a ética aristotélica

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SNTESE NOVA FASEV.

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N.

78 (1997): 383-410

A TICA ARISTOTLICA

Paulo Cesar Nodari UFMG BH

Resumo: A tica aristotlica. O objetivo deste artigo mostrar que o estudo da tica de Aristteles fundamental ao estudo da tica ocidental. A tica de Aristteles uma tica do bom senso, fundada nos juzos morais do homem bom e virtuoso. Neste sentido, mostraremos que a tica de Aristteles se articula a partir de uma pergunta fundamental: qual o bem supremo do homem e o fim a que tendem todas as coisas? Evidenciaremos, ento, que o bem supremo do homem a felicidade. a atividade da alma conforme a razo e a virtude. a atividade contemplativa do intelecto. Por fim, mostraremos brevemente que a verdadeira felicidade do homem bom e virtuoso est na sntese entre a vida contemplativa e a vida ativa. Palavras-chaves: Aristteles, tica, Virtude, Contemplao, Felicidade Summary: The aristotelian ethics. The aim of this article is intended to show that the study of the ethics in Aristotle is fundamental to the study of the occidental ethics. The ethics in Aristotle is an ethics of good sense, groundede in the moral judgements of good end virtuous man. In this sense, we will show that the ethics of Aristotle is compound from a fundamental question: What is the supreme good of man and the end to wich all things tend? We will make evidente thus that the supreme good of man is happiness. It is agency of the soul, in accordance with reason and virtue. It is the contemplative agency of the intellect. Finally, we will show briefly that the real happiness of a good and virtuous man rests in the synthesis between the contemplative life and the active life. Key words: Aristotle, ethics, virtue, contemplation, happiness

Sntese Nova Fase, Belo Horizonte, v. 24, n. 78, 1997

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I. Consideraes gerais acerca da tica aristotlicaestudo do pensamento de Aristteles fundamental ao es tudo da tica. Ningum consegue escrever e falar de tica sem falar e tratar de Aristteles, seja para inspirar-se, seguir ou criticar sua concepo. Aristteles foi o grande sistematizador da cincia ocidental1. O ponto de partida de Aristteles a reflexo acerca da cincia. Divide o saber em terico, prtico e poitico. Na sistematizao aristotlica do saber as cincias prticas vm em segundo lugar. Estas so hierarquicamente inferiores s cincias tericas, enquanto nas cincias prticas o saber no mais fim para si mesmo em sentido absoluto, mas subordinado e, em certo sentido, servo da atividade prtica.Estas cincias prticas, de fato, dizem respeito conduta dos homens, bem como ao fim que atravs dessa conduta eles querem alcanar, seja enquanto indivduos, seja enquanto fazendo parte de uma sociedade, sobretudo da sociedade poltica2.

O

Neste sentido, Aristteles o fundador da tica como cincia prtica, em contraposio tica como cincia terica intentada por Plato3. O pensamento tico de Aristteles, pode-se dizer, desenvolvido, sobretudo, nas obras: tica a Eudemo, tica a Nicmacos, Poltica e Grande tica. A tica a Nicmacos a obra tica mais importante de Aristteles e uma das obras que mais fortemente inspirou o pensamento ocidental. Para melhor entend-la, urge situ-la na evoluo do pensamento de Aristteles. A tica a Nicmacos, provavelmente, situa-se na fase insCf. MANFREDO ARAJO DE OLIVEIRA, tica e sociabilidade, So Paulo, Loyola, 1993, p. 55. 2 GIOVANNI REALE, Histria da Filosofia Antiga, V II, So Paulo, Loyola, 1994, p. 405. 3 Discordando de Plato, para Aristteles, o primado da prxis e no da teoria. O pensamento deve contribuir para a prpria atividade da vida humana. Aqui o pensamento no tem no prprio pensamento o seu fim, mas ele prefcio praxis. O fim da teoria contribuir para a bondade da prxis humana. Para Aristteles, o existir e o ser ticos supem a vida na plis. a condio da vida racional. Assim, o engajamento poltico pressuposio de teoria poltica. Para Aristteles, tica neutra contra-senso. Pretend-la significa desconhecer a estrutura especfica da cincia em questo. A reflexo tica o ato atravs do qual o homem rompe o carter opressor de todo ethos e transforma sua vida, at ento realizada ingenuamente no seio de determinado ethos, numa vida racional, produzida pela razo consciente de si. Da reflexo tica no resulta necessariamente a destruio do ethos vigente, mas, antes, a legitimao racional da ao humana, ou seja, a compreenso das razes que justificam tal modo de agir. Trata-se, em Aristteles, da unidade originria entre um fato e uma exigncia moral, isto , uma sntese entre o incondicionado e o condicionado. Ver a respeito, MANFREDO ARAJO DE OLIVERIA, op. cit., pp. 55-77.1

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trumental-mecanicista do pensamento aristotlico4. Esta fase comea, em 347, quando Aristteles deixa Atenas, aps a morte de Plato, e vai, provavelmente, at 335/334, quando Aristteles rompe com certos aspectos da doutrina platnica. Nesta fase, Aristteles renunciara a doutrina das idias e rejeita o pessimismo platnico. A concepo aristotlica do homem, neste perodo de transio, situa a alma hierarquicamente acima do corpo, mas sem dar-lhe qualquer transcendncia. O corpo um instrumento da alma e deve colaborar com ela na realizao da sua tarefa enquanto homem. A alma comanda e o corpo obedece. O corpo subordinado como instrumento da alma5. O corpo , total e exclusivamente, feito para o bem da alma6 Outro ponto importante a elucidar o mtodo aristotlico subjacente tica a Nicmacos. Aristteles no aceita o mtodo matemtico de Plato7. Condena absolutamente a exigncia de um mtodo geomtrico exato. Deve-se tratar de ganhar com o raciocnio, porm empregando os fenmenos como provas e como exemplos. Ademais, necessrio pr a norma filosfica em harmonia com as idias ticas imperantes, colocando de manifesto o ncleo de verdade encerrado nelas por meio de uma manipulao conceptual das mesmas8. Aristteles, na tica a Nicmacos, ope-se, explicitamente, aos que pedem um mtodo exato9. Este incompatvel com a natureza da tica. A cincia aristotlica a tica aplicada e no a cincia abstrata. A tica aristotlica uma tica do4 A respeito das fases da evoluo do pensamento aristotlico, ver MARCELO PERINE, Nas origens da tica Ocidental: tica a Nicmaco, in Sntese 25 (1982): 21-38. Ver tambm Giovanni Reale, op. cit., pp. 315-318. 5 tica a Nicmacos, VIII, 11, 1161 a. 6 Ver a este respeito, R. A. GAUTHIER, La morale dAristote, Paris, 1963, p. 18. 7 O procedimento metodolgico, em Aristteles, bem diverso daquele de Plato. A reflexo tica no pode partir do incondicionado. Deve partir da experincia ticoprtica. Trata-se, pois, no de partir da idia do bem enquanto tal, mas de fazer emergir o bem a partir da plis e das suas instituies. Ver a respeito, Manfredo de Arajo de Oliveira, op. cit., pp. 55-71. Aristteles foi o primeiro a oferecer uma apresentao consistente das disposies da ao constitutivas para uma vida bemsucedida, ou seja, para uma prxis racional. Para design-la, o filsofo utilizou uma nova expresso tica, criada a partir da palavra grega ethos. O termo grego designa o local de estada permanente e habitual, e, por conseguinte, tambm a morada do costume e da moral. Essa morada contm e orienta nosso agir, mas tambm reproduzida e modificada por ele. Aristteles refere-se disciplina que criou como a filosofia das coisas humanas (tica a Nicmacos, X, 9, 1181 b), diferenciando-a da filosofia terica. Ver a respeito, ROBERT SPAEMANN, Felicidade e benevolncia: ensaio sobre tica, So Paulo, Loyola, 1996, p. 27. 8 Cf. WERNER JAEGER, Aristotes, Mxico, Fondo de Cultura Economica, 1946, pp. 267-269. 9 Para bem compreender esta oposio de Aristteles ao mtodo matemtico, imprescindvel ter clareza da diferena entre as cincias exatas e a cincia tica. A cincia exata uma cincia demonstrativa, tem um raciocnio exato, parte dos primeiros princpios sendo estes adquiridos por abstrao dos dados sensveis. J a cincia tica no consiste em partir dos primeiros princpios, mas remontar aos princpios, parte no da inteligncia em si, mas disso que nos familiar, dos fatos e remonta razo subjacente, resgata os princpios da conduta. Alm disso, a cincia tica, deve: aceitar, aprovar sobre questes morais, as opinies gerais que repre-

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bom senso, fundada nos juzos morais do homem que possa considerar-se, em geral, bom e virtuoso. Aristteles procurou fundar sua tica referindo-se natureza humana como tal.

II. O bem supremo do homem: a felicidadeEsclarecidos esses aspectos preliminares, podemos, agora, iniciar, propriamente, a discusso do problema do bem supremo em Aristteles. Logo no incio da tica a Nicmacos, Aristteles d o tom geral de toda sua tica. Toda arte e toda investigao e igualmente toda ao e toda escolha tendem a algum bem10. Toda ao visa alguma coisa e de sua tendncia a produzir esta coisa ela tira seu valor. A tica aristotlica nitidamente teleolgica. Aristteles interpreta a ao humana segundo a categoria de meio e fim. O fim ao qual tende uma ao particular no pode ser seno um meio em vista de um fim ulterior, mas necessrio que tenha um limite para a seqncia. Cada ao deve ter um fim ltimo que tenha um valor nele mesmo, e, conclui Aristteles, sem hesitao, o fim ltimo de todas as coisas deve ser o mesmo11. Aps notar uma diferena quanto aos fins, uns na atividade, outros da obra12, Aristteles aborda a hierarquia dos bens, descobrindo que o bemsentam a sabedoria coletiva da raa; deve partir disso, para atingir os primeiros princpios; examinar as crenas, compar-las, entre si, purificando-as de suas inexatides e incoerncias, para resgatar as virtudes. A tica, portanto, no demonstrativa. Aristteles raciocina dialeticamente, partindo no dos primeiros princpios, mas das opinies do grande nmero de homens. Ver a respeito, W. D. ROSS, Aristote, Paris, Payot, 1930, p. 265. 10 tica a Nicmacos, I, 1, 1094 a. 11 Cf. W. D. ROSS, op. cit., p. 263. 12 A part

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