bakhtin e o círculo

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Contextualização de Bakhtin e do Círculo

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  • BAKHTIN E O CRCULO ANTE QUESTES DE TEORIA

    LITERRIA E TEORIA LINGUSTICA PRIMEIROS TEMPOS

    Patr cia Gomes de Mello Sales (Netlli/URCA) Maria de Fa tima Almeida (UFPB/PROLING)

    RESUMO | INDEXAO | TEXTO | REFERNCIAS | CITAR ESTE ARTIGO | AS AUTORAS RECEBIDO EM 21/09/2012 APROVADO EM 21/09/2012 (AUTORAS CONVIDADAS)

    Resumo

    Neste trabalho, traamos um panorama do contexto russo em que viviam Bakhtin e os outros integrantes do Crculo, considerando especificadamente a lingustica e a literatura, para que sejam perscrutadas as influncias que sofreram Bakhtin e o Crculo, de modo a que se tenha uma viso mais responsiva do sentido que tinham seus escritos e suas ideias na poca em que foram produzidos.

    Entradas para indexao

    PALAVRAS-CHAVE: Contexto. Literatura. Lingustica. Bakhtin. Crculo.

    Texto integral

  • Ser na vida realmente significa agir.

    M. M. Bakhtin

    1 Incio do dilogo

    Desde muito cedo, Mikhail Mikhailovitch Bakhtin (18951975) vivenciou a

    diversidade lingustica e um pluralismo cultural, que mais tarde seriam refletidos

    em seus posicionamentos tericos e filosficos, entre outros conceitos, na forma de

    heteroglossia e dialogismo. Seu pensamento ou suas ideias foram expressos em

    diferentes momentos de sua vida e foram marcados por grandes acontecimentos,

    no s na Rssia, mas em todo mundo.

    Para podermos entender seu pensamento preciso fazer leituras atentas e

    procurar entender o contexto vivido por ele e pelo Crculo no momento da

    produo das obras, por isso, optamos em separar os vrios Bakhtins, visto que sua

    obra abrange uma diversidade imensa de reflexes filosficas, culturais,

    lingusticas e literrias.

    Faremos uma reflexo do primeiro Bakhtin, principalmente sobre a

    literatura e a lingustica, contextualizando os acontecimentos na Rssia do incio

    do sculo XX e aludindo a alguns autores alvo de interesse de Bakhtin e dos

    membros do Crculo.

    Em nosso entender, e para alguns estudiosos tais como Clark e Holquist

    ([1984] 2008), a produo do Crculo, em especial a de Bakhtin, corresponde a

    quatro perodos: o primeiro foi voltado para estudos de cunho filosfico, quando o

    Crculo procurou desenvolver o conceito do ser-evento, dentro de uma filosofia que

    desse conta do ato tico; o segundo explorou elaboraes sobre o dialogismo e

    abriu a discusso sobre linguagem com vrias obras publicadas; o terceiro est

    ligado elaborao da teoria do romance; o quarto retoma os conceitos filosficos

    do primeiro perodo e os completa.

    Neste trabalho, nos deteremos no dilogo dos primeiros tempos

    bakhtinianos, mais precisamente do incio de seus estudos secundrios at as

    principais obras e acontecimentos do final dos anos 1920, deixando os demais

    perodos para possveis trabalhos posteriores.

  • 2 Primeiras leituras e discusses do Crculo

    Em 1914, Bakhtin comea a ter contato com movimentos intelectuais

    vanguardistas e com leituras de pensadores revolucionrios como Marx, Engels,

    filsofos como M. Buber e Immanuel Kant e intelectuais voltados para psicologia

    como Wundt, que influenciariam seus primeiros escritos, deixando ecos. Entre

    essas leituras de cunho revolucionrio e filosfico, Bakhtin se depara com a

    efervescncia religiosa, cultural e poltica que estourava na Rssia com a

    Revoluo de 1917.

    Aqui cabem algumas palavras para situar o contexto vivido pelo Crculo.

    Abriremos janelas para que possamos conhecer um pouco mais de perto o

    conturbado contexto em que Bakhtin desenvolveu suas primeiras obras. Para isso,

    faz-se necessrio um retorno ao sculo XIX, retomando alguns dos literatos lidos e

    estudados por Bakhtin e o Crculo.

    O sculo XIX corresponde Idade de Ouro da literatura russa. Juntamente

    com o Romantismo, o poeta e prosasta Aleksander Sergeivitch Puchkin, chega ao

    auge, alm dele, liam-se poetas como Afanasi Afanasicvich Fet e Fiador Ivanovich

    Tiatchev, o fabulista Yricvich Knilov, o dramaturgo Alexander Sergeievich

    Griboiedov e romancistas como Mikhail Lurievitch Lermontov e Nikolai

    Vasilievitch Ggol tambm entram nesta lista.

    Nesse perodo, h uma tendncia voltada mais para o romance, a novela, o

    conto e o teatro. Outros autores se destacam nesse momento, porm a maior

    referncia em prosa voltada para figura de Ggol, que tentou deixar de lado a fase

    mais romntica e passou a retratar em suas obras as condies da sociedade russa,

    passando agora para uma fase Realista. Ivan Sergeievitch Turgueniev tambm

    uma figura de destaque dessa poca.

    Entre os principais autores lidos por Bakhtin, encontramos o maior

    representante da chamada Escola Natural o j mencionado Ggol (18091852)

    cuja produo literria se desenvolveu entre o incio e meio do sculo XIX, perodo

    de grandes inquietaes em nveis polticos, sociais e culturais, pois foi o perodo

    de maior represso na Rssia, quando governava Nicolau I (18251855). A

    principal caracterstica das suas obras que nelas h uma verdadeira descrio (s

    vezes caricatural e risvel) da realidade vivida pela populao da poca, que nos

  • revela uma fonte documental da realidade humana e social daquele povo, j com

    um enorme carter de protesto.

    A forma que a literatura caminhava era reflexo da literatura francesa e

    toda uma carga de realidade era empregada nas artes, seja na literatura, na pintura

    ou na escultura, pois na Europa, em especial na Frana, os textos mostravam o

    cotidiano da poca e tinham uma boa aceitao do pblico russo, mesmo

    mostrando um socialismo ideal ou quimrico, s vezes at muito idealista, mas

    aquela era a realidade, todas as formas romnticas estavam sendo deixadas de

    lado, agora, o cotidiano, a vida simples do homem do campo era mostrada nas

    obras denominadas por muitos autores como (naturalismo sentimental). Porm, o

    maior poeta da literatura russa foi Aleksandr Sergueivitc Pchkin (1799-1837), de

    quem Bakhtin, amante da boa poesia, usou vrios exemplos de poemas em suas

    obras.

    Como os outros autores citados acima e influenciados por Pchkin, o

    momento histrico da sua vida foi refletido em sua obra, ele falava a lngua do povo

    e os entendia, identificava-se com o povo e sua cultura, feliz com a vida, participou

    de crculos, foi exilado e sofreu muito por no ter contado com pessoas conhecidas,

    eles eram denominados (dekabristas) era a forma como se tratavam os

    participantes do crculo de Pchkin em que este via neles o futuro da nao, pois

    no ficaram calados diante das desigualdades sociais e das injustias e viam na

    literatura uma forma de alertar o mundo contra os abusos sociais.

    De relevante interesse nesse perodo o destaque que dois autores

    tiveram por suas posies filosficas e maneiras inovadoras de escrever. Bakhtin

    os analisa e incansavelmente escreve sobre eles. De um lado, encontramos o

    romancista e filosfico Lev (Leon) Tolsti, que procurou na essncia da natureza a

    existncia humana; de outro, Dostoivski, que buscou desmistificar o naturalismo

    empregado na literatura.

    Tolsti (18281910) teve uma vida agitada e de inquietaes na

    adolescncia. Nunca foi aluno de destaque e foi consideravelmente farrista, porm

    houve um perodo em Iasnaia Poliana, antiga fazenda da famlia, em que Tolsti lia

    a Bblia e Jean-Jacques Rousseau (17121778), buscando respostas para sua

    inquietao e sobre o significado da vida.

  • Influenciado por seu irmo Nicolau, que lhe contava vrias histrias sobre

    os combates no Cucaso e despertando-lhe a vontade de lutar, em 1852, Tolsti

    ingressou no Exrcito, serviu no Cucaso e, concomitantemente a isso, publicava

    captulos de Infncia, e escreve para a revista O contemporneo.

    Entre combates e viagens pela Europa, Tolsti retorna a Iasnaia Poliana

    com ideias fervilhantes na cabea, sentindo-se na obrigao de fazer algo pelo seu

    amado pas. Comeou alfabetizando os servos da fazenda e criando uma escola

    para crianas e adultos. Casou com Sofia Andriivna e as dificuldades financeiras o

    fizeram ter a literatura como um meio de ganhar a vida. Assim, servindo-lhe de

    pano de fundo a bravura e virtudes do povo russo, escreveu Guerra e paz, que foi

    aplaudido com louvor por crticos da poca. Entre suas principais obras temos

    Anna Karnina, que Dostoivski (18211881) afirmou ser uma perfeita obra de

    arte. Mas, a pergunta sobre o sentido da vida o aterrorizava por uma resposta

    jamais encontrada, fundou o tolstosmo, buscando respostas na moral e na religio.

    Com a publicao de Ressurreio foi excomungado, porm tinha achado suas

    possveis respostas. Morreu procurando paz e simplicidade.

    Em lado oposto a Tolsti, encontramos outro glorioso escritor lido e

    estudado por Bakhtin: Dostoivski, que, como citamos anteriormente, conhecia as

    obras de Tolsti e at certo ponto as admirava, porm sua linha era distinta:

    discorria sobre o irracional, sobre diferentes experincias humanas, expondo

    situaes dramticas como assassinato, blasfmias e rebelies e falando sobre os

    conflitos da mente.

    Dostoivski (1821-1881), apesar de ser contemporneo de alguns dos

    autores citados neste trabalho, apresentava inovaes no estilo, desconectando as

    mesmices do naturalismo e pondo limites ao sentimentalismo deixados por Ggol.

    Dostoivski muitas vezes no mostrava as faces do autor, deixando os heris

    falarem por si e dialogarem com o seu leitor. Na