a revolucao francesa explicada à minha neta

Download A Revolucao Francesa Explicada à Minha Neta

Post on 10-Dec-2015

203 views

Category:

Documents

103 download

Embed Size (px)

DESCRIPTION

Français

TRANSCRIPT

  • Michel Vovelle

    A R e v o l u o F r a n c e s a e x p l i c a d a

    m i n h a n e t a

    Traduo Fernando Santos

    editoraunesp

  • t o v (Cu,

  • d it io n s du Seuil, 2 0 0 6

    Ttulo original em francs La Rvolution Franaise explique ma petite-fille 2005 da traduo brasileira:Fundao Editora da UNESP (FEU)Praa da S, 10801 0 01 -900 - So Paulo - SPTel.: (O xxll) 3242-7171Fax: (O xxll) 3242-7172www.editoraunesp.com.brfeu@editora.unesp.br

    CIP - Brasil. Catalogao na fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

    V 9 5 3 4

    Vovelle, Michel, 1933-A Revoluo Francesa explicada minha neta/M ichel

    Vovelle; traduo Fernando Santos. - So Paulo: Editora UNESP, 2 0 0 7 .

    Traduo de: La Rvolution Franaise explique ma petite-fille

    ISBN 9 7 8 -8 5 -7 1 3 9 -7 7 6 -7

    1. Frana - Histria - Revoluo, 1 7 8 9 -1 7 9 9 . 2. Frana - Civilizao - 1 7 8 9 -1 7 9 9 . 3. Frana - Condies sociais - Sculo XVIII. I. Ttulo.

    0 7 -2 5 2 6 . CDD: 9 4 4 .0 4CDU: 9 4 (4 4 ) 1 7 8 9 /1 7 9 9

    Editora afiliada:

    IC'lItnrlak'H Uiifv

  • Gabrielle, que m ora em P isa , na Itlia , concordou em ded icar a lgum as horas, durante suas f r ia s na F rana, p a ra exam in ar com igo, seu av, essa R evoluo Francesa que eu ensiiiei durante quarenta anos. Se fo rm o s bem -sucedidos, ser um a fo rm a de nos conhecerm os m elhor...

  • A G abrielle, m inha prim eira neta, cm plice destas conversas;

    queles que a in da vo crescer,M arie , Cam ille, M atthieu , Guillaum e,

    e a todos os outros...

    Guardo carinhosamente a medalha deixada por meu pai, Gatan Vovelle, professor

    primrio (1899-1969), a qual traz a seguinte inscrio: "Todas as crianas

    do mundo so meus filhos

  • S u m r i o

    1. Revoluo Francesa: uma revoluo diferente das outras 9

    2. Por que aconteceu a Revoluo? 21

    3. U m a monarquia constitucional 39

    4. A queda da monarquia 57

    5. A Primeira Repblica 67

    6. O Diretrio: term inar a Revoluo? 85

    Concluso: A som bra e a luz da Revoluo 99

  • Captulo 1 R e v o l u o F r a n c e s a :

    u m a r e v o l u o d i f e r e n t e d a s o u t r a s

    Voc ouviu falar da n o ssa Grande R ev o lu o? Isso s ign ifica algo para voc?

    Pouca coisa; co m catorze anos, acabei de passar para o C u rso C l ss ic o , e ainda no estu d ei essa m atria .

    N o se preocupe. M esm o que j tenham ouvido falar do assunto, tenho certeza de que, para um grande n m ero de estu dan tes franceses de sua idade, tra ta -se de u m a histria com p licad a e d is ta n te , ch e ia de a co n tec im en to s e de p ersonagens. A lphon se Aulard, um h istoriad or que viveu h m ais de cem anos, escreveu: Para com p reen d er a R ev o

  • I[I AAichel Vovelle

    lu o Fran cesa p rec iso am -la . Prim eiro v a m o s te n ta r com p reen d -la ; d epois v erem o s se, n o final do jo g o , ns a a m am o s... Para isso , seria b o m se voc m e fizesse p erguntas...

    M as eu no sei d ireito o qu perguntar... Hu b em que desconfiava; m as ten h o cer

    tez a de qu e as p erg u n tas surgiro: s c o m e a r b em .

    Vov, o que um a revoluo? Voc co m eo u a estu d ar latim ; j ouviu

    falar de E sp rtaco? B sp rtaco vivia na A n t iguidade, n o tem p o da R ep b lica rom ana, an tes da n o ss a era. S en d o ele m e s m o um escravo, liderou a revolta dos escravos co n tra seus sen h o res . M as os escravos foram d errotad os e m ortos. A revolta de E sprtaco deixou su a m arca na histria , m as u m a en tre as m ilh ares de revoltas dos oprim idos con tra os o p ressores .

    A R evolu o Francesa uma revolta de escravos com o a de E sprtaco?

    N o, a R evoluo Fra n cesa ocorre em 1 7 8 9 em m e io a u m a srie de revolues em G enebra, na Blgica, nos Pases Baixos...

    10

  • A R evo luo Francesa explicada m inha neta

    A m ais im p ortan te a revoluo n o rte -am ericana, is to , a revolta das treze colnias inglesas da C osta Leste da A m rica do Norte contra sua m etrpole, entre 1 7 7 6 e 1783 . Ela deu origem aos E stados U nidos de hoje. D ife re n te m en te da revolta, a revoluo m uda o curso da h istria em um pas.

    A R evoluo Francesa, en to , apenas uma revoluo com o as outras?

    - D e fato, u m a revoluo en tre outras, e ns, franceses, sem p re fom os criticados por q u erer trat-la, org u lh osam en te , com o algo parte, a tr ib u in d o -lh e u m a im p ortn cia esp ecia l. Para com p reen d er, porm , p rec iso co m ea r ex am in an d o com o e por

    ' que tudo com eou . E a resp osta no s im ples. D esd e o co m eo , os revolucionrios deram o n o m e de A n tig o R e g im e ao m u n do que eles haviam destrudo, co m o se qu ise sse m virar a pgina e co m ear um a nova aventura . E sse A n tig o R e g im e era o reino da Fran a , u m a m o n a rq u ia sob o reinado de Lus X V I e de sua esposa, Maria Antonieta. Lus X V I no era u m a m pessoa; em bora no tivesse grandes qualidades, era bem in ten cion ad o . Ele no consegu iu m anter seus m in istros com p eten tes - Turgot, Necker etc.

    11

  • AAichel Vovelle

    - n e m defender as reform as propostas por eles. Isso porque havia u m a forte resistn cia por parte dos privilegiados, e a crise era grave,

    O que quer d izer priv ileg iados? N a Fran a do A n tig o R eg im e n o havia

    igualdade; a socied ade estava dividida em ord en s, q u e tin h a m m ais ou m en o s priv ilg ios: fren te v inha o clero, a Igre ja C a t lica, a n ica qu e t in h a o d ireito de en sin ar a religio, m as que ta m b m era m u ito rica em terras e rendas. M ais ricos ainda eram os a r is to cra ta s , qu e co m p u n h am a o rd em da n obreza . E ram p rop rietrios de pelo m e n o s u m q u arto das terras, favorecidos por privilgios h o n o rf ico s e ta m b m fiscais. O rg u lh osos de seus ttu los, serviam nos exrcitos do rei, m as n a m aior parte do te m p o ficavam sem fazer nada em seus caste los ou na cidade, sen d o que os m ais notveis m o ra vam na corte do rei, em Versalhes. E n tre eles havia alguns m u ito ricos e ou tros m en os. A lguns h aviam co n q u is ta d o seu t tu lo de nobre ad qu irind o u m cargo de m agistrado: era a nobreza togada. Q u er sua nobreza fosse antiga ou recen te , as reivindicaes dos n o bres t in h a m origem na poca m edieval do feudalism o, is to , de u m perodo em que a

    12

  • A R evo luo Francesa explicada m in ha neta

    es tru tu ra p oltica do reino estava baseada em re laes de vassalagem : o proprietrio do feudo, cham ad o vassalo, e todos que ali viviam e trabalhavam deviam fidelidade e respeito ao senhor, em geral um nobre. Esses senhores haviam dom inado um cam pesinato de servos, cam p o n eses ligados terra que deviam torn -la produtiva. N o final do s culo X V III , p orm , qu ase no havia mais servos na Frana: os cam p oneses eram livres e gera lm en te donos de suas propriedades, que represen tavam , no total, qu ase m etade das terras da Frana. C on tin u av am ex ist in do, entretanto , as obrigaes e as taxas: eram os d ireitos feudais e de senh orio , pagos em d inheiro ou em espcie , os quais s vezes eram m u ito pesados, com o a jugada - aps a co lheita , os enviados do sen h o r recolhiam dos cam p os um fe ixe em cada dez, ou em cada doze ou catorze. O s sen h o res haviam conservado direitos h onorficos, sua prpria ju stia , seu s lugares na igreja e o direito de caa.

    C om o os cam poneses suportavam isso?- C o m o agentavam qu ase todo o peso

    dos im p o sto s reais, e les sofriam m uito com as h u m ilh a es . E les se m obilizavam para

    1 3

  • M ich e l Vovelle

    defender seus direitos, que os nobres tinham a te n d n c ia de usurpar, chegand o s vezes a se revoltar: e m especia l nas pocas de e s cassez , para p ro testar co n tra o alto p reo do po. E e les no eram os nicos, pois tan to para os op errios das cidades q u an to para e les o po era o a lim en to principal, c o n s u m in d o m eta d e do salrio dirio de u m a fam lia . Voc, qu e no pode co m er po em excesso , o qu e acha d isso?

    O que eu g ostar ia de saber m esm o o que escassez :/

    N o grande re ino da Frana, co m 2 8 m ilh es de h a b ita n te s , havia p lan cies frteis c o m o n o s arredores de Paris, e regies m u ito m ais pob res , nas m o n ta n h as , por e x e m plo. Por tod a parte, porm , o trigo para fazer po era u m a n ecess id ad e bsica: bastava o tem p o prov ocar u m a ou vrias co lh e itas ru in s para qu e o p reo d isparasse, a m isria se instalasse e a revolta explodisse; o que se ch am a de agitao p o p u lar. E m b o ra e s sas crises e a m orta lid ad e causada p o r elas h o u v esse m d im in u d o no scu lo X V III , elas con tin u av am ex ist in d o , e foi isso que a co n teceu em 1 7 8 8 e 1 7 8 9 : s vsperas da R e

    1 4

  • A R evo luo Francesa explicada m in ha neta

    voluo, exp lod em revoltas em vrias p ro vncias e as cidades se agitam .

    E f o i isso que causou a R evoluo?

    Sim e no. Falam os, com razo, dos cam p on eses ; e les rep resen tam trs quartos da populao, m as no o cup am o espao todo ao lado das duas prim eiras oi-dens. Eles fazem parte da terce ira ordem , cham ada Terceiro E stado: m orad ores das cidades e do cam po, ricos e pobres, que co n stitu em , no total, 9 5 % dos franceses. Todos - sobretudo os pobres, claro - foram atingidos pela crise; porm , co