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Beth Brait

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  • AA PPEERRSSOONNAAGGEEMM

    Beth Brait

    http://groups-beta.google.com/group/digitalsource

  • Srie

    Princpios

    Beth Brait

    Doutora em Letras Crtica literria e professora

    do Ensino Superior em So Paulo

    A

    PERSONAGEM

  • Direo

    Samira Youssef Campedelli

    Benjamin Abdala Junior

    Preparao de texto

    Sueli Campopiano

    Projeto grfico/miolo

    Antnio do Amaral Rocha

    Arte-final

    Ren Etiene Ardanuy

    Joseval de Souza Fernandes

    Capa

    Ary Normanha

    CIP-Brasil. Catalogao-na-Publicao Cmara Brasileira do Livro, SP

    Brait, Beth.

    B799p A personagem / Beth Brait. So Paulo tica, 1985.

    84-2303

    (Srie princpios)

    1. Personagens e tipos na literatura 1. Ttulo.

    CDD801 .953

    Indice para catlogo sistemtico:

    1. Personagens : Fico : Teoria literria 801.953

    1985

    Todos os direitos reservados

    Editora tica S.A. Rua Baro de Iguape, 110

    Tel.: (PABX) 278-9322 Caixa Postal 8656 End. Telegrfico Bomiivro So Paulo

    1.

  • Sumrio

    Introduo _____________________________________________ 5

    2. O faz-de-conta das personagens __________________________ 8

    Personagens e pessoas _____________________________________ 8

    Reproduo e inveno ____________________________________ 11

    Ai, palavras, ai, palavras,/que estranha potncia a vossa! ________ 18

    3. A personagem e a tradio crtica ________________________ 28

    No princpio est Aristteles ________________________________ 28

    Spielberg e Alencar? ______________________________________ 31

    Perseguindo a personagem __________________________________ 35

    Os novos ares dos sculos XVIII e XIX ______________________ 37 A personagem sob as luzes do sculo XX ______________________ 38

    Personagem: inveno do autor e da crtica ____________________ 47

    4. A construo da personagem _____________________________ 52

    Recursos de construo ____________________________________ 52

    O narrador uma cmera ___________________________________ 53

    A cmera finge registros e constri as personagens _______________ 56

    A personagem a cmera __________________________________ 60

    Apresentao da personagem por ela mesma ___________________ 61

    A personagem testemunha _________________________________ 63

    Resumindo as possibilidades de construo _____________________ 66

    5. De onde vm esses seres? ________________________________ 69

    Os escritores respondem ____________________________________ 69

    Antnio Torres, 71; Doe Comparato, 72; Domingos Peliegrini, 73; Igncio de Loyola

    Brando, 75; Joo Antnio, 78; Jos J. Veiga, 79; Lya Luft, 80; Lygia Fagundes Telies,

    81; Marcos Rey, 82; Marilene Felinto, 83; Moacyr 1. Scliar, 84; Renato Pompeu, 85.

    6. Vocabulrio crtico ____________________________________ 87

    7. Bibliografia comentada _________________________________ 90

  • 1

    Introduo

    Este livro deve ser tomado como uma introduo ao estudo da personagem, pois

    dirige-se a um pblico que analisa, produz e transforma textos de fico. Na verdade,

    este um livro que se destina a um pblico especial, que tem no texto um instrumento

    de prazer, conhecimento e trabalho, mas que se encontra no incio das reflexes acerca

    das especificidades da narrativa.

    Considerando esse fato decisivo para o encaminhamento da diseusso, e levando

    em conta que esta obra faz parte de uma srie que aborda outros aspectos da teoria da

    literatura, procurei cercar algumas questes a respeito da personagem, dando ao livro a

    forma que eu imagmava pertinente e que buscava encontrar em cada estudo a respeito

    do assunto, no incio de minha vida universitria.

    Assumindo uma postura at certo ponto didtica e correndo todos os riscos fatais que

    essa postura pode acarretar, a obra procura adequar-se s necessidades dos leitores que

    no so especialistas, mas candidatos a, simulando o isolamento da questo personagem

    e flagrando esses habitantes da fico no seu espao de existncia: o texto. Aqui,

    preciso que se esclarea, a palavra texto

    6

    cobre duas manifestaes de natureza diferente: a fico literria, a prosa de fico que

    materializa esses seres, e o texto crtico que, com seus instrumentos especficos,

    persegue a natureza desses seres.

    Os captulos que constituem essa obra, procuram orientar o leitor no sentido de refletir

    sobre a concepo de personagem, sondando a sua variao no decorrer de um percurso

    literrio que engloba a diversidade da produo e a tradio crtica que a enfrenta. Cabe

    ao segundo captulo iniciar a reflexo, procurando desfazer os compromissos rgidos

    existentes entre as palavras pessoa e personagem; ao terceiro, traar um rpido

    caminho das vrias perspectivas tericas que se debruam sobre a questo da

    personagem; ao quarto, esboar alguns procedimentos de caracterizao de personagem;

  • e ao quinto reservar a escritores brasileiros contemporneos uma palavra a respeito de

    suas criaturas.

    Quanto ao quinto captulo, cabe aqui um esclarecimento e um agradecimento. Essa

    runio de depoimentos inditos foi possvel graas a gentil colaborao de escritores

    que, em meio a suas inmeras atividades, acharam um tempinho e se dispuseram a

    colaborar com esse livro, concedendo autora e aos leitores a fora de seus

    testemunhos.

    O reduzido vocabulrio crtico e a bibliografia comentada no tm a pretenso

    de cercar todos os termos de todas as obras referentes personagem, servindo apenas

    como ponto de partida para os que iniciam os estudos do problema. As obras aqui

    comentadas, com raras excees, no so livros dedicados exclusivamente

    personagem, mas estudos de teoria literria que dedicam um espao a este componente

    da narrativa. Por esta razo, aconselha-se que as obras sejam lidas na ntegra, a fim de

    que o leitor possa estabelecer a relao entre o estudo da personagem e os outros itens

    tratados pelo crtico.

    7

    Sendo uma obra de introduo, fica clara a necessidade de complementao

    pelos leitores, na medida de seu interesse, atravs da convivncia com as grandes obras

    de fico e os grandes criadores de personagens, bem como com as possibilidades de

    leitura instigadas pelas diversas tendncias crticas.

    1

    1 Este livro foi digitalizado e distribudo GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a inteno de

    facilitar o acesso ao conhecimento a quem no pode pagar e tambm proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. Se quiser outros ttulos nos procure http://groups.google.com/group/Viciados_em_Livros, ser um prazer receb-lo em nosso grupo.

  • 2

    O faz-de-conta das personagens

    Personagens e pessoas

    provvel que os leitores mais crticos, aqueles que tm um contato menos

    ingnuo com a obra de fico, achem curioso e at engraado que muitos leitores de

    Conan Doyle reservem um espao de sua viagem turstica visita a Baker Street,

    nmero 221 B, na esperana de ali encontrar os aposentos, o laboratrio e os velhos

    livros de Sherlock Holmes. Esses amantes da fico policial, que leram e releram cada

    uma das aventuras do heri, acreditam realmente na existncia de uma pessoa chamada

    Sherlock Holmes, um ser humano muito especial, que viveu todas as apaixonantes

    peripcias relatadas por um outro ser humano, o caro Watson. No encontrar esse

    nmero em Baker Street uma decepo. Mas no to forte que possa apagar a iluso

    da existncia de Holmes. Para os leitores fiis, isso no passa de mais um truque genial

    do brilhante detetive.

    Mas no h motivo para riso. Ao menos no h motivo para esse riso de desdm,

    caracterstico dos que nunca tiveram dvida de que Watson e Sherlock so apenas

    criaes de Conan Doyle. Curiosamente, esses mesmos leitores

    9

    que acreditam separar com clareza a vida da fico, mesmo que muitas vezes apreciem

    mais a fico que a vida, teriam algumas dificuldades para negar que j se

    surpreenderam chorando diante da morte de uma personagem. No h distanciamento

    leitortexto que possa refrear a emoo sentida, por exemplo, quando em Grande

    serto: veredas nos defrontamos com Reinaldo-Diadorim morta. E no se trata de uma

    emoo superficial, provocada apenas pelo dado da surpresa: a releitura do romance no

    impede que a emoo seja revivida. E precisamente isso que faz cessar o riso e aflorar

  • as cismas. Afinal de contas, diante do leitor h apenas papel pintado com tinta. Alm

    disso, que outra matria, que outra natureza reveste esses seres de fico, esses edifcios

    de palavras que, por obra e graa da vida ficcional, espelham a vida e fingem to

    completamente a ponto de coiquistar a imortalidade?

    Essa questo no simples. Nem este o primeiro ou o ltimo livro que tenta rastrear

    os segredos da personagem. Na tentativa de recolocar a questo da personagem de

    forma a recuperar a tradio do estudo deste item da narrativa e discutir aspectos de

    relevncia para os que se interessam por teoria literria, comearemos pela trilha mais

    prosaica:consultar um dicionrio.

    O Novo dicionrio Aurlio oferece a seguinte definio de personagem:

    Personagem [Do fr. personnage.] S. f. e m. 1. Pessoa notvel, eminente,

    importante; personalidade, pessoa. 2. Cada um dos papis que figuram numa

    pea teatral e que devem ser encarnados por