A TV, A Janela e a Rua

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<p>1</p> <p>A TV, a janela e a rua1 Vera Regina Veiga Frana</p> <p>A anlise de programas televisivos (no nosso caso, programas populares na TV) necessariamente precedida por uma indagao sobre o prprio conceito de televiso - seu lugar, suas caractersticas, sua linguagem. No se trata, naturalmente, de promover uma completa reviso terica sobre o tema (o que ultrapassaria em muito nosso propsito aqui) ou de reivindicar respostas e definies precisas a tais indagaes, mas to somente da identificao do lugar de onde estamos falando, bem como das referncias que balizam nosso olhar sobre a TV. Desde seu surgimento, a televiso vem sendo exaustivamente tratada mas seus estudos se caracterizam por abordagens distintas e pouco confluentes, dificultando a construo de uma teoria da televiso. Ao contrrio do jornalismo, por exemplo, que, enquanto um fazer especfico, constitui um domnio de conhecimento relativamente estruturado2, possui uma dimenso estratgica e princpios operacionais mais ou menos definidos, a televiso um meio que vem se recriando continuamente enquanto linguagem, passvel de diferentes usos, alojando prticas distintas, acolhendo mltiplos discursos. Como ento falar de televiso? Mas como no falar, se a natureza televisiva fundamental na constituio de nossos programas? preciso, assim, encarar de alguma forma o panorama geral dos estudos sobre a televiso, para estabelecer nosso ponto de partida. Sem qualquer pretenso classificatria, mas para orientar nosso caminho e nossas escolhas, podemos, grosso modo (assumindo os riscos da simplificao), identificar trs grandes tendncias dentro deste panorama. No se trata de uma ordenao das teorias, menos ainda de inserir de forma definitiva obras e autores em cada uma delas, mas de identificar nfases. A primeira delas diz respeito s abordagens mais gerais, que falam da relao televiso e sociedade, buscando delinear seu papel, funes, efeitos. Numerosas obras se dedicam a discutir o que a televiso significou e trouxe sociedade. Com freqncia esta perspectiva promove uma identificao entre televiso e meios de comunicao, entre TV e cultura de massa, por vezes atribuindo televiso as principais caractersticas da produo miditica. Os primeiros estudos sobre a cultura de massa, at aproximadamente os anos 1960, tratavam de</p> <p>1</p> <p>Primeiro captulo do livro Narrativas televisivas: programas populares na tv. Belo Horizonte: Autntica, 2006.</p> <p>2 forma relativamente indistinta os novos meios tcnicos de produo e distribuio massiva de informaes e imagens (fotografia, cinema, rdio, TV, alm da imprensa de grande tiragem). Era ainda a infncia da televiso. Mas os traos desde o incio apontados como definidores dos ento chamados MCM (meios de comunicao de massa) encontraram na TV sua melhor expresso: produo industrial em larga escala; homogeneizao da produo e busca de um termo mdio; mercantilizao e busca de grandes audincias; nfase no entretenimento e no carter ldico; mistura de elementos (sincretismo); especializao tcnica e carter coletivo da produo3. A ampliao da penetrao e importncia da TV vo torn-la o carro-chefe da indstria cultural; o cinema e a fotografia ganham auras de arte; o rdio, a despeito de sua fora e penetrao, relegado a um plano secundrio. a televiso que encarna por excelncia o esprito e o espao da nova cultura de massa. Neste caminho de leitura, vrios autores desenvolvem uma crtica s vezes arrasadora da televiso: para Baudrillard, a televiso expresso mais acabada dos meios de massa - veio retirar a palavra da cena pblica e eliminar a comunicao4: O que caracteriza os media de massa que eles so antimediadores, intransitivos, fabricamno comunicao se aceitarmos definir a comunicao como uma troca, como um espao recproco de uma palavra e de uma resposta, portanto, de uma responsabilidade , e no uma responsabilidade psicolgica e moral, mas uma correlao pessoal de um com outro na troca. Por outras palavras, se definirmos como algo diferente da simples emisso/recepo de uma informao, mesmo que essa fosse reversibilizada pelo feedback. Ora, toda arquitetura atual dos media se funda nessa ltima definio: eles so o que probe para sempre a resposta, o que torna impossvel qualquer processo de troca (a no ser sob a forma de simulao de resposta, elas prprias integradas no processo de emisso, o que no altera em nada a unilateralidade da comunicao). A reside sua verdadeira abstrao. nessa abstrao que se funda o sistema de controle social e de poder (Baudrillard, 1972, p. 217).</p> <p>Para Bourdieu, a televiso ameaa as esferas culturais, artsticas, cientficas e inclusive a vida poltica e a democracia. Atravs do jogo da visibilidade e da invisibilidade, do esconder mostrando, do jogo remissivo e do fast-thinking, a televiso exerce ao extremo aquilo que oNo estamos falando aqui de marcos tericos consensuais, mas de parmetros consensuais que estabelecem os delimitaes do jornalismo como campo de conhecimento. 3 Veja-se, a propsito, o estudo clssico de Adorno e Horkheimer (1985), sobre a industria cultural ; tambm o trabalho de E. Morin (1997) sobre cultura de massa. 4 Perspectiva tambm desenvolvida por Muniz Sodr: Os media, a relao informativa, ao estabelecerem o monoplio do discurso, eliminam a possibilidade de resposta e erigem um poder absoluto, indito na Histria, a hegemonia tecnolgica do falante sobre o ouvinte (Sodr, 1977, p. 26).2</p> <p>3 autor nomeia em outras obras de poder simblico: a dominao pela imagem. A imagem televisiva tem a particularidade de poder fazer ver e fazer crer no que faz ver (Bourdieu, 1997, p.28); a televiso se torna o rbitro do acesso existncia social e poltica (Idem, p.29) G. Sartori aponta o surgimento do homo videns, que pouco a pouco substitui o homo sapiens; a televiso estaria mudando a natureza humana, levando a um predomnio do visvel sobre o inteligvel que conduz para um ver sem entender.5 Outros, no entanto, como D. Wolton, ressaltam o potencial democratizador e o lugar mpar da TV aberta:A idia de programao inerente televiso de massa, obriga a conceber uma programao para todos os pblicos: ela traduz assim uma aceitao da heterogeneidade de gostos e de aspiraes e , portanto, uma espcie de reconhecimento de sua legalidade. Quanto ao que diz respeito recepo, a televiso de massa acentua, quase na mesma proporo das incertezas da diversidade da grade, a heterogeneidade das mensagens e dos pblicos. Essa disperso dos sentidos , na verdade, um fator de comunicao, uma vez que a televiso um assunto sobre o qual os indivduos conversam com maior facilidade. No s podemos assistir, se quisermos, s mesmas imagens, como tambm nada nos obriga a assistir mesma coisa. (...) A fora principal da televiso generalista, pblica ou privada, continua sendo o seu registro: ela se dirige a todo mundo, constituindo um dos laos sociais das sociedades individualistas de massa, em que as ocasies de se participar simultnea e livremente de atividades coletivas so muito menos numerosas do que se pensa (Wolton, 1996, p. 113- 114).</p> <p>Nesses vrios enfoques a televiso ressaltada alternativamente como lugar de alienao e empobrecimento cultural, criao de valores e mitos contemporneos, instrumento de poder e reproduo da estrutura de dominao, espao pblico e canal de acesso e participao (para citar apenas os traos mais marcantes ressaltados por um ou outro autor). Um segundo enfoque, mais interno, diz respeito caracterizao tcnica do meio e de sua linguagem. Tais estudos so desenvolvidos, geralmente, por autores que trabalham no especificamente sobre a TV, mas sobre esttica, imagens, meios visuais. Alm dos modos operatrios e da configurao tcnica do meio, indaga-se sobretudo sobre a natureza do seu produto o que a imagem televisiva, que tipo de representao ela constri. Para U. Eco, a</p> <p>Conforme Sartori, na televiso o fato de ver predomina sobre o falar, no sentido que a voz ao vivo, ou de um locutor, secundria, pois est em funo da imagem e comenta a imagem. por causa disto que o telespectador passa a ser mais um animal vidente do que um animal simblico. (.....) Este fato constitui realmente uma virada radical de direo, pois enquanto a capacidade simblica distancia o homo sapiens do animal, o predomnio da</p> <p>5</p> <p>4 grande caracterstica da televiso foi abolir as fronteiras da fico e realidade; mais contemporaneamente, ele distingue a Paleo e a Neoteleviso; uma televiso que falava sobre o mundo substituda hoje por uma televiso que fala sobretudo de si e do contato que estabelece com o prprio pblico.6 Para F. Jost, a linguagem televisiva se constri em torno de trs grandes gneros televisivos (trs mundos aos quais a TV se dirige): o real, a fico e o ldico. No Brasil, de forma particular, vale ressaltar as contribuies significativas de D. Pignatari e A. Machado, entre outros, na caracterizao do meio e da linguagem televisiva7. Por ltimo, encontramos um vasto repertrio de anlises circunscritas a programas especficos. Fugindo das abordagens muito amplas e totalizantes, vamos encontrar, contemporaneamente, uma grande proliferao de estudos tratando ora dos aspectos da produo de tal ou tal produto, ora da sua audincia. So estudos mais pontuais que, evitando generalizaes excessivas, buscam caracterizar dinmicas particulares que conformam mltiplas TVs. Como exemplo, no Brasil, destaca-se sobretudo o estudo das telenovelas8, mas tambm de telejornais, programas de auditrio, reality shows (tendo o Big Brother catapultado um bom volume de reflexes nos ltimos anos). Os estudos de recepo9 tambm respondem por uma boa parcela da produo da rea, seja numa linha de etnografia dos usos e/ou das audincias, seja buscando o dilogo e interlocuo entre programas e sociedade.10 Este o nosso caso estudo de alguns programas. Mas no queremos faz-lo (ou no podemos faz-lo) a partir do prprio programa, negligenciando os enquadramentos mais amplos da interao televisiva que resignificam caractersticas especificas encontradas em cada um. Como dissemos no incio, a televiso um meio de comunicao11 dotado de configuraes tcnicas e padres de funcionamento prprios, que obedece uma lgica deviso o aproxima de novo s suas capacidades ancestrais, isto , ao gnero do qual o homo sapiens a espcie. (Sartori, 2001, p. 15-16). 6 (...) em contato com uma tev que fala de si, privada do direito transparncia, isto , do contato com o mundo exterior, o espectador volta a si prprio. Volta a ser valida uma velha definio de tev: uma janela aberta sobre um mundo fechado (Eco, 1984, p. 200). 7 Ver sobretudo Signagem da televiso, de D. Pignatari, e A televiso levada a srio, de A. Machado. 8 Vale ressaltar, na ECA-USP, o Ncleo de Estudos de Telenovelas, que agrega vrios autores e uma significativa contribuio aos estudos nacionais sobre a telenovela, alm de pesquisadores de outras universidades. 9 Na linha dos estudos de recepo, vale citar alguns estudos precursores Leitura social da novela das 8, de Ondina Leal; Muito alm do Jardim Botnico, de Carlos Eduardo Lins da Silva, e, nos ltimos anos, numerosas teses e dissertaes desenvolvidas nos programas de ps-graduao em Comunicao no pas. 10 Constituem um capitulo parte diversos trabalhos de cunho mais histrico sobre o surgimento da televiso e/ou de determinadas emissoras (com destaque, nos ltimos anos, para publicaes da prpria Globo sobre a sua trajetria e seus diversos programas). 11 Conforme discutido no texto Mdia: um aro, um halo e um elo, publicado no primeiro livro desta coleo, buscamos ultrapassar uma abordagem midiacntrica, que se restringe ao estudo do meio em si, entendendo-o antes como algo capaz de transmisso que permite uma modalidade de experincia assentada no transporte e deslocamento incessante de signos. A mdia, assim, vista como um fluxo, um lugar e uma forma.</p> <p>5 produo e se realiza, historicamente, dentro de um determinado modelo e prtica de distribuio e de recepo. Tais caractersticas indicam, sim, a presena de um modo operatrio singular (uma linguagem), que buscaremos delinear a seguir. Em outras palavras, e remetendo-nos s trs grandes tendncias indicadas acima, entendemos que o estudo da televiso compreende a ateno e leitura de produtos e relaes concretas (fenmenos empricos recortveis, identificveis) o que no nos exime, mas nos obriga a falar, ainda que indiretamente, sobre o que televiso (linguagem) e como ela se insere na sociedade. Situaes especificas so ndices e parte de uma situao maior e mais complexa, que so as mltiplas experincias vividas com e atravs da TV por uma sociedade.</p> <p>1.1. Uma tcnica de produo e veiculao de imagem e som Um primeiro aspecto diz respeito configurao tcnica da televiso, quilo que ela capaz de fazer, ao tipo de produto que ela capaz de gerar. O primeiro conceito de televiso se refere antes de tudo a uma tcnica de produo de imagem em movimento e som, e</p> <p>veiculao instantnea distncia. Comeamos do bvio mas tambm daquilo onde ela revolucionou. Ela se distingue do rdio, pela presena da imagem; se distingue da fotografia, pela presena do som e da imagem em movimento; tambm se distingue do cinema, pelo tipo de imagem (eletrnica)12 e, sobretudo, por sua forma de veiculao: distncia, para mltiplos aparelhos receptores, e imediata (gerao e recebimento a domicilio). Nos seus primrdios, essas caractersticas tcnicas (imagem eletrnica, distribuio distncia) trouxeram alguns condicionantes. A ainda baixa qualidade da imagem dificultava planos abertos e composies mais elaboradas, estimulando planos menores, enquadramentos simples. Tambm o tamanho da tela dos receptores domsticos sugeriu um trabalho mais comedido com as imagens. A tecnologia evoluiu: a imagem digital ganhou em preciso e recursos de criao e montagem; a oferta de receptores domsticos inclui hoje vrias opes de tela, que vo do widescreen (o cinema em casa) tela do celular. Isto significa que muito se pde avanar na construo e criao das imagens e na formatao dos produtos. A televiso trabalha hoje com padres sofisticados, e superou h muito a mera transmisso de imagens do mundo: ela fabrica suas imagens e um mundo prprio. Cria cenrios, formas, movimentos; recupera eHoje o cinema se utiliza tambm da imagem eletrnica, e a hibridao das linguagens opera nos dois sentidos. Mas esta apenas acontece hoje, quando linguagens especficas foram configuradas (existe o cinema, existe a televiso, o que nos permite perceber as influncias recprocas).12</p> <p>6 reedita trilhas sonoras e musicais; acoplada aos novos recursos multimdia, gera imagens e sons criativos e inusitados. Esta mesma tecnologia se desdobrou em um outro meio, ou linguagem, que o vdeo13, e onde as novas possibilidades criativas so particularmente exploradas; a televiso, contudo, permanece (e reconhecida) enquanto tal. Mais do que exerccio de formas, ela se sustenta na possibilidade da distribuio massiva e instantnea, para telespectadores (e aparelhos receptores) os mais diversificados. Um outro recurso tcnico que incidiu de maneira muito intensa naquilo que a televiso se tornou o controle remoto, instituindo o zapping14. Se a televiso compreende a oferta de imagens a domicl...</p>