análise crítica do discurso: modismo, teoria ou método?

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    Anlise crtica do discurso:modismo, teoria ou mtodo?

    Critical Discourse Analysis:Fad, Theory or Method?

    Adail Sebastio Rodrigues-Jnior*Universidade Federal de Ouro Preto

    RESUMO: A Anlise Crtica do Discurso (ACD) tem sido considerada umateoria potencial para o entendimento das relaes de poder e das ideologiasfrequentemente presentes no discurso. Vrios tericos concordam que a ACD temcontribudo para a compreenso de inmeros fenmenos lingusticos que,mormente, retratam hegemonias opacas, uma vez que a linguagem uminstrumento poderoso para a disseminao de conceitos preconcebidos, bem comode ideologias. No entanto, por que a ACD recebeu, nos anos noventa, crticasseveras de um conjunto significativo de tericos? Essas crticas apresentaram umalista ampla de problemas relacionados aos mtodos e abordagens utilizados poranalistas crticos do discurso. Dentre essas crticas, os problemas de recepo erepresentatividade so tidos como os mais frequentes no tratamento dos dadosfeito pelos pesquisadores. Apesar de tudo isso, a determinao dos analistas crticosdo discurso em apresentar uma base metodolgica disciplina teve seus resultadospositivos a ACD hoje um ramo reconhecido da Lingustica Aplicada noexterior, dentro da interface entre as Cincias Sociais e as Humanidades. Publicaesrecentes, principalmente as de Fairclough e seus colegas, levaram em consideraoalgumas dessas crticas, ao responderem pontualmente s mesmas. Contudo, noBrasil tem havido um silncio em relao a essa questo, sobretudo porque ospesquisadores parecem desconsiderar tais crticas. Neste artigo, pretendo quebraresse silncio e discutir algumas dessas crticas e seus impactos na ACD e suaaplicao em pesquisas brasileiras. O objetivo principal deste artigo perceber sealgumas pesquisas em ACD no Brasil tm apresentado os mesmos problemaspostos por esses crticos, atravs da anlise de quatro artigos que usam a ACD comoteoria orientadora, publicados em um nmero especial sobre a ACD de umreconhecido peridico brasileiro intitulado D.E.L.T.A. Os resultados indicaramque alguns dos problemas mostrados por esses crticos tambm aparecem nosartigos analisados, o que indica que os analistas crticos do discurso brasileirosprecisam atentar para a maneira como abordam e tratam seus dados.PALAVRAS-CHAVE: anlise crtica do discurso; crtica; recepo;representatividade; pesquisa.

    * adail.sebastiao@terra.com.br

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    ABSTRACT: Critical Discourse Analysis (CDA) has been considered a potentialtheory for the unveiling of power relations and ideologies commonly found indiscourse. Many theoreticians agree on the fact that CDA has contributed to theunderstanding of several linguistic phenomena that usually portray obfuscatedhegemonies, since language is a powerful tool for disseminating biased assumptionsas well as ideologies. Nonetheless, why did CDA attract severe criticisms from awide range of scholars in the 1990s? These critics presented a full list of problemsconcerning the methods and approaches often utilized by critical discourse analysts.Among the criticisms, problems of reception and representativeness are claimedto pervade most of the treatment given by CDA researchers to their data. Despiteall this, the keenness of critical discourse analysts to display a methodologicalground to the discipline has had its positive results CDA is now a recognizedand well-established branch of Applied Linguistics in the international context,within the interface between the Social Sciences and the Humanities. Recentpublication, principally from Fairclough and his colleagues, has taken intoconsiderable account some of the criticisms, by responding to these criticsaccordingly. In Brazil, however, there has been a deafening silence about thisissue, especially because researchers seem to disregard these criticisms. In thispaper, I intend to break this silence and bring into discussion some of thesecriticisms and their impact on CDA and the application of its theory in Brazilianresearch. The main aim of the paper is to see whether some research on CDA inBrazil has presented the same problems posed by these critics, by analyzing fourarticles that use CDA as an orienting theory, published in a special issue on CDAfrom a well-known Brazilian journal entitled D.E.L.T.A. The results have indicatedthat some of the problems outlined by these critics also appear on the articlesanalyzed, which shows that critical discourse analysts in Brazil should pay specialattention to the way they approach and treat their data.

    KEYWORDS: critical discourse analysis; criticism; reception; representativeness;research.

    1 Anlise Crtica do Discurso: quid pro quo?1

    A Anlise Crtica do Discurso (ACD) surge no cenrio internacional apartir de algumas publicaes de tericos como Fairclough (1989, 1992), vanDijk (1984, 1987, 1988, 1991, 1993), Kress (1985, 1990), Wodak (1990), vanLeeuwen (1993), entre outros. A potencialidade dessa disciplina est em suaprpria epistemologia, cuja fundamentao sugere que: (i) a linguagem umtipo de prtica social; (ii) os textos resultam de prticas sociais de seus produtores;

    1 Esta pesquisa foi apresentada no III Simpsio Internacional de Anlise do Discurso,que ocorreu na Faculdade de Letras da UFMG, no perodo de 1 a 4 de abril de2008. Sou grato a meu colega William Menezes (UFOP) pelas sugestes primeiraverso deste artigo.

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    (iii) os textos traduzem a desigualdade social em que se situam seus produtores;(iv) os significados textuais expressam-se por meio das interaes entreprodutores dos textos e seus leitores/ouvintes; (v) os traos lingusticos no soum conjunto arbitrrio de formas e significados; (vi) esses mesmos traoslingusticos apresentam discursos ideologicamente camuflados; (vii) os usuriosda lngua adotam posicionamentos particulares frente ao discurso que produzem;(viii) por fim, a ideologia e as relaes de poder, mormente presentes nodiscurso, tornam-se visveis por meio de anlise textual precisa e acurada.

    Wodak (1990) esclarece que o interesse principal da ACD, legatria daLingustica Crtica de Fowler e colegas (1979), desvelar a injustia e adesigualdade presentes na naturalizao de discursos que representam minoriassociais. Para tanto, Wodak afirma que analistas crticos do discurso devemnecessariamente adotar um posicionamento crtico e poltico em prol dessasminorias, oferecendo-lhes oportunidades de se expressarem em suas pesquisas.

    A ACD congrega um conjunto de fatores de anlise que procura desvelarrelaes injustas de poder e construes ideolgicas opacas nos discursosproduzidos sobretudo pela mdia, fato que mostra claramente sua importnciano mbito das disciplinas das Humanidades e das Cincias Sociais. Widdowson(1996) sublinha essa importncia ao afirmar que a contribuio da ACD paraos estudos do discurso est justamente no entendimento das relaes entrelinguagem e sociedade, assim como na compreenso do processo dialtico quepermeia essas relaes.

    No entanto, no que tange aos mtodos de anlise discursiva no mbitoda ACD, por que tem havido tenses e crticas, por parte de linguistasaplicados e cientistas sociais renomados, como, por exemplo, HenryWiddowson, Michael Stubbs, Michael Toolan, Paul Simpson, MartynHammersley, entre outros, acerca das conceituaes e procedimentosanalticos usados por essa abordagem? Esses tericos apresentaram, no contextointernacional, crticas s vezes severas ACD, alegando, resumidamente, quea referida disciplina no leva em conta os receptores dos textos e quetendenciosamente adota uma postura inicial preconceituosa sobre os textos emgeral, levando a interpretaes confusas acerca de seu carter terico emetodolgico. Paul Simpson (1993, p. 7) ilustra muito bem esse quid pro quo:

    Considere, por exemplo, a desconstruo da palavra tinnie, feita porHodge e Kress, um termo do ingls australiano para garrafa de cerveja:

    garrafas de cerveja, apesar de sua forma flica e de sua associaocom a bebida e a solidariedade masculinas, so classificadas com

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    o ie da solidariedade feminina implcita, como objetos segurosdo desejo masculino [HODGE; KRESS, 1988, p. 102].

    No est claro se poderamos esperar do ie de, por exemplo, junkie[viciado/a] uma carga semntica com o mesmo grau de solidariedadefeminina. Ao se extrapolar a teoria da forma flica da garrafa de cerveja,poder-se-ia concluir que todas as formas cilndricas apresentam tal formatodevido conspirao sexista masculina, e no porque podemsimplesmente ser formas teis de embalagem de produtos. H momentos,talvez, que uma garrafa de cerveja apenas uma garrafa de cerveja.2

    Para Simpson, tem havido uma supervalorizao de posicionamentosideolgicos dos analistas crticos do discurso em suas interpretaes, em detrimentode anlises mais precisas do que realmente encontra-se presente e claro nos dadosinvestigados. Essa crtica, que a meu ver foi uma das primeiras ACD nocontexto internacional, gerou reflexes pontuais de um conjunto significativode tericos dos campos da Sociologia, da Estilstica e da Lingustica Aplicada.

    Em virtude dessas crticas surgidas de anlises de vrias publicaes daACD no exterior, neste artigo tenciono analisar o nmero especial sobre a ACDde um peridico conceituado na rea da Lingustica Terica e Aplicada noBrasil, a saber, a revista D.E.L.T.A.3 Por entender que esse nmero especialcongrega trabalhos de analistas crticos do discurso brasileiros, farei uma anlisedos mtodos usados nesses trabalhos empricos e de seus resultados, a fim de

    2 Minha traduo de: Consider, for instance, Hodge and Kresss deconstruction ofthe word tinnie, an Australian English term for tin of

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