A Liturgia Dos Defuntos Na Arte Funerária Medieval

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A Liturgia Dos Defuntos Na Arte Funerria Medieval

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  • think medieval

    GIHMGRUPO INFORMAL DE

    HISTRIA MEDIEVAL

    Coordenao deFlvio Miranda e Joana Sequeira

    Universidade do Porto Faculdade de Letras

    Biblioteca Digital, 2012

    incipit1WORKSHOP DE ESTUDOS MEDIEVAISDA UNIVERSIDADE DO PORTO200910

  • Grupo Informal de Histria Medieval CITCEM, Universidade do Porto, Faculdade de Letras

    Via Panormica 4150-564 Porto Portugal

    www.gihmedieval.com

    Incipit 1 Workshop de Estudos Medievais da Universidade

    do Porto, 200910

    COORDENADORES

    Flvio Miranda CITCEM, Universidade do Porto

    Joana Sequeira CITCEM, Universidade do Porto

    Porto, 2012 Universidade do Porto, Faculdade de Letras, Biblioteca Digital

    ISBN: 978-972-8932-94-7

    Apoio:

  • Ficha tcnica Ttulo: Incipit 1. Workshop de Estudos Medievais da Universidade do Porto, 200910 Coordenadores: Flvio Miranda, Joana Sequeira Editor: Universidade do Porto, Faculdade de Letras, Biblioteca Digital Local de edio: Porto Ano de edio: 2012 ISBN: 978-972-8932-94-7 Capa: Flvio Miranda Grupo Informal de Histria Medieval CITCEM, Universidade do Porto, Faculdade de Letras Via Panormica 4150-564 Porto Portugal www.gihmedieval.com

  • SUMRIO

    Lista de autores .................................................................................................................................................. vii Incipit .................................................................................................................................................................. ix Filipa Lopes O Domnio Fundirio do Mosteiro de Pao de Sousa nos sculos XI e XII. Apresentao de um Projecto de Dissertao de Mestrado em Histria Medieval ................................................................................................. 1 Giulia Rossi Vairo Pro Salute Animae: a peregrinao do rei D. Dinis a Compostela. ................................................................... 9 Joo Costa

    Palmela nos finais da Idade Mdia. Estudo do cdice da Visitao e Tombo de propriedades da Ordem de Santiago de 1510. Apresentao do projecto de Mestrado ............................................................................... 23

    Thiago Borges Da sacralidade centralidade: breve anlise comparatista acerca das representaes cartogrficas da cidade de Jerusalm nos mapas-mndi medievais do sculo XIII .................................................................. 31 Helena Regina Lopes Teixeira Elites Sociopolticas na Urbanizao do Porto no Final da Idade Mdia ........................................................ 45 Maria Amlia lvaro de Campos Estudar uma Colegiada Urbana Medieval no contexto de um projecto de doutoramento ............................. 57 Marta Dias A Liturgia dos Defuntos na Arte Funerria Medieval ...................................................................................... 65 Rita Nvoa As atitudes face doena no Portugal dos sculos XIV e XV: a lepra, os leprosos e as leprosarias ............... 77 Gonalo Graa Portugueses na Biscaia nos finais da Idade Mdia ...........................................................................................89 Helena Pizarro A Rua Nova na cidade do Porto entre os sculos XV e XVI: urbanismo, construo e sociedade ................. 99

  • vii

    LISTA DE AUTORES

    Thiago Borges

    Universidade de Lisboa

    Maria Amlia lvaro de Campos

    Universidade de Coimbra

    Joo Costa

    CEH, Universidade Nova de Lisboa

    Marta Dias

    CITCEM, Universidade do Porto

    Gonalo Graa

    Universidade da Cantbria

    Filipa Lopes

    CITCEM, Universidade do Porto

    Rita Nvoa

    IEM, Universidade Nova de Lisboa

    Helena Pizarro

    Universidade do Porto

    Helena Teixeira

    CITCEM, Universidade do Porto

    Giulia Rossi Vairo

    IHA, Universidade Nova de Lisboa

  • ix

    INCIPIT

    Mais de dois anos depois da realizao do primeiro Workshop de Estudos Medievais (WEM), finalmente publicado o volume inaugural que rene os textos apresentados e discutidos pelos oradores das edies de 2009 e 2010. Organizado pelo Grupo Informal de Histria Medieval da Universidade do Porto, com a colaborao do Centro de Investigao Transdisciplinar Cultura, Espao e Memria (CITCEM), e do Curso de Mestrado em Histria Medieval e do Renascimento da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, o WEM um frum anual de discusso cient-fica destinado a mestrandos e doutorandos em Estudos Medievais.

    Este volume no temtico. Nas primeiras duas edies do WEM foram debatidas questes relacionadas com as ordens militares, histria urbana, arte funerria, cartografia histrica, e questes sobre os portugueses como estrangeiros, domnios fundirios de mosteiros, colegiadas urbanas e a lepra em Portugal na Idade Mdia. Os leitores encontraro aqui um conjunto de trabalhos em estado embrionrio: so ideias de um projeto, hipteses de investigao e resulta-dos preliminares de estudos de histria, histria da arte e cartografia histrica. Para alguns dos autores, esta mesmo a sua primeira publicao cientfica. Da que Incipit seja o ttulo adequa-do para este volume por representar um comeo e poder ser o princpio de uma carreira de investigao.

    Este volume o produto do trabalho dos mestrandos e doutorandos que participaram no WEM, cujos textos foram apreciados numa primeira fase por professores de vrias universidades por-tuguesas, para estes que os pudessem melhorar e desenvolver. O nosso primeiro obrigado en-dereado aos autores e a todos os professores que contriburam com a sua experincia e conhe-cimento nas sesses do WEM. Os editores querem ainda agradecer a todos os membros do Gru-po Informal de Histria Medieval, ao Professor Lus Miguel Duarte e Professora Cristina Cu-nha (ento diretora do curso de mestrado de Histria Medieval e do Renascimento); ao Profes-sor Gaspar Martins Pereira, pelo apoio do CITCEM a esta iniciativa, e Dr. Paula Montes Leal, pelo excelente trabalho na organizao. Gostaramos ainda de agradecer o apoio financeiro con-cedido pela Reitoria da Universidade do Porto e a Fundao para a Cincia e a Tecnologia para a organizao do WEM e publicao deste volume.

    Porto, novembro de 2011 Flvio Miranda Joana Sequeira

  • 65

    7

    A Liturgia dos Defuntos na Arte Funerria Medieval

    Marta Miriam Ramos Dias CITCEM, Universidade do Porto

    Resumo O acrescento do Purgatrio ao imaginrio medieval do Alm conduziu a uma agudizao do temor do destino post mortem e processou uma alterao nas atitudes perante a morte. Os crentes ten-taram assegurar a minimizao do tempo de passagem pelo Purgatrio, atravs das disposies testamentrias, onde so estabelecidas as formas de intercesso pela alma. A escassez de fontes para a temtica em estudo deve ser contornada atravs de fontes alternativas e para isso feita uma anlise da evoluo da liturgia dos defuntos e de prticas para-litrgicas. A preocupao com o tmulo foi notria, como se pode comprovar atravs das representaes encontradas nos arca-zes que apresentam figuraes intimamente ligadas com a liturgia. Foi atribudo particular relevo ao programa iconogrfico de Cristo Pantrocrtor rodeado pelos apstolos e a figuras a quem foi delegada a tarefa de velar pela alma do falecido.

    Abstract

    Adding Purgatory to the medieval imaginary of Beyond led to a greater concern with the afterlifes fear and to a change of attitudes towards death. Believers tried to ensure a minimum time of pas-sage through Purgatory in their testaments, establishing the forms of intercession for the soul. The lack of sources for the theme being studied must be overcome trough alternative means and for that is made an analysis of the liturgy of the dead and pseudo-liturgy practices. The concern with the tomb was quiet obvious, shown in the representations found on the arks presenting scenes intimately related with liturgy. Special importance was given to the iconographic program of Christ Pantocrtor surrounded by the apostles and to characters to whom was assigned taking care of the departeds soul.

    A criao de um espao privilegiado para sepultura de notveis e poderosos foi um dos factores que mais contribuiu para a existncia de obras de arquitectura excepcionais, verdadeiros smbolos da sua poca, ao mesmo tempo que contribuiu decisivamente para a contnua transformao da topografia dos templos, fazendo com que os projec-tos perdessem a sua homogeneidade original e adquirissem, por vezes, formas labirnti-cas de confusa articulao, como refere Bango Torviso em El espacio para enterrami-entos privilegiados en la arquitectura medieval espaola.1

    Os monumentos funerrios da Idade Mdia inseridos nestes espaos apresen-tam programas iconogrficos que materializam as preocupaes com o destino da alma. Esta nova temtica impulsionada pela paulatina incluso do Purgatrio como terceiro lugar na topografia do Alm. Esta emergncia, esta construo secular da crena no Purgatrio supe e provoca uma modificao substancial das perspectivas do espao-tempo do imaginrio cristo.2

    O crente tratava em vida de tomar as precaues que assegurassem um desenla-ce positivo no destino do post mortem atravs, sobretudo, das disposies testament-rias que trataremos mais adiante.

    1 Isidro G. Bango Torviso, El espacio para enterramientos priviligiados en la arquitectura medieval espaola in Anua-rio del Departamento de Histria y Teoria del Arte, 93, (Madrid: Universidade Autnoma de Madrid, 1992). 2 Jacques Le Goff, O nascimento do Purgatrio (Lisboa: Editorial Estampa, 1995), 15.

  • Incipit 1. Workshop de Estudos Medievais da Universidade do Porto, 200910

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    Marta Cendn, que tem estudado as atitudes dos bispos perante a morte atravs dos seus testamentos, refere que nestes documentos tambm se faz meno aos corte-jos fnebres porque o funeral fundamentalmente um acto pblico, em que se mani-festa a glria e a importncia daquele que se insere numa linhagem prestigiada, que se encontra entre uma elite.3 Observamos em alguns programas iconogrficos, de uma forma mais clara em alguns tmulos na Galiza como o sepulcro do bispo desconecido na Catedral de Ourense e o sepulcro de D. Lope de Fontecha na Catedral de Burgos mas tambm de uma forma mais subtil em peas nacionais, a transposio deste acto pblico e tambm de momentos especficos da Liturgia dos Defuntos nas representa-es figurativas, quer nos arcazes, quer nos arcosslios que envolvem os tmulos.

    Encontra-se, nos conjuntos sepulcrais, a presena dos intercessores pela alma que foram referidos nos testamentos. No nicio da Idade Mdia, so frequentes as ce-nas da Vida de Cristo e/ou de Maria, assim como representaes das cerimnias e ex-quias. Nos finais desta poca, tende a individualizar-se determinados personagens real-ando as devoes pessoais.4

    O PURGATRIO: PROPULSOR DA IMAGTICA Na Alta Idade Mdia, no existia a noo de juzo individual da alma. Em vez disso, acreditava-se no julgamento colectivo dos cristos.

    O julgamento individual e a incerteza sobre o paradeiro da alma, desde a morte do crente at ao dia do Juzo Final, propiciaram o desenvolvimento de um terceiro lu-gar de permanncia da alma o Purgatrio, cuja criao remontar ao sculo XII e que teve o seu auge no sculo XIII, quando surgiu na forma de substantivo. Este local de-finido como um alm intermdio onde certos mortos passam por uma provao que pode ser abreviada pelos sufrgios ajuda espiritual dos vivos.5

    A necessidade dos vivos intercederem pela alma dos mortos vai constituir um dos principais factores de motivao para a receptividade com que o Purgatrio ser acolhido no imaginrio dos cristos medievais. Por conseguinte, recorre-se a processos para minimizar a passagem pelo Purgatrio. Deste modo, nada mais era na mente do crente medieval do que um Inferno temporrio.6 Sabendo que ia agonizar profunda-mente pelos castigos infligidos, bastava desejar que a sua estadia no Purgatrio fosse o mais breve possvel. Esta minimizao do tempo de passagem no Purgatrio estava no poder dos vivos atravs das oraes, missas, indulgncias e sufrgios: Os mortos fre-quentam um espao incerto entre a terra e o espao divino. L esperam dos seus amigos e parentes, ajuda, um servio, oraes, gestos litrgicos capazes de aliviar as suas pe-nas.7

    O falecido tinha em vida a possibilidade de se precaver para o seu futuro incerto atravs do testamento. As doaes testamentrias para as igrejas e mosteiros eram ex-tremamente generosas, pois eram a forma de assegurar uma assistncia contnua ao defunto que transpunha a barreira (cada vez mais diluda neste perodo) entre o mundo dos mortos e o convvio dos vivos.

    Os rituais de assistncia alma no Purgatrio, mas tambm os de preparao da alma do moribundo e os de acompanhamento do funeral e sepultamento, foram regu-lamentados atravs dos cnones estipulados para a liturgia dos defuntos.8

    3 Marta Cendn Fernndez, La muerte mitrada. El sepulcro episcopal en la Galicia de los Trastmara Muerte y ritual funerario en la historia de Galicia. Semanata Ciencias Sociais e Humanidades, n17, (2006): 163. 4 Marta Cendn Fernndez, Los Santos de su devocin: aspectos de religiosidad popular en los sepulcros episcopales em la Castilla de finales de la Edad Media, Separata de la obra Religiosidad popular en Espaa, (1/4-IX-1997). 5 Le Goff, O nascimento do Purgatrio, 18-19. 6 Ibid., 242. 7 Georges Duby, O Ano Mil (Lisboa: Edies 70, 2002), 73. 8 Acerca da Liturgia dos Defuntos: Henri Lecrerq, Dictionnaire dArchologie Chrtienne et de Liturgie (Paris: Letouzey & An, 1907); Jos Mattoso, O Reino dos Mortos na Idade Mdia Peninsular (Lisboa: Edies Joo S da Costa, 1996); Damien Sicard, La liturgie de la mor dans lglise latine des origines la reforme carolingienne (Munster: Aschendorff Munster, 1978); Mario Righetti, Historia de la liturgia (Madrid: Biblioteca de autores cristianos, 1960); Paul F.

  • A Liturgia dos Defuntos na Arte Funerria Medieval

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    Embora demorasse sculos at se tornar um dogma da Igreja, o Purgatrio,

    quando tomado como uma realidade inequvoca, acrescenta a todas as formas de arte no s um novo tema, como obriga reformulao da representao dos temas religio-sos que incluam nos seus elementos o Cu e o Inferno, assim como a figurao de anjos que retiram as almas do fogo purgatrio. No se observam representaes do Purgat-rio, mas surgem temas como a ascenso da alma sendo recebida pela mo de Deus, in-dicador de que esta abandonou definitivamente a indefinio do seu destino eterno.9

    No por coincidncia que, no sculo XII, ocorre o ressurgimento da sepultura individualizada. O julgamento individual e a culpabilizao individual despoletam a necessidade do crente demonstrar a Deus a sua prpria virtude, tentando exaltar as boas obras realizadas em vida e servindo-se do seu prprio tmulo para esse propsito. Mas a possibilidade de evidenciar as virtudes de um bom cristo atravs de uma pea artstica de dimenses considerveis (que constitui o tmulo) no estava ao alcance de todas as camadas sociais, da tambm ser muito importante a localizao do sepulta-mento. O leitor deve ter em conta que muitos dos fenmenos aqui apresentados so tpicos da nobreza e do clero, uma...