candido, antonio sergio buarque

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Candido, Antonio Sergio Buarque

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  • O ESCRITOR JORNAL DA UBE

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    As Tentativas de Mitologia deSrgio Buarque de Holanda

    Uma queixa recorrente e justificada a ausncia de uma prticato simples e to natural, que ao deixar de existir criou um v-cuo, um vazio, um nada: a crtica literria dos suplementos da

    grande mdia. Que no se chamava assim nos tempos deCarpeaux, lvaro Lins, Augusto Meyer, Sergio Milliet, Alceu Amo-

    roso Lima etc. H as excees gloriosas como Wilson Martins, masnem uma grande andorinha, nenhuma guia, faz vero sozinha.Sem a pretenso de restaurar o perdido, s de aliviar a pena, O

    Escritor comea neste nmero e nesta pgina a fazer crtica liter-ria regular, assinada variadamente segundo critrios do ConselhoEditorial. Sua inteno a de toda crtica sria: situar o autor, .

    Antnio Cndido

    Mesmo para um velho e fiel leitor de Srgio Buarque de Holanda, comoeu sou h mais de quarenta anos, Tentativas de Mitologia, editado no fim de1979, uma bela novidade, por ser o primeiro livro dele que rene vriasfaces da sua grande envergadura mental, simultaneamente e em amostrasexpressivas. H Cobra de Vidro, certo; mas em Tentativas de Mitologia osestudos so mais completos. Estudos longos e profundos na maioria, mos-trando como Srgio capaz de penetrar na raiz dos problemas e dos tex-tos, com um ar discreto de quem no quer impor, mas acaba envolvendo aconvico de quem l. Aqui ele aparece como crtico, pensador, erudito, -compondo a mais completa organizao de historiador que o Brasil conhe-ce; capaz de modular os temas e circular pelos territrios mais variados,demonstrando em cada um deles conhecimento de especialista (sem falarna leveza de alguns escritos de evocao da vida literria).

    assim que vemos um saber de antroplogo quando comenta Oliveira Viana,Gilberto Freyre ou Emlio Willems, da mesma maneira por que vemos o dofilsofo nas anlises de Pero de Botelho e Euralo Canabrava, e a profundacincia de estudioso da literatura nos estudos sobre a Arcdia e o Barroco. Emtodos esses domnios revela o tacto refinado que os crticos literrios deveriamTer, assim como a solidez do conhecimento pormenorizado que os historiado-res s costumam possuir no caminho onde evoluem. A exaustiva informaobibliogrfica e factual to notvel em seus escritos quanto o gosto certeiroe a segurana do juzo.

    H obras dele onde aparece sobretudo o homem que interpreta, deixandoem segundo plano o sabedor de dados ( o caso de Razes do Brasil). Houtras onde este predomina e aquele se esbate, como Mones. E h as em-presas monumentais, onde as duas coisas se entrelaam em grande escala,como Viso do Paraso e Do Imprio Repblica. Nas realizadssimas Tentativasde Mitologia isto ocorre de maneira diferente, porque o conhecedor do deta-lhe indissocivel do intrprete, de vo largo mas em ensaios e artigos quea vista do leitor abrange de um golpe. E ento pode verificar mais facilmentea argcia e a cincia de Srgio Buarquede Holanda, a sua seriedade apaixo-nada e o seu humor princesans-rire.

    Uma das coisas que do solidez aeste livro que o autor opina muito,no hesita em tomar posio e deixaclaro o seu modo de ver. No geral aspessoas que escrevem com este ni-mo usam a mera assertiva, enquantoele, ao contrrio, sempre o faz combase no conhecimento preciso do

    Srgio submeteu a fogo cerrado noes e conceitosfacilmente degenerveis em preconceitos, batendoem brecha o autoritarismo, desmitificando a aura

    das elites, inclusive certos mitos eufricos quanto cultura material e o teor de vida do passado das

    classes dominantes.

    fato, do texto e da referncia. Quando contesta Oliveira Viana, por exem-plo, no lhe ope uma simples opinio ou raciocnio, mas prova abundan-temente o que afirma, como acontece tambm nas anlises polidas e cor-rosivas da obra de Gilberto Freyre. interessante observar em ambos oscasos o seu jeito de desfazer as noes habituais, as dobras que o hbitocostuma fazer nos estudiosos e leitores at consolidar o erro. Srgio temuma espcie de serena maestria para recompor a integridade do tecido e,mesmo a contrapelo, trazer o entendimento para o caminho certo.

    Se um estudo inovador e revelador como o que consagra a Jaime Cortesopermite avaliar a amplitude da sua asa histrica, os que mencionei sobreOliveira Viana e Gilberto Freyre permitem sentir tambm certos aspectos nemsempre lembrados da sua atuao no panorama das idias polticas e sociaisno Brasil dos anos 30 e 40. Hoje ficou moeda corrente muita coisa que elemostrou com a sobriedade costumeira, aliada no obstante a uma firmeza deprincpios que nem por ser desprovida de sectarismo menos marcada. Porisso bom ler estes ensaios na perspectiva da histria das idias (em sentidoprprio), a fim de compreender o que havia de radicalmente crtico na suamaneira de analisar noes e conceitos na moda, como patriarcalismo, raa,tradio lusitana, etc., que formavam como outros o equipamento de estudi-osos, jornalistas e polticos. Noes e conceitos facilmente degenerveis empreconceitos, que ele submeteu a fogo cerrado, batendo em brecha oautoritarismo, desmitificando a aura das elites, inclusive certos mitos eufri-cos quanto cultura material e o teor de vida do passado das classes domi-nantes. Tudo isto est presente em muitos ensaios de Tentativas de Mitologia;e lamenta-se que esta edio no traga indicaes das datas em que forampublicados, porque elas permitiram ver melhor o contexto em que atuaraminicialmente, podendo o leitor inclusive constatar a atualidade e ao mesmotempo a largueza de vistas acima das modas com que Srgio trata, por exem-plo problemas de teoria da literatura. Neste setor ele revela uma informaoexcepcional sobre as correntes do momento, sobretudo o new criticism dosanos 40, manifestando porm o distanciamento crtico que libera o espritodo servilismo da novidade e lhe permite situar objetivamente o que h de

    positivo nas propostas de renovaoe inovao.

    Por tudo isso, quem votou esteano em Srgio Buarque de Holandapara o Juca Pato acertou em cheio,pois consagrou um intelectual queapresenta no apenas a eminnciaespecfica requerida, mas que possuitambm as qualidades humanas queo tronam modelar como inspiraopara os outros. Um verdadeiro mes-tre, portanto.&

    RODAP

    orientar o leitor, no apenas opinar ou noticiar. Um rodap dotamanho desta pgina tablide. Nem longo como tese universit-ria, nem curto como resenha de editora. Um rodap para rodarnas mos dos leitores.Escolhemos para estria a reedio deste texto do mestre AntnioCndido sobre Tentativas de mitologia, obra de Srgio Buarque deHolanda, publicado em 1980 neste jornal, na ocasio em que oeminente historiador paulista ganhou o Prmio Juca pato.Antnio Cndido, autor de Literatura e Sociedade, salienta nestetexto a amplido da cultura e o alcance do senso crtico do gran-de historiador, cujo centenrio celebrado neste ano