

    CiClos A histria do cinema per-nambucano , em geral, retratada pela presena de trs grandes ciclos. O primeiro, de Recife (1923-1931), ocorreu em paralelo com outros ci-

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    clos regionais de cinema mudo e produziu 13 filmes de fico. De-pois, na dcada de 1970 ocorre o ci-clo do Super-8 e, mais recentemen-te, a partir de 1980 temos a grande retomada do cinema pernambuca-no. No entanto, como aponta Ar-thur Autran no artigo A noo de ciclo regional na historiografia do cinema brasileiro, a concepo de ciclos pode transmitir a falsa ideia de perodos de interrupo na pro-duo cinematogrfica, quando, na verdade, existe uma produo cont-nua de filmes de no fico e de ou-tros formatos, que gera experincias e referncias que atravessam esses perodos de maior visibilidade.So essas referncias que embalam o movimento que deu origem reto-mada do cinema pernambucano, na dcada de 1980. O professor do pro-grama de ps-graduao em imagem e som da Universidade Federal de So Carlos (UFSCar), Samuel Pai-va, que participou ativamente desse

    perodo, aponta que o embrio da retomada est nas atividades de gru-pos que desejavam misturar influ-ncias do passado com experimen-taes. Essas ideias foram difun-didas pelo grupo Vanretr, nome inspirado nas palavras vanguarda e retrgrada, que reunia estudan-tes da Universidade Federal de Per-nambuco (UFPE), entre eles Lrio Ferreira, Adelina Pontual, Samuel Paiva e Paulo Caldas. Outra iniciati-va aconteceu na Universidade Cat-lica de Pernambuco, onde um grupo de estudantes de jornalismo fundou o cineclube Jurando Vingar. Neste grupo estava Marcelo Gomes, que mais tarde dirigiria Madame Sat (2002) e Cinema, aspirinas e urubus (2005). O nome do cineclube reve-renciava o filme homnimo de Ary Severo, de 1925, um dos principais expoentes do ciclo de Recife. A movimentao cultural da dca-da de 1980 no se refletiu em uma produo consistente de filmes, pois

    AudiovisuAl

    O novo cinema de Pernambuco

    Fotos: divulgao

    Cena do filme Rio Doce/CDU (2013), de Adelina Pontual

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  • a vontade de produzir esbarrava na grande dificuldade de acesso a verbas. A principal via de financiamento na-cional da poca era a estatal Embra-filme. A empresa, no entanto, entrou em crise na dcada de 1980 devido a conflitos internos e crise econmica do pas e, aps 21 anos de atividade, foi fechada em 1990 pelo presidente Fernando Collor de Mello, resultan-do em uma crise geral no cinema bra-sileiro, que s voltaria a se recuperar a partir a implementao de mecanis-mos de incentivos pblicos indiretos, como a Lei Rouanet, em 1991, e a Lei do Audiovisual, em 1993. Porm, antes do fechamento da Embrafilme, o grupo Vanretr conseguiu finalizar o curta-metragem Padre Henrique um crime poltico (1987), projeto do ento estudante de economia na UFPE, Cludio Assis.

    Retomada A chamada fase de re-tomada do cinema pernambuca-no confunde-se com a retomada do cinema brasileiro. Enquanto o marco nacional dessa fase o filme Carlota Joaquina: princesa do Brasil (1995), de Carla Camurati, o do ci-nema pernambucano o filme Baile perfumado (1997), de Lrio Ferreira e Paulo Caldas, ambos financiados pelo Prmio Resgate do Cinema Brasileiro. Muitos dos integrantes do Vanretr participaram da produ-o do filme, que foi lanado no Fes-tival de Braslia, em 1996, e ganhou, entre outros, o prmio de Melhor Filme do Jri Oficial. A recuperao do cinema nacional foi particularmente frutfera em Per-nambuco, cujas produes alcana-ram prestgio nacional e internacio-nal. Alguns exemplos so os filmes O

    rap do pequeno prncipe contra as al-mas sebosas (Paulo Caldas e Marcelo Luna, 2000); Amarelo manga (Clu-dio Assis, 2003); Cinema, aspirinas e urubus (Marcelo Gomes, 2005); ri-do movie (Lrio Ferreira, 2005); Bai-xio das bestas (Cludio Assis, 2006); Deserto feliz (Paulo Caldas, 2007); Viajo porque preciso, volto porque te amo (Karim Ainouz e Marcelo Go-mes, 2009), entre outros.Com o cenrio favorvel, pequenas produtoras, como a Smio Filmes e a Trincheira Filmes tm lanado filmes de boa repercusso. Alguns exemplos so Amigos de risco (Daniel Bandei-ra, 2007); Pacific (Marcelo Pedro-so, 2009); Um lugar ao sol (Gabriel Mascaro, 2009); Eles voltam (Mar-celo Lordello, 2012), uma produo que se beneficia do barateamento de cursos via novas tecnologias digitais, novas formas de incentivo como o crowdfunding e a possibilidade de di-

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    vulgao, distribuio e exibio de filmes em plataformas online.

    PoltiCa de audiovisual Uma srie de mecanismos de financiamento ajudou a consolidar o novo cinema pernambucano. A prefeitura de Re-cife, por exemplo, criou o Sistema de Incentivo Cultura (SIC), que funciona por meio de renncia fis-cal e teve o ltimo edital publicado em 2012. No mbito dos mecanis-mos estaduais, o principal recurso o Fundo Pernambucano de Incentivo Cultura, o Funcultura, instaurado em 2002. O fundo recebe recursos da arrecadao do ICMS e, por meio de editais de seleo pblica, contempla e financia diretamente projetos arts-ticos e culturais. Em 2007 tambm foi criado um edital prprio para o setor, o Funcultura Audiovisual, e em 2013 foi estabelecido um montante mnimo anual para o fundo, no valor de R$ 33,5 milhes, divididos em R$ 11,5 milhes para o setor audiovisu-al, e R$ 22 milhes para as demais reas. Em 2011, o fundo incorporou, dentro da categoria de curta-metra-gem, o prmio de roteiros Ary Seve-ro/Firmo Neto, criado em 1999.Esses editais estaduais viabilizam tanto a produo de filmes de menor oramento, realizados integralmente com essa verba, como de produes maiores, que combinam o montante desse edital com o de outros editais na-cionais, como os da Ancine, Petrobras e BNDES. Alm disso, Pernambuco tambm o primeiro estado a ter uma lei do audiovisual. A Lei 15.307, de 2014, fez com que o setor passasse a ter uma poltica de Estado imune s trocas de gesto. A lei tambm criou o Conselho Consultivo do Audiovisu-

    Cartaz do filme Boi Neon (2015), de Gabriel Mascaro, grande vencedor do Festival de Cinema do Rio de 2015

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  • De acordo com dados da Fundao Nacional do ndio (Funai), o estado do Tocantins tem uma populao apro-ximada de 10 mil indgenas. Krah, Krah Canela, Karaj, Karaj Xam-bio, Apinaj, Xerente e Java so algu-mas das etnias distribudas em mais de 82 aldeias. Entre 19 de novembro e 1 de dezembro de 2015, no entanto, essa populao se multiplicou. A capital de Tocantins, Palmas, recebeu a 1 edio dos Jogos Mundiais Indgenas, que teve como lema Agora somos todos indge-nas. Segundo o Ministrio do Esporte, 104 mil estiveram nos jogos, injetando R$ 2,5 milhes na economia do esta-do. A programao foi intensa com a participao de 24 etnias brasileiras, 23 delegaes de outros pases. 1129 atle-tas indgenas nacionais e 566 interna-cionais. 250 pessoas participaram dos jogos como voluntrios e 300 jornalis-tas nacionais e de outros pases fizeram a cobertura do evento. Os Jogos Mun-diais Indgenas foram patrocinados pe-las Naes Unidas e pelo Ministrio do Esporte e coordenados pelo Comit In-tertribal, Memria e Cincia Indgena e pela prefeitura da cidade de Palmas.A programao foi dividida em jogos de integrao, com atividades tradicionais praticadas pelos povos indgenas brasi-leiros como arco e flecha e arremesso de lana; jogos de demonstrao, aqueles especficos de determinada etnia como a corrida com toras, jogo de bola com a cabea, peteca entre outros; e, final-

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    al, que viabiliza a participao efetiva da sociedade civil na formulao de polticas pblicas para o setor.O estado tambm mantm interes-santes iniciativas visando formao de pblico para o cinema de arte e o cinema nacional, como as aes da Fundao Joaquim Nabuco (Fundaj), vinculada ao Ministrio da Educao, que j abrigou diversos cineclubes e

    mostras. Em 1998, a Fundaj inaugu-rou o Cinema da Fundao, cuja pro-gramao feita pelo cineasta Kleber Mendona Filho e pelo jornalista Luiz Joaquim. Entre outras aes, o espao exibe filmes que dificilmente entra-riam no circuito comercial. O Cinema So Luiz, cujo prdio foi tombado pe-la Fundao do Patrimnio Artstico e Cultural de Pernambuco em 2008, tambm adotou uma programao de filmes de fora do circuito comercial, com ingressos a preos mais acessveis. Alm disso, Pernambuco ainda abriga importantes festivais de cinema, que contribuem para a divulgao e exibi-o de filmes, tais como o Cine-PE, j em sua 19 edio, e o Janela Interna-cional de Cinema de Recife, que com-pletou sete edies em 2015.

    BRodagem Outro diferencial do ci-nema pernambucano a chamada brodagem (brother e cama-radagem), uma maneira de fazer filmes de forma colaborativa, acio-nando redes de amigos e conhecidos para viabilizar as produes. Longe dos grandes centros, com falta de infraestrutura tcnica, pouca mo de obra qualificada e trabalhando com baixos oramentos, a broda-gem uma importante estratgia para dribl