A exi stência como “cuidado”

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<ol><li> 1. A Existncia como Cuidado: Elaboraes Fenomenolgicas sobre a Psicoterapia na ContemporaneidadeResumo: Este trabalho aborda algumas noes existenciais elaboradas por Heidegger em sua Analtica da Existncia, enfatizan-doo existencial cuidado e suas possveis repercusses para a psicoterapia na contemporaneidade. Utilizamos as obras Ser etempo e Seminrios de Zollikon, especialmente, na parte intitulada Dilogos com Medard Boss. Fenomenologicamente, a cl-nicade estranhar e de meditar sobre os sentidos das relaes so raros, contudo, a experincia de adoecimento psquico convoca areflexo sobre a existncia. Em uma clnica de inspirao fenomenolgico-existencial, essa reflexo pode ser norteada pelosconstituintes ontolgicos da existncia, cuidado e liberdade. Heidegger afirma que o homem cuidado, porque ele cuidaontologicamente de si mesmo e dos outros entes, deixando-os aparecer. Embora, a existncia seja, essencialmente, liberdade, co-tidianamentecompreenso da co-pertinncia entre homem e mundo e da existncia como cuidado, naquele sentido ontolgico, implica umatransformao do olhar, revertendo preocupaes tcnicas de eficcia na soluo de sintomas para o plano da tica a das possi-bilidades53A r t i g o - E s t u d o s Te r i c o s o u H i s t r i c o sA Existncia como Cuidado:Elaboraes Fenomenolgicas sobre aPsicoterapia na ContemporaneidadeThe Existence as Care:Phenomenological Elaborations on Psychotherapy in ContemporaneityLa Existencia como Cuidado:Elaboraciones Fenomenolgicas Cerca de la Psicoterapia en ContemporneoDanielle de Gois SantosRoberto Novaes de Sse interessa pelos sentidos que o homem investe em sua existncia cotidiana. Nessas experincias cotidianas, os exercciosparecemos distrados quanto ao nosso poder-ser prprio e vulnerveis s crenas impessoais e s objetivaes. ARevista da Abordagem Gestltica - Phenomenological Studies XIX(1): 53-59, jan-jul, 2013de singularizao existencial.Palavras-chave: Psicoterapia; Existencialismo; Fenomenologia; Liberdade; Cuidado.Abstract: This paper addresses some existential notions elaborated by Heidegger in his Analytic of Existence, emphasizing theexistential care and its possible implications for psychotherapeutic nowadays. We use the work Being and Time and ZollikonSeminars, especially the section entitled Conversations with Medard Boss. Phenomenologically, a clinic is interested in thesenses invested by man in his everyday existence. In these everyday experiences, exercises of surprising and meditation onthe meanings of relationships are rare, however, the experience of mental illness invites reflection on existence. In a clinical ofexistential-phenomenological inspiration, this reflection may be guided by the ontological constituents care and freedom.Heidegger says that man is care because he cares ontologically about himself and the other beings, making them appear.Although, we are essentially free, daily we seem distracted to our own potentiality-for-being, and be vulnerable to the be-liefsand impersonal thoughts. Understanding the correlativeness between man, world and existence as care in that ontologicalsense, involves transforming the look, reversing technical concerns and effectiveness in resolving symptoms to the plane of theethics and existential singling possibilities.Keywords: Psychotherapy. Existentialism. Phenomenology. Freedom. Care.Resumen: En este trabajo se abordan algunas nociones existenciales elaboradas por Heidegger en su Analtica de la Existencia,haciendo hincapi en el cuidado existencial y sus posibles implicaciones para la psicoterapia en la poca contempor-nea.Utilizamos las obras Ser y tiempo y Seminarios Zollikoner, sobre todo en la parte titulada Dilogos con Medard Boss.Fenomenolgicamente, la clnica est interesada en la forma en que el hombre invierte en su existencia cotidiana. En estas ex-perienciascotidianas, los ejercicios de sorprender y meditar sobre el significado de las relaciones son poco frecuentes, sin em-bargo,la experiencia de la enfermedad mental convoca reflexin sobre la existencia. En una clnica de inspiracin fenomenol-gico-existencial, esta reflexin puede ser guiada por los mandantes ontolgico de la existencia, cuidado y libertad. Heideggerafirma que el hombre es cuidado, porque cuida ontolgicamente de s mismo y de los otros seres, haciendo que aparezcan.Aunque, nosotros seamos esencialmente libre, parecemos distrado diario com nuestro propio poder-ser, siendo vulnerables alas creencias y las objetivaciones impersonales. Comprender la co-relacin entre el hombre, el mundo y la existencia como cui-dadoen el sentido ontolgico, implica una transformacin de la mirada, la inversin de las preocupaciones tcnicas de eficaciaen la resolucin de los sntomas hasta el plano de la tica y de las posibilidades para la singularidad existencial.Palabras clave: Psicoterapia. Existencialismo. Fenomenologa. Libertad. Cuidado. </li><li> 2. Danielle de G. Santos &amp; Roberto N. de SIntroduoO presente artigo estrutura-se a partir de elaboraessobre o existencial cuidado, com destaque aos seus mo-dosde realizao na contemporaneidade. O cuidadoser considerado, aqui, como constituinte fundamentalda existncia desde a compreenso fenomenolgico-exis-tencialdo homem e nortear a reflexo sobre o cuidadopsicoteraputico. Especificamente, na clnica sob estaperspectiva fenomenolgica, o cuidado surge como te-mticaessencialmente articulada ao questionamento so-breo sentido da existncia cotidiana, das experinciasde sofrimento e de suas possibilidades de modulaes etransformaes.Algumas obras do filsofo alemo Martin Heidegger(1889-1976) foram utilizadas a fim de trazer subsdios sdiscusses, so elas: Ser e tempo (1927/1999), Seminriosde Zollikon (1987/2009) e as conferncias A poca das vi-sesde mundo (1938/1962), A Virada (1950/1976) e A ques-toda tcnica (1953/2010).O desenvolvimento do artigo se apresenta organiza-doem quatro momentos, marcados por subttulos queprocuram dar um ritmo reflexo. O primeiro momen-to,O sofrimento existencial na era da tcnica, procurasituar as experincias contemporneas de sofrimento apartir das transformaes do horizonte histrico de sen-tidoque instauram a modernidade tcnica. No segundomomento, Cuidado e liberdade como dimenses ontol-gicasda existncia, os aspectos ontolgico-existenciaiscuidado, liberdade e verdade so tematizados a par-tirda analtica da existncia e tomados como refernciapara investigar os fenmenos do sofrimento e sua com-preensoclnica.No terceiro momento, intitulado Pensando nossomodo contemporneo de existir e de cuidar, retoma-mosa meditao sobre a contemporaneidade, buscan-donos aproximarmos um pouco mais dos nossos mo-doscotidianos de ser, sofrer e cuidar. Por fim, o quartomomento, Ateno e compreenso no cuidado psico-teraputicoretoma e aborda mais detidamente a di-nmicas o c do acontecimento psicoteraputico sob o olhari r fenomenolgico-existencial. t s Nosso objetivo geral pensar os sentidos das expe-rinciasi H cotidianas de sofrimento, destacando as expe-rinciasu de adoecimento psquico e sua compreenso eo cuidado psicoteraputicos sob uma perspectiva fenome-nolgicas o c de modulao heideggeriana.i r Te s 1. O Sofrimento Existencial na Era da Tcnicao d u t Numa conferncia publicada sob o ttulo A pocas E das Concepes de Mundo (Die Zeit des Weltbildes),- Heidegger (1938/1962) aponta cinco fenmenos caracte-rsticoso g dos tempos modernos. Os dois primeiros so ai t r cincia e a tcnica, sendo esta entendida no como apli-caoA Revista da Abordagem Gestltica - Phenomenological Studies XIX(1): 53-59, jan-jul, 201354 daquela, mas como uma transformao autnomada prtica que impe a aplicao da cincia. O terceirofenmeno a reduo da arte dimenso da Esttica, isto, a obra de arte torna-se objeto de uma vivncia estticada subjetividade humana. O quarto fenmeno a redu-oda Histria ao horizonte da cultura - das realizaeshistricas importa aquilo que diz respeito aos valores dacultura humana. Finalmente, o quinto fenmeno aponta-do o desaparecimento dos deuses, o que no significauma excluso da religiosidade e, sim, a sua transforma-oem vivncia religiosa do sujeito com a proliferaodas interpretaes histricas e psicolgicas dos mitos edas religies.Entre esses fenmenos, Heidegger analisa mais deti-damentea cincia e a tcnica. Uma das transformaeshistricas mais essenciais para a plena instaurao dachamada poca Moderna justamente a constituiodesse modo de saber como lugar de verdade e legitima-odos discursos nas mais diversas reas da existncia.Perguntar pelo sentido significa, para o mundo moderno,perguntar pela razo de algo, enquanto o pensamentose restringe ao clculo. Calcular no se refere, aqui, aosignificado restrito de operao numrica e, sim, a todaapreenso e controle das coisas por meio de representa-esconceituais.O mundo moderno opera uma inverso com relaos perspectivas tradicionais que procuram manter emaberto, atravs da experincia de sacralidade do verbo, atenso entre as manifestaes existenciais do sentido esua fonte inefvel, irredutvel a causas e razes. O logosmoderno, ao invs de ser tomado como uma manifestaoparcial do logos enquanto abertura originria de senti-do,silncio de onde brota qualquer linguagem, tornou--se uma estrutura abstrata e universal, um meta-modeloformal capaz de gerar, por clculo combinatrio, todosos modelos possveis de informao. A linguagem e cl-culoinverteram as suas relaes: o clculo no maisuma possibilidade restrita da linguagem, mas o horizontetranscendental que fundamenta e governa qualquer lin-guagempossvel. O fato de que todas as disciplinas mo-dernasque tomam, de algum modo, a linguagem por ob-jeto,sentem-se cada vez mais vontade no mbito da sin-taxe,em detrimento da semntica, expressa tal inverso.Um sintoma deste modo contemporneo de ser a suaincapacidade evidente de lidar com os fenmenos queresistem de modo mais persistente a um enquadramen-tosob as categorias de significao disponveis: a dor, asolido, o amor, o envelhecimento e a morte. Na medi-daem que as experincias de angstia parecem semprerefratrias s respostas que o planejamento tcnico davida oferece, amplia-se a necessidade de desvio e controledessas experincias. Eliminar rapidamente o sofrimentopsquico eliminar qualquer experincia que questioneos limites aceitveis do horizonte cotidiano de sentido. por essa necessidade compulsiva de abafar tudo queameace a autonomia absoluta de sua perspectiva tcni- </li><li> 3. A Existncia como Cuidado: Elaboraes Fenomenolgicas sobre a Psicoterapia na Contemporaneidadeca, que a cultura do sc. XX tornou-se, na adequada ex-pressoanalgsicos, comportamento que parece ainda hoje emplena expanso.Enquanto projeto, a cultura moderna oscila entreo pessimismo ctico e o otimismo ingnuo. No primeirocaso, uma abertura unilateral dimenso do presente es-gota satisfao irrestrita dos desejos; no segundo caso, do-minapelo progresso, planejamento e estocagem de recursos.Ou nada depende de ns e, ante essa alienao fatalista, melhor aproveitar o momento, ou tudo depende exclu-sivamente necessidade de garantir o bem-estar futuro. Na verdade,essas posturas alimentam-se reciprocamente. Segundoesse modo de correspondncia ao sentido do tempo e domundo, a esperana s pode ser vivida como espera, daparte de um sujeito, por um objeto que ser acessvel numdado instante do tempo. Por isso, a esperana moderna,quando se d, sempre desconfiada, porque a esperan-a,como confiana, s tem lugar onde h lembrana daconjuntura originria de homem, mundo, tempo e ser.Entretanto, quanto mais a contemporaneidade seafirma como realizao cultural do modo calculante decorrespondncia ao sentido, mais realiza tambm, sem oquerer, a experincia das limitaes desse modo de aber-tura.o pressentimento incmodo do que no se deixa nivelar.Justamente a, na experincia do fracasso e da insufici-nciaquando ele , do ponto de vista tcnico, plenamente efi-cazde transformao do nosso modo de escuta e correspon-dnciatransformao, nem evitar o perigo, apenas impondo umatica ao uso instrumental da tcnica, mas a meditaodo homem, guiada pela angstia perante a incontornveldimenso trgica e finita da existncia, pode conduz-loa uma relao mais livre com a era da tcnica. Essa li-berdadesua dor no sentido em que, longe de dela se desfazer oude esquec-la, ele a habita (Heidegger, 1950/1976, p. 144).2. Cuidado e Liberdade como Dimenses Ontolgicas55A r t i g o - E s t u d o s Te r i c o s o u H i s t r i c o sde Kolakowski, (1981, Cap. IX) a cultura dostodo sentido ao imediatismo do consumo, que visaa dimenso do futuro como realizao asseguradade ns, e assim, no h tempo para viver frenteQuanto maior o esforo tcnico-calculante de ni-velamentodo sentido em que pode haver sentido, maiordo planejamento tcnico global (principalmentee bem-sucedido), que se geram as possibilidadesao sentido. O homem no pode, atravs da previ-soe do controle, conduzir a essncia da tcnica a umase assemelha quela de um homem que superaRevista da Abordagem Gestltica - Phenomenological Studies XIX(1): 53-59, jan-jul, 2013da ExistnciaEm sua analtica da existncia, elaborada em Ser eTempo, Heidegger investiga o modo de ser do homem,que ele denomina com os termos existncia, ser-a eser-no-mundo. O prefixo ex, de ex-istncia, signifi-cafora de e equivalente partcula a de ser-a e palavra mundo na expresso ser-no-mundo. As trsdesignaes indicam, portanto, a relao indissociveldo homem com o seu fora, com o seu a ou mundo.Nomeiam o homem a partir de sua relao essencial coma abertura de sentido, com a abertura do ser. Ser-a omodo de ser do ente que questiona sobre o sentido doseu ser, do ser dos outros entes e da totalidade dos entes,ainda quando, na maioria das vezes, no explicite de for-maelaborada esse questionamento na ocupao cotidia-nacom os entes. A questo do ser no , portanto, nestesentido, uma abstrao filosfica, o homem j , desdesempre, pr-ocupado com a questo do ser. Apesar de,inicialmente e na maioria das vezes, nos conduzirmos navida como se tudo j estivesse simplesmente dado antese independentemente de ns, e no houvesse nenhumaquesto pertinente relativa ao ser, esse modo de se com-portarno seno uma das correspondncias possveis questo do ser.Nesta perspectiva, a compreenso no uma com-petnciaespecfica da qual o homem pode ser mais oumenos dotado. Se o ser-a sempre ser-no-mundo-com,enquanto abertura em que se desvela o sentido de tudoque nos vem ao encontro, j somos sempre compreensoem nosso ser mais prprio. A compreenso , assim, umdos traos ontolgico-existenciais do nosso existir. Mas,essa compreenso nunca uma apreenso intelectual afe-tivamenteneutra e que s posteriormente acrescida dealgum sentimento. A abertura de sentido que nos cons-tituij , tambm, desde sempre, uma atmosfera afetivaque d tom e colorao quilo que nela vem luz. Essadimenso afetiva originria da existncia enquanto aber-turacompreensiva, Heidegger (1927/1999, cap. V) nomeiacomo disposio. Compreenso e disposio afetiva soexistenciais constitutivos do a do ser-a.A analtica dirige, ainda, o seu olhar para a coti-dianidadeda existncia (Heidegger, 1927/1999, cap.IV),descobrindo a a impropriedade e a impess...</li></ol>