A Crise Financeira Atual

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reasons of economy crisis

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<p>A CRISE FINANCEIRA ATUAL Maria da Conceio Tavares* I As razes da atual crise.A financeirizao da riqueza passou a ser, deste a dcada de 1980, um padrosistmico globalizado em que a valorizao e a concorrncia no capitalismo operamsobre a</p> <p>dominncia da lgica financeira. Esta lgica originou-se nos EUA e transferiuse para Londres, no Euromercado na dcada de 70. Regressou Nova York na dcada de 80 com a diplomacia do dlar forte e tornou-se a lgica da globalizao financeira. Ao alcanar Tquio, no final da dcada de 80, acabou pondo em risco o capitalismo organizado japons e o seu produtivismo triunfante, levando o Japo maior crise do ps-guerra, na dcada de 90. Finalmente a lgica da financeirizao est sendo posta em tela de juzo na atual crise mundial. A aliana entre o grande capital financeiro globalizado e as polticas frouxas do FED durante dcada de 90 levaram a economia americana a uma expanso do consumo e do investimento, com alto grau de endividamento do Estado, das famlias, das empresas e dos bancos, que se manteve muito alm das expectativas da maioria dos seus prprios economistas, at s vsperas da crise atual(1). As preocupaes centrais de alguns macro-economistas eram com o dficit crescente do balano de transaes correntes e com o endividamento externo gigantesco do Estado americano, os quais, segundo eles, terminariam minando o dlar como moeda reserva, forando a economia americana a um ajuste (monetrio, fiscal e de balano de pagamentos) muito mais grave que o praticado no incio da dcada de 80. O novo presidente do FED do governo Clinton, Alan Greenspan, um dos defensores e promotores do novo sistema, tinha muito claro o papel financeiro do dlar na economia mundial globalizada(2). O dficit de transaes correntes no o preocupava, j que a absoro externa de recursos por parte da economia americana era funcional sustentao do crescimento atravs do comrcio internacional das economias mais abertas como algumas da Amrica Latina e, sobretudo, dos pases do Leste Asitico. Estes fortemente superavitrios com o dlar, tinham de aceit-lo como moeda reserva. Greenspan pode ser acusado, porm, de ter feito vista grossa aos efeitos que a desregulamentao bancria radical e a poltica monetria e de superviso frouxas, provocaram no funcionamento altamente especulativo das instituies financeiras dentro do prprio mercado americano3. A partir da segunda metade da dcada de 90 sucederam-se uma srie de crises cambiais e financeiras em vrios pases perifricos, que deram lugar a uma fuga de capital para os EUA, onde a valorizao dos ativos financeiros confirmava a supremacia indiscutvel do mercado de capitais de Nova York. A exploso acionria de Wall Street levou a um ciclo de fuses e aquisies em que os grandes bancos americanos tornaramse mega-instituies escala mundial,</p> <p>superando de longe todos os seus antigos concorrentes europeus e japoneses. No havendo mais segmentao formal das instituies do mercado financeiro, os bancos americanos converteram-se em verdadeiros supermercados financeiros que operavam nos mercados futuros e em novos derivativos de crdito com a criao de instrumentos de securitizao que permitiam a alavancagem desvairada do crdito no mercado financeiro interno. Foi assim, com crditos alavancados de curto prazo, que vrias companhias americanas financiaram o investimento de longo prazo em reas estratgicas como em energia e na nova economia da tecnologia de informao e de comunicaes. As primeiras aes a estourar em bolsa foram as das empresas da nova economia, a chamada crise das .com, seguida poucos anos depois pela crise do setor eltrico na qual o estrondo maior foi a falncia da Enron. Como as aes dos bancos e das grandes empresas tradicionais se recuperavam rapidamente, estimulando o consumo atravs do efeito riqueza, Greenspan limitou-se a criticar a euforia especulativa e a reafirmar que o FED no podia controlar as operaes financeiras off the records e off shore. Na verdade a maioria dos grandes movimentos especulativos de ento no eram off shore, mas nos mercados financeiros internos desregulados, sobretudo em derivativos e hedge funds, a maioria dos quais operava off the records. A multiplicao de derivativos especiais de crdito e a criao de fundos de securitizao (hedge funds), sem base de sustentao e sem superviso bancria deram lugar a um vasto sistema financeiro sombra. As instituies deste sistema operam nos mercados monetrios como se bancos fossem (tomando a curto e emprestando a longo prazo) s que a um nvel de alavancagem muito superior, sem possurem seguro para os seus depositantes (investidores) nem, obviamente, qualquer emprestador de ltima instncia que lhes garantisse liquidez em momentos de crise. Foi este sistema que entrou em colapso a partir da crise do sub-prime.Apesar da crise do sub-prime, um derivativo especial do mercado de hipotecas, ter ocorrido j na gesto de Ben Bernanke, ela foi apenas o detonador de uma crise</p> <p>financeira mais geral que se vinha gestando lentamente, atravs de uma excessiva expanso da liquidez, do endividamento e de sucessivas bolhas de preos de ativos, processados pela desregulao e complexidade do novo sistema financeiro privado, montado no governo Clinton e continuado no governo Bush. A elevada oferta de financiamento, a taxas de juros baixas, no impulsionaram apenas o endividamento geral do setor privado (empresas, bancos e famlias). As condies favorveis e descontroladas de oferta de crdito levaram tambm vrios Estados da Unio a financiarem seus dficits fiscais crescentes no mercado privado interno. S quando a crise financeira geral eclodiu violentamente em setembro de 2008 com a quebra da Lehman Brothers, foi possvel perceber a profundidade da crise fiscal de importantes estados americanos que esto a beira da insolvncia (a Califrnia apenas o caso mais notrio).</p> <p>II As medidas do Governo Bush e a generalizao da Crise Financeira.A crise financeira comeou a ficar visvel, com o estouro do mercado de derivativos especiais de crdito hipotecrio, os chamados sub-prime, em agosto de 2007, quando</p> <p>os fundos que consolidavam posies de alto risco em novos ttulos no mercado secundrio passaram a ser rejeitados no mercado monetrio e atingiram violentamente as instituies do mercado hipotecrio, em particular a Fannie Mae e Freddie Mac. O FED tomou providncias rpidas no que se refere taxa bsica de juros (que caiu de 5% para 0,5% em poucos meses) e criou programas gigantescos de liquidez para tentar evitar a generalizao da crise. Entre eles podem-se destacar: U$600 bilhes para a compra de ttulos visando apoiar os investidores dos fundos do mercado monetrio; U$500 bilhes para a compra de ttulos lastreados em hipotecas; U$100 bilhes em dvidas da Fannie Mae e da Fred Mac. O Congresso aprovou, por iniciativa democrata, a Lei de Estimulo Econmico de Fevereiro de 2008 cujas principais medidas foram de renncia fiscal. De abril, quando comeou a devoluo de impostos, at dezembro de 2008, foram devolvidos milhes de cheques no valor total de U$96 bilhes. Foi tambm proposta renncia fiscal para estimular os investimentos e a ampliao no valor das hipotecas com cobertura financeira semi-oficial. Logo em seguida, em julho de 2008, foi promulgada a Lei de Habitao e da Recuperao da Economia que prometida recapitalizar as instituies para-estatais (sobretudo as duas grandes Fannie Mae e Freddie Mac) que atendiam os financiamentos de habitao para as famlias de baixa e mdia renda, A Lei criou um rgo para regul-las (FHFA) e autorizou o Tesouro a comprar seus ativos e assumir seus passivos.Depois de setembro de 2008, quando ocorreu a quebra do Lehman Brothers, vrias instituies financeiras internacionais ficaram beira da falncia e a crise financeira</p> <p>tornou-se global, produzindo um violento aperto de crdito (credit crunch) no mercado interbancrio de todos os pases relevantes, mesmo os que tinham um sistema bancrio slido. As quedas nas bolsas mundiais e nos preos dos imveis liquidaram cerca de U$30 trilhes de riqueza financeira at o final do ltimo trimestre de 2008. Em outubro de 2008, o governo americano encaminhou ao Congresso, em regime de urgncia, o TARP (Programa de Alvio de Passivos Problemticos) cuja concepo original era justamente comprar os ativos txicos dos bancos para melhorar sua situao estrutural. Como a resistncia foi enorme a essa medida uma vez que o governo no tem instrumentos de interveno legal nos bancos - o enfoque mudou substancialmente. Dos U$700 bilhes do TARP a metade ficou carimbada para injetar diretamente capital nos bancos atravs do programa de Compra de Capital (CPP), a outra metade no foi autorizada. Na verdade foi o FED que teve de encarregarse de parte da tarefa de reciclar os ativos txicos atravs de programas de liquidez e de emprstimos de ltima instncia aos bancos mais atingidos. A deciso do governo de no socorrer o Lehman Brothers e a quebra da AIG, a maior seguradora dentro e fora do pas, levou a economia americana paralisia em Novembro. O governo americano teve de criar o</p> <p>subprograma para entidades sistemicamente relevantes para conceder um emprstimo de U$85 bilhes AIG e injetar U$40 Bilhes de capital ainda em 2008 (em maro de 2009 o Tesouro teve de intervir novamente injetando mais U$30 bilhes para impedir a falncia da seguradora). Teve de auxiliar tambm o Citigroup e o Bank of America que entraram em dificuldades tremendas e socorrer as empresas automobilsticas. A extenso e profundidade da crise financeira no ncleo central do sistema capitalista estendeu-se a toda a economia mundial a partir do ltimo trimestre de 2008. Os grandes bancos europeus que tambm se tinham globalizado e alavancado de forma anloga aos americanos, sofreram de imediato os efeitos do aperto de crdito no mercado interbancrio e seus governos tiveram de socorr-los em algum casos mediante estatizao explcita. Os mecanismos de retrao do crdito e a recesso nos pases centrais contaminaram o comrcio internacional tanto em preos como em quantidades. O comrcio de matrias primas sofreu um baque profundo com a queda dos preos de commodities que vinham de um ciclo especulativo fortssimo nos mercados futuros globais. Os preos do petrleo foram os que sofreram a queda mais violenta atingindo com fora pases como a Rssia e todos os pases emergentes dependentes da exportao de petrleo e gs. Verificou-se tambm uma queda no comrcio de manufaturas que atingiu fortemente os pases do Leste Asitico j com grande capacidade ociosa e mais dependentes do comrcio para os EUA e para a Europa. A China teve uma forte desacelerao do crescimento, que rebateu atravs da queda das importaes, nos tigres asiticos e em particular no Japo. Este pas, recm sado de uma depresso, teve a sua economia violentamente atingida pela crise global, entrando em recesso aberta numa velocidade superior dos EUA e da Europa. O crdito bancrio internacional aos pases perifricos, mais frgeis, colapsou, levando vrios deles, sobretudo os do Leste Europeu e alguns da Amrica Latina uma crise de pagamentos e a pedir socorro ao FMI. O crdito dos bancos para o conjunto dos pases emergentes segundo estimativas do Institute of International Finance caiu de U$410 bilhes em 2007 para U$106 bilhes em 2008 e deve ser fortemente negativo em 2009. As filiais mais lucrativas dos bancos nos pases emergentes remeteram lucros aceleradamente para suas matrizes para ajud-las na crise. Isso ocorreu tanto na sia quanto na Amrica Latina, regio onde at agora no se registraram crises bancrias e forte a presena de filiais europias e americanas lucrativas. Da participao dos capitais internacionais a que se manteve melhor, embora com queda acentuada, foi a participao do Investimento Direto Estrangeiro nas filiais produtivas dos pases emergente, sobretudo aqueles cujo mercado interno apresentam melhores perspectivas, como a China, a ndia e o Brasil.</p> <p>III As medidas anunciadas pelo novo governo democrata dos EUA.O novo Presidente Barack Obama, assumiu o governo com a economia americana numa situao crtica. Do ponto de vista estrutural pode dizer-se que: o seu sistema</p> <p>financeiro est falido; os trs entes federativos enfrentam uma crise fiscal sem precedentes; parte de sua infraestrutura encontra-se sucateada e a outra est obsoleta (sobretudo energia e telecomunicaes); e, finalmente, o seu sistema de seguro de sade no d cobertura suficiente e adequada populao. Do ponto de vista conjuntural o desemprego elevado e crescente e a recesso aberta e tende a aprofundar-se.Face a este diagnstico, muito mais grave do que o imaginado durante a campanha, a equipe econmica props um combate crise em todas as frentes: financeira, fiscal, investimento pblico em infraestrutura e polticas sociais ativas. A Lei de Recuperao e de Reinvestimento Americanos (ARRA) transitou no Congresso em tempo recorde, com o apoio de trs senadores republicanos, e foi assinada pelo Presidente em 17 de fevereiro de 2009. O pacote fiscal do governo Obama previu inicialmente gastos e renncias fiscais da ordem de U$787 bilhes, muito superiores aos do pacote do governo Bush. Os principais componentes da Lei ARRA so os seguintes: U$288 bilhes em renncia fiscal, U$144 bilhes de transferncias para estados e municpios, U$111 bilhes para infraestrutura e cincia, U$81 bilhes para proteo aos segmentos sociais mais vulnerveis, U$59 bilhes para a Sade, U$53 bilhes para a educao e treinamento de mo de obra e apenas U$43 bilhes para energia (que era uma das metas estratgicas da campanha). O item mais importante o da Renncia Fiscal que, ao contrrio do governo Bush, tem restries para os declarantes de faixas de renda mais elevadas. Assim os U$237 bilhes de renncia fiscal para pessoas fsicas beneficiam as pessoas de classe mdia, com crdito tributrio aos contribuintes em 2009 e 2010, aumento do limite de iseno de imposto de renda, aumento do desconto por nmero de crianas e despesas escolares. Tratamento favorecido e tambm concedido para quem comprar o primeiro automvel, aos que se utilizaram do seguro desemprego e s famlias de baixa renda com trs filhos ou mais. Vrias dedues so concedidas para estimular a eficincia energtica das residncias e para a compra de automvel, para faixas de renda abaixo de U$250 mil. Os restantes U$51 bilhes so dedicados a renncias fiscais para empresas, que vo de incentivos produo de energia renovvel, ao desconto de perdas correntes para compensar os lucros tributados nos ltimos cinco anos, passando por beneficiar empresas contratadas pelo governo at anular as medidas do tesouro envolvendo aquisio, fuso de empresas financeiras que estejam tendo prejuzo (para entrar em efeito em 2012 por um horizonte de 10 anos).Dos Programas Sociais, o mais importante o da Sade U$147,7 bilhes com uma multiplicidade de medidas. As maiores so as que cobrem o Medicaid (o programa para</p> <p>a populao de baixa renda) os seguros de sade dos desempregados, pesquisa e aperfeioamento tecnolgico e construo do Instituto Nacional de Sade.</p> <p>Seguem-se os setores de Educao (incluindo transferncias) com cerca de U$91 bilhes e o de proteo social aos trabal...</p>