a dimensão ética-estética da relação trabalho e educação

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  • Ensaio

    A DIMENSO TICA-ESTTICA DA RELAO TRABALHO E EDUCAO[I]

    Ronaldo Rosas Reis[ii]

    Agradeo o convite para ministrar esta aula inaugural das atividades da Oficina-Escola de Manguinhos. Sinto-me honrado de poder compartilhar desse incio de trabalho educacional voltado para a formao profissional dos jovens aqui presentes, e de tantos outros que certamente aqui ingressaro. Peo licena, por isso, para saudar aqueles que a idealizaram e por ela lutaram, bem como a todos aqueles que envolvidos no projeto que ora se concretiza, desejando vida longa para a Oficina-Escola.

    Propus para a Coordenao da Oficina-Escola o tema-ttulo A dimenso tica-esttica da relao trabalho e educao, mediante o qual pretendo abordar algumas questes que me parecem importantes para refletirmos sobre o papel e a funo do trabalho, da educao, da poltica e da arte na atualidade.

    Procurarei desenvolver o tema em trs momentos complementares. No primeiro, exporei as premissas ou fundamentos do mtodo que orientar o nosso percurso. No segundo, buscarei contextualizar historicamente o nosso tempo. E, no terceiro momento, conclusivamente, abordarei as dimenses tica e esttica da relao trabalho e educao como elementos indissociveis do lugar ou lcus dessa relao.

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  • 1. FUNDAMENTOS

    Toda construo requer que comecemos pelas fundaes. Fundar assentar os alicerces, fundamentar, instituir, estabelecer. Assim, o nosso fundamento principal diz respeito s duas atividades especificamente humanas: trabalho e educao. Isto , o trabalho e a educao inexistem fora de tudo o que reconhecemos e denominamos como humanidade.

    1 fundamento: trabalho-educao como atributo humano

    Sintetizando numa nica frase, trabalho e educao so atividades especficas da humanidade. Analisando o processo de trabalho ou o processo de produzir valores de uso, Marx, na sua grandiosa obra O capital, afirma que por melhor que seja a colmia da abelha e pior que seja a casa do arquiteto, a abelha no trabalha, quem trabalha o arquiteto. Tal afirmao nos impe a seguinte pergunta: por que somente a espcie humana trabalha? E a resposta : por acidente. Ou seja, no curso de toda a cadeia evolutiva das espcies coube a ns, acidentalmente, e no s abelhas e s aranhas que imitam os teceles, o atributo da razo. E este atributo caracterizado pelo ato de pensar-aprender sobre o que fazemos, projetando na mente a imagem da construo antes de transform-la em realidade.

    Portanto, na medida em que, acidentalmente, a nossa espcie definida pela caracterstica de projetar artefatos, tudo o mais que se segue a esta caracterstica obedecer lgica do agir-pensar-aprender sobre. E isso o mesmo que racionalizar, organizar, tornar as coisas da vida mais eficientes. Ao produzir um artefato, uma ferramenta, por exemplo, e depois repeti-lo continuamente, a espcie humana pouco a pouco se destacou do meio natural ao mesmo tempo em que o ajustava ao seu prprio modelo.

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  • Ferramentas do paleoltico entre 22.000 e 15.000 AC

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  • Posto isso, estamos j diante do segundo fundamento.

    2 fundamento: trabalho-educao como condio histrica

    Peo licena para utilizar uma definio do professor Dermeval Saviani (2006):

    [...] o ato de agir sobre a natureza transformando-a em funo das necessidades humanas o que conhecemos sob o nome de trabalho. Podemos, pois, dizer que a essncia do homem o trabalho. A essncia humana no , ento, dada ao homem; no uma ddiva divina ou natural; no algo que precede a existncia do homem. Ao contrrio, a essncia humana produzida pelos prprios homens. O que o homem , -o pelo trabalho. A essncia do homem um feito humano. um trabalho que se desenvolve, se aprofunda e se complexifica ao longo do tempo: um processo histrico.

    H milhares de anos a espcie humana produz ferramentas, mquinas, moradias, vesturio etc. Ao ato de produzir essas coisas denominamos de tcnica, que segundo as definies correntes, a parte material ou o conjunto de processos de uma arte. Sobre esta ltima, apreendida autonomamente, falaremos depois. Por ora importante notar que foi agindo-pensando-aprendendo sobre o meio natural, isto , trabalhando-educando, que o homem no apenas se tornou uma espcie distinta das demais espcies naturais como o seu esforo resultou em algo que a princpio seria impensvel: a humanizao da natureza. De fato, restam poucas reas naturais do planeta as quais no tenham sido transformadas pelas mos humanas. No sendo isso satisfatrio, estendeu a sua aventura para a Lua e para os planetas mais distantes do nosso e de outros sistemas solares. A ttulo de lembrana, h menos de um ano pudemos assistir nas TVs e na Internet algumas fotos de Marte registradas por um dos muitos olhos humanos parece que l existe gua. E, no faz muito tempo, em 1999, um robozinho enviado para l foi acordado ao som da voz de Beth Carvalho cantando o samba Coisinha do pai.

    Imagem NASA

    Mas o trabalho-educao humano como motor da histria no se voltou apenas para o

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  • mundo exterior, visvel, palpvel, incluindo a o prprio corpo do homem com todas as suas partculas microscpicas estudadas pela citologia gentica. O trabalho-educao humano voltou-se tambm para a sua psique, cujas manifestaes desde a antiguidade suscitaram de pensamentos filosficos e metafsicos a descries poticas, encenaes teatrais e pinturas clebres.

    Para o assombro do homem do fim do sculo XIX e incio do sculo XX, em Viena, um ento jovem e desconhecido neurologista chamado Sigmund Freud aprofundaria as investigaes correntes sobre a psique e a relao desta com as doenas em geral. A psicanlise, a cincia inaugurada por Freud, levou-o a descobrir e a dar incio explorao de um universo pouco conhecido pela filosofia e pelas cincias o qual ele denominou de inconsciente.

    Dentre outras coisas que o homem j desconfiava acerca de si prprio, Freud teve a coragem de afirmar que apesar de todo o desenvolvimento tcnico-produtivo, de toda a cincia criada pelo homem, a sua existncia falha. Ou seja, nada assegura ao homem a completude ou totalidade por ele reivindicada pelos sculos de dominao tcnica e de glrias circunstanciais. De acordo com Freud, a falibilidade da existncia humana impe-se a todos de forma avassaladora mediante um sentimento profundo de ausncia que o senso comum usualmente confunde com perda. Para Freud, essa ausncia do que no sabemos bem o que seja marca tragicamente a nossa existncia. Nesse sentido, vale lembrar que no teatro grego, h cerca de 2.400 anos, associava o sentido trgico das aventuras dos heris da sua rica mitologia ao pthos; isto , ao pattico, um sentimento que assolava o heri e a existncia humana em geral assombrando-o, mas, tambm, movendo-a para frente. No por acaso dessa maneira que o pintor Ingres representa o seu dipo entre assombrado e curioso diante de uma sinistra Esfinge. Ao decifrar o enigma proposto pela horrorosa criatura o heri livraria a cidade de Tebas da peste de moscas e cumpriria o seu destino trgico.

    Ingres dipo e a esfinge, sculo XIX

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  • Para concluir esta parte da minha abordagem acerca da condio histrica da relao trabalho-educao, retomo as palavras de Dermeval Saviani (2006):

    [...] na existncia efetiva dos homens, nas contradies de seu movimento real e no numa essncia externa a essa existncia, que se descobre o que o homem [...].

    [...] Se a existncia humana no garantida pela natureza, no uma ddiva natural, mas tem que ser produzida pelos prprios homens, sendo, pois, um produto do trabalho, isto significa que o homem no nasce homem. Ele se forma homem. Ele no nasce sabendo produzir-se como homem. Ele necessita aprender a ser homem, precisa aprender a produzir sua prpria existncia. Portanto, a produo do homem , ao mesmo tempo, a formao do homem, isto , um processo educativo. A origem da educao coincide, ento, com a origem do homem mesmo.

    Ssifo Prometeu

    2. CONTEXTO HISTRICO: O MUNDO ATUAL E O PS-MODERNISMO

    Em 1848, em meio s lutas que os trabalhadores franceses travavam em Paris contra uma burguesia cada vez mais opressora, Marx cunhou uma frase que para muitos homens de sua poca parecia incompreensvel: tudo que slido desmancha no ar.

    Na ocasio ele descrevia e analisava o contexto histrico que havia engendrado o modo de produo capitalista e a passagem na qual a frase de Marx se inseria fazia referncia ao desenvolvimento daquilo que ele chamaria de foras produtivas: dentre outras, a natureza, o trabalho e a tcnica. Para ele, no curso da histria, jamais uma sociedade como aquela diante dos seus olhos havia colocado em movimento foras produtivas to poderosas. A natureza como at ento se conhecia fora revolucionada, as cidades incharam de trabalhadores e se tornaram cada vez mais verticalizadas, as antigas relaes sociais, crenas, idias, valores, enfim, tudo havia sido profanado e se esfumava.

    Prximo de completar 160 anos a anlise de Marx permanece cada vez mais atual. Isso porque, no obstante o senso comum julgar pelas aparncias das coisas que nos cercam que o mundo tenha mudado radicalmente, a verdade que do ponto de vista estrutural ele pouco se alterou.

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