A INFOGRAFIA É JORNALISMO? Ana Filipa Teixeira de Sousa ...

Download A INFOGRAFIA É JORNALISMO? Ana Filipa Teixeira de Sousa ...

Post on 07-Jan-2017

218 views

Category:

Documents

3 download

TRANSCRIPT

  • Revista Comunicando, v.1, n.1, Dezembro, 2012

    43

    A INFOGRAFIA JORNALISMO?

    Ana Filipa Teixeira de Sousa* Faculdade de Letras da Universidade do Porto

    filipa.tsousa@gmail.com

    Resumo: Desde o incio dos anos 80, com o jornal USA Today, que a infografia tem ganho destaque no jornalismo atravs do desenvolvimento de sistemas de informao/Tecnologias de Informao e Comunicao que potenciaram a informatizao das redaes tornando este processo mais facilitado. Atualmente, o processo em que o jornalismo se encontra de transio de paradigma torna a questo da definio e delimitao de conceitos imperativa, passando a ser a infografia uma das reas com maior relevncia nas discusses do campo jornalstico. A questo muitas vezes colocada pelos tericos e profissionais da rea centra-se na veracidade da afirmao A infografia jornalismo. Neste artigo defende-se que a infografia agrega todas as caractersticas que fazem dela uma parte fundamental do jornalismo atual, e que nas plataformas digitais, esta forma de comunicar poder constituir um elemento atrativo de ateno dos leitores. Neste sentido, suportamo-nos numa contextualizao histrica e conceptual de infografia aplicada imprensa e s plataformas digitais, alertando para a mais-valia da utilizao da infografia nos ciberjornais.

    Palavras-chave: Infografia, Jornalismo, Plataformas Digitais, Leitores.

    Abstract: Since the early 80s, with USA Today, computer graphics have gained prominence in journalism through the development of information systems / Information Technologies and Communication that potentiate the computerization of newsrooms making this process easier. Currently, the process of paradigm shift in which journalism is makes this question of the definition and delimitation of concepts imperative, becoming the computer graphics one of the main areas of relevance in discussion of the journalistic field. The question often posed by theorists and practitioners focuses in the veracity of the statement "infographics are, in fact, journalism". In this article we state that infographics have all the features that make it a fundamental part of journalism today, and on digital platforms, this form of communication may be an attractive element for readers' attention. In this sense, we expose the historical context and conceptual computer graphics applied to the press and digital platforms, stressing the added value of using computer graphics in online newspapers.

    Keywords: Infographics, Journalism, Digital Platforms, Readers.

    * Ana Filipa Sousa, licenciada pela UFP e mestranda em Cincias da Comunicao (vertente Estudos dos Media e Jornalismo) da FLUP. Tem colaborado com o jornal Folha de So Paulo com publicaes nas editorias FolhaTeen, Tecnologia, Turismo e Fotografia.

  • Revista Comunicando, v.1, n.1, Dezembro, 2012

    44

    Contextualizao Histrica

    Embora no exista um consenso sobre o primeiro registo infogrfico na imprensa moderna, vrios autores de referncia, como Peltzer (2001), Cairo (2011) e Valero Sancho (2001), indicam como marco importante neste campo jornalstico a dcada de 80 e a nova poltica grfica editorial do jornal norte-americano USA Today, associando-o ao renascimento do discurso infogrfico na imprensa mundial. O prprio slogan do jornal Mostre-me, no conte! indicava a valorizao da imagem grfica como forma de discurso. Por seu lado, os resultados de um estudo realizado pelo proprietrio do jornal, Allen H. Neuharth, sobre as preferncias dos leitores permitiram constatar que estes preferiam a cor, os grficos, as imagens e a leitura mnima de textos, em contraposio das pginas com textos densos complicados de ler (cf. VALERO SANCHO, 2001, p.57). Atravs da reforma editorial, Allen H. Neuharth teve como objetivo moldar o jornal aos gostos do leitor que no lia o jornal, mas que o observava, pois estava acostumado a consumir as notcias essencialmente atravs da televiso (cf. CAIRO, 2008, p.52). Associado revoluo editorial do jornal USA Today apontamos como fator igualmente essencial para o emergir da infografia, o aparecimento do computador Macintosh, em meados dos anos 80, e o consequente desenvolvimento de sistemas de informao/ Tecnologias de Informao e Comunicao, que potencializaram a informatizao das redaes, permitindo que o custo do processo infogrfico fosse menor e que existisse maior celeridade no processo de produo (CAIRO, 2008). Associado importncia dos fatores da dcada de 80 apresentados, a infografia revelou-se decisiva nos meses de Janeiro e Fevereiro de 1991, durante a cobertura meditica da Guerra do Golfo (VALERO SANCHO, 2001). Enquanto a rede de televiso norte-americana CNN apresentava em direto as imagens brutais do conflito iraquiano, os meios impressos enfrentavam dificuldades pela quase inexistncia de imagens fotogrficas do conflito blico. Por isso, a apresentao de infografias, na sua maior parte, mapas e diagramas com a localizao dos bombardeamentos e descries dos tanques e dos avies, passou a ocupar as pginas dos jornais impressos que estavam destinadas cobertura do conflito. Estes fatores fizeram com que a infografia se afirmasse cada vez mais nos jornais e se tivesse edificado como um gnero jornalstico, que se traduziu num valor acrescentado para os leitores, como descreveremos no prximo ponto deste artigo.

    A infografia e o jornalismo

    Temos conscincia que so diversos os contextos (publicitrios, cientficos, econmicos, etc.) em que encontramos a presena de informao visual. No entanto, neste artigo optmos por contrapor definies e caracterizaes da infografia ao

  • Revista Comunicando, v.1, n.1, Dezembro, 2012

    45

    contexto jornalstico, j que a nossa argumentao incide essencialmente sobre a visualizao em jornalismo, que nomeamos ao longo do texto como infografia.

    Assim sendo, e tal como acontece na sua contextualizao histrica, encontramos dificuldade em encontrar um consenso na definio conceptual desta unidade informativa aplicada ao jornalismo. Se por um lado, Cairo (2008, p.21) prope uma definio bastante simplicista ao afirmar que a infografia uma representao diagramtica de dados, Valero Sancho (2008, p.21) define-a de uma forma mais complexa e com uma finalidade bem definida. Ou seja, para este autor a infografia consiste numa unidade informativa de elementos icnicos e tipogrficos, que permite ou facilita a compreenso dos acontecimentos, aes ou aspetos mais significativos da atualidade, que acompanha ou substitui o texto informativo. Contrastando com as definies apresentadas, a definio conceptual de De Pablos (cit in CAIRO, 2008) defende a infografia como a apresentao impressa de um binmio: texto + imagem (bI + T). Compreendemos que esta definio se enquadre com o aparecimento das imagens grficas, mas consideramo-la mesmo assim, uma definio bastante redutora e um pouco ingnua na contextualizao histrica em questo. Isto porque aceitamos que o produto infogrfico tem na sua base a imagem e o texto, mas que estes no so os nicos intervenientes no processo de informao visual, como apresentaremos mais frente, na abordagem dos diferentes nveis de linguagem (a impressa e a digital).

    Ento, quais sero as caractersticas que fazem da infografia uma parte essencial do jornalismo?

    Partilhamos da opinio de Valero Sancho (2011, p.21), que o infogrfico deve dar significado informao atual, plena e independente, permitindo por si s a compreenso do acontecimento, atravs da tipografia e de elementos concordncia. Encontramos nas caracterizaes de Peltzer (1992) e Valero Sancho (2011, p.21) um carcter uniforme ao afirmar que a infografia agrega de facto todas as caractersticas, o que a torna uma parte fundamental do panorama do jornalismo atual.

    Partilhamos da ideia que como um gnero jornalstico, a infografia deve obedecer mesma estrutura formal de uma pea noticiosa. Por isso, ela dever responder aos cinco Ws que estruturam uma produo jornalstica (CANAVILHAS, 2008):

    1. WHO: quem o elemento importante no processo informativo?

    2. WHAT: o que fazer com tanta informao?

  • Revista Comunicando, v.1, n.1, Dezembro, 2012

    46

    3. WHEN: Quando publicar?

    4. WHERE: Onde (em que palavras) colocar os links?

    5. WHY. Porque utilizar determinado tipo de contedo?

    A estes itens poder juntar-se um H (How: Como linkar?), se nos reportarmos ao contexto das plataformas digitais, tornando a mensagem mais clara, rpida, bela, objetiva, exata, completa e, consequentemente, mais eficaz para os leitores. (Casass e Ladevze cit in Ribeiro, 2008, p.35). Ao partilhar as caractersticas da imagem, o produto infogrfico abrange a informao de uma forma mais completa e multidirecional. , neste sentido, que Valero Sancho (2003, p.570) se refere ao produto infogrfico, como sendo evidente tratar-se de um gnero distinto por ser mais visual e menor literrio do que os outros (gneros), mas tambm pretender narrar total ou parcialmente uma informao (VALERO SANCHO, 2001, p.26). Esta caracterstica da infografia resultar na absoro dos cdigos prprios da linguagem jornalstica respeitantes no s sua estrutura, como tambm ao seu contedo.

    Entendemos que a infografia, no jornalismo, tem caractersticas prprias e que estas em nada se assemelham a outras formas ou produtos no jornalsticos denominados vulgarmente por infogrficos. Por isso, as funes da infografia no podem ser desassociadas das funes do campo jornalstico.

    Kovach e Rosentiel (2006, p.16) referem que a principal finalidade do jornalismo fornecer aos cidados a informao de que precisam para serem livres e se autogovernarem. Acreditamos que essa informao poder ser transmitida em diferentes suportes e formatos e que, pelo perfil do leitor moderno j aqui salientado, esse mesmo leitor privilegiar a informao visual textual. , neste sentido, que Traquina (2002, p.9) insiste na associao do conceito de jornalismo realidade (visual, textual, etc), salientando que a realidade que nos apresentada pelo jornalismo est quase sempre fragmentada em acontecimentos, que pode ser alvo de tratamento informativo visual sem perder o cunho jornalstico e as respetivas particularidades.

    Por isso, concordamos com a perspetiva infogrfica de Valero Sancho (2001, p.21) que nos apresenta oito funes essenciais da infografia jornalstica, argumentando que sem elas o infogrfico perde a sua associao ao campo jornalstico: a infografia deve ter significado total e independente; proporcionar quantidade razovel de informao atual; conter informaes suficientes para a compreenso dos fatos; ordenar o contedo utilizando, se preciso, variantes de tipologia; apresentar elementos icnicos que no distoram a realidade; realizar

  • Revista Comunicando, v.1, n.1, Dezembro, 2012

    47

    funes de sntese ou complemento da informao escrita, proporcionar certa sensao esttica; e, por ltimo, ser precisa e exata. Simultaneamente, consideramos necessrio ter em conta a chamada de ateno de Cairo (2008, p.21), para o facto de uma infografia no necessitar de ser publicada por um jornal para ser considerada como infografia jornalstica.

    Desta forma, e tendo em conta as caractersticas referenciadas, alertamos para a necessidade crescente de um infogrfico expor o contedo de forma objetiva e realista. Para concretizar tal tarefa, necessrio que o infografista faa uso dos elementos visuais, tendo sendo presente a preocupao de nunca distorcer a informao. evidente que consideramos estar perante um campo extremamente vulnervel, j que na tentativa do infografista se ultrapassar criativamente, e querer elaborar um trabalho nico, corre o risco de o tornar mais apelativo do que informativo. Para Cairo (2008) a cobertura da Guerra do Golfo foi um dos grandes exemplos ilustrativos de infografia, tendo colocado em causa o status da profisso e da prtica profissional. Isto porque na cobertura do conflito se tenha assistido apresentao de dados falsos, errados e ao predomnio de figuras desnecessrias. Neste contexto, a infografia foi muitas vezes usada unicamente como uma funo ilustrativa e no como ferramenta jornalstica. Esta situao conduziu, em muitos casos, ao exagero nas suas dimenses e na dinmica de apresentao dos dados, sobrepondo-se a moral da histria ao prazer que deve ser dado ao leitor de retirar as concluses.

    Desta forma, achamos por bem clarificar os argumentos expressos neste artigo, atravs da apresentao de alguns dos trabalhos (nacionais e internacionais) que foram distinguidos no Malofiej 2012, evento realizado em Espanha, e encarado como os scares da Infografia.

    Optmos pela apresentao de dois infogrficos impressos que fizeram parte do porteflio enviado pelo jornal portugus Pblico e que foi reconhecido com a medalha de prata no evento Malofiej 2012. Estes dois exemplos renem as caractersticas expressas por Valero Sancho (2001, p.21), o que ajuda a suportar os nossos argumentos expressos neste artigo.

    Conforme podemos verificar na Figura 1 (O segredo da cerveja) a integrao de texto e imagem, serve de complemento para auxlio da compreenso da mensagem textual/visual. Os dados que encontramos na imagem (atravs de grficos) informam o leitor sobre o consumo de cerveja em Portugal. Para alm dos dados traduzirem as caractersticas essenciais de uma pea jornalstica, reforam atravs do visual, o processo de produo da cerveja. Esta infografia contm em si todos os dados sobre a forma complexa do processo de produo da cerveja (os seus

  • Revista Comunicando, v.1, n.1, Dezembro, 2012

    48

    ingredientes, as tcnicas, processos e objetos para a sua produo e, entre outros, os dados estatsticos sobre o seu consumo), o que a torna uma infografia-perfeita (termo usado por Ribeiro (2008) para referir uma infografia que respeite na sua plenitude os critrios que fazem dela uma infografia completa).

    Na Figura 2 (Crise europeia ainda no chegou ao ndice de desenvolvimento humano) encontramos uma forma visual de apresentar uma quantidade significativa de dados, que acreditamos que em forma de tabela no teriam tanto impacto. Esta infografia representa uma estrutura visual que permite diversas formas de leitura ao leitor. Nesta infografia permitido que o leitor possa ir para alm da informao bsica: a leitura simplista de que Portugal caiu no ndice de desenvolvimento humano ou a possibilidade de poder aprofundar o conhecimento nesta rea, comparando dados mundiais com os dados europeus, pormenorizando esses mesmos dados ao nvel de cada pas. Simultaneamente, a mesma infografia reporta o leitor para dados especficos sobre aspetos econmicos de cada pas europeu sobre: pegada ecolgica em hectares per capita, proporo em energias renovveis, dados sobre a populao em geral, taxas em sade, despesas pblicas em sade e educao, etc. Desta forma, esta forma de acesso a dados permite ao leitor proceder s suas inferncias sobre o desenvolvimento do pas, sustentando as suas elaes em funo dos dados apresentados.

  • Revista C

    om

    un

    icand

    o, v.1, n

    .1, Dezem

    bro

    , 20

    12

    49

    Figura 1 Infografia O segredo da cerveja (por Pblico) vencedora nos prm

    ios Malofiej 2012

  • Revista C

    om

    un

    icand

    o, v.1, n

    .1, Dezem

    bro

    , 20

    12

    50

    Figura 2 Infografia Crise europeia ainda no ch...

Recommended

View more >