Artigo Revista Do NESA

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<p>FARMACOLOGIA DE PLANTAS MEDICINAIS ANALGSICAS DE USO POPULAR DA CAATINGA. POO REDONDO, SE. (Karina de Barros Rosas Bomfim) 1. INTRODUO luz da importncia cultural e scio-econmica das plantas utilizadas como medicinais pelo povo e diante da necessidade do reconhecimento destas plantas pela cincia ortodoxa, atravs da caracterizao farmacolgica e toxicolgica, o presente trabalho teve como objetivo geral avaliar a ao farmacolgica e o espectro toxicolgico das plantas utilizadas popularmente como analgsicas no povoado de Santa Rosa do Ermrio, situado no municpio de Poo Redondo, Sergipe. Esta pesquisa foi pioneira no Estado de Sergipe, vindo desta forma, ampliar os estudos farmacolgicos associados ao saber popular e corroborar o valor biolgico da flora local para subsidiar projetos futuros voltados melhoria da qualidade de vida do sertanejo. Elegeu-se o povoado de Santa Rosa do Ermrio, Poo Redondo, Sergipe, como rea de estudo por ele estar situado no domnio morfoclimtico da caatinga (AbSABER, 1974), apresentar, segundo VARGAS (comunicao oral em sala de aula) uma biodiversidade vegetal relevante e possuir no seio da comunidade a prtica da medicina popular. A medicina popular, neste trabalho, foi abordada no recorte das plantas utilizadas popularmente para o tratamento das doenas de sintomatologia dolorosa dentro do contexto da famlia e da comunidade. Para associar o uso popular destas plantas com os estudos farmacolgicos realizados em laboratrio foi utilizada uma abordagem etnofarmacolgica. Segundo BRUHN, HOLMSTEDT (1982), a etnofarmacologia consiste na explorao cientfica interdisciplinar dos agentes biologicamente ativos, tradicionalmente, empregados ou observados pelo homem. De acordo com ELISABETSKY (1997), esta linha de pesquisa surge como um caminho vivel de investigao cientfica para a produo de medicamentos a baixo custo acessveis a maior parte da populao mundial. Os preceitos metodolgicos que regeram o presente trabalho foram baseados nos estudos etnofarmacolgicos de ELISABETSKY (1997,1999) e DI STASI (1996). As questes norteadoras deste estudo foram elaboradas para responder s seguintes problematizaes gerais. a) De que maneira est estabelecida a interao entre o sertanejo e a caatinga no tocante ao uso das plantas utilizadas como analgsicas pela comunidade de Santa Rosa do Ermrio? b) possvel verificar farmacologicamente as provveis propriedades analgsicas e a toxicidade de, pelo menos, algumas destas plantas? c) Existem plantas introduzidas e de uso analgsico no elenco de plantas utilizadas popularmente para esse fim na comunidade de Santa Rosa do Ermrio? A coleta e a anlise das informaes populares sobre as plantas de uso medicinal, especialmente quelas no combate dor foram obtidas a partir dos dados fornecidos pela comunidade de Santa Rosa do Ermrio, segundo as tcnicas da entrevista e do questionrio.</p> <p>As perguntas foram elaboradas previamente, seguindo alguns critrios, tais como: utilidade da planta, como e quais partes das plantas so utilizadas (raiz, casca, folha, fruto ou semente), quem pode usar (homem, mulher, criana), quais as contra-indicaes, se apresentam efeito analgsico e por que se utiliza a planta como remdio. Para isto, foram realizadas visitas peridicas localidade para a obteno das informaes locais. As entrevistas foram individuais e abertas, abrangendo 37 moradores da comunidade em estudo, incluindo 1 mdico, 1enfermeira, 3 agentes de sade, 2 parteiras e 2 moradores pioneiros do povoado. Tambm houve eventuais conversas em grupos pequenos. O gravador foi utilizado para a maioria das entrevistas, no observando constrangimento ou retraimento do entrevistado em relao ao uso do aparelho pelo entrevistador. Com base nas informaes populares, foi coletado e identificado todo o material botnico. Como recomenda CARDONA (1985), as caminhadas para a retirada do material botnico foram acompanhadas por um morador e por uma parteira do povoado, pois a visualizao da planta pelo informante no local onde ele habitualmente coleta propicia o estmulo da memria necessrio para a verbalizao do conhecimento. Foi um momento muito oportuno para elaborar um caderno de campo e obter informaes detalhadas sobre as plantas nos seus diversos usos e preparos caseiros. A coleta das plantas foi realizada nos meses de abril e maio de 2000, e identificadas taxonomicamente (nome popular, nome cientfico, famlia, coleta - data, hora, estao; introduzida ou espontnea e parte da planta) por um botnico sistemata e a partir de comparaes com o material-base depositado no herbrio da Universidade Federal de Sergipe (U.F.S.). O material botnico foi extrado, tambm, para a realizao da pesquisa farmacolgica. Os experimentos farmacolgicos foram conduzidos no Laboratrio de Farmacologia da U.F.S. e constitudos por um elenco de plantas selecionadas a partir de dois pontos principais: coerncia entre as informaes populares sobre a parte da planta e sua forma de uso pela comunidade local; e disponibilidade de material botnico (parte da planta usada pela comunidade) para ser utilizado nos experimentos farmacolgicos e toxicolgicos propriamente ditos. Para os ensaios farmacolgicos, foi adotado o seguinte protocolo experimental: i. Para os animais:</p> <p>Em todos os testes farmacolgicos foram utilizados camundongos Swiss (20 30g) de ambos os sexos. Os animais foram divididos em grupos, mantidos em caixas plsticas temperatura ambiente (entre 25 4C) e providos de rao (purina) e gua ad libitum vontade. ii. Para o material botnico:</p> <p>Foi utilizado um elenco de plantas selecionadas a partir das informaes colhidas atravs das entrevistas e questionrios do trabalho de campo. Foi considerado como principal critrio de eleio das plantas, a sua representatividade analgsica. parte da planta raiz, caule, folha, flores, etc. - utilizada nos experimentos foi correspondente s indicaes prescritas nos questionrios. iii. Para a preparao do extrato aquoso:</p> <p>A parte da planta submetida experimentao foi seca em estufa com circulao e renovao de ar a 40C por dois dias e depois triturada no moinho at obter um p fino. Em 1000ml de gua destilada foram adicionados 200 gramas de p da planta. Essa mistura foi submetida fervura (100C) sobre uma placa quente at a evaporao total e obteno do extrato aquoso (EA). No momento do uso, o extrato foi ressuspenso em gua destilada nas concentraes desejadas. iv. 1 Para a atividade analgsica Teste de contores abdominais induzidas pelo cido actico (Koster et al., 1959).</p> <p>Os animais foram divididos em grupos (n=8-9). O grupo controle recebeu cido actico 0,6% (10ml/kg; intraperitonial - i.p.) e, aps 10 minutos, o nmero de contores abdominais foi registrado durante 20 minutos. Os demais animais foram pr-tratados com o extrato e a droga padro. EA (100, 200 e 400mg/kg) foi administrado oralmente (v.o.) uma hora antes de injetar o cido actico. A morfina (2,5mg/kg; i.p.) e a indometacina (10mg/kg; v.o.) foram utilizadas como droga padro. 2 Teste da formalina (Hunskaar, Hole, 1987).</p> <p>Injeo intraplantar de formalina 1% (20l/animal) foi administrado em grupos de camundongos (n=8-9) e, imediatamente aps, foi registrado o primeiro tempo de lambida por 5 minutos (dor neurognica). 20 minutos depois de ter iniciado o experimento foi registrado o segundo tempo de lambidas por mais 5 minutos (dor inflamatria). O grupo controle recebeu apenas a injeo de formalina. Os demais grupos foram pr-tratados com EA (100, 200 e 400mg/kg; v.o.) uma hora antes da injeo de formalina. A morfina (7.5mg/kg; i.p.) foi utilizada como droga padro. O antagonista opiide naloxona (5.0mg/kg; i.p.) e a cafena (10mg/kg; i.p.), foram, posteriormente, utilizadas em outros grupos (n=8-9) para verificar uma possvel interao entre o EA e o sistema opiide e/ou entre o EA e o sistema adenosina, respectivamente. 3 Teste da placa quente (Eddy, Leimbach, 1953).</p> <p>Os animais foram colocados dentro de uma cuba de acrlico sobre uma placa quente de alumnio mantida a 550.5 por um tempo mximo de 30s. Os parmetros de observao foram o ato de lamber uma das patas traseiras e pular para parte superior da cuba de acrlico. O tempo decorrido, desde que o animal foi exposto placa quente at a emisso da resposta, foi registrado como tempo de latncia em segundos. No grupo controle (n=8), as mensuraes foram realizadas no tempo 0, 15, 30 e 60 minutos. Os</p> <p>demais grupos (n=8) foram pr-tratados com o extrato e a droga padro. O EA (100, 200, 400mg/kg; v.o.) foi administrado uma hora antes de iniciar o experimento. A morfina (5mg/kg; i.p.) foi utilizada como droga padro. v. Para a toxicidade aguda (Dietrich, 1983)</p> <p>Grupos de camundongos (n=10), ambos os sexos, receberam (v.o.) doses crescentes (1, 3 e 5g/kg) do EA da planta em estudo. O grupo controle recebeu apenas o veculo (gua). Os animais foram observados durante 48 horas e no fim deste perodo foi registrada a mortalidade de cada grupo. vi. Para a anlise estatstica</p> <p>Os resultados experimentais foram analisados estatisticamente pelo teste paramtrico da anlise da varincia (ANOVA) seguido pelo teste de Tukey (p</p>