cânone literário e valor estético: notas sobre um debate de nosso

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    Cnone Literrio e Valor Esttico: notas sobre um debate

    de nosso tempo

    Idelber Avelar*

    * Tulane University.

    resumo: Este ensaio se insere no debate contemporneo acerca do valor esttico, argumentando que culturalistas, revisores do cnone, e esteticistas, defensores da primazia do cnone ocidental, compartilham uma srie de pressupostos. A partir de uma compreenso do carter contingente do valor esttico e da impossibilidade de fundament-lo de maneira imanente obra, sugerem-se algumas pautas para o debate, baseadas na descontinuidade, frequentemente ignorada, entre os conceitos de valor, de esttica e de cnone.

    palavras-chave: valor; cnone; esttica; contingncia.

    abstract: This article is part of a contemporary debate on aesthetic value. I argue that canon-revising culturalists as well as aestheticists who defend the primacy of the Western canon share a number of premises. Understanding the contingent nature of aesthetic value and the impossibility of grounding it immanently, I suggest a few possible routes for the debate, based on the often ignored discontinuity among the concepts of value, aesthetics, and canon.

    keywords: value; canon, aesthetics, contingency.

    Cnone e crtica formal

    Este ensaio parte da premissa de que no h crtica ou teoria literria, por mais descritiva, na qual no esteja implcita uma posio sobre o valor. Como veremos, essa premissa simultaneamente negada e aceita pelos dois polos de um debate que, com frequncia, apresentado como uma polmica entre defensores de um firme cnone

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    ocidental e culturalistas favorveis a uma relativizao ou abolio desse cnone. Alm de tomar algumas posies que no se alinham com nenhum dos dois polos, este en-saio tenta demonstrar que a prpria formulao do debate problemtica, e que o valor esttico e o cnone literrio podem e devem ser repensados em outros termos.

    H correntes crticas do sculo XX, sabemos, que rejeitariam o pressuposto da inevitabilidade valorativa. O estruturalismo, com seu af cientfico e universalizante, elaborou pouco sobre a questo do valor, optando por um projeto que tinha um carter mais descritivo que valorati-vo, embora seus principais tericos, como Roland Barthes e Julia Kristeva, jamais tivessem escondido suas preferncias literrias, mesmo nos momentos de maior formalizao do mtodo. Os textos de Roland Barthes em que a preocu-pao com o valor se torna explcita so aqueles escritos a partir do final dos anos 1960, depois da progressiva ruptura com a formalizao do estruturalismo, j numa fase de seu pensamento em que so visveis as inspiraes nietzscheana e lacaniana, discursos com fortes componentes axiolgicos. Hegemnico durante dcadas na crtica estadunidense, o New Criticism focalizou a valorao na diferena entre a literatura e a cultura de massas, mas no em distines efetuadas no interior da srie literria. Nas suas origens, nos anos 1930, os new critics John Crowe Ransom, Allen Tate, R. P. Blackmur, Robert Penn Warren, Cleanth Brooks se diferenciavam dos fillogos ento dominantes ao conferir um papel edificante para a literatura, que fizesse desta o antdoto contra a vulgaridade massiva associada raciona-lidade tcnica moderna e dissociao da sensibilidade, conceito que herdaram de T. S. Eliot. A insistncia dos new critics no carter desinteressado da literatura acabou sendo um gesto no qual se albergava um ntido interesse, visvel na batalha que eles livraram contra o establishment da filologia.

    O New Criticism surgiu, portanto, como interveno numa polmica culturalista entendendo-se cultura no no sentido antropolgico, mas no sentido classista

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    e aristocrtico do termo. Como apontaram Gerald Graff (1987, p. 145 et seq.) e John Guillory (1993, p. 155-175), o momento de triunfo do New Criticism na universidade e de consolidao da poesia modernista no currculo coincidiu com o arrefecimento dessa veia polmica. Os new critics se moveriam em direo anlise de estruturas internas dos textos, nas quais invariavelmente encontrariam a ironia, a ambiguidade e o paradoxo que eles antes reservavam aos modernos e aos poetas metafsicos ingleses do sculo XVII. A consolidao do mtodo como leitura hegemnica acabou acarretando a universalizao dos traos que eles antes s viam nos autores do seu paideuma particular. No momento em que Northrop Frye publicou o hoje clssico Anatomia da crtica (1957), no qual ele se distanciava tanto do New Criticism como da Escola de Chicago, que era seu principal antagonista, uma apresentao explcita do pro-blema da valorao j era inevitvel. Embora no fizesse ali nenhuma referncia ao trabalho da antropologia estrutural que, na Frana, j se desenvolvia havia uma dcada com Lvi-Strauss, Frye chegou a considerar Potica estrutu-ral como um possvel subttulo para o livro, e alguns dos eixos da obra revelavam ntido parentesco com o trabalho que o estruturalismo literrio francs realizaria nos anos seguintes: as metforas espaciais, o carter sistematizador, o jogo de antinomias, a centralidade do conceito de mito, a insistncia no imanentismo e no carter autossuficiente da crtica literria. Uma das diferenas importantes que Frye se dedicou longamente ao problema do valor literrio, ainda que fosse para negar sua pertinncia para a prtica crtica. Tomo Frye como ponto de partida de uma demons-trao do que considero o carter aportico da discusso sobre o valor literrio:

    Na histria do gosto, onde no h fatos, e onde todas as verdades j foram, de maneira hegeliana, quebradas em meias-verdades , sentimos talvez que o estudo da literatura relativo e subjetivo demais para ter sentido consistente. Mas como a histria do gosto no tem vnculo

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    orgnico com a crtica, ela pode ser facilmente separada (Frye, 1957, p. 18).1

    Um pouco antes, ele afirmara que a histria do gosto no parte da estrutura da crtica, assim como o debate Huxley-Wilberforce no parte da estrutura da cincia biolgica (p. 18). O curioso da analogia de Frye, por certo, que est bem longe de ser uma verdade evidente que a polmica Huxley-Wilberforce no seja parte da estrutura da biologia (seja l o que for isso), assim como no bvio que a polmica Marx-Ricardo no seja parte da estrutura da economia poltica. medida que o leitor percorre as pginas de Anatomia da crtica, vai se impondo uma con-cluso: sempre que Frye diz que a crtica facilmente separvel do gosto e do juzo valorativo, pode-se estar razoavelmente convicto de que tal separao a coisa menos fcil que h.

    O leitor o percebe quando chega o espinhoso momento em que Frye tem de justificar suas escolhas. Para isso, ele lana mo de uma curiosa tese, a de que prefervel que os valores que subjazem s escolhas estticas da crtica fiquem escondidos, pois explicit-los terminaria fundamentando a crtica na histria do gosto e, portanto, dinamitando a separao que se havia proposto entre elas:

    As estimativas comparativas de valor so realmente infe-rncias da prtica crtica, mais vlidas quando silenciosas, e no princpios expressos que guiam sua prtica. O crtico ver logo, e constantemente, que Milton um poeta mais sugestivo e recompensador que Blackmore. Mas quanto mais bvio se torne isso, menos tempo ele desejar desper-diar insistindo na questo. Porque insistir nela tudo o que ele pode fazer: qualquer crtica motivada por um desejo de estabelec-lo ou prov-lo ser meramente mais um docu-mento na histria do gosto (Frye, 1957, p. 25).

    Anatomia da crtica sugere, simultaneamente, que 1) a crtica uma esfera separada da histria do gosto; 2) bvio que alguns poetas so melhores que outros; 3)

    1 So minhas as tradues de todas as citaes de fontes em lnguas estrangeiras.

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    qualquer tentativa de explicar essa obviedade est fadada a ser parte da histria do gosto, no da crtica. Preso num discurso que postula a separabilidade da crtica ante a histria do gosto, mas tropea na constante interferncia desta sobre aquela, Frye no pode seno sugerir que os fundamentos das escolhas valorativas permaneam sem discusso. Anatomia da crtica, um dos livros de crtica literria mais influentes do sculo XX, se sustenta sobre um trip de premissas de visvel precariedade: 1) a crtica e o gosto no se misturam; 2) no se faz crtica sem uma escolha valorativa; 3) j que a valorao definida como parte de uma histria do gosto externa crtica, mesmo que reconheamos que a atividade crtica depende de es-colhas valorativas, teremos de esconder debaixo do tapete os critrios que subjazem a elas, sob o risco de que todo o edifcio desmorone.

    Seria possvel demonstrar que a aporia detectada em Frye se repete nos mtodos interpretativos que tentaram fa-zer da crtica literria uma operao descritiva na qual no teria lugar o debate acerca das opes valorativas. Numa futura histria dos mtodos formais no sculo XX,2 haveria que se dedicar especial ateno s maneiras como o desejo de cientificidade entrou em choque com a inevitabilidade valorativa. No caso do formalismo russo, esses dois eixos coexistiram com certa tenso. O projeto de descrever cien-tificamente a linguagem potica os levou a estabelecer a noo de estranhamento (ostraneniye) como o mais prprio da literatura. Shklvski definiu o conceito como o processo por meio do qual a novidade das operaes poticas sobre a linguagem prolongaria a percepo, aumentando-lhe a dificuldade. O estranhamento possibilitaria uma renova-o de uma experincia do mundo caracterizada por uma percepo j automatizada, fruto da repetio constante. No momento mais frutfero do desenvolvimento das pes-quisas dos formalistas, a consolidao do poder poltico nas mos de Stlin os forou ao exlio ou ao silncio, no antes que Yuri Tinianov formulasse algumas pistas acerca do que poder