Arte e Liturgia ou Arte Litúrgica? : novos paradigmas da música ...

Download Arte e Liturgia ou Arte Litúrgica? : novos paradigmas da música ...

Post on 10-Jan-2017

212 views

Category:

Documents

0 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • Arte e Liturgia ou Arte Litrgica?Novos paradigmas da msica litrgica 1

    Revista da Faculdade de LetrasCINCIAS E TCNICAS DO PATRIMNIO

    Porto, 2004 I Srie vol. III, pp. 237-254

    JOS PAULO ANTUNES *

    Abstract The debate around the relationship and affinities between Artand Christian Worship evinces, frequently, a large lack of proper andgrounded criteria. Therefore a correct definition of this discussion fieldrequests the establishment of new paradigms. We propose fourparadigms: the new Gods conception of Christianity; the consequentovercoming of the dichotomy sacred-profane; the Christianconception of liturgy and celebration, which the previous perspectivesimply; the II Vatican Council as historical landmark for the liturgicalrenovation. This article ends with the question about the coexistence ofministerial and aesthetic functions in Church Music.

    Preldio

    Falar de arte litrgica sempre um tema aliciante, que se apresenta ao mesmotempo como um desafio Igreja e sociedade contempornea. To aliciante comocomplexo, tendo em conta os contornos ambguos da mentalidade corrente, com ascaractersticas prprias da condio ps-moderna, para usar a j clssica expressode Jean-Franois Lyotard (A Condio Ps-Moderna, Lisboa 1989), onde a dimen-so do belo parece no ter lugar ou, na melhor das perspectivas, parece ser atiradopara um espao redutor e residual, mesmo no mbito da Teologia.

    Mas a complexidade a que me refiro, tambm tem origem nas duas realidades volta das quais ir gravitar esta reflexo: a arte, como fenmeno humano, e a acocelebrativa crist, como fenmeno tendrico, ou seja, que envolve a naturezahumana e a divina.

    * Professor Auxiliar. Escola das Artes da Universidade Catlica Portuguesa.1 Verso resumida e com ligeiras adaptaes da conferncia proferida no mbito do II Curso Livre de

    Arte e Liturgia, organizado pelo Departamento de Cincias e Tcnicas do Patrimnio da FLUP, a 19 deMaro de 2003.

  • A r t e e L i t u r g i a o u A r t e L i t r g i c a ?

    238

    Perante a pluralidade de ngulos e perspectivas sob as quais esta questo podeser abordada e analisada, irei seguir uma linha que ter a expresso musical litrgicacomo eixo condutor. O subttulo escolhido Novos Paradigmas da MsicaLitrgica para alm de manifestar a centralidade da minha abordagem no fen-meno da msica litrgica crist, aponta tambm um aspecto que considero funda-mental: a necessidade imperativa de estabelecer novos paradigmas, novos pontos departida, que sirvam de base reflexo sobre o lugar da arte na liturgia crist, maisconcretamente no que se refere arte musical.

    Um dos factores determinantes e condicionantes para toda e qualquer investi-gao com um mnimo de seriedade e rigor intelectual e cientfico, a capacidadede analisar, reflectir, equacionar e depois formular, correcta e adequadamente oobjecto ou fenmeno a investigar.

    Ora, na recente e menos recente reflexo sobre este tema, sente-se a falta de pon-tos de referncia e de critrios que, de modo profundo, incisivo e solidamente fun-damentado, nos ajude a discernir o horizonte de compreenso, dentro do qual sedeve situar toda a reflexo nesta matria. A discusso sobre as questes da arte e daliturgia tem-se limitado, muitas vezes, a um conjunto de clichs, slogans e ideias pr-concebidas, que rapidamente se transformam em pr-conceitos, contribuindo paradesfocar a relao dinmica e profcua entre estas duas realidades. Deparamo-nosfrequentemente, com tenses e mesmo com o extremar de posies, que tm a suaorigem na dificuldade de formulao dos axiomas adequados.

    No caso da msica litrgica, temos assistido a uma discusso acerca da sua iden-tidade e essncia, a partir de paradigmas passados, anacrnicos, que j no tradu-zem o contexto vital em que esta problemtica se deve colocar, ou ento, na refle-xo sobre este tema constatamos a ausncia de certos dados fundamentais, sem osquais esta questo no pode ser devidamente focalizada e contextualizada. Sabemosbem como o contexto essencial para a determinao do significado. Torna-se poisnecessrio encontrar uma metodologia que permita a criao de um novo modeloconceptual e de relacionamento, entre a msica e a liturgia. A msica litrgica temsido abordada, muitas vezes, como um verdadeiro paradigma perdido que urgereencontrar. 2

    2 Esta minha utilizao do termo paradigma, como modelo conceptual a partir do qual surgem todosos discursos e se constroem todas as formulaes, faz-me remontar ao meu primeiro contacto com EdgarMorin, quando, ainda estudante, li o seu clssico O Paradigma Perdido: a natureza humana (uma obra de1973). A o autor, tomando conscincia de que a complexidade da condio humana est desintegrada naforma como os vrios saberes e cincias a abordam, manifesta a sua paixo (ele prprio usa, mais tarde, otermo obsesso), por romper as fronteiras das disciplinas tradicionais, sonhando com a fecunda e necessriarelao entre elas, atravs de um intercmbio transdisciplinar entre as cincias biolgicas e as cincias huma-nas, elaborando um verdadeiro pensamento interdisciplinar.

    Exigindo a abertura de brechas entre estes paradigmas isolados, que so, ao mesmo tempo, aberturapara outros domnios, para novas conexes e novas emergncias explicativas, Edgar Morin defende a passa-gem dos paradigmas conceptuais isolados e, por isso mesmo, perdidos, a um novo paradigma transdiscipli-nar, exigido pelos saberes contemporneos. neste contexto que ele chega a uma concepo do Homemcomo totalidade biopsicossociolgica.

  • 239J O S P A U L O A N T U N E S

    Traando uma brevssima panormica acerca dos estudos que tm sido feitosneste domnio, vemos que a ltima dcada foi palco de uma intensa elaborao teo-lgica sobre o fenmeno celebrativo cristo. medida que se torna claro que umas disciplina cientfica no consegue dar resposta ao largo espectro de questes quea liturgia crist coloca, os estudos tm avanado numa perspectiva crescentementeinter e multidisciplinar, reflectindo sobre as exigncias metodolgicas e cientficasque uma tal abordagem reclama. Alemes e italianos lideram a reflexo neste cap-tulo, num momento em que cada vez mais notria a insuficincia da linguagemtradicional no discurso sobre as aces litrgicas da Igreja, nomeadamente no querespeita s suas relaes com a cultura e a arte.

    Por outro lado, a crescente tomada de conscincia de que as profundas altera-es do contexto scio-cultural em que vivemos exigem uma nova hermenuticaargumentativa por parte da Teologia Litrgica, baseada numa metodologia integra-tiva, tem levado a importantes trabalhos no domnio da Cincia Litrgica, tendoesta alargado o estudo da liturgia s Cincias Humanas, nomeadamente s Cinciasda Comunicao, Sociologia, Filosofia da Linguagem, Simblica, bem como,muito especialmente, ao estudo das relaes da liturgia com a cultura. Alm disso,ao integrar os contributos da Semitica e da Hermenutica, as Cincias da Liturgiaampliam o seu horizonte de investigao ao espao de relao entre a Teologia e aArte.

    Infelizmente, no campo do fenmeno musical litrgico, no se sente a mesmamotivao nem a mesma dinmica. Apesar de se constatar a existncia de umaautntica revoluo ao longo de todo o sculo XX, no que respeita concepo eprtica da msica litrgica, mantm-se uma situao de pouca clareza e at de equ-voco, nomeadamente no que respeita terminologia e conceitos. Tudo isto inspi-rado numa espcie de receio em afirmar que a uma renovada vida litrgica para aIgreja, aps o II Conclio do Vaticano, dever corresponder tambm uma renovadaprtica musical, a qual, se nem sempre sinnimo de uma nova msica, muitasvezes o dever ser.

    J nos anos setenta, Helmut Hucke, um dos fundadores de uma nova disciplinade estudo a que hoje chamamos Musicologia Litrgica, refere-se questo da faltade critrios neste mbito, do seguinte modo:

    A musica litrgica no soube na realidade constituir uma esttica. Existem apenaspropostas de critrios parciais, diversos, mutveis e pouco coerentes entre si. (...) Perante aafirmao de que a msica sacra deve ser qualitativamente vlida, deve responder-se quefaltam critrios para a julgar 3

    necessrio pois encontrar esses critrios, desmontando e superando muitosdos equvocos que tm estado na base da reflexo sobre a msica litrgica.

    3 Helmut HUCKE, La situation de la musique sacre. Conferncia proferida no encontro da UniversaLaus (Essen, Agosto 1971). Citado por Nicolas SCHALZ, La nozione di Musica Sacra. Un passato recente.In: Rivista Liturgica 59 (1972) 196.

  • A r t e e L i t u r g i a o u A r t e L i t r g i c a ?

    240

    O II Conclio do Vaticano, fruto do movimento litrgico que o antecedeu, ofe-receu um contributo decisivo no estabelecimento das condies de possibilidade edo horizonte de compreenso adequados reflexo sobre a liturgia e a sua expres-so musical. A afirmao do carcter ministerial da msica, bem como a redesco-berta da assembleia como sujeito da aco litrgica, fundamentada no sacerdciocomum dos fiis (por fora do seu Baptismo), so os pilares onde assenta toda arenovao ps-conciliar, bem presente na Constituio Sacrossanctum Conciliumsobre a Sagrada Liturgia (SC). 4 Ao colocar os fiis e a msica em ligao profundacom a aco celebrativa, o Conclio abre um novo horizonte de compreenso dadimenso celebrativa da Igreja e do lugar que nela ocupa a linguagem musical.

    Deste modo, vai ficando claro que o horizonte de compreenso da msica litr-gica deve ser procurado: na msica enquanto expresso e linguagem artsticas; naliturgia espao de concretizao e vivncia dessa msica; no homem que seexprime pela msica e celebra a sua f e o seu dilogo salvfico com Deus na litur-gia.

    A msica litrgica coloca-se, assim, no espao de interseco entre a expressomusical em geral, a liturgia e o homem que celebra. Por isso, a reflexo sobre amsica litrgica tem que partir de um fecundo dilogo entre a competncia teolo-gico-litrgica e a competncia musico-litrgica.

    Voltemos tese que temos vindo a desenvolver: Na determinao do horizontede compreenso da problemtica da msica litrgica, temos necessidade de novosparadigmas.

    Tratando-se da msica litrgica crist, quais so esses paradigmas? Quais oseixos fundamentais volta dos quais deve girar a nossa reflexo, constituindo ver-dadeiros centros polarizadores do nosso estudo? Vamos referir quatro:

    O Cristianismo com a sua nova concepo de Deus e o novo contexto e pers-pectiva onde insere e compreende as relaes Deste com o ser humano;

    O paradigma anterior leva superao da dicotomia entre o sagrado e oprofano;

    A concepo crist de liturgia e de celebrao que as anteriores perspectivasimplicam;

    O II Conclio do Vaticano, como plo inspirador de uma Igreja que se redes-cobre e renova ad intra e ad extra. O Conclio marca um verdadeiro eincontornvel marco histrico de viragem, ao redescobrir a centralidade daaco litrgica na vida da Igreja e no espao existencial do cristo.

    Todos este factores, estabelecem um conjunto de condies de possibilidadepara a reflexo sobre a msica litrgica que no podem ser ignoradas. Passemos sua anlise:

    4 Cf. SC 7, 11, 14, 21, 26, 29 e 112.

  • 241J O S P A U L O A N T U N E S

    I Andamento os novos paradigmas

    A. O Cristianismo inaugura um novo paradigma na concepo de Deus e dasSuas relaes com o ser humano

    A Histria tem sido testemunha da inevitabilidade da abertura do ser humanoao transcendente, ou seja, realidade que, para alm do espao e do tempo, oenquadra e lhe d sentido, como ser vivente, racional, emocional, espiritual e livre.O homem tem encontrado vrias respostas a esta nsia pelo Ser que lhe d sentidoe o salva, indicando-lhe um caminho de perfeio. Se a Filosofia pretendeu sempreser voz de um paradigma que busca o sentido e quer sair da imanncia da tempo-ralidade, o Cristianismo a chave hermenutica, o novo paradigma do sentido bus-cado, ao inaugurar uma concepo totalmente nova das relaes entre Deus e o serhumano.

    O grande acontecimento que faz do Cristianismo uma nova religio e um novoparadigma a Encarnao, ou seja, o facto histrico de Deus que se faz um serhumano, como ns, entrando na histria, vivendo numa determinada poca, inse-rido numa cultura, assumindo-se como pessoa, de seu nome Jesus. De um modomais clssico e simples: Deus fez-se Homem em Jesus Cristo. Expliquemos melhore tiremos daqui todas as consequncias:

    Trata-se de um acontecimento pelo qual Deus, na pessoa de Jesus Cristo, setorna um de ns. Assume a condio humana, vive e experimenta todas as dimen-ses da nossa natureza, at mesmo a morte, entendida como experincia fulcral edecisiva onde se joga todo o sentido e a finalidade da nossa existncia. Em JesusCristo e por ele, Deus projecta e integra a nossa humanidade na sua prpria reali-dade divina, dando-lhe um novo sentido (inclusivamente morte), num progres-sivo e dinmico processo que nos levar perfeio Dele mesmo e a entrar, dessemodo, em completa comunho com Ele. O repto foi lanado pelo prprio Jesus:Sede perfeitos como o Pai do cu perfeito! (Mt 5, 48).

    Pela Encarnao, a realidade divina invade o espao da humanidade, entra naesfera do humano, assume uma condio espacio-temporal e entra na Histria. Oespao e o tempo so invadidos pelo infinito e pelo eterno: a eternidade penetrouna temporalidade e esta na eternidade, como refere o Cardeal Ratzinger. 5 PelaEncarnao, o falar humano tornou-se parte integrante do falar de Deus e assim, alinguagem humana toma parte na linguagem de Deus e vice-versa.

    Ao estabelecer este novo paradigma das relaes de Deus com o Homem e coma Histria, a f crist apresenta-se como uma alternativa plena de valor, polarizadorado sentido da existncia, superando a aparente dicotomia entre o sagrado e o pro-fano, pela eliminao dos elementos de tenso que sempre lhe tm sido atribudos.No so mais duas realidades paralelas, separadas, mas duas dimenses de uma

    5 Joseph RATZINGER, Das Fest des Glaubens. Versuche zur Theologie des Gottesdienstes. Einsiedeln1981, 24.

  • A r t e e L i t u r g i a o u A r t e L i t r g i c a ?

    242

    mesma realidade existencial, religadas (etimologia da palavra religio), interpene-trando-se e interagindo, por fora da aco de Deus, que ao invadir a Histriafecundou o profano! Nas palavras do telogo alemo Hans Bahr:

    Em Cristo definitivamente anulada a separao do mundo em esfera do sagrado edo profano. (...) Graas sua vinda esfera do quotidiano (...) caem todas as imposiessacrais impostadas a Deus, pois Deus profanizou-se no seu Filho. 6

    B. Superao da dicotomia entre o sagrado e o profano.

    Estaremos perante o fim de um longo equvoco? Estou convencido que sim!Uma Teologia da Encarnao levada at s ltimas consequncias, assim o exige.

    Recorrendo de novo ao II Conclio do Vaticano, a Constituio Gaudium etSpes sobre a Igreja no Mundo Contemporneo (GS), manifesta bem esta ligaoindelvel entre os desgnios de Deus e da Igreja, e o mundo e a histria humana:

    As alegrias e as esperanas, as tristezas e as angstias dos homens de hoje (...), sotambm as alegrias e as esperanas, as tristezas e as angstias dos discpulos de Cristo; eno h realidade alguma verdadeiramente humana que no encontre eco no seu corao.(...) Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gnero humano e suahistria. (GS 1)

    (...) mundo que os cris...

Recommended

View more >