A Produção de Sentido e a Construção Social da Economia Solidária

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    UNIVERSIDADE DE BRASLIA

    INSTITUTO DE CINCIAS SOCIAIS

    DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA

    A PRODUO DE SENTIDO E A CONSTRUO SOCIAL

    DA ECONOMIA SOLIDRIA

    Jonas de Oliveira Bertucci

    Braslia, 2010

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    UNIVERSIDADE DE BRASLIA

    INSTITUTO DE CINCIAS SOCIAIS

    DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA

    A PRODUO DE SENTIDO E A CONSTRUO SOCIAL

    DA ECONOMIA SOLIDRIA

    Jonas de Oliveira Bertucci

    Tese de Doutorado apresentada ao Programa de

    Ps-graduao em Sociologia da Universidade de

    Braslia, como parte dos requisitos necessrios

    obteno do ttulo de Doutor em Sociologia.

    Braslia, 2010

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    UNIVERSIDADE DE BRASLIA

    INSTITUTO DE CINCIAS SOCIAIS

    DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA

    A PRODUO DE SENTIDO E A CONSTRUO SOCIAL

    DA ECONOMIA SOLIDRIA

    Autor: Jonas de Oliveira Bertucci

    Orientadora: Professora Doutora Christiane Girard Ferreira Nunes (UnB)

    Banca examinadora: Professor Doutor: Paul Israel Singer (USP / SENAES)

    Professor Doutor: Maurcio Sard de Faria (SENAES)

    Professor Doutor: Marcelo Carvalho Rosa (UnB)

    Professora Doutora: Tnia Cristina da Silva Cruz (UnB)

    Braslia, 2010

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    iv

    AGRADECIMENTOS

    Gostaria de agradecer, antes de tudo, ao povo brasileiro que, atravs de seu Estado,

    direta ou indiretamente, permite a existncia de instituies de apoio pesquisa como o CNPQ

    e a CAPES. Esta tese no poderia ser realizada sem este financiamento pblico, pelo qual tive

    acesso a uma bolsa de doutorado durante 3 anos no Brasil e todas as despesas pagas para

    permanecer 1 ano na Universidade de Paris X - Nanterre, na Frana, ao longo do estgio

    sanduche.

    Agradeo, em especial, aos amigos e desconhecidos que me concederam longas

    entrevistas, durante o trabalho de campo: Andr Santana, Domingos da Silva, Domingos

    Ricardo (de nome indgena Ticuna), Eugnia Motta, Fbio Sanchez, Francisca Catarina,

    Gorete Santana, Lenivaldo Lima, Leonardo Egito (o Lo), Leonardo Pinho, Miguel Steffen,

    Paulo Moraes (tambm conhecido como Paulinho Solidrio), Roberto Marinho da Silva,

    Romeu Batista, Rosana Kirsh, Rosngela Alves (a Rosinha), Shirley Silva e Walmir de

    Almeida.

    Nessa lista, merecem destaque Eugnia Motta, com quem compartilhei importantes

    reflexes sobre a Economia Solidria e sobre nosso estar no mundo atravs da tarefa que

    vivamos mais ou menos no mesmo perodo, de realizao de uma tese; e Roberto Alves que,

    direta ou indiretamente tem acompanhado meu desenvolvimento profissional.

    difcil listar todas as demais pessoas que influenciaram minha trajetria ao longo

    desses quatro anos e meio de pesquisa. Apesar de correr o risco de deixar passar alguns nomes,

    importante dizer obrigado:

    Aos meus pais, Zoraide e Ademar, por me oferecerem um porto seguro;

    Aos irmos e irms, Adriana, Davi e Bia, por estarem sempre por perto, mesmo quando a

    distncia fsica era grande;

    Aos que se tornaram parte da famlia, Cadu, Dea e Tati, por compartilharem tantos momentos

    importantes;

    s que se revelaram parte da famlia, Adriana Bezerra e Nria Del Rio;

    minha querida orientadora, Christiane Girard, pelo apoio e incentivo;

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    Aos mestres, Alain Caill e Jean-Louis Laville, pela orientao em terras distantes, embora

    breve, extremamente relevante;

    Aos membros da banca de qualificao, Maurcio Sard e Eric Sabourin, pelas crticas e

    comentrios que me levaram dar um novo rumo ao projeto;

    Aos membros da banca final, Paul Singer, Tnia Cruz, Maurcio Sard e Marcelo Rosa, pelas

    crticas apaixonantes resultantes de leitura cuidadosa da tese. Seus posicionamentos, em

    grande parte contrrios s minhas concluses gerais, serviram em muito para fortalecer a

    verso final da tese;

    Aos brasileiros que partilharam de alguma forma a experincia em outro pas, Ana Dubeux,

    Rosemary Gomes, Livy, Mariana, Rodrigo e Narana;

    Aos amigos e amigas francesas que foram importante parte da minha vida l fora, que me

    apresentaram a vida e os sales de vinhos franceses, que me apoiaram nas revises de

    tradues e que fizeram importantes apontamentos sobre esta tese, Kristel, Guillaume, Magali,

    Manue, Arturo, Laura e Cline;

    Aos colegas de trabalho e pesquisa da ps-graduao, em especial, Daniel Bin, Gabriela

    Cunha, Renata Florentino e Wilson Vianna.

    Os Hebraicos, no lugar de um superlativo absoluto, proferiam vrias vezes a mesma

    palavra para dar nfase a uma mensagem. Assim como eles, eu vos digo 3 vezes, expressando

    minha admirao e respeito: obrigado, obrigado, obrigado!

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    APRESENTAO

    Algumas das colocaes feitas ao longo desta tese geraram certo desconforto aos seus

    primeiros leitores, principalmente aqueles ligados ao mundo da economia solidria. Por isso,

    considerei necessria esta apresentao, a fim de esclarecer questes que podem influenciar a

    forma com que este trabalho ser interpretado por atores e pesquisadores envolvidos no tema.

    Certamente, existem questes sobre as quais no me sinto satisfeito assim como

    qualquer outro participante de um movimento que rene pessoas com trajetrias, origens,

    idias e expectativas to diversas o que no foge do normal. No entanto, isso no significa

    uma desiluso em relao economia solidria, nem quer dizer que eu tenha assumido uma

    posio pessimista e negativa frente ao tema.

    Uma das questes mais polmicas aqui discutidas a afirmao de que no suficiente

    ter como referncia para aes de economia solidria o modelo de Empreendimento

    Econmico Solidrio. Parte da reflexo aqui realizada aponta para a concluso de que fora do

    universo das unidades e redes produtivas, tais aes no oferecem muito mais que princpios

    morais para a vida cotidiana.

    No resta dvida de que as iniciativas associativas tm importncia imensa e devem

    continuar recebendo cada vez mais apoio. Contudo, do meu ponto de vista, para que possa se

    apresentar como estratgia ampla de desenvolvimento, um projeto precisa oferecer orientaes

    prticas e normativas que possam ser incorporadas por instituies e pessoas em espaos

    diversos da sociedade, institucionalizando hbitos e regulando processos econmicos (no

    apenas em iniciativas associativas que tem como base a produo mercantil).

    Se minhas colocaes parecem partir de um posicionamento mais ctico do que em

    trabalhos anteriores, isso se deve exclusivamente ao fato de que hoje tenho um conhecimento

    e uma vivncia maiores do que no passado. No h nenhuma motivao subentendida que

    deva ser aqui explicitada que no seja a orientao sociolgica do interesse pelo

    desinteresse.

    De qualquer forma, a contribuio mais original desta tese no a discusso sobre os

    limites e o potencial da economia solidria, mas sim a anlise sobre o processo de construo

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    social desde universo. Com efeito, acredito, um no poderia ser feito sem o outro e sem

    assumir um determinado posicionamento quanto s expectativas de seu desenvolvimento.

    Foram imensos os avanos alcanados neste campo, sobretudo nos ltimos dez anos, e

    as crticas aqui formuladas se inspiram na possibilidade de contribuir ainda mais para este

    progresso. No concordo plenamente com a afirmao de que este trabalho pretende

    desmistificar uma imagem falsa ou ideal da economia solidria. Meu objetivo antes

    oferecer elementos que possam ajudar a compreender e enxergar melhor esta realidade, atravs

    do questionamento e da reflexo crtica. Esta tese no responder por si s todas as questes

    que precisam ser discutidas e muito ainda pode e deve ser feito.

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    RESUMO

    A PRODUO DE SENTIDO E A CONSTRUO SOCIAL

    DA ECONOMIA SOLIDRIA

    Jonas de Oliveira Bertucci

    Orientadora: Christiane Girard Ferreira Nunes

    Resumo da tese de doutorado submetida ao Programa de Ps-Graduao em Sociologia da

    Universidade de Braslia UNB, como parte dos requisitos necessrios obteno do ttulo de

    Doutor em Sociologia.

    Esta tese trata da produo de sentido e da construo social da economia solidria (ES). Na

    primeira parte, explicitam-se as escolhas metodolgicas e epistemolgicas que orientaram o

    desenvolvimento da pesquisa, discutindo-se a construo do pensamento sociolgico na

    modernidade. Na segunda parte, apresenta-se o campo da ES no Brasil e os diferentes

    significados atribudos ao termo. dada nfase compreenso da ES como fenmeno social,

    resultado histrico e econmico da dinmica do capitalismo, para, assim, se traar algumas

    consideraes crticas sobre a poltica de ES. Procura-se mostrar que a concepo prtica do

    movimento social e da poltica pblica, que so limitadas ao significado da ES como conjunto

    de unidades de produo coletivas (Empreendimentos Econmicos Solidrios), fornece uma

    base frgil para uma estratgia ampla de desenvolvimento. Na terceira e ltima parte, discute-

    se a construo social deste universo, a partir de dois campos classificados como: o mundo

    acadmico e o mundo do trabalhador. So analisadas as caractersticas das 226 pesquisas de

    ps-graduao sobre ES realizadas at 2007 e investigadas as trajetrias e motivaes dos

    atores quanto as suas prticas. Desse modo, esta tese busca mostrar que existem condies

    sociais que reforam a participao no mundo da ES, evidenciando que esta no constitui uma

    escolha puramente individual e voluntria.

    Palavras-chave: economia solidria, capitalismo, engajamento militante, participao,

    produo de sentido, desvio, outsiders, movimentos sociais, sociologia da cincia.

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    ABSTRACT

    THE PRODUCTION OF MEANING AND THE SOCIAL CONSTRUCTION

    OF SOLIDARITY ECONOMY

    Jonas de Oliveira Bertucci

    Thesis supervisor: Christiane Girard Ferreira Nunes

    Abstract of the doctoral thesis submitted to the Postgraduate Program in Sociology at the

    University of Brasilia - UNB, as part of the requirements for obtaining a doctoral degree in

    sociology (PhD).

    This thesis deals with the production of meaning and the social construction of solidarity economy

    (ES). In the first section, we explain the methodological and epistemological choices that guided

    the development of this research, discussing the construction of sociological thought in modernity.

    The second section presents the field of ES in Brazil and the different meanings attributed to this

    term. Emphasis is given to the understanding of ES as a social phenomenon, the result of historical

    and economic dynamics of capitalism. From that, it is possible to draw some critical observations

    on the policy for ES. We attempt to show that the practical conception used by the social

    movement and applied by the public policy, which is limited to the meaning of ES as a group of

    units of collective production (Empreendimentos Econmicos Solidrios Solidarity Economy

    Initiatives), provides a fragile basis for a broad development strategy. In the third and final section,

    we discuss the social construction of this universe, starting from two fields classified as: the

    academic world and the world of the workers. We analyze the characteristics of 226 postgraduate

    researches on ES held until 2007 and we investigate the experiences and motivations of the actors

    regarding their practices. Thus, this thesis aims to show that there are social conditions that

    reinforce participation in the world of ES, indicating that this is not a merely individual and

    voluntary choice.

    Keywords: solidarity economy, capitalism, militant engagement, participation, production of

    meaning, deviance, outsiders, social movements, sociology of science.

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    RESUM

    LA PRODUCTION DU SENS ET LA CONSTRUCTION SOCIALE

    DE L'CONOMIE SOLIDAIRE

    Jonas de Oliveira Bertucci

    Directrice de thse: Christiane Girard Ferreira Nunes

    Rsum de la thse de doctorat soumise au Programme D'tudes Suprieures en Sociologie

    l'Universit de Brasilia - UNB, dans le cadre des exigences requises pour l'obtention du titre de

    doctorat en sociologie.

    Cette thse examine la production du sens et la construction sociale de lconomie solidaire (ES).

    Dans la premire section, nous exposons les choix mthodologiques et pistmologiques qui ont

    guid le dveloppement de cette recherche, en questionnant la construction de la pense

    sociologique dans la modernit. La deuxime section prsente le champ de l'ES au Brsil et les

    diffrentes significations attribues ce terme. L'accent est mis sur la comprhension de lES

    comme phnomne social, rsultant de la dynamique historique et conomique du capitalisme,

    pour nous permettre de dgager quelques observations critiques sur la politique de promotion de

    l'ES. Nous essaierons de dmontrer que les conceptions retenues, du mouvement social et des

    politiques publiques, se limitent une signification de l'ES entendu comme un nombre d'units de

    production collective (Empreendimentos Econmicos Solidrios Les iniciatives conomiques

    solidaires), ce qui ne fournit quune base fragile pour une stratgie de dveloppement au sens

    large. Dans la troisime et dernire section, nous examinerons la construction sociale de cet

    univers, selon deux ensembles distincts : le monde acadmique et le monde des travailleurs. Nous

    analyserons les caractristiques des 226 recherches dtudes suprieures sur lES qui on t

    ralises jusquen 2007 et nous tudierons les trajectoires et les motivations des acteurs sur leurs

    pratiques. Ainsi, cette thse vise montrer qu'il existe des conditions sociales qui renforcent la

    participation dans le monde de l'ES, mettant en vidence que celle-ci ne constitue pas un choix

    purement individuel et volontaire.

    Mots-cls: conomie solidaire, capitalisme, engagement militant, participation, production de sens,

    dviance, outsiders, mouvements sociaux, sociologie de la science.

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    LISTA DE ILUSTRAES

    TABELAS Pg.

    Tabela 1: Nmero de teses e dissertaes com o termo ES no assunto entre 1998 e 2007... 138

    Tabela 2: Nmero e percentual de teses e dissertaes entre 1996 e 2007 segundo UF ...... 139

    Tabela 3: Nmero de teses e dissertaes segundo rea de pesquisa ................................... 143

    Tabela 4: Nmero de grupos de estudo segundo rea de pesquisa ....................................... 145

    Tabela 5: Nmero e percentual de trabalhos segundo temas de pesquisa ............................ 146

    Tabela 6: Nmero e percentual de pesquisas segundo tipo de empreendimento estudado .. 147

    Tabela 7: Nmero e percentual de pesquisas segundo instituio ....................................... 150

    Tabela 8: Motivos de criao dos empreendimentos ............................................................ 170

    Tabela 9: Tipos de movimentos que os empreendimentos participam ................................. 171

    Tabela 10: Tipos de rede ou frum de articulao os empreendimentos participam ............ 171

    Tabela 11: Produtos agrupados por tipo de atividade ........................................................... 172

    GRFICOS Pg.

    Grfico 1: Nmero de teses e dissertaes com o termo ES no assunto entre 1998 e 2007. 138

    Grfico 2: Distribuio das pesquisas e nmero de incubadoras segundo UF ..................... 141

    Grfico 3: Distribuio dos pesquisadores e orientadores segundo gnero ......................... 148

    Grfico 4: Posicionamento das pesquisas ............................................................................ 152

    QUADROS Pg.

    Q...

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