APRENDER HIDROLOGIA PARA PREVENÇÃO DE DESASTRES hidrologia para... · APRENDER HIDROLOGIA PARA PREVENÇÃO…

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  • APRENDER HIDROLOGIA PARA PREVENO DE DESASTRES NATURAIS

    Masato KOBIYAMAProfessor do Departamento de Engenharia Sanitria e Ambiental, Universidade

    Federal de Santa Catarina, BrasilAline de ALMEIDA MOTA

    Aluna do Curso de Graduao em Engenharia Sanitria e Ambiental, Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil

    Joana NERY GIGLIOAluna do Curso de Graduao em Engenharia Sanitria e Ambiental,

    Universidade Federal de Santa Catarina, BrasilGean Paulo MICHEL

    Aluno do Curso de Graduao em Engenharia Sanitria e Ambiental, Universidade Federal de Santa Catarina, Brasil

    Roberto FABRIS GOERLMestrando do Programa de Ps-Graduao em Geografia, Universidade Federal

    de Santa Catarina, BrasilCludia WEBER CORSEUIL

    Professora do Departamento de Engenharia Sanitria e Ambiental; Universidade Federal de Santa Catarina; Brasil

    Resumo:Cada vez mais, a sociedade brasileira vem sofrendo com desastres naturais, especialmente hidrolgicos (inundao e escorregamento). Para prevenir, fundamental para as comunidades entender e aplicar a hidrologia no gerenciamento de desastres naturais. O projeto de extenso Aprender Hidrologia para Preveno de Desastres Naturais, iniciado pelo Laboratrio de Hidrologia (LabHidro) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), atravs de palestras e mini-cursos, busca a valorizao e o ensino da hidrologia para a conscientizao da populao quanto aos riscos e danos acarretados pelos desastres naturais e, ao mesmo tempo, difunde o conhecimento adquirido e desenvolvido pela universidade comunidade. A hidrologia uma das principais cincias envolvidas no estudo de desastres naturais. Alm de demonstrar os mecanismos desencadeadores desses desastres, traz tambm a percepo dos fenmenos hidrolgicos vivenciados diariamente, e evidencia a importncia da gua e do convvio integrado com a natureza. Os principais objetivos do presente projeto so: produzir materiais didticos para o entendimento e aplicao da hidrologia pelas comunidades para preveno de desastres naturais; realizar cursos, encontros, e seminrios junto s prefeituras, escolas, associaes, entre outros; promover a conscientizao da comunidade. O ideal que os indivduos tenham conhecimento de hidrologia aplicvel no seu cotidiano, para fortalecer a autoconfiana e, consequentemente, intensificar a participao nas atividades comunitrias. Com a participao fortalecida de cada indivduo, aumentar naturalmente a qualidade e a quantidade das aes praticadas pela comunidade. Assim, a comunidade conseguir realizar o gerenciamento participativo dos desastres naturais. Para isto, a melhor maneira a realizao de cursos de capacitao de hidrologia e desastres naturais para os indivduos. Os cursos realizados pelo projeto possuem, em princpio, contedos de hidrologia (recursos hdricos; bacia hidrogrfica; ciclo hidrolgico; medio de

  • chuva e vazo), desastres (conceito; classificao; mecanismos) e gerenciamento (pr-evento, evento e ps-evento; rgos pblicos; ONG e registro). Alm do contedo terico, so realizadas atividades prticas, adaptadas ao pblico-alvo. Tambm foram produzidos materiais didticos, como o livro Preveno de desastres naturais: Conceitos bsicos e a apostila Aprender Hidrologia para Preveno de Desastres Naturais, disponveis no site do LabHidro/UFSC (www.labhidro.ufsc.br). Antes e aps a realizao dos cursos de capacitao foram aplicados questionrios aos participantes com intuito de melhorar materiais didticos, organizao de futuros eventos e avaliar o desempenho do curso. Os cursos e as palestras tiveram resultados positivos e boa aceitao. Os participantes mostraram-se dispostos a repassar e utilizar as informaes no campo de trabalho e convvio social, bem como expressaram interesse na realizao de mais cursos, abertos comunidade. A tragdia histrica no Vale do Itaja em 2008 ocasionou aumento na procura do projeto pelas prefeituras catarinenses. Com a elaborao de materiais didticos e a realizao de cursos de capacitao, foi reforada a importncia do fator humano na preveno de desastres naturais. A vivncia com esses desastres inevitvel. O que se pode fazer reduzir os prejuzos. Isso possvel somente quando cada um participa da preveno. A preveno de desastres naturais contribui diretamente para a reduo de problemas scio-ambientais.

    Palavras-chave:

    1. INTRODUO

    UNDP (2004) define desastre natural como um srio distrbio desencadeado por um perigo natural que causa perdas materiais, humanas, econmicas e ambientais excedentes capacidade da comunidade afetada de enfrentar o perigo. Os prejuzos na sociedade sempre vm associados aos desastres naturais.

    Analisando-se os registros de desastres naturais bem como o total de pessoas afetadas pelos mesmos, disponveis no site do Emergency Disaster Data Base (EM-DAT) do Centre for Research on the Epidemiology of Disasters (CRED) na Internet, nota-se um crescimento acentuado do nmero de registros, principalmente aps 1975. Ressalta-se que o aumento do nmero de desastres e sua intensidade no necessariamente est associado ao aumento da freqncia do fenmeno natural que origina o desastre. Como pode estar havendo a ocupao de reas susceptveis antes desocupadas, pode ocorrer um aumento do nmero de desastres, mesmo que a freqncia do fenmeno permanea a mesma. Assim, Kobiyama et al. (2006a) comentaram que o aumento dos desastres naturais pode estar associado com o crescimento populacional, concentrao da populao nos centros urbanos e com o mau planejamento e utilizao das bacias hidrogrficas pelo homem. Segundo Alcntara-Ayala (2002), apesar dos desastres naturais ocorrem no mundo inteiro, os seus maiores impactos ocorrem em pases em desenvolvimento, devidos a dois fatores: a localizao geogrfica e as caractersticas geolgico-geomorfolgicas.

    Em 2008, o EM-DAT reclassificou os tipos de desastres em seu banco de dados (Scheuren et al., 2008). Os desastres foram classificados em dois grandes

  • grupos: naturais e tecnolgicos. Os naturais foram divididos em seis sub-grupos: biolgicos, geofsicos, climatolgicos, hidrolgicos, meteorolgicos e extraterrestres (meteoritos), e estes por sua vez em doze tipos. Essa nova classificao resultou de uma iniciativa entre o prprio CRED e Munich Reinsurance Company (MunichRe), que decidiram implantar uma classificao em comum para os seus respectivos bancos de dados. A MunichRe mantm o NATCAT, um banco de dados que registra grandes catstrofes naturais. Com esta nova classificao, 17000 entradas no banco de dados do EM-DAT foram alteradas, contudo sem alterar significativamente a sua distribuio entre os grupos e a tendncia em relao classificao anterior. A principal mudana foi separar em dois tipos os movimentos de massa: secos e molhados. O primeiro associado apenas a eventos geofsicos (terremotos) e o segundo, a condicionantes hidrolgicos e meteorolgicos. Alm disso, a International Strategy for Disaster Reduction das Naes Unidas (UNISDR) tambm adotou as mudanas na classificao, visto que o EM-DAT o principal banco de dados utilizado pela ONU, como observado em UNDP (2004). Em 2009 houve mais uma atualizao da classificao pelo CRED, na qual no se encontra o desastre extraterrestre (Tabela 1).

    Tabela 1 Atual classificao dos desastres naturais.Classificao antiga

    (at 2007)Classificao atual

    (2009) Principais tipos

    Geolgico Geofsico Terremotos, vulces, movimentos de massa (secos)

    Hidrometeorolgico Meteorolgico Tempestades

    Hidrolgico Inundaes, movimentos de massa (midos) Climatolgico Temperaturas extremas, secas, incndios

    Biolgico Biolgico Epidemias, pragas e infestaes de insetos

    A Figura 1 mostra a distribuio anual de 1950 a 2008 das cinco principais categorias de desastres naturais. Nota-se que, apesar de todos os tipos apresentarem aumento em sua freqncia, os desastres hidrolgicos seguido dos meteorolgicos, como as inundaes, escorregamentos e as tempestades severas so os que tiveram um maior aumento. Esta mesma tendncia tambm apresentada pelo banco de dados NATCAT.

    Ento, bastante claro que a sociedade vem sofrendo com os desastres hidrolgicos e meteorolgicos. Para contribuir na mitigao destes, o Laboratrio de Hidrologia (LabHidro) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) iniciou o Projeto de Extenso Universitria Aprender Hidrologia para Preveno de Desastres Naturais oficialmente em 2006.

    A iniciativa do Projeto surgiu aps um episdio ocorrido no momento da gigante tragdia devido ao tsunami no sul e sudeste da sia, em 2004. Duas semanas antes da ocorrncia do tsunami, uma menina inglesa de 10 anos, Tilly Smith, aprendeu em uma aula de geografia como diagnosticar o mar antes da

  • chegada do tsunami. No dia 26 de dezembro de 2004, pouco antes da chegada do tsunami, ela observou o mesmo diagnstico que aprendera na aula e avisou o perigo aos seus pais. Ento, Tilly e os pais dela agiram eficientemente para alertar diversas pessoas que estavam na praia. Assim, Tilly salvou aproximadamente 100 pessoas em uma praia na Tailndia. Nesse episdio se encontra uma grande lio, isto , a cincia til para preveno de desastres naturais.

    Figura 1 Ocorrncias de desastres naturais no mundo no perodo 1950-2008.

    Para minimizar os prejuzos causados pelos desastres naturais, Lamontagne (2002) destacou a importncia da popularizao da cincia. Como os desastres naturais no Brasil ocorrem principalmente devido ao da gua, acredita-se que a hidrologia possui uma grande contribuio a esse assunto. Segundo UNESCO (2007), a hidrologia uma das principais cincias envolvidas no estudo de desastres naturais. Alm de demonstrar os mecanismos desencadeadores desses desastres, a hidrologia traz tambm a percepo dos fenmenos hidrolgicos vivenciados diariamente, e evidencia a importncia da gua e do convvio integrado com a natureza.

    Em novembro de 2008, o estado de Santa Catarina, Brasil, sofreu inmeros prejuzos em virtude dos desastres hidrolgicos causados pelas precipitaes anmalas ocorridas sobre o estado. Segundo a Defesa Civil de Santa Catarina, houveram 2.637 desabrigados, 9.390 desalojados, 135 bitos e 2 desaparecidos. Entre os diversos desastres ocorridos no estado, dois foram mais marcantes: os desastres relacionados a gua (inundao na bacia do rio Ararangu) e os relacionados a sedimentos (escorregamentos no vale do Itaja). Aps levantamento em campo, Giglio e Kobiyama (2009) mencionaram que existem grandes diferenas no gerenciamento e na recuperao desses dois desastres, sendo os relacionados a sedimentos de muito maior dificuldade de avaliao e superao. Algumas semelhanas e diferenas significantes entre os dois desastres so apresentadas na Tabela 2.

  • Tabela 2 - Semelhanas e diferenas entre desastres relacionados a gua e sedimentos.

    Inundao Escorregamento(Movimentos de massa)

    Semelhanas

    Desastres hidrolgicos; Iniciados por chuvas intensas; prejuzo sade pblica; Preveno exige planejamento da ocupao do solo e popularizao da hidrologia; Importncia da cincia: monitoramento e modelagem hidrolgicos.

    Diferenas

    Consequncias: danos materiais (objetos, residncias, plantaes); desabrigados temporrios; perdas humanas so raras. Avaliao de risco: visual, individual; assim que o nvel da gua baixa, cada um sabe que pode voltar para casa. Superao: desastre pode ser superado poucos dias aps ocorrncia, assim que o rio se normaliza.

    Consequncias: danos materiais (residncias inteiras, terrenos, plantaes); desabrigados temporrios e permanentes; muitas perdas humanas. Avaliao de risco: difcil; o retorno da populao s suas residncias depende de avaliao rigorosa por especialistas. Superao: o solo fica instvel por meses; superar o desastre pode demorar meses ou anos.

    Realizando levantamento em campo, Goerl et al. (2009) relataram que muitos escorregamentos ocorreram em virtude da ao antrpica sobre a paisagem, considerando-os mais como desastres tecnolgicos ou mistos, do que propriamente naturais. Nesse sentido, bastante claro que a sociedade necessita um correto entendimento dos fenmenos naturais a fim de reduzir os desastres naturais ocasionados pelos mesmos.

    2. IMPORTNCIA DA CONSCIENTIZAO DA HIDROLOGIA

    Kobiyama et al. (2006a) dividiram a preveno de desastres naturais em dois aspectos: (1) compreenso dos mecanismos de fenmenos naturais que geram os desastres; e (2) aumento do potencial de resistncia da sociedade contra esses fenmenos. O primeiro item a execuo da cincia, e o segundo item pode ser realizado com apoio da cincia.

    No contexto de gerenciamento de desastres naturais (GDN), essencial que cada pessoa seja responsvel pela sua prpria vida. Entretanto, como o poder de cada indivduo pequeno e limitado, necessrio unir os indivduos e criar uma comunidade. UNISDR (2007) discutiu o GDN em trs nveis: comunitrio, nacional e internacional, concluindo que o GDN com base comunitria essencial. Portanto, bem clara a importncia de as comunidades serem fortalecidas contra desastres naturais.

    Assim, o ideal que os indivduos das comunidades tenham conhecimento da aplicao da hidrologia no cotidiano. Este conhecimento do indivduo poder fortalecer a auto-confiana e conseqentemente intensificar a participao nas atividades comunitrias. Essa participao fortalecida de cada indivduo aumentar naturalmente a qualidade e a quantidade das aes das

  • comunidades, as quais conseguiro fazer o gerenciamento participativo de desastres naturais (GPDN) (Figura 2).

    Professor

    Alunos (Crianas)

    Conscientizao (Hidrologia)

    Cidado

    Participao Intensificada

    Participao Intensificada

    Comunidades

    Participao Intensificada

    Gerenciamento de Desastres Naturais

    Gerenciamento Participativo de Desastres Naturais

    Reduo de Desastres

    Figura 2 Efeito da conscientizao no gerenciamento participativo de desastres naturais.

    Neste contexto, enfatiza-se o importante papel dos professores de ensino fundamental, que tm possibilidade real de conscientizar seus alunos. As crianas, por sua vez, podem ser tambm multiplicadores efetivos desse conhecimento.

    Uma comunidade consciente dos riscos que sofre diante de um desastre natural, est mais bem preparada tanto para evitar ou minimizar a ocorrncia de impactos como para agir diante desses eventos extremos e, em sua maioria, inevitveis. A resposta da comunidade determinar o grau do impacto causado pelo desastre natural. Para que ela esteja preparada, necessrio que o conhecimento desenvolvido chegue s suas mos. Sendo uma ferramenta de preveno de baixo custo e alta eficincia, a conscientizao da comunidade a melhor maneira de proteg-la dos desastres naturais.

  • 3. EXECUO DO PROJETO DE EX...