a lenda de mulan

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HISTRICO DO FEMININO

90

PUC/SP COGEAE

LILIAN GARCIA DE PAULA

A LENDA DE MULAN: A JORNADA DA MULHER E DO FEMININO

Trabalho de Monografia apresentado ao Cogeae PUCSP para obteno do ttulo de Especialista em Abordagem Junguiana: Leitura da Realidade e Metodologia de Trabalho.

ORIENTADORA: Profa. Helosa Dias da Silva Galan

So Paulo

2008

RESUMO

O objetivo dessa pesquisa foi verificar o processo de transformao da conscincia coletiva no sentido de um movimento de mudana para a incorporao do feminino em nossa sociedade e de novos potenciais na identidade da mulher. Para tal, foi realizada uma pesquisa qualitativa embasada nos pressupostos da psicologia analtica de Jung. O mtodo simblico arquetpico refere-se ao mtodo de investigao que considera tanto os contedos manifestos quanto os no manifestos vinculando a realidade concreta e a abstrata. A Partir dessa anlise pudemos perceber a relao entre a jornada do feminino e da mulher e os mitos e contos de fadas, apresentados em forma de filmes na atualidade. Foi utilizado como recurso metodolgico o filme Mulan da Disney que foi embasado em um conto chins do sculo V. Tambm foi realizada uma pesquisa bibliogrfica que abordava a questo do feminino e da mulher desde o incio dos tempos at a atualidade. A anlise simblica do filme Mulan nos mostrou o quanto os filmes abarcam, na atualidade, questes arquetpicas como antigamente era colocado sociedade atravs de contos de fadas e da mitologia. Mulan traz em sua histria o processo de desenvolvimento da sociedade perante a necessidade de reincorporao do feminino atravs da jornada da herona em que se consegue uma ampliao na conscincia individual e cultural. Assim, pudemos perceber que a reintegrao do feminino na sociedade e na psique de cada um essencial para que se consiga estabelecer uma relao de alteridade entre as pessoas, j que o contato com o feminino externo tambm permite o contato com o feminino interno, a anima.

Palavras-chave: conto, filme, smbolo, feminino, mulher, ampliao da conscincia.

NDICE

INTRODUO ..........................................................................................................01

CAPTULO I : HISTRICO DO FEMININO ..............................................................11CAPTULO II: ABORDAGEM TERICA....................................................................202.1. Consciente e Ego................................................................................................202.2. Inconsciente Pessoal e Coletivo .........................................................................222.3. Arqutipo e Complexo ........................................................................................242.4. Arqutipo Feminino ............................................................................................272.5. Arqutipo do Heri...............................................................................................322.6. Anima e Animus..................................................................................................332.7. Persona e Sombra...............................................................................................352.8. Adolescncia.......................................................................................................382.9. Individuao........................................................................................................402.10. Totalidade e Self ...............................................................................................412.11. Smbolo e Abordagem Simblica......................................................................43CAPTULO III: MTODO ..........................................................................................473.1. Resumo do Filme................................................................................................493.2. Procedimento para Coleta de Dados..................................................................52CAPTULO IV: LEITURA SIMBLICA.......................................................................544.1. Descrio dos Personagens................................................................................544.2. 1. Fase Vida de Mulan na aldeia at sua ida guerra como Ping..................564.3. 2. Fase Jornada de Mulan..............................................................................644.4. 3. Fase Retorno de Mulan sua casa............................................................75CONSIDERAES FINAIS.......................................................................................79BIBLIOGRAFIA...........................................................................................................84INTRODUO

A psicologia se interessa por tudo que diz respeito ao ser humano. uma cincia que visa conhecer profundamente o que significa existir, se relacionar, se desenvolver.

As dores, as alegrias, os amores, as confuses inerentes do existir so comuns a todos. Desde os primrdios a humanidade busca maneiras de explicar o que acontece interna e externamente. As narrativas, os mitos, os contos de fadas e, mais atualmente, os desenhos animados e os filmes, que de maneira simblica expressam a condio humana, vm responder a essa necessidade. Essas histrias expressam maneiras de lidar com as vicissitudes da vida comuns a todas as pessoas, mostram sadas aos problemas e a maneira caracterstica de uma dada cultura lidar com questes existentes desde o incio dos tempos.

Segundo Von Franz (1985) a origem dos contos de fadas bastante contraditria. Alguns acreditam que so remanescentes de mitos, religies e literatura. Tambm se acredita que podem ser sonhos contados posteriormente como histrias, porm o que realmente permanece em seu cerne e passado de gerao em gerao so questes arquetpicas, ou seja, os contedos produzidos pelo inconsciente coletivo. Para a teoria junguiana, na qual se embasa esse trabalho, esses padres tpicos da humanidade so chamados arqutipos. Esse conceito e outros referentes teoria junguiana sero explicitados no captulo II Abordagem Terica.

Assim os contos e os mitos so sempre atuais e tocam a todos no seu ntimo, como se eles falassem a cada um e, ao mesmo tempo, a todo mundo sem perder a capacidade de acolher a necessidade de cada pessoa e abarcando toda humanidade.

Pode-se considerar os mitos como sonhos coletivos e recorrentes da humanidade. nossa considerao racional, so to irreais quanto os sonhos e, no obstante, de uma eficcia espantosa quando cuidadosamente considerados como indicadores e orientadores do desenvolvimento psquico (Whitmont, 1991, p. 47).

Oberg, na apresentao do livro de Grimm (2000), relata que os contos, diferente dos mitos, apresentam histrias mais facilmente identificveis com nossa realidade j que suas aventuras so vividas por seres humanos, com caractersticas humanas diferente dos mitos cujos heris possuem caractersticas divinas. Eles abordam questes do ser, do existir humano em toda sua magnitude: a vida e a morte, o envelhecer, os medos, as conquistas, as derrotas e as vitrias oferecendo solues e desfechos possveis para seus leitores.

Crescer viver seu destino, nos dizem os contos, passar por momentos de conflitos externos e internos, perdas e confrontos difceis; mas no fim acaba-se encontrando o tesouro que enriquece o resto da vida (Bonaventure, 1992, p. 123).

Hoje em dia os contos de fadas e os mitos so vistos pela sociedade como algo desvalorizado, infantil, feito para crianas. Em parte, no deixa de ser verdade j que apresenta s crianas a vida humana, mas no somente as crianas so beneficiadas pelas histrias mticas. Na realidade, como aponta Von Franz (1995) os contos de fadas se destinavam, em sua origem, populao adulta. As viglias e reunies tpicas de moradores de uma determinada regio eram animadas por contadores de histrias.

Bonaventure (1992) aponta que os contos como qualquer obra de arte trazem variaes sobre um tema bsico: o sentido da vida algo propriamente pertencente ao campo do feminino.

As sociedades ocidentais, com o advento do patriarcado, herana das culturas grega e hebraica - essencialmente patriarcais apesar de seus cultos s deusas durante suas festividades - passaram a desvalorizar tudo que era tipicamente feminino dando pouca ateno subjetividade. A irracionalidade dos mitos e contos que expressam sentimentos, aflies, problemticas existenciais passaram a ser vistos, como tudo que a racionalidade no consegue apreender em si, como histrias absurdas, irreais. Hoje, mito sinnimo, em nossa linguagem, de mentira.

O homem moderno, unilateralizado em seu plo racional, perdeu o contato com sua origem mtica e abandonou tudo que considerou irracional. O feminino e tudo que ele representa foi relegado em nossa cultura escurido. A nossa conscincia feminina foi relegada sombra. Isso significa que o reino dos sentimentos, da intuio, da inspirao, da criatividade, da sexualidade, a necessidade de afeto e apoio e tambm a agresso e a raiva so contedos banidos de nossa personalidade consciente. Negamos a essa parte de nosso ser dignidade em sua existncia e como todo aspecto no aceito, ele cobra ateno.

Os contos relacionados ao feminino trazem as problemticas existentes pela falta de contato com esse aspecto. Problemas que afligem toda a sociedade, tanto mulheres quanto homens. Nos homens o contato com sua alma, com seus sentimentos negado em sua conscincia o que causa um grande empobrecimento em suas vidas, e nas mulheres, cuja essncia foi suprimida, essa perda muito significativa; perder o ser em si. Nos contos a feiticeira e a bruxa traduzem, segundo Von Franz (1995), o lado negativo do feminino banido da conscincia, representam o medo da vida e de seus mistrios, o medo do inconsciente, de entrar em contato consigo mesmo e descobrir o que se de verdade,