Arte e Tecnologia Digital no Fórum da Cultura Digital Brasileira

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Relatrio da Curadoria de Arte e Tecnologia Digital do Frum da Cultura Digital Brasileira, uma iniciativa do Ministrio da Cultura. Para saber mais acesse www.culturadigital.br . Relatrio entregue ao Ministro da Cultura Juca Ferreira em 21 de novembro de 2009.Autor: Cicero Inacio da Silva.Ano de publicao: 2009. Verso revisada em 2010.

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<p>ARTE DIGITALUMA CULTURA EM PROCESSO DE FORMAO CICERO INACIO DA SILVA RELATRIO DA CURADORIA DE ARTE DIGITALThe best way to predict the future is to invent it A melhor forma de prever o futuro invent-lo Alan Kay In the 1990s a standard joke at new media festivals was that a new media piece requires two interfaces: one for art curators and one for everybody else. This resistance is understandable given that the logic of the art world and the logic of new media are exact opposites. The first is based the romantic idea of authorship which assumes a single author, the notion of a one-of-a-kind art object, and the control over the distribution of such objectsthe second privileges the existence of potentially numerous copies; infinitely many different states of the same work; author-user symbiosisthe collective; collaborative authorship; and network distribution (which bypasses the art system distribution channels) Nos anos 1990 uma piada padro nos festivais de novas mdias era a de que uma obra de novas mdias requeria duas interfaces: uma para os curadores de arte e uma para todos os outros. Essa resistncia compreensvel dado que a lgica do mundo da arte e a lgica da arte em novas mdias so exatamente opostas. A primeira baseada na ideia romntica da autoria assumida por um nico autor, a noo de um objeto de arte com uma s especificidade e o controle sobre a distribuio desses objetos...o segundo privilegia a existncia de cpias potencialmente numerosas; estados infinitamente diferentes para uma mesma obra; uma simbiose autor-usurio...o coletivo; autoria colaborativa; e distribuio em rede (o que ignora os canais de distribuio do sistema da arte) Lev Manovich (New Media from Borges to HTML) Thus art and technology are not set against each other, nor are they in an all-encompassing correspondence. The conflict arises when the realm of the imaginary is supposedly shielded from reality. It is in technology that art and other human endeavor converge. Arts domain is not that of the absolute but that of the possible Assim arte e tecnologia no so colocados um contra o outro, nem esto em uma correspondncia abrangente. O conflito surge quando o campo do imaginrio supostamente protegido da realidade. na tecnologia que a arte e outros esforos humanos se encontram. O domnio da arte no o do absoluto, mas o do possvel Pierre Francastel (Art &amp; Technology)</p> <p>Arte e Tecnologia ou Arte Digital?</p> <p>O campo da arte vem h muito pensando sobre as relaes entre tcnica e arte.Como no poderia deixar de ser, no campo filosfico essa discusso j dura vrios sculos e no tem sido pacfica a convivncia entre os defensores da criao submetida s abstraes do gnio criativo, livre de qualquer interferncia das ferramentas existente e criadas pelos homens. Por outro lado, tambm no tem sido muito fcil pensar o que seria o campo da arte 1</p> <p>sem as interferncias, ou sem as manifestaes tcnicas que o homem criou nos vrios sculos em que foi cada vez mais aperfeioando equipamentos, mquinas, ferramentas e tcnicas para manipular, formatar, formar, adequar e formalizar o mundo. O campo da arte, como sabemos, tem sido quase sempre vinculado a uma forma de representao imune s tentaes das tcnicas, e no raro observar afirmaes que tentam dizer que a tcnica submissa ao contedo terico, ou seja, que a ferramenta simplesmente algo neutro, que no interfere nos processos de criao e muito menos imprime algo de suas representaes nos objetos ou materiais que cria.</p> <p>As generalizaes no sentido de tentar abordar a tecnologia como instrumento sovastas e inmeras, e atualmente temos tido dificuldade em encontrar um meio termo, ou um termo comum, para refletir sobre o que arte e criatividade e at onde vai a interferncia da tcnica nesse processo de criao. Como alerta Yve-Alain Bois, na apresentao do livro Art &amp; Technology (Arte e Tcnica) de Pierre Francastel, temos de ser cuidadosos como Francastel que evitava seguir as teses de Lewis Mumford, que acreditava que a mquina representava uma revelao e, por outro lado, temos de evitar o catastrofismo iniciado por Sigfried Giedion, que segundo Francastel instaura um idealismo em relao arte e que imagina um homem-padro eterno, um homem padro que poderia possivelmente servir como ideal...mas algum que no poderia nunca ser considerado o rei da criao 1. Por outro lado, tambm temos tido dificuldades em analisar at que ponto os elementos tcnicos permitem novas ou outras aproximaes representativas e alteram e modificam a percepo artstica das representaes e dos objetos que nos cercam. A dissociao entre ars e tchne, portanto, se produz em nveis que vo da mais ampla abstrao at nveis concretos.</p> <p> comum ouvir artistas comparando as ferramentas que utilizam a meras estruturasneutralizadas pelo simples fato de pertencerem a uma esfera humana. Em outras palavras, a tcnica no pertence ao esprito criativo, no habita o espao do humano e, portanto, no merece ser considerada como algo a ser debatido na esfera da criao artstica. Tcnicas envelhecem, enrijecem, debilitam e distorcem o esprito do criador, que deve delas se libertar para fazer representar somente a alma. Esse discurso, que j vem desde Scrates, que condenou a escrita exatamente por ser uma tcnica que mataria a alma do homem falante e, por consequncia, o faria viver para sempre em algo que no era seu, ou seja, em e a partir de seus textos, encontra diversas ressonncias quando transportado para o campo da arte. Arte um conceito complexo, no muito simples defini-la nos tempos atuais. Alis, nunca foi simples definir o que vem a ser um sujeito artstico e nem o que pode e o que no pode ser enquadrado no conceito de arte. questes que problematizaram a questo artstica, e inmeras foram as tentativas de tratar do conceito arte na esperana de torn-lo domesticado, simplificado e fcil de explicar. Afinal de contas, como definir arte para um leigo, como mostrar o que arte para algum nos dias de hoje, como considerar uma representao X uma obra de arte, como pensar um processo e formar a partir dele um juzo que o torne tambm, mesmo sem possuir um objeto, uma obra artstica? Essas e muitas outras perguntas podem ser feitas e dificilmente tero respostas simplificadas. Isso porque o sculo1</p> <p>Inmeras foram as</p> <p>Yve-Alain Bois em Pierre Francastel, Art &amp; Technology, Nova Iorque, Zone Books, 2000, p. 8.</p> <p>2</p> <p>XX foi ousado o suficiente para suspender as certezas em torno das definies simples e tornou complexas as anlises que se faziam em torno das representaes, objetuais ou no, do campo da arte. Os conceitos artsticos que foram desconstrudos e deslocados na anlise da arte sofreram de uma recorrente tentativa de solidificao e de estabilizao de suas certezas.</p> <p>O homem do sculo XX, e agora do XXI, dificilmente vai conseguir voltar a tercertezas concretas sobre as relaes sutis que envolvem as ramificaes complexas que formam as bases de sua suposta razo e que o fazem acreditar numa planificao estvel de suas crenas. A arte, como no poderia deixar de ser, foi afetada e responde hoje a essas inconstncias e incertezas. A denominada arte contempornea pode ser considerada uma das formas encontradas para responder e para questionar o que se observa na atualidade. A diluio do objeto, por exemplo, que se observa em obras que so simplesmente performances ou metatextos, instrues ou processos subjetivos que constituem experincias, servem para questionar e ressignificar processos de entendimento das certezas solidificadas, generalizantes e pouco complexas. Como qualificar uma instalao como artstica? Onde est o valor do objeto, to caro nos sculos anteriores? Como promover uma circulao de obras que s existem na incorporao de sujeitos reunidos em torno de um processo inventivo criado por um artista? As respostas a essas questes no so bvias e no pretendemos responde-las aqui, at porque seria um contra senso com os tempos atuais tentar dar respostas fechadas e fceis ao que se observa no cotidiano. Contudo, existe uma necessidade de se pensar no que acontece no estando de fora do processo, mas sim no processo em si quando falamos de processos artsticos nos tempos da cultura computacional. Arte Digital: definies</p> <p>O que arte digital tem sido uma das mais difceis e polmicas perguntas dosltimas anos. Frank Popper, famoso terico da arte e tecnologia, defendia o papel da interatividade como o grande diferencial das obras em suportes eletrnicos. Para Popper a arte tecnolgica faz referncia a uma relao entre o espectador e uma obra de arte aberta j existente na qual o termo interao implica um jogo de duas vias entre um indivduo e um sistema de inteligncia artificial2 Atualmente, aps mais de 40 anos de experimentos artsticos com essa nfase, muitas outras perspectivas foram adotadas. Um dos fatos alteraram a experincia ligada interatividade foi a forma com a qual a sociedade da informao, aps o surgimento de tecnologias como a Internet, comeou a lidar com as tecnologias e tambm a ubiqidade que os aparatos tecnolgicos alcanaram na contemporaneidade. Um outro fato importante na definio do que vem a ser arte digital tem a ver com a prpria definio de arte, que at hoje ainda causa polmica, mas que pode ser pensada em suas relaes com essas configuraes sociais que estamos todos vivenciando. Um dos principais pilares dessa transformao no campo da arte e que, por mais estranho que parea, ficaram esquecidos durante um bom tempo na teorizao da arte digital, o computador. Segundo alguns tericos, como Lev Manovich, muitos tericos/artistas, principalmente europeus, por no terem acesso muito rpido s inovaes tecnolgicas, teriam mais tempo para refletir sobre os seus usos e suas implicaes. Por outro lado em2</p> <p>Frank Popper, Art of Electronic Age. Nova Iorque, Harry N. Abrams, 1983), p. 18.</p> <p>3</p> <p>pases produtores de inovao e tecnologia, como Estados Unidos, uma nova tecnologia assimilada em questo de meses e se torna parte normal do cotidiano de milhares de pessoas, no tendo o mesmo efeito ou impacto que nos outros locais 3. Se observamos que conseqncias isso tem na arte digital, pode-se afirmar que talvez seja por esse fato que nos Estados Unidos existam to poucos festivais, exibies ou mesmo mostras de arte digital como existem na Espanha, Alemanha, ustria, Brasil, Autrlia, entre outros. arte digital poderia ento ser definida como uma representao, um objeto artstico, um processo-procedimento-interveno-produto artstico criado de forma desinteressada, atravs da utilizao de aparatos tecnolgicos-digitais, como computadores, processos computacionais, sistemas digitais, com a inteno de seu criador de que aquela obra criada venha a dialogar com o campo da arte, de forma direta ou de maneira a questionar os prprios procedimentos utilizados pelos artistas e pensadores do campo artstico. Cultura Computacional</p> <p>A</p> <p>Os tempos atuais exigem outros entendimentos sobre a relao entre arte e tcnica.A complexidade com que os tempos contemporneos engendram a subjetividade vo muito alm das possveis simplificaes a que estvamos acostumados. As formas representacionais das informaes e do conhecimento que hoje existem j exacerbam as questes do sculo XX como autoria, autor, remixagem, colagem e colocam em questo a prpria concepo de sujeito em relao aos aparatos tecnolgicos mediados via computador. Pierre Francastel, ao analisar o texto de Sigfried Giedion Mechanization Takes Command (WW Norton, 1969) observa a interrelao entre homem-mquina e afirma que o objetivo da mquina no era mais reproduzir ou simplesmente melhorar os gestos manuais...uma nova representao do poder do homem no trabalho confronta o conceito puramente quantitativo do aumento da produo4</p> <p>O terico russo Lev Manovich, influenciado pelo texto de Giedion, observa que acultura contempornea vive um novo momento em que as mquinas foram substitudas por processos abstratos gerados atravs dos sistemas computacionais, o que ele resolveu denominar de Software Takes Command5, uma espcie de homenagem ao texto de Giedion. Para Manovich "Software is the engine of contemporary societies", ou seja,3</p> <p>Existem poucas formas de explicar este fenmeno. Primeiramente, a velocidade com que as novas tecnologias so assimiladas nos Estados Unidos as tornam invisveis quase que do dia para a noite: elas se tornam parte da existncia do dia-a-dia, algo que parece no requerer muita reflexo. A lentido na assimilao e o alto custo envolvido do aos outros pases mais tempo para refletir sobre as novas tecnologias, como foi o caso com as novas mdias e a Internet nos anos 1990. No caso da Internet, no final dos anos 1990 ela se tornou um lugar comum nos Estados Unidos, como o telefone, enquanto que na Europa a Internet ainda era considerada um fenmeno para se pensar sobre, por razes econmicas (os pagantes norte-americanos pagariam uma assinatura mensal muito baixa; na Europa a Internet era por minuto) e por razes culturais (uma atitude mais ctica em relao s novas tecnologias em vrios pases Europeus tornaram a sua assimilao mais lenta). (Lev Manovich, New Media From Borges to HTML em New Media Reader, organizao de Noah Wardrip-Fruin e Nick Montfort, Cambridge, MIT Press, 2003, p. 13, minha traduo). 4 Pierre Francastel, Art &amp; Technology. Nova Iorque, Zone Books, 2000, p. 100. 5 Lev Manovich. Software Takes Command. La Jolla, Software Studies Initiative, 2008.</p> <p>4</p> <p>atualmente os processos sociais, em sua grande maioria, so regulados via software. Podemos afirmar com facilidade que no h mais trfego em grandes capitais do mundo que no funcione e seja regulado por softwares, que no h telefones que no operem ou demandem programaes complexas via software, que os controles das torres areas funcionem e se auto-regulem via emaranhados complexos de informaes, entre vrias outras esferas sociais, que vo da administrao de estoques de supermercados reao do pblico a determinado candidato em uma eleio. Tudo passa a sofrer influncia de processos algortmicos e as decises se tornam dependentes de anlises desses resultados complexos promovidos pelo software. Em outras palavras, a tcnica deixa de ser fsica e passa para uma abstrao que, apesar de no se fazer presente, altera e configura outros processos de compreenso da subjetividade contempornea.</p> <p>Um novo sistema esttico arte computacional, ou arte digital, tem recebido recentemente novas releituras sobre suas origens e potencialidades. Um dos autores que comea a ser revisto por inmeros pesquisadores do campo da arte tecnolgica digital o pesquisador, curador e artista tecnolgico Jack Burnham. Nos anos 1970 Burnham realizou a primeira curadoria de uma mostra dedicada a pensar a influncia do software na arte e convidou artistas, pesquisadores e professores a fazerem parte de uma exibio que tinha como tema o Software e Tecnologia da Informao: o seu novo significado para a arte. Alguns artistas eram meros desconhecidos e hoje ocupam um papel importante no imaginrio das novas mdias. Entre eles destacam-se Nicholas Negroponte e Ted Nelson, o primeiro um dos fundadores do mitolgico Media Lab do MIT e o segundo o inv...</p>

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