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  • A teologia em situaode ps-modernidade

    Geraldo Luiz de Mori, SJ

  • UNIVERSIDADE DO VALE DO RIO DOS SINOS UNISINOS

    ReitorAloysio Bohnen, SJ

    Vice-reitorMarcelo Fernandes de Aquino, SJ

    Instituto Humanitas Unisinos

    DiretorIncio Neutzling, SJ

    Diretora AdjuntaHiliana Reis

    Gerente AdministrativoJacinto Schneider

    Cadernos Teologia PblicaAno 2 N 11 2005

    ISSN 1807-0590

    EditorIncio Neutzling, SJ UNISINOS

    Conselho EditorialCleusa Maria Andreatta UNISINOS

    Drnis Corbellini UNISINOSEdla Eggert UNISINOS

    Jos Roque Junges, SJ UNISINOSLaurcio Neumann UNISINOS

    Luiz Carlos Susin PUC-RSMaria Clara Bingemer PUC-RJMaria Helena Morra ISTA-MG

    Maria Ins Millen CES/ITASA-MGRosa Maria Serra Bavaresco UNISINOS

    Rudolf Eduard von Sinner EST-RSVera Regina Schmitz UNISINOS

    Responsvel TcnicaCleusa Maria Andreatta

    Reviso Lngua PortuguesaMardil Friedrich Fabre

    Reviso DigitalCaren Joana Sbabo

    Projeto grfico e editorao eletrnicaRafael Tarcsio Forneck

    ImpressoImpressos Porto

    Universidade do Vale do Rio dos SinosInstituto Humanitas Unisinos

    Av. Unisinos, 950, 93022-000 So Leopoldo RS BrasilTel.: 51.5908223 Fax: 51.5908467

    www.unisinos.br/ihu

  • Cadernos Teologia Pblica

    A publicao dos Cadernos Teologia Pblica

    quer ser uma contribuio para a relevncia pblica da

    teologia. A teologia como funo do reino de Deus no

    mundo se desenvolve na esfera pblica como teologia

    pblica. Ela participa da vida pblica da sociedade com

    a qual se compromete crtica e profeticamente, na pers-

    pectiva do reino de Deus que vem. Os desafios da vida

    social, poltica, econmica e cultural da sociedade, hoje,

    especialmente, a excluso socioeconmica de imensas

    camadas da populao, no dilogo com as diferentes

    concepes de mundo e as religies constituem o hori-

    zonte da teologia pblica. Os Cadernos Teologia Pbli-

    ca, sob a responsabilidade do Instituto Humanitas Unisi-

    nos IHU, se inscrevem nesta perspectiva. Eles so fruto

    da realizao do Simpsio Internacional O Lugar da Te-

    ologia na Universidade do Sculo XXI, ocorrido, na Uni-

    versidade do Vale do Rio dos Sinos UNISINOS, de 24 a

    27 de maio de 2004, celebrando a memria do nasci-

    mento de Karl Rahner, importante telogo alemo do

    sculo XX.

    I H UNSTITUTO UMANITAS NISINOS

  • C T PADERNOS EOLOGIA BLICA

  • A teologia em situao de ps-modernidade1

    Geraldo Luiz De Mori, SJ

    A ps-modernidade comeou a questionar, de

    fato, a teologia brasileira h pouco tempo. Quando o

    ps-moderno passou a autodesignar-se como tal, a teo-

    logia da libertao estava em pleno apogeu. O esprito

    do Conclio Vaticano II havia feito a Igreja Catlica de

    nosso pas descobrir sua particularidade e aquilo que

    mais caracterizava a situao nacional: as injustias, as

    desigualdades sociais, a pobreza, a misria, a ditadura,

    a opresso, etc. Esse voltar-se para nossa realidade pol-

    tico-econmico-social tornou a Igreja partcipe do pro-

    cesso de democratizao do Brasil. A teologia e as pas-

    torais nascidas nesse contexto suscitaram transforma-

    es no interior da Igreja, fazendo-a mais popular, parti-

    cipativa e democrtica, dando-lhe novo ardor mission-

    rio, tornando sua liturgia mais prxima dos problemas

    do povo e oferecendo-lhe um acesso mais fcil s Escri-

    turas. Essas mudanas provocaram tambm reaes

    nos meios polticos e eclesisticos. Muitos militantes da

    Igreja conheceram a perseguio e a morte; os bispos e

    a CNBB comearam a ser mais controlados pela Igreja

    de Roma; movimentos de cunho espiritualista passaram

    a atuar intensamente nos diferentes mbitos do campo

    religioso do Pas.

    A ao da Igreja Catlica neste perodo fez dela

    um dos principais atores sociais e polticos do Brasil, seja

    nos momentos em que conheceu a dureza do regime mi-

    I H UNSTITUTO UMANITAS NISINOS

    1 O contedo deste texto foi originalmente apresentado em um minicurso realizado no Simpsio Internacional O Lugar da Teologia na Universida-de do Sculo XXI, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos. So Leopoldo, RS, 26 de maio de 2004.

  • litar, seja nos momentos em que o Pas foi se redemocra-

    tizando. Ao longo de todo esse tempo, porm, outras mu-

    danas foram surgindo no seio da sociedade. Milhes de

    brasileiros migraram para as cidades, promovendo uma

    urbanizao catica, fonte de todo tipo de violncia, mas

    tambm lugar propcio para o surgimento de novos pro-

    cessos. O sistema de representaes cognitivas, por

    exemplo, pr-moderno e rural, no momento em que sur-

    giu a teologia da libertao, perdeu a coerncia e a uni-

    dade que o caracterizavam, assimilando as novidades

    prprias da maneira moderna de conhecer e de significar

    o real. Os conhecimentos adquiridos por herana e as

    pertenas advindas da tradio tornaram-se objeto de

    experincia e de opo pessoais. Essa descoberta da sub-

    jetividade coexistia, no entanto, com a forma mentis pre-

    cedente, no conduzindo inteiramente modernidade,

    pois esta, tal qual tinha se desenvolvido no Ocidente, co-

    nhecia uma profunda crise.

    De fato, desde o apogeu do iluminismo, a razo

    moderna vinha sendo alvo de uma crtica ferrenha. O

    cgito exaltado, representado, sobretudo, pela raciona-

    lidade tcnico-cientfico-instrumental e pelo idealismo

    alemo, cedia o lugar ao cgito humilhado, figurado pe-

    los filsofos da suspeita2 (Marx, Nietzsche e Freud) e

    pelos eventos oriundos da absolutizao da racionalida-

    de moderna: os dois conflitos mundiais, as atrocidades

    cometidas pelos regimes comunistas, as ameaas da

    guerra fria, a degradao do meio ambiente, o subde-

    senvolvimento da maior parte da humanidade, etc. A teo-

    logia da libertao nasceu no contexto desta crise, mas,

    como a maioria dos pensamentos e movimentos alter-

    nativos surgidos no mesmo perodo, o que ela propu-

    nha era marcado por pressupostos modernos. Isso coin-

    cidia com o el desenvolvimentista e modernizador que

    o Brasil conheceu entre 1960 e 1980. Ora, a partir dos

    anos 1980, surgiu, no seio das sociedades ocidentais

    mais avanadas, uma crtica ainda mais radical razo

    moderna. Ela se autodesignava ps-moderna e propu-

    nha uma ruptura total com tudo o que havia dado nasci-

    mento ao mundo moderno. Esta crtica no foi, ento,

    levada a srio por nossos telogos e telogas, que acre-

    ditavam dizer ela respeito somente ao mundo desenvol-

    vido. Segundo eles, o mais importante para ns era con-

    tribuir no processo de conscientizao e de libertao de

    6

    C T PADERNOS EOLOGIA BLICA

    2 RICOEUR, p. O si-mesmo com um outro. So Paulo: Papirus, 1991, p. 27.

  • nosso povo. Porm, por meio, sobretudo, de alguns in-

    telectuais e artistas da grande mdia e de certas ONGs,

    comeamos a receber a influncia da ps-modernidade.

    Somente com a queda do muro de Berlin e o enfraque-

    cimento ou a morte das utopias, a teologia feita no

    Brasil comeou a buscar novos modelos ou paradigmas

    para pensar a f. Contudo, frente ao fenmeno

    ps-moderno, ela percebeu que sua busca parecia fada-

    da ao fracasso, pois nada mais estranho a esse fenme-

    no que o desejo de propor um modelo ou um paradig-

    ma para explicar o conjunto do real e da ao. Ela sente,

    ento, a necessidade de um discernimento teolgico

    para entender esse novo sistema de representaes cog-

    nitivas e sua coexistncia com o sistema pr-moderno e

    moderno. Esse texto quer contribuir nesse discernimen-

    to. Buscaremos, primeiro, compreender o significado da

    ps-modernidade, oferecendo, em seguida, pistas que

    nos permitam perceber os desafios e as tarefas que ela

    impe hoje teologia.

    1. Para entender a ps-modernidade

    No existe consenso com relao ao significado

    do fenmeno ps-moderno. Francis Fukuyama, por

    exemplo, pensa este fenmeno em termos de ps-hist-

    ria ou de fim da histria; Alain Touraine e Daniel Bell

    captam-no com as noes de hipermodernidade ou de

    sociedade ps-industrial; George Lindbeck fala de

    ps-racionalidade ou de idade ps-liberal; Jrgen Haber-

    mas recorre noo de idade ps-metafsica; mile Pou-

    lat e Gabriel Vahanian falam de ps-cristianismo3. Essas

    diferentes categorias indicam, respectivamente, o fim das

    grandes narrativas4, como a da soteriologia crist, a da

    emancipao iluminista ou a da libertao-reconcilia-

    o marxista; o fim da dominao do trabalho e da tc-

    nica, que tanto marcaram o mundo industrial moderno;

    o fim da auto-afirmao do sujeito na razo e na cons-

    cincia de si; o fim das igrejas crists como instituies

    portadoras e organizadoras do religioso no Ocidente e

    7

    I H UNSTITUTO UMANITAS NISINOS

    3 As idias dos autores acima aludidos encontram-se, respectivamente, nas seguintes obras: O fim da histria e o ltimo homem. Rio de Janeiro:Rocco, 1992; A sociedade ps-industrial. Lisboa : Moraes, 1970; Critique de la modernit. Paris: Fayard, 1992; Vers la socit post-industrielle.Paris: Laffont, 1976; The Nature of doctrine. Philadelphia: Westminster Press, 1984; Pensamento ps-metafsico: estudos filosficos. Rio de Janeiro:Tempo Brasileiro, 1990; Lre post-chrtienne. Un monde sorti de Dieu. Paris: Flammarion, 1994; The death of God: the culture of ourpost-christian era. New York: George Brasiller, 1967.

    4 LYOTARD, J.-F. A condio ps-moderna. Rio de Janeiro: Jos Olympio, 2002.

  • as recomposies ou o advento de novos m

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