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  • A formao da oligarquia agrria na regio de So Mateus

    ES no sculo XIX: redes de parentesco e relaes de poder

    Maria do Carmo de Oliveira RUSSO

    Universidade de So Paulo

    [email protected]

    Neste trabalho nos propomos abordar, num primeiro momento, alguns aspectos da

    formao poltica, social e econmica do municpio de So Mateus, os quais somados s suas

    caractersticas geogrficas possibilitaram a sua afirmao enquanto importante cidade

    porturia do Extremo Norte do Esprito Santo. Em meados do sculo XIX, constata-se a

    formao de uma oligarquia agrria, proprietria de terras e escravos e envolvida tambm em

    setores do comrcio regional. Neste contexto foram observadas as relaes de poder regional,

    atravs de uma poltica de casamentos entre uma mesma parentela, na qual se identifica a

    existncia de um verdadeiro cl parental, com forte influncia poltica. Esta oligarquia

    mateense foi polarizada pela famlia do Coronel e do Major Antonio Rodrigues da Cunha, pai

    e filho, respectivamente, sendo este ltimo tambm conhecido como Baro de Aimors.

    Durante praticamente todo o perodo imperial, So Mateus se apresentou como maior

    produtor de farinha de mandioca da Provncia do Esprito Santo e um dos mais importantes da

    costa brasileira, alm de se inserir com relativo sucesso na incipiente produo cafeeira da

    provncia capixaba, a partir de 1860. Seu porto fluvial, situado muito prximo costa

    brasileira, canalizava e escoava a maior parte da produo agrcola regional, se sobressaindo

    tambm como um significativo mercado de escravos. O Rio So Mateus, atuando como uma

    via natural de escoamento agrcola pode ser considerado o vetor de desenvolvimento regional.

    Especificidades histrico-geogrficas de So Mateus

    A regio de So Mateus, localizada acima do Rio Doce, compreendia uma rea que

    abrangia praticamente todo o norte da Provncia do Esprito Santo, at a divisa com a Bahia,

    sendo atualmente ocupada por quatorze municpios.

    Possuidora de um potencial de populaes indgenas, entre eles os temidos botocudos,

    a regio foi palco de vrios conflitos entre brancos e ndios durante o perodo colonial - como

  • Maria do Carmo de Oliveira Russo

    2

    a famosa Batalha do Cricar 1. Os negros so trazidos aos poucos no final do sculo XVIII, se

    tornando numerosos a partir do incio do sculo XIX.

    Originalmente pertencente Capitania de Esprito Santo, quando da diviso do Brasil

    em Capitanias Hereditrias em 1534, no sculo XVIII esta capitania passa a ser administrada

    diretamente pela Coroa Portuguesa atravs do Governo Geral do Brasil. Em 1764 So Mateus

    elevada categoria de vila e encampada jurisdio da Capitania de Porto Seguro. O

    Ouvidor de Porto Seguro nesta poca, Thom Couceiro de Abreu, era uma autoridade

    designada pelo Ministro de Ultramar Marqus de Pombal. Orientado pelo Marqus, Couceiro

    realizou estudos e pesquisas sobre as potencialidades do Rio So Mateus, constatando

    riquezas minerais e agrrias na regio. O Rio So Mateus era tambm conhecido por Rio

    Cricar (nome de origem indgena), sendo ladeado por um conjunto de pequenos afluentes,

    possuindo um porto na povoao que levava o seu nome. Nesta povoao, o porto fluvial se

    constitua num importante vetor do desenvolvimento econmico, social e poltico regional,

    com seu comrcio ativo no largo a beira do rio, servindo de entreposto comercial para as

    embarcaes que transitavam a costa brasileira, sobretudo entre as Provncias da Bahia e do

    Rio de Janeiro. Na Barra de So Mateus (hoje municpio de Conceio da Barra), sua foz,

    ficava o ancoradouro das embarcaes maiores que transitavam a costa. O porto fluvial de

    So Mateus distanciava-se oito lguas da costa atlntica. Da Barra de So Mateus partiam

    embarcaes a vapor com linhas regulares que faziam a ligao com o porto da vila de So

    Mateus.

    Neste contexto, a anexao de So Mateus jurisdio de Porto Seguro, sob a

    administrao de Couceiro, conseqncia das inovaes pombalinas, foi muito importante,

    pois foi proporcionado regio uma organizao administrativa e um relativo

    desenvolvimento econmico baseado na exportao da farinha de mandioca.

    O perodo em que So Mateus esteve sob o domnio de Porto Seguro foi de

    crescimento econmico, graas expanso da cultura da farinha de mandioca que era

    exportada principalmente para o Rio de Janeiro e Porto Seguro, para Ilhus e para o

    Recncavo, sendo tambm um perodo de organizao administrativa.

    1 A Batalha do Cricar, ocorrida em 1558 na confluncia dos rios Cricar e Mariricu foi um confronto entre os

    ndios botocudos e os colonizadores portugueses, por determinao de Mem de S, Governador Geral do Brasil

    na poca. Este enviou o prprio filho, Ferno de S, no comando de cinco barcos com aproximadamente 200

    homens, em auxlio a Vasco Fernandez Coutinho, donatrio da Capitania do Esprito Santo, no sentido de conter

    os levantes indgenas contra a dominao portuguesa no territrio capixaba. Este episdio culminou com a morte

    de centenas de ndios e tambm do filho de Mem de S e de outros portugueses. Depois da morte do filho, o

    prprio Mem de S organizou um massacre aos ndios que, segundo alguns historiadores, se constitui na

    primeira grande exterminao dos nativos. O episdio historicamente conhecido como a primeira vitria de

    Mem de S no Brasil.

  • A formao da oligarquia agrria na regio de So Mateus-ES no sculo XIX: redes de parentesco e relaes de poder

    3

    No transcurso do sculo XIX, a regio aparece como uma grande produtora de farinha

    de mandioca, sendo que certos autores, sem apresentar dados e comprovaes, afirmam que a

    regio era a maior produtora de farinha de mandioca da costa brasileira.

    Somente em 1823, ou seja, 59 anos depois da criao da vila de So Mateus, a regio

    volta a pertencer Provncia do Esprito Santo.

    Em oposio ao quadro de estagnao econmica apresentado pela Provncia do

    Esprito Santo nas primeiras dcadas do sculo XIX, a regio de So Mateus passa por um

    perodo de crescimento econmico. Assim, o retorno de So Mateus jurisdio capixaba em

    1823, adquire significado especial, pois esta nova situao traz novos recursos para a

    Provncia, que se encontrava em situao financeira precria. A incorporao de So Mateus

    Provncia do Esprito Santo, neste perodo, vem a suprir parte das rendas perdidas pela

    Provncia com o desmembramento das Vilas de Campos dos Goitacazes e So Joo da Barra,

    que passam a ser vinculadas Provncia do Rio de Janeiro. Essas duas vilas forneciam o

    maior montante da receita da Provncia do Esprito Santo, quando iniciam um processo de

    desmembramento a partir de 1821, vinculando-se inteiramente Provncia do Rio de Janeiro

    at 1832.

    A importncia da regio no contexto da Provncia neste perodo torna-se evidente

    quando, no ano de 1835, alm da Comarca pr-existente que passou a denominar-se Vitria,

    foram criadas tambm as de Itapemirim e So Mateus.

    No contexto de uma favorvel conjuntura econmica, a Vila de So Mateus foi

    elevada categoria de municpio em 1848, passando a desfrutar de um considervel prestgio

    poltico na Provncia do Esprito Santo.

    As terras do novo municpio estavam compreendidas entre o Rio Barra Seca e o Rio

    Mucuri. Seu porto atuava, nesse perodo como entreposto comercial de escravos, alm de

    diversas outras atividades comerciais principalmente da farinha de mandioca. Tornou-se

    parada obrigatria para muitos vapores de companhias brasileiras de navegao. O grande

    nmero de negros escravos e livres mantinha elevada a produo de farinha, colocando So

    Mateus como um dos maiores produtores da costa brasileira. Mesmo com a introduo do

    caf e sua lenta expanso a partir de meados do sculo XIX, o comrcio da farinha foi a sua

    principal fonte de renda por todo o perodo Imperial.

    A poltica local era dominada pelo fazendeiro e Comendador Antonio Rodrigues da

    Cunha, coronel da Guarda Nacional e Comandante da Legio Norte da Provncia. De seu

    casamento com Dona Rita Maria da Conceio Cunha, nasceram doze filhos, entre os quais

  • Maria do Carmo de Oliveira Russo

    4

    podemos citar Antonio Rodrigues da Cunha, o Baro de Aimors, considerado a

    personalidade mais destacada da histria de So Mateus.

    Por volta de 1863, o futuro Baro de Aimors, at ento Major da Guarda Nacional,

    iniciou definitivamente a colonizao do interior de So Mateus, implantando uma fazenda na

    Cachoeira do Cravo, primeira cachoeira do Rio So Mateus, local onde a navegao contnua

    do rio se interrompe. Sua inteno era o plantio de caf, cultura em expanso na regio sul e

    central da Provncia gerando grandes lucros.

    Com a introduo da cultura do caf em So Mateus associada grande produo da

    farinha e ao comrcio de escravos verifica-se a formao de uma oligarquia rural que exercer

    influncia junto ao Governo Provincial e Central. Essa oligarquia estabelece relaes,

    geralmente atravs de casamentos, com oligarquias do centro e do sul da provncia o que

    reforar sua influncia perante o Governo Provincial.

    Neste contexto, a partir da dcada de 1850, registra-se o fortalecimento de uma

    oligarquia representada por alguns coronis, ou seja, autoridades da Guarda Nacional,

    fazendeiros que posteriormente at mesmo tornar-se-o bares, como o caso do Baro de

    Aimors, considerado pioneiro na introduo de equipamentos hidrulicos importados para a

    produo do acar e do Baro de Timbu, que por trs vezes foi deputado provincial, ambos

    grandes produtores de farinha e caf sendo tambm grandes proprietrios de escravos.

    Em relao ao crescimento demogrfico mateense, ao longo desse perodo, embora

    dispondo de poucas fontes documentais para as primeiras dcadas do sculo XIX, tomamos

    como referncia a indicao da vila possuir 6.245 habitantes em 1827 2, sendo que 2.361 eram

    escravos e 783 eram ndios. Baseado nessas informaes podemos observar a existncia de

    um grande nmero de escravos, o que indica uma regio em franca expanso produtiva.

    Segundo Duro Cunha, aps a independncia e reincorporao ao Esprito Santo,

    tornou-se So Mateus, um osis de prosperidade no tumulto em que vivia a Provncia,3 em

    meio a epidemias de clera e varola e numa conjuntura em que faltavam verbas para tudo.

    Nesta situao, segundo o historiador, a cidade de So Mateus, talvez pelo quase isolamento

    2 Tomamos como referncia a Memria Statistica da Provncia do Esprito Santo escrita no anno de 1828, de

    Accioli de Vasconcellos, que contm o Mapa da Populao da Provncia do Esprito Santo, mesmo percebendo,

    logo de incio, alguns erros na contagem final da populao do recenseamento de 1827, realizado por esse

    Presidente da Provncia, que indica 6.346 almas, e no o correto que deveria ser 6.245. Em relao aos

    ndios, certo que havia muito mais de 783, havia milhares; este nmero provavelmente se refere aos

    colonizados. Mesmo assim, o Censo um dos mais confiveis que se tem para o perodo. 3 Ibidem, p. 32.

  • A formao da oligarquia agrria na regio de So Mateus-ES no sculo XIX: redes de parentesco e relaes de poder

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    em que vivia, foi pouco atingida pelas epidemias e a agricultura continuava respondendo

    como o principal esteio da economia.4

    Conforme relato do Presidente Couto Ferraz, da Provncia do Esprito Santo em 1847,

    a Vila de So Mateus tem assaz prosperado. Possui grandes fazendas, bons estabelecimentos,

    alguns engenhos e casas mui bem construdas, sendo a farinha o principal gnero de

    exportao 5.

    No mesmo relatrio destaca tambm o crescimento da Vila da Barra de So Mateus,

    em que a agricultura vinha se desenvolvendo graas boa qualidade da terra, principalmente

    em Itanas, onde h uma povoao nascente com sessenta casas na divisa desta Provncia

    com a Bahia.

    Com essa conjuntura econmica, a Vila de So Mateus foi elevada categoria de

    municpio em 1848, passando a desfrutar de um considervel prestgio poltico na Provncia

    do Esprito Santo.

    A segunda metade do sculo XIX

    Ocorre, neste perodo, a formao de uma oligarquia rural, atuando na poltica local,

    que era dominada pelo fazendeiro e Comendador Antonio Rodrigues da Cunha, coronel da

    Guarda Nacional e Comandante da Legio Norte da Provncia. De seu casamento com Dona

    Rita Maria da Conceio Cunha, nasceram doze filhos, entre os quais destaca-se Antonio

    Rodrigues da Cunha, o Baro de Aimors, considerado uma das personalidades mais atuantes

    na histria de So Mateus no perodo imperial. Tambm destacam-se Reginaldo Gomes da

    Cunha, Tambm comendador e comerciante na Corte, Coronel Matheus Gomes da Cunha,

    fundador do municpio de Boa Esperana, Constana Gomes da Cunha, casada com o mdico

    Graciano Santos Neves e me do governador Graciano Santos Neves Filho, entre outros.

    Juntamente com outras poucas famlias, compunham a oligarquia mais poderosa da regio.

    Por volta de 1863, um dos filhos do Comendador, o futuro Baro de Aimors, at

    ento Major da Guarda Nacional, tambm conhecido por Major Cunha, iniciou a colonizao

    do interior de So Mateus, implantando uma fazenda na Cachoeira do Cravo, primeira

    cachoeira rio acima, s margens do Cricar. Sua inteno era o plantio de caf, cultura em

    expanso na regio sul e central da Provncia, que gerava grandes lucros.

    4 Ibidem, p. 32.

    5 Fragmento do relatrio do Presidente da Provncia Luis Pedreira de Couto Ferraz, em 11.10.1847.

    Biblioteca Digital do Arquivo Pblico do Esprito Santo.

  • Maria do Carmo de Oliveira Russo

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    Embora natural da regio de So Mateus, o Major Antonio Rodrigues da Cunha,

    viveu um curto perodo em Castelo, prximo regio de Cachoeiro do Itapemirim, logo aps

    seu primeiro casamento, com a filha de outro latifundirio, do Baro de Itapemirim. Neste

    perodo, saiu com sua famlia e seus escravos desta regio ao sul da Provncia, retornando

    para o norte e seguindo at o lugar conhecido ainda hoje como Cachoeira do Cravo, situado s

    margens do Rio Cricar, distante seis lguas do municpio de So Mateus. Nesse local, foi

    aberta uma grande fazenda para o plantio do caf e de cana-de-acar e para a formao de

    pasto. Como a terra no era a mais propcia para o cultivo do caf, procurou-se uma terra

    melhor para esse fim, localizando-se esta algumas lguas frente, o que acarretou o

    surgimento de outra fazenda, da Fazenda Serra de Baixo 6, por volta de 1870. Tendo recebido

    de seus escravos e ndios a informao da boa terra para o plantio de caf, o Major Antonio

    Rodrigues da Cunha deixou a sua fazenda em Cachoeira do Cravo, j com produo

    diversificada, indo em busca da nova terra frtil e promissora. L chegando, iniciou a abertura

    da mata virgem para a formao da primeira fazenda da regio. O Major Cunha denominou a

    nova terra de Serra dos Aimors, devido a grande presena desses ndios na regio. A sua

    atuao entre esses ndios, proporcionou-lhe posteriormente o ttulo de Baro dos Aimors.

    Posteriormente, o Major Cunha recebeu a companhia de seu irmo Coronel Matheus

    Cunha, que fundou a Fazenda Boa Esperana, localizada entre o Rio Preto e Santo Izidoro, e

    do Major Jos Gomes Sodr, seu cunhado, que fundou a Fazenda Terra Roxa, conhecida

    como Fazenda da Gruta, situada prximo ao Rio Preto, ampliando o ncleo populacional da

    regio e, possibilitando assim, a chegada de novos imigrantes7.

    A introduo da cultura do caf em So Mateus associada grande produo da

    farinha e ao comrcio de escravos ocasionar a efetivao desta oligarquia rural, que exercer

    sua influncia local e tambm junto ao Governo Provincial.

    Neste contexto, a partir de meados do sculo XIX, registra-se o fortalecimento de uma

    oligarquia originalmente mateense possuidora de patentes da Guarda Nacional - coronis,

    capites, majores etc - fazendeiros que tambm conquistaro ttulos nobilirquicos e se

    tornaro representantes regionais na Assemblia Provincial. Ressalte-se que esta oligarquia

    rural assentava-se em bases nitidamente escravocratas.

    Sabemos que toda a segunda metade do sculo XIX um perodo de transio por

    excelncia. Os marcos mais importantes da Histria do Brasil neste perodo e que envolvem

    6 Segundo informa o Padre Furbetta, em seu livro sobre a Histria da Parquia de Nova Vencia, dos contatos

    entre os negros e os indgenas surgiu a descoberta da nova terra. 7 MURARI et alli. Histria, Geografia e Organizao Social e Poltica do Municpio de Nova Vencia.

    Prefeitura Municipal de Nova Vencia. Administrao 1989-1992.

  • A formao da oligarquia agrria na regio de So Mateus-ES no sculo XIX: redes de parentesco e relaes de poder

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    situaes de transio esto localizados principalmente no campo poltico-institucional -

    transio da Monarquia para a Repblica, nas relaes de trabalho - transio da escravido

    para o trabalho livre, e, tambm na mudana da forma de estruturao da propriedade

    fundiria do pas com a implantao da Lei de Terras, a partir de 1850.

    A Lei de Terras, entre outras aes, facilitou a concentrao da propriedade fundiria e

    o desenvolvimento do latifndio, ampliando, por via de conseqncia, o papel do coronel.

    Herana do estado patrimonialista portugus, o coronelismo, que tambm pode ser associado

    a um mandonismo local (terminologia utilizada por Maria Isaura Pereira de Queiroz, para o

    perodo estudado) consistiu, grosso modo, a partir de 1840, no fortalecimento lento de

    potentados locais e das oligarquias regionais graas expanso da lavoura cafeeira no sudeste

    brasileiro, que se intensificar a partir da dcada de 1870.

    No Esprito Santo, o mandonismo local se consolida com o avano do latifndio, no

    s no sul da provncia, nas bacias do Itapemirim e do Itabapoana, regies em que a

    cafeicultura est em plena expanso a partir de 1860, mas tambm no norte (Linhares,

    centralizada pelo Rio Doce) e extremo norte da provncia (regio de So Mateus), locais em

    que oligarquias bem articuladas vo se fortalecendo ao longo do Segundo Reinado, se

    estendendo tambm, posteriormente, por toda a Repblica Velha.

    Nos estudos sobre a Provncia do Esprito Santo praticamente unnime a idia de

    que, nesse perodo, a regio sai do marasmo econmico em que viveu por longo tempo, desde

    o perodo colonial, atravs da implantao e expanso da lavoura cafeeira. O caf tornou-se

    carro chefe da economia e dos processos histricos e sociais a partir da segunda metade do

    sculo XIX, dinamizando diversos setores da sociedade capixaba e alterando

    substancialmente a sua fisionomia.

    Nesta poca, muitas questes novas surgem em nvel nacional atingindo tambm o

    Esprito Santo, o que conforma um quadro dinmico de alternncia de nomes no poder

    governamental e tambm nas mudanas administrativas, principalmente a partir de 1870.

    Entre estas questes destaca-se o advento da imigrao estrangeira europia em

    grupos familiares para o povoamento regional, atravs da formao de ncleos coloniais de

    pequenos proprietrios e como reserva de mo-de-obra para as grandes fazendas.

    Constituindo parte essencial na composio das foras produtivas da provncia, o movimento

    imigratrio iniciado nas regies central e sul e, posteriormente, no norte, significou tambm

    um fator decisivo na formao tnica e cultural do Esprito Santo.

  • Maria do Carmo de Oliveira Russo

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    A medio e demarcao de lotes, assim como a discriminao de terras devolutas e a

    legitimao de posses, medidas postas em prtica com a finalidade de acelerar o processo de

    colonizao, atraram grandes contingentes de imigrantes, favorecendo a expanso da lavoura

    cafeeira, o aumento da produo agrcola e o povoamento do Estado.

    Nesse sentido, foi criada a Comisso de Medio de Terras e Lotes Coloniais para a

    regio do Rio Doce e So Mateus, em 1888, ampliando para o norte os trabalhos de medies

    de lotes para projetos de implantao de ncleos coloniais para imigrantes. Na regio de So

    Mateus destaca-se a criao da colnia de Santa Leocdia (1888) e de Nova Vencia (1892).

    Em 1888 chegou ao porto de So Mateus os primeiros imigrantes compostos por cerca

    de 50 famlias de italianos. Elas foram encaminhadas para os lotes demarcados no vale do

    crrego Bamburral, para a formao do ncleo de Santa Leocdia, uma iniciativa do Governo

    Imperial.

    J a colnia de Nova Vencia foi uma iniciativa particular, que no recebeu incentivos

    do Governo Provincial ou do Governo Central. Segundo Lus Serafim Derenzi, esta colnia:

    no recebeu imigrantes diretos da Itlia, no teve divulgao prpria nem agenciadores

    imperiais comissionados para esse fim. Os imigrantes que l se estabeleceram foram desviados ao

    chegarem no porto de Vitria e criminosamente iludidos. Parte de seus primeiros moradores

    foram levados pelo Dr. Constante Sodr e pelo Baro de Aimors, este para sua longnqua Fazenda

    Serra de Baixo. Aos mesmos se juntaram os refugiados de Santa Leocdia8.

    Outro autor, afirma que:

    O Comendador Reginaldo Gomes da Cunha, comerciante importante no Rio de

    Janeiro e de muitas amizades na Corte, estimulou a Antonio Rodrigues da Cunha, O baro dos

    Aymors, nessa poca Major da Guarda Nacional (1887), a ir ao Consulado da Itlia onde

    conseguiu que parte dos imigrantes italianos destinados ao Esprito Santo viessem para So

    Mateus 9.

    Antes dos italianos, imigrantes cearenses principalmente, e tambm alguns mineiros e

    baianos, chegaram s fazendas de So Mateus, para integrarem a mo-de-obra cafeeira. Eles

    instalaram-se principalmente na Fazenda Serra de Baixo, somando foras junto famlia

    8 DERENZI, Luiz Serafim. Os italianos no estado do Esprito Santo. R.J., Ed. Artenova, 1974, p.75.

    9 NARDOTO, Eliezer Ortolani. So Mateus-Brasil. So Mateus: EDAL, Ano III, n.3, 2000, p. 9.

  • A formao da oligarquia agrria na regio de So Mateus-ES no sculo XIX: redes de parentesco e relaes de poder

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    Cunha, aos escravos e aos ndios que ali trabalhavam, enfrentando os obstculos da mata

    virgem, as doenas, a falta de recursos e uma infra-estrutura do primeiro povoado que estava

    em formao. Oito anos aps a chegada dos cearenses, ocorreu a Abolio da Escravatura, e a

    mo-de-obra escrava foi sendo substituda pela mo-de-obra livre. Neste contexto, os

    fazendeiros davam preferncia mo-de-obra europia. Assim, a partir de 1889, comearam a

    chegar os primeiros colonos italianos Fazenda Serra de Baixo.

    A partir de 1888 comeam a chegar famlias italianas para o ncleo colonial de Santa

    Leocdia, s margens do Crrego Bamburral, afluente do Rio So Mateus. No final deste ano,

    esta colnia j era constituda, em mdia, de 400 colonos, quando o Governo Imperial a

    denominou de Santa Leocdia. Dos italianos chegados pouco tempo depois Fazenda Serra

    de Baixo, grande parte eram provenientes do ncleo de Santa Leocdia, outros subiram

    margeando o Rio Cricar e formando povoados s suas margens e s margens de seus

    inmeros crregos afluentes. Quando os italianos comearam a chegar ao povoado chamado

    de Serra dos Aimors10, por sugesto do prprio Major Cunha, houve um aumento

    significativo da populao trabalhadora na Fazenda Serra de Baixo, constituindo-se esse

    povoado no primeiro ncleo populacional fundado na regio (em 1870) pelo referido Major.

    Em virtude desse crescimento, a Fazenda Serra de Baixo passou a ser a sede desse povoado.

    Nesse momento crucial de transio da mo-de-obra escrava para a mo-de-obra livre,

    comeou a haver a poltica de desvios de imigrantes, que era promovida pelo Governo para

    suprir a mo-de-obra em diversas fazendas da Provncia. Isto explica o porqu dos desvios de

    imigrantes, situao muito citada para o caso dos colonos de Santa Leocdia, que deveriam ter

    ido para os ncleos coloniais centrais, (neste caso para a regio de Santa Tereza) e no para a

    regio de So Mateus11

    Neste contexto podemos observar as aes do poder local, como um empreendimento

    particular, de coronis e autoridades com amplos poderes, de uma oligarquia rural bem

    entrelaada, atuando de forma decisiva e autnoma na organizao scio-econmica regional.

    O nome de Antonio Rodrigues da Cunha ser muito citado em empreendimentos da regio,

    principalmente no municpio de So Mateus e Vila da Barra, por sua iniciativa particular ou

    por solicitao da provncia (compondo comisses ou para dar pareceres nos mais variados

    assuntos) em obras pblicas como construo e conserto de pontes, abertura de estradas, de

    10

    Serra dos Aimors passou a se chamar Aimoreslndia em 1894, quando elevado a distrito de So Mateus.

    Em 1902, por influncia dos italianos, passa a se chamar Nova Vencia. 11

    MURARI et alli. Histria, Geografia e Organizao Social e Poltica do Municpio de Nova Vencia.

    Prefeitura Municipal de Nova Vencia. Administrao 1989-1992, p. 25.

  • Maria do Carmo de Oliveira Russo

    10

    canais etc, em campanhas na rea de sade (vacinao, contratao de mdico), sem contar na

    organizao da Fora Pblica, j que era filho do Comandante Superior da Guarda Nacional

    do Norte (at 1863), se tornando tambm Major por essa Guarda, e posteriormente, tambm

    Comandante.

    A oligarquia no Segundo Reinado e a poltica imperial

    Embora associada com a Repblica Velha (1889-1930), a oligarquia agrria no Brasil

    surgiu e cristalizou-se no Segundo Reinado (1840-1889). As suas razes econmicas

    assentavam-se geralmente na economia agroexportadora, embora o setor comercial, em

    muitas regies, tambm se destacasse a ponto de exercer influncia poltica significativa.

    Ao sentido original do termo oligarquia - governo em que a autoridade est na mo de

    poucas pessoas - juntou-se no Brasil um significado mais especfico, alm das conotaes de

    poder econmico e poltico, que o de governo baseado na estrutura familiar patriarcal,

    geralmente assentada na grande propriedade da terra. Sendo assim, o conceito no Brasil

    encontra-se intimamente ligado idia de mundo agrrio e propriedade rural.

    A criao da Guarda Nacional em 1831, pelo Padre Diogo Feij - ento Ministro da

    Justia da Regncia Trina Permanente - tornou-se a referncia para a formao inicial de

    grupos oligrquicos no Brasil. Na conjuntura inaugural das Regncias, perodo de

    descentralizao das estruturas de poder, o ento Ministro Feij, colocando esta Guarda sob o

    seu comando, extinguiu outros corpos de milcias, inclusive as guardas municipais. Esta

    estratgia de criao de uma Guarda Nacional, alm de fortalecer o Governo Central,

    acarretou um aumento da receita, aps sua efetivao, pois posteriormente, suas patentes

    passam a ser vendidas pelo Governo a ricos proprietrios rurais. As patentes dessa milcia

    recrutada localmente com a finalidade de fortalecer a autoridade central, passam a ser obtidas

    em funo do poder aquisitivo, determinado na maioria dos casos, pela extenso da

    propriedade rural, embora essa no fosse condio sine qua non para a sua obteno.

    A partir de ento, o oligarca que dispusesse de fortuna e que no possusse o ttulo de

    bacharel, poderia adquirir um posto no oficialato da Guarda Nacional 12. A principal funo da

    Guarda, em mbito regional, era defender a propriedade dos fazendeiros, combater revoltas

    populares e ajudar na manuteno da escravido.

    12

    ARLO BARBOSA, C. R. A. O Cacau e seus Coronis (1900-1950). Ilhus, UESC, 1996, mimeo.

  • A formao da oligarquia agrria na regio de So Mateus-ES no sculo XIX: redes de parentesco e relaes de poder

    11

    Segundo Jos Murilo de Carvalho,

    a Guarda era quase totalmente autofinanciada, constitua um baratssimo mecanismo de

    controle da populao. Ao final, dava at lucro graas venda de patentes de oficiais. A Guarda

    dispensava a existncia de fortes polcias provinciais. [...] No entanto, a fora policial localizada

    nas provncias era, em 1880, de minguados 7.410 homens. Em contrapartida, a Guarda

    Nacional, neste mesmo ano, tinha um contingente de 918.017 homens 13

    .

    A mais alta patente da Guarda era a de coronel, adquirida independentemente da

    carreira militar, assim como a dos majores, tenentes-coronis e capites. Durante o Imprio,

    esses coronis com suas milcias, asseguraram a ordem interna.

    Em sua anlise, a historiadora Linda Lewin fala de um arranjo feito pelo Governo

    Central implicando um compromisso entre duas partes:

    Este arranjo foi na realidade um compromisso, pois a Guarda Nacional dependia dos

    proprietrios de terras locais para nela servirem como oficiais e recrutarem a soldadesca. Ela

    fortaleceu, portanto, o poder de polcia dos municpios em benefcio dos interesses locais. Todavia,

    ingressando na Guarda Nacional e comandando-a, os detentores do poder na poltica

    municipal aceitavam tambm uma burocracia nacional, por mais tnue que fosse a sua

    presena.14

    Neste perodo surgem novos partidos polticos, sendo introduzidas na esfera pblica

    do municpio famlias poderosas e extensas, os chamados cls parentais(na expresso de

    Oliveira Vianna) que transformar-se-iam em cls eleitorais15. Nessa conjuntura, abre-se

    espao a nvel local para o surgimento do coronelismo e do clientelismo, baseados em

    relaes de parentela. Para Maria Isaura de Queiroz, a parentela, alm de grupo econmico,

    era tambm um grupo poltico, cuja solidariedade interna garantia a lealdade dos membros

    para com os chefes 16.

    Um chefe partidrio local, geralmente um coronel da Guarda Nacional, atuava

    localmente como o intermedirio entre os interesses das famlias poderosas - da parentela - e o

    13

    CARVALHO, Jos Murilo de. Teatro de Sombras: a poltica imperial. R.J. Ed. UFRJ, 1996. p. 252. 14

    LEWIN, Linda. Poltica e Parentela na Paraba - um estudo de caso da oligarquia de base familiar. R. J.,

    Ed. Record, 1987. p.14 15

    OLIVEIRA VIANNA, J.F. Instituies Polticas Brasileiras, 2 vols. R.J., Jos Olmpio Ed., 1955. 16

    QUEIROZ, M. I. Pereira de. O mandonismo local na vida poltica brasileira e outros ensaios. S. P.: Alfa-

    mega, 1976.

  • Maria do Carmo de Oliveira Russo

    12

    governo central. O detentor do ttulo geralmente era proprietrio rural, entretanto, havia

    coronis que pertenciam a outras classes sociais, tais como mdicos, comerciantes, padres,

    advogados etc. Pois a grandeza do ttulo se concentrava nos aspectos econmicos e polticos e

    no na questo do comando, ou seja, coronel era aquele que monopolizava o poder pblico,

    utilizando-se de sua influncia poltica e poder pessoal, podendo tambm os capites e os

    majores possuir a mesma autoridade simbolizada pelos coronis.

    Em relatrio de 23/05/1862, o Presidente da Provncia do Esprito Santo, Costa Pereira

    Jr., ressalta que concebe (pesarosamente!) a Guarda Nacional como lcus de clientelismo

    poltico, afirmando que v

    essa grande e nobre instituio, uma das filhas dilectas da civilisao moderna,

    acommettida pelos assaltos funestos do esprito de partido, que tudo desvirtua tudo estraga,

    sacrifica a justia ao capricho ou affeio; - o mrito camaradagem eleitoral, a severidade da

    disciplina s indulgncias dos compromissos polticos.17

    O coronel podia possuir influncia local, e mesmo provincial, porm limitada em nvel

    de governo central. Este era o modelo proposto pelo centralismo imperial. o caso da

    oligarquia mateense, representada pelo Coronel Antonio Rodrigues da Cunha e ampliada pelo

    seu filho de mesmo nome, o Major Cunha ou Baro de Aimors, os quais possuram o

    controle do poder poltico local durante todo o perodo imperial, pois ambos eram da regio

    (no necessariamente nascidos) e nela fizeram carreira poltica e fortuna, alm de uma

    numerosa prole que, por sua vez, ampliou as relaes polticas da famlia.

    Embora esta fosse regra geral, poderia tambm haver excees, ou seja, haver uma

    limitao da influncia poltica do coronel no municpio. o caso do Baro de Itapemirim no

    sul da provncia - que possua ampla influncia perante o governo provincial e central e muito

    pouca a nvel local. Diferentemente de Aimors, o Baro de Itapemirim, apesar de ser o

    homem de maior fortuna naquela regio do Esprito Santo, nunca conseguiu implantar sua

    autoridade poltica em nvel municipal de forma efetiva. No possua razes regionais (era um

    paulista que fora estabelecer-se ali e prosperara) se tornando chefe do partido liberal local, o

    que ativava a oposio da famlia Bittencourt, ligada ao partido conservador, cujos elementos

    j estavam estabelecidos no local h muito mais tempo.

    17

    Relatrio de 23/05/1862, p. 15.

  • A formao da oligarquia agrria na regio de So Mateus-ES no sculo XIX: redes de parentesco e relaes de poder

    13

    Apesar da enorme fortuna e pessoal do Baro [Itapemirim] na Corte, que o fez, por

    vrias vezes ser escolhido pelo governo para presidente da provncia, os Bittencourt, no lhe

    permitiam sequer ganhar uma eleio no seu lugar, o Itapemirim. Como o Baro era, em relao

    aos outros, um recm-chegado, fortuna e prestgio junto ao governo no lhe valiam as pugnas

    eleitorais que se travavam no municpio, pois os eleitores j estavam presos por laos de sangue,

    amizade ou dependncia aos ocupantes mais antigos. 18

    O poder de controle das eleies municipais caracterizava da melhor forma o papel e o

    poder do coronel. Porm no era a nica forma de alcance do status do poder poltico

    regional, visto que este estava tambm intimamente ligado ao poderio econmico,

    propriedade da terra e, s vezes, obteno de ttulos acadmicos, como o de bacharel em

    Direito.

    Neste sentido, podemos afirmar que existiram vrias modalidades de coronelismo,

    variando este de regio para regio, assim como tambm formaram-se oligarquias

    diferenciadas, principalmente do ponto de vista da propriedade da terra e da riqueza

    acumulada. Entretanto, em mbito nacional, o advento desses fenmenos obedeceu a algumas

    regras bsicas.

    Reafirmando o esforo de centralizao administrativa e poltica iniciado na dcada de

    1840 pelo governo de Pedro II, como j nos referimos, a dcada de 1850 marcada pela Lei

    de Reforma da Guarda Nacional, em que o preenchimento de todos os postos de oficiais dessa

    Guarda foi colocado sob a responsabilidade de agentes do governo central. A partir de ento

    eliminado o processo seletivo para tais postos, dando ao governo maior capacidade de

    controle e maior poder de cooptao sobre os proprietrios rurais19, sendo a nomeao de toda

    a oficialidade da Guarda Nacional colocada nas mos do Ministro da Justia.

    Com uma formao tardia na Provncia do Esprito Santo, em relao a algumas

    provncias do Imprio, j que foi organizada somente em 1850 no governo do Presidente

    Pereira Leal, a Guarda Nacional capixaba efetivou-se diante de muitas dificuldades.

    Em 1863 falece o Comendador Antonio Rodrigues da Cunha, Coronel e Comandante

    da Guarda Nacional da Legio Norte, pai de Aimors. O ocorrido citado em relatrio do

    Presidente Pdua Fleury em 1864 - falleceo o commandante superior dos municpios de S.

    18

    QUEIROZ, M. I. Pereira de. O mandonismo local na vida poltica brasileira e outros ensaios. S. P.: Alfa-

    mega, 1976. p. 88. (Op. cit. A. Taunay, ob. cit., p.319, v. III, tomo I). 19

    CARVALHO, Jos Murilo. Teatro de Sombras: a poltica imperial. R.J. Ed. UFRJ, 1996. p. 236.

  • Maria do Carmo de Oliveira Russo

    14

    Matheus, Barra, Linhares, Santa Cruz e Nova Almeida, o Coronel Antonio Rodrigues da

    Cunha, e este posto ainda se conserva vago.20

    Aps a morte do Comendador Antonio Rodrigues da Cunha, o comando da Guarda

    Nacional do Norte da Provncia passou ao Tenente-coronel Matheus Antonio dos Santos.

    Depois passou ao Baro de Timbu, e com o falecimento deste, volta o comando para a

    famlia Rodrigues da Cunha, em 1884, quando por decreto, nomeado o major Antonio

    Rodrigues da Cunha (Baro de Aimors) para o posto de Coronel Comandante Superior da

    Guarda Nacional das Comarcas de So Matheus e Santa Cruz.

    Nesta conjuntura especfica - capixaba - mas tambm em mbito nacional, a

    centralizao da Guarda procurava fortalecer a posio do governo perante os proprietrios

    rurais cuja reao fora negativa em relao ao fim do trfico de escravos e regulamentao

    da propriedade rural, atravs da Lei de Terras, ambos no ano de 1850. Segundo alguns

    autores, ocorre neste perodo uma efetiva implantao do Estado nacional brasileiro, com a

    afirmao de uma elite poltica a nvel nacional, que passa a intermediar as relaes entre os

    proprietrios rurais e o Imperador.

    Alm das patentes da Guarda Nacional, dissemina-se tambm a distribuio de ttulos

    nobilirquicos, principalmente do baronato, que fornecido aos grandes proprietrios rurais,

    sobretudo aqueles que se distinguiam por seu poder e riqueza e no por sua projeo na vida

    poltica. O baronato era uma espcie de marca registrada dos grandes cafeicultores e a

    distribuio dos ttulos era uma forma de aproximao dos proprietrios rurais com a

    monarquia, que tentava pagar em smbolo de status o que esta lhe tirava em interesse

    material. 21

    Na Provncia do Esprito Santo esta distribuio de ttulos foi insignificante em relao

    a outras regies do pas, no ultrapassando em nmero de trs ou quatro, os casos que

    podemos considerar como ttulos originais, ou seja, doados pelo Imperador e validados at 15

    de novembro de 1889, quando ocorre a queda da monarquia, e, portanto, o fim da validade

    oficial do ttulo. Enquanto somente nos ltimos cinco anos do perodo imperial, foram

    distribudos 238 ttulos de baro em todo o pas, os proprietrios rurais da Provncia capixaba

    durante todo o Segundo Reinado, no receberam mais do que o irrisrio nmero j citado.

    Pode-se dizer que o Esprito Santo possuiu apenas um baro para a representao de

    cada uma das trs principais regies da Provncia, no perodo imperial, isto : o Baro de

    20

    Relatrio de 20/10/1864, do Presidente da Provncia do Esprito Santo Andr Augusto de Pdua Fleury.

    Arquivo Pblico do Estado do Esprito Santo. Biblioteca Digital, 1999. 21

    CARVALHO, Jos Murilo. Teatro de Sombras: a poltica imperial. R.J. Ed. UFRJ, 1996. p.

  • A formao da oligarquia agrria na regio de So Mateus-ES no sculo XIX: redes de parentesco e relaes de poder

    15

    Itapemirim como o nico baro da regio sul (embora seu genro e seu filho tenham sido

    tambm agraciados com o mesmo ttulo, mas como seus sucessores e isso ocorreu nos ltimos

    dias do Imprio); o Baro de Monjardim, o nico da regio central - muito atuante no

    governo provincial, mas que tambm s se tornou baro s vsperas da Proclamao da

    Repblica; e o Baro de Aimors, no norte, que, embora tambm tenha recebido o ttulo

    nobilirquico nos ltimos trs meses do Imprio, pode ser considerado a maior autoridade

    poltica da regio at 1889. O Baro de Timbu, personalidade destacada da vila da Barra de

    So Mateus, embora possuindo influncia poltica e se tornando baro desde 1874, no

    constitui uma referncia de formao oligrquica propriamente dita, pois no se casou e no

    teve filhos reconhecidos, sendo, inclusive, discutida a sua origem de nascimento - tanto o

    local quanto a data.

    Ao contrrio da ampla distribuio de patentes da Guarda Nacional no pas e tambm

    na Provncia do Esprito Santo, em todos os escales, a escassez de ttulos nobilirquicos

    nesta Provncia, talvez se explique pelo fato de que o fortalecimento de uma elite agrria

    local, politicamente firmada, s veio a ocorrer com o desenvolvimento da lavoura cafeeira, j

    na Proclamao da Repblica, ou seja, mais tardiamente em relao ao processo de formao

    da elite agrria fluminense, paulista e mineira.

    O cultivo do caf trouxe, indiscutivelmente, novas possibilidades de desenvolvimento

    para a Provncia do Esprito Santo, passando a ser o principal produto de exportao a partir

    de 1854, sendo sua produo intensificada a partir da dcada de 1870.

    Sem embargo, a expanso cafeeira nesta Provncia, implicou a expanso da escravido

    e acarretou a formao de poucos, mas autnticos, grupos oligrquicos assentados na grande

    propriedade rural com base escravista. Principalmente no sul - devido proximidade com a

    Corte e a influncia da cafeicultura fluminense - mas tambm no norte, tanto na regio de

    Linhares quanto em So Mateus.

    Para a defesa de seus interesses, as famlias capixabas que compunham as oligarquias,

    seguindo o modelo das oligarquias nacionais, trataram de ampliar as suas formas de

    solidariedade horizontal, criando lojas manicas, constituindo sociedades polticas tais

    como os movimentos defensores e emancipacionistas.

    As divises partidrias no foram suficientemente profundas, salvo em raras ocasies,

    para romper os laos criados pelos casamentos entre famlias proprietrias. Esses laos eram

    to bem amarrados, que apagavam at mesmo os frgeis limites regionais e provinciais. Por

    meio de uma poltica de casamentos essas oligarquias tambm tendiam a atrair para sua

  • Maria do Carmo de Oliveira Russo

    16

    rbita, jovens oriundos de famlias no proprietrias, mas que haviam se tornado bacharis em

    Direito, formados em Coimbra, ou nos cursos jurdicos de Olinda e de So Paulo.

    Entretanto, o mais comum nas formaes oligrquicas brasileiras no perodo estudado,

    era o casamento entre parentes, com base em combinaes no interior da famlia, prtica esta

    que remonta aos tempos coloniais e a Portugal. Historicamente, esta prtica definia um

    casamento preferencial entre primos, proporcionando um impulso para o casamento

    consangneo no interior da elite rural, pois este era visto como preservando alm da limpeza

    do sangue, a propriedade e o poder. Segundo Lewin,

    a endogamia estendia-se a casamentos que, em outras sociedades crists, eram proibidos

    pelo tabu do incesto; encontravam-se regularmente no Brasil os casamentos de tios com

    sobrinhas ou de tias com sobrinhos. [...] Os casamentos de elite entre primos e at mesmo

    entre parentes colaterais mais prximos ilustra como a fora do parentesco consolidava e

    mantinha redes de poder econmico e poltico, bem como a coeso do grupo familiar. 22

    Nessa situao, podemos afirmar que no Brasil o casamento endogmico consolida a

    propriedade rural, no contexto de um sistema de herana baseado na partilha, j que esta tende

    a fragmentar a propriedade entre os descendentes diretos. Suas implicaes patrimoniais

    transformam a parentela num grupo quase-corporativo 23.

    Atravs de um exemplo especfico, pode-se apreciar melhor a identidade de uma

    parentela como um grupo quase-corporativo, assim como suas relaes de poder interno e a

    cultura poltica praticada pelos seus lderes. Neste contexto, a parentela do Comendador

    Antonio Rodrigues da Cunha proporciona uma excelente exemplificao, porque alm de

    elucidar o papel da propriedade territorial, fornece tambm as caractersticas da organizao

    de parentesco no Esprito Santo, mantendo a identidade da famlia extensa como unidade

    coordenada. Uma sucinta reconstruo da histria de sua famlia atravs de trs geraes

    confirma a importncia das estratgias matrimonias endogmicas, assim como torna-se

    facilmente compreensvel a rpida cristalizao da sua rede de influncia poltica regional.

    A famlia Rodrigues da Cunha: poltica e escravido

    22

    LEWIN, Linda. Poltica e Parentela na Paraba - um estudo de caso da oligarquia de base familiar. R. J.: Ed. Record, 1987. p.130/131. 23

    Ibidem, p.142.

  • A formao da oligarquia agrria na regio de So Mateus-ES no sculo XIX: redes de parentesco e relaes de poder

    17

    Como j nos referimos anteriormente, a Vila de So Mateus foi formada em 1764,

    pelo Ouvidor da Capitania de Porto Seguro, Thom Couceiro de Abreu.

    Naquela poca j existiam no povoado, quatro membros da famlia Cunha e dois da

    famlia Gomes dos Santos 24. Da fuso dessas duas famlias surgiu a famlia Gomes da Cunha,

    cuja rvore genealgica tem por princpio o casal Antonio Rodrigues da Cunha (nascido

    em1793 e falecido em 1863) e dona Rita Maria da Conceio Gomes da Cunha (falecida na

    dcada de 1870).

    Antonio Rodrigues da Cunha era proprietrio da Fazenda So Domingos, situada

    margem do Rio So Domingos, afluente do Rio So Mateus. Segundo relatos, essa fazenda

    tinha engenho de cana-de-acar e bolandeira de casa de farinha de mandioca, criao de

    gado vacum e cavalar. Toda a produo de acar e de farinha era exportada em barcos vela,

    de propriedade da fazenda para a firma Faria Cunha, do Rio de Janeiro. Esta firma era

    composta pelos scios Manoel Jos de Faria e Reginaldo Gomes da Cunha, respectivamente,

    genro e filho de Antonio Rodrigues da Cunha25.

    Prximo Fazenda So Domingos se aquilombaram os negros liderados por Silvestre

    Nag e por Negro Rugrio. Dona Rita da Conceio Cunha era considerada a maior

    proprietria de terras da vila da Barra de So Mateus (atual Conceio da Barra), sendo

    tambm uma das maiores produtoras de farinha de mandioca da Provncia, graas ao bom

    relacionamento com o quilombo liderado pelo Negro Rugrio, tambm conhecido como

    quilombo de Santana. Negociava farinha com os quilombolas e somente aps a sua morte o

    quilombo foi destrudo, em 1882.

    Segundo Nardoto,

    Dona Rita Cunha era quem exercia o controle do partido de oposio ao Imprio, apesar

    do seu marido ser quem controlava o partido do Imperador, em So Mateus. bom lembrar

    que mulher nem votava naquela poca. Dona Rita tambm possua muitos escravos e um

    deles, o Negro Rugrio, aquilombou-se em suas terras, na localidade de Santana, em Conceio da

    Barra. Atravs de um acordo o Quilombo produzia farinha para Dona Rita exportar e recebia

    proteo. [...] Os descendentes dessa senhora, inclusive Eduardo Duro Cunha, historiador j

    citado, contam que aos domingos se sentava sada da Igreja Matriz, com seus 120 quilos,

    com cordes e pulseiras de ouro pendurados, para distribuir patacas (moedas) para a garotada

    24

    Os quatro nomes da famlia Cunha, so os seguintes: Antonio Rodrigues da Cunha; Joo Ozrio da Cunha;

    Luiz Fernandes da Cunha e Domingos da Cunha. Os dois nomes da famlia Gomes dos Santos, so os seguintes:

    Igncio Gomes dos Santos e Joo Gomes dos Santos. 25

    JORNAL DE SO MATEUS, n . 465, de 20/09/2001.

  • Maria do Carmo de Oliveira Russo

    18

    que lhe vinha pedir a beno. Depois da morte de Dona Rita as Foras do Governo invadiram

    o quilombo do Negro Rugrio e destruram tudo, matando muitos negros 26

    .

    Embora o autor esteja equivocado em relao questo da oposio partidria

    exercida por Dona Rita ao Imprio, visto que j fato consumado na historiografia brasileira

    que tanto o partido Liberal quanto o Conservador eram controlados pelo Imperador Pedro II,

    portanto, no havendo na realidade, o que podemos chamar de oposio partidria, esta

    citao muito significante pois traa um perfil da personalidade de Dona Rita, que um

    dos pilares principais para a formao oligrquica em estudo.

    Confirmando as informaes de seus descendentes, o escritor Maciel de Aguiar

    complementa que Dona Rita,

    nunca foi rigorosa no trato com pretos incultos e preguiosos[...] Dona Rita Cunha,

    presidente do Partido Liberal, e que fazia oposio ao prprio marido, Antonio Rodrigues da

    Cunha, presidente do Partido Conservador, era de muita habilidade poltica e capaz de fazer

    acordo com os escravos fugidos, protegendo-os contra as capturas, e com isso ampliar sua

    produo de farinha de mandioca27

    .

    Facilmente podemos concluir que a oposio liberal exercida por Dona Rita era

    quase simblica, visto que o Partido Conservador em So Mateus sempre foi muito fiel ao

    Imperador, antes ou aps a morte do Coronel Antnio Rodrigues da Cunha, em 1863, quando

    o partido passa para a liderana do filho, o futuro Baro de Aimors, at ento Major da

    Guarda Nacional. A oposio liderada por D. Rita fazia parte do jogo poltico mantido pela

    famlia, cujo centro do poder estava nas mos do patriarca, necessitando assim de um

    equilbrio poltico que s poderia ser conseguido atravs de uma tnue bipolaridade partidria.

    Sobre esse assunto, nos relata muito bem o Presidente Pedro Leo Velloso em 1859,

    ressaltando que:

    No temos que lastimar nesta provncia, a existncia de faces violentas, que, noutras,

    tem sulcado profundas scises, e gerado rancorosos dios; podemos ainda asseverar, sem medo de

    errar, que no h aqui partidos polticos.[...] Numa ou noutra localidade noto-se divergncias,

    26

    NARDOTO, Eliezer e LIMA, Herinia. Histria de So Mateus, p. 41. 27

    Eduardo Duro Cunha. Apud AGUIAR, Maciel de. Os ltimos Zumbis: a saga dos negros do Vale do Cricar

    durante a escravido. Porto Seguro: Brasil-Cultura, 2001, p. 66.

  • A formao da oligarquia agrria na regio de So Mateus-ES no sculo XIX: redes de parentesco e relaes de poder

    19

    mais ou menos pronunciadas, nascidas de pretenses individuaes, e cimes de influncia; as quaes

    no embarao a aco da authoridade, e accesas nas quadras eleitorais, quase que de todo chego a

    apagar-se, passado o calor da batalha.28

    Antonio Rodrigues da Cunha, o pai, era a maior autoridade da regio, sendo

    Comendador da Ordem de Cristo e da Imperial Ordem da Rosa, as duas maiores e mais

    importantes comendas do Imprio Brasileiro, e era tambm Comandante Superior da Guarda

    Nacional da Regio Norte da Provncia, com a patente de coronel. Ganhou notoriedade na

    Provncia e bons contatos junto a Corte que, por sua vez, costumava privilegiar os maiores

    proprietrios rurais de cada regio. Como poltico, notabilizou-se por ter apoiado a separao

    de So Mateus de Porto Seguro e o retorno Capitania do Esprito Santo. Com tais poderes,

    podemos ter uma dimenso da influncia de sua proteo s aes de sua esposa Dona Rita

    junto ao quilombo de Santana. Tanto foi que s aps a sua morte e a de Dona Rita o quilombo

    foi desmantelado pelas foras do governo, em 1881.

    A partir da dcada de 1840, a ordem estratificada da sociedade brasileira comeava a

    dar formas visveis prtica clientelista, mobilizando os indivduos inseridos dentro dessa

    ordem a aes voltadas para tal prtica. O sistema clientelista baseava-se fundamentalmente

    na famlia, unidade bsica da sociedade.

    Nesta conjuntura, Antonio Rodrigues da Cunha, que ocupava uma posio oficial da

    Guarda Nacional, no constituir uma exceo regra: com os recursos de ser lder de uma

    numerosa prole de doze filhos, consolidou-se como o pilar de um bem estruturado sistema

    scio-econmico com base escravista e na propriedade da terra e amparado numa formao

    poltica de tipo coronelista.

    O clientelismo, por sua vez, assentado em prticas paternalistas ou coronelistas,

    baseado em noes de obedincia e lealdade, e significar tanto o preenchimento de cargos

    governamentais quanto a proteo de pessoas humildes, mesmo os trabalhadores agrcolas

    sem terra29. A posse de terras e de escravos ir influenciar diretamente na formao de uma

    clientela. Possuindo uma forma prpria, no peculiar, mas sem comum no Brasil, as relaes

    sociais e polticas em So Mateus consistiram em uma troca de proteo por lealdade e

    benefcios por obedincia, o que pode ser atestado atravs das eleies.

    28

    Relatrio de 25/02/1859, p.6. Biblioteca Digital do APES. 29

    GRAHAM, Richard. Clientelismo e Poltica no Brasil do sculo XIX. R.J.: Ed. UFRJ, 1997.

  • Maria do Carmo de Oliveira Russo

    20

    A famlia e a domstica constituam os fundamentos de uma estrutura de poder

    socialmente articulada, e o lder local e seus seguidores trabalhavam para ampliar essa rede de

    dependncia. Numa sociedade predominantemente rural, um grande proprietrio de terras contava

    com a lealdade de seus trabalhadores livres, dos sitiantes das redondezas e dos pequenos

    comerciantes da vila, lealdade que seria demonstrada por vrias maneiras, no menos pelo

    apoio nas eleies 30

    .

    Sabemos que fato consumado na histria do Brasil agrrio, o poder dos grandes

    latifundirios sobre seus dependentes, e de suas alianas com outros proprietrios por meio de

    laos familiares. E tambm, que as autoridades em geral eram muito sensveis aos interesses

    agrrios, isto quando no eram elas prprias proprietrias de terra e de escravos, o que refora

    os laos de ajuda mtua.

    Os Gomes da Cunha so exemplos, visto que o Comendador Antonio Rodrigues teve

    doze filhos com Dona Rita, e cinqenta e nove netos, sendo que praticamente todos os seus

    filhos se casaram com pessoas ligadas a famlias ascendentes economicamente, ampliando e

    fortalecendo assim uma oligarquia que se perpetuar no poder at meados do sculo XX, com

    base em extensa parentela. Entre estas famlias podemos citar os Santos Neves, os Gomes

    Sodr, os Esteves, os Abel de Almeida, os Faria Lima e os Silvares entre as principais.

    E, dentre os filhos do Comendador, a figura de Aimors desatacou-se mais, pois alm

    de fazer fortuna e manter a influncia poltica do pai, teve ainda onze filhos, os quais

    reforaram o carter oligrquico da famlia atravs de casamentos com elementos oriundos da

    grande propriedade rural, reafirmando assim o carter das relaes polticas econmicas e

    sociais em bases parentais.

    A oligarquia mateense e a poltica de parentela

    Como j afirmamos, em algumas comunidades agroexportadoras e/ou mercantis, a

    endogamia fazia parte de uma estratgia matrimonial com o objetivo de garantir a

    perpetuidade das riquezas e a solidez das empresas. Por exemplo, o comrcio porturio de So

    Mateus pode ser caracterizado como uma comunidade mercantil coesa pelos laos de

    consanginidade. O exemplo das carreiras militares e mercantis do Comendador Antonio

    Rodrigues e do Baro de Aimors serve para pensarmos a importncia das suas escolhas

    matrimoniais e tambm a de seus filhos.

    30

    Ibidem, p.17.

  • A formao da oligarquia agrria na regio de So Mateus-ES no sculo XIX: redes de parentesco e relaes de poder

    21

    O Baro passou por trs casamentos, o que fortaleceu a sua posio social enquanto

    poltico e negociante.

    Para uma anlise inicial da cristalizao da oligarquia mateense, tomamos como

    referncia a figura do j citado Baro de Aimors, que alcanou grande projeo a nvel local

    e provincial, sendo considerado a personalidade mais destacada da histria do municpio no

    perodo Imperial. Major da Guarda Nacional e Baro dos Aimors por Decreto Imperial de 24

    de agosto de 1889 (lembrando que em 15 de novembro de 1889 proclamada a Repblica, e

    os ttulos nobilirquicos perdem, a partir de ento, a sua validade oficial), o Baro foi

    proprietrio das famosas fazendas Cachoeira do Cravo, do Centro e Serra de Baixo. Nascido

    em 1834, veio a falecer em1893, aps trs casamentos, deixando onze filhos. Herdou do pai a

    posio de chefe poltico do Partido Conservador em So Mateus.

    De seu primeiro casamento com Dona Thomzia, filha do Baro de Itapemirim, o

    mais destacado poltico do sul da Provncia no perodo imperial, Aimors teve dois filhos,

    ambos casados com famlias de proprietrios mateenses - Leocdia, casada com Antonio

    Gomes Sodr e Antonio Rodrigues da Cunha Jnior, casado com Francisca Moreira Gomes da

    Cunha.

    Do segundo casamento, com Theodsia Vieira da Cunha, irm do Baro de Rio das

    Flores (do Vale do Paraba fluminense), destaca-se sua filha Rita Cunha, casada com

    Ceciliano Abel de Almeida, primeiro prefeito de Vitria e um dos pioneiros do projeto de

    construo da estrada de ferro Vitria Minas. Tambm se destacam deste segundo

    casamento, os filhos: - Theodsia e Tito Cunha, ambos casados na famlia Santos Neves; e

    Wantuil Rodrigues da Cunha, coronel da Guarda Nacional, posteriormente Presidente do

    Governo Municipal e deputado por So Mateus, tambm casado com elemento da famlia

    Santos Neves.

    Tambm alguns irmos de Aimors, ou seja, outros filhos do Comendador

    enveredaram-se no campo da poltica, entre esses, Constantino Gomes da Cunha, eleito

    deputado para a Assemblia Legislativa Provincial do Esprito Santo na legislatura de 1868 e

    o Coronel Matheus Gomes da Cunha eleito na legislatura de 1876.

    Este ltimo foi outro que sobressaiu regionalmente entre os Cunha, pois Matheus era

    coronel da Guarda Nacional e casado com Romana Esteves da Cunha, sua sobrinha (filha de

    sua irm Laura Gomes da Cunha e do Capito Gothardo Jos Esteves).

    Segundo a verso popular e o relato oral de seus descendentes, entre eles o j citado

    historiador Eduardo Duro Cunha, a primeira esposa de Matheus, Romana, jogou uma criana

    filha da escrava Constana de Angola dentro de uma fornalha, na sede de sua Fazenda Boa

  • Maria do Carmo de Oliveira Russo

    22

    Esperana. Este episdio repercutiu gerando uma m reputao para Matheus, tornando-se

    referncia para o nome da Fazenda. considerado o fundador do atual municpio de Boa

    Esperana, e na Repblica novamente se elegeu deputado estadual, exercendo influncia na

    Assemblia Legislativa.

    Tambm o nome de Reginaldo Gomes da Cunha no pode deixar se ser citado entre os

    irmos de Aimors, ou melhor, entre os filhos do Comendador Antonio Rodrigues da Cunha.

    Tambm condecorado Comendador - assim como o pai - Reginaldo vivia no Rio de Janeiro,

    se tornando um rico comerciante e possuindo certa influncia na Corte, tornando-se assim um

    representante da comercializao da produo da famlia no Rio de Janeiro. Atuava como

    informante ao seu irmo Antonio da poltica nacional e dos acontecimentos da Corte.

    Segundo Nardoto e Duro, atuou como informante de Aimors das conquistas relativas ao

    processo de Abolio da Escravatura, advertindo-o sobre a sua iminncia. Atravs de sua

    influncia junto ao Consulado da Itlia, conseguiu para o Baro que imigrantes italianos

    fossem enviados a So Mateus para a fundao de uma colnia em terras prximas s suas, a

    colnia de Santa Leocdia.

    No podemos deixar de fazer referncia tambm irm de Aimors, Constana

    Gomes da Cunha, casada com o mdico Graciano Santos Neves, e me de Graciano Santos

    Neves Filho, poltico que fez parte da Junta que governou o Esprito Santo no perodo

    conturbado do incio da Repblica. Eleito deputado federal aos 22 anos de idade e governador

    do Esprito Santo aos 28, nos primeiros anos da Repblica, renunciou ao governo do Estado

    em 1897. Tambm mdico e botnico, era muito reconhecido por seus talentos. Embora com

    curto tempo de mandato frente do governo capixaba (1896/1897), destacou-se na histria do

    governo do Estado.

    No podemos tambm deixar de citar outra irm do Baro, Rosa Gomes da Cunha,

    casada com o Major da Guarda Nacional Jos Gomes Sodr, me do Dr. Constante Sodr,

    poltico que exerceu mandatos no final do perodo imperial, se tornando tambm vrias vezes

    vice-governador, e nesta qualidade, exercendo o Governo do Esprito Santo no incio da

    Repblica.

    Enfim, baseado neste sucinto levantamento de um tronco genealgico, e de rpidas

    incurses ao de outras famlias, as quais interceptaram esse tronco, podemos observar de

    imediato a evidncia da estratgia de formao de um autntico cl parental, atravs dos

    casamentos entre membros da prpria famlia ou de famlias poderosas. Formando um cl

  • A formao da oligarquia agrria na regio de So Mateus-ES no sculo XIX: redes de parentesco e relaes de poder

    23

    parental, segundo a expresso de Oliveira Vianna 31, a unio significava um ponto de reforo

    nas relaes econmicas, polticas e sociais. Outros entrelaamentos entre famlias de

    comerciantes e produtores latifundirios podem ser observados e associados ao tronco bsico

    da formao oligrquica mateense, a exemplo das famlias Fundo, Silvares, Rios entre

    outras. Os Fundo, originalmente Alves de Lima, se destacam como grandes comerciantes e

    proprietrios rurais. Temos o registro de que Erclia, filha de Leonel Fundo, poderoso

    comerciante, foi a terceira esposa do Baro de Aimors. Casou-se com 20 anos e no teve

    filhos com o Baro.

    Para o caso do Coronel Olindo Gomes dos Santos Paiva, o Baro de Timbu,

    agraciado com o ttulo em 1874, tambm poderoso em sua riqueza e influncia poltica,

    devido ao fato de no ter se casado e no ter deixado herdeiro legal registrado, no

    interceptando ento o tronco bsico da oligarquia dos Gomes da Cunha, o mencionaremos

    apenas como referncia para a observao das relaes de poder regional, j que foi deputado

    provincial por trs legislaturas consecutivas, 1870, 1872 e 1874, sendo sua maior influncia

    na vila da Barra de So Mateus, onde se localizava a maior parte de suas terras. No ato de seu

    agraciamento como Baro citado por relevantes servios prestados humanidade, linha

    telegrfica do norte da provncia do Esprito Santo e em relao Guerra do Paraguai.

    Alm de Timbu, proprietrio da Fazenda Itanas, temos ainda o registro de nomes de

    outros grandes proprietrios rurais como Manoel Ribeiro Silvares, da Fazenda Roda Dgua,

    Jacinto Rodrigues, da Fazenda Jurema, Graciano Santos Neves (pai), da Fazenda Palhar,

    Jos Gomes Sodr, da Fazenda Crrego Grande, (os filhos destes dois ltimos tambm se

    casaram com elementos da famlia Rodrigues da Cunha), Otvio Jos Esteves e Jos Esteves

    entre outros.

    Consideraes finais

    A poltica imperial mantida no Segundo Reinado possibilitou a consolidao das

    oligarquias no pas, as quais encontraram nos partidos polticos formados na dcada de 1840 -

    Liberal e Conservador - ambiente propcio para cristalizar o seu domnio, cujo reforo foi

    dado pelo grande nmero de patentes da Guarda Nacional, que os elementos integrantes

    dessas oligarquias regionais adquiriram no perodo. Alm disto, nota-se a distribuio de

    ttulos nobilirquicos (sobretudo o baronato), aos fazendeiros abastados e/ou grandes

    31

    OLIVEIRA VIANNA, Jos F. de. Instituies Polticas Brasileiras, 2 vols. R.J., Jos Olmpio Ed., 1955. p.

    259/260.

  • Maria do Carmo de Oliveira Russo

    24

    proprietrios de terras que se destacaram em suas respectivas regies, cuja prtica fazia parte

    da estratgia do governo imperial, no sentido de manter inabalada a sua poltica de

    centralizao do poder.

    Nesse sentido podemos observar que as situaes relativas ao contexto mais amplo do

    pas, apresentaram diversas similitudes e/ou evidncias no processo histrico de So Mateus

    poca. Sendo assim, o objetivo primordial foi colocar em relevo a insero de So Mateus no

    contexto capixaba poca, identificando as relaes de poder verificadas no interior de sua

    sociedade.

    A expanso econmica e o domnio poltico dos Gomes da Cunha assentaram-se nas

    relaes matrimoniais mantidas no seio da prpria parentela ou com elementos pertencentes

    s famlias de grandes proprietrios rurais da Provncia. A oligarquia que esta famlia

    integrava pode ser caracterizada como de base agrria e comercial, onde o tronco familiar,

    cujo maior representante foi Antonio Rodrigues da Cunha, o Baro de Aimors, destacou-se

    como um autntico exemplo de cl parental. Neste contexto deu-se o crescimento das

    relaes clientelistas e o surgimento de uma ampla clientela no seio da sociedade local, com

    base coronelista, principalmente em torno da figura do Baro de Aimors em So Mateus, e

    do Baro de Timbu, em Vila da Barra.

    As condies naturais favorveis navegabilidade no Rio So Mateus tornou acessvel

    a comunicao entre o litoral (Vila da Barra) e o ncleo populacional de So Mateus, onde j

    se registrava uma significativa produo de farinha de mandioca. A importncia do porto

    fluvial no permitiu que este ncleo permanecesse isolado, servindo assim de entreposto

    comercial navegao existente na costa brasileira, no trajeto compreendido entre a Corte e

    as regies do norte, sobretudo a Bahia.

    A grande produo de farinha, a movimentao comercial registrada no porto

    (incluindo o comrcio de escravos e de madeiras), reforado pela introduo da cultura

    cafeeira na regio, alm do crescimento de outras atividades econmicas j existentes (tais

    como a produo do acar, a fabricao de aguardentes, a exportao de poaias, dentre

    outras), contriburam para o fortalecimento da oligarquia mateense, cuja maioria dos

    integrantes era possuidora de patentes da Guarda Nacional.