51079721 wladyslaw szpilman o pianista (1)

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WLADYSLAW SZPILMAN O PIANISTA A histria extraordinria da sobrevivncia de um homem em Varsvia, 1939-1945 Com excertos do Dirio de Wi1m Hosenfeld Prefcio de Andrzej Szpilman Eplogo de Wolf Biermann Traduo de Fernanda Pinto Rodrigues Ttulo original: The Pianist Autor: Wladyslaw Szpilman FICHA TCNICA Copyright Wladyslaw Szpilman 1998 Traduo (c) Editorial Presena, Lisboa, 2OO2 Traduo: Fernanda Pinto Rodrigues Capa: Arranjo Grfico de Editorial Presena Pr-impresso, impresso e acabamento: Multitipo - Artes Grficas, Lda. l.a edio, Lisboa, Novembro, 2OO2 2.a edio, Lisboa, Fevereiro, 2OO3 Depsito legal n. 191 827/O3 Reservados todos os direitos para Portugal EDITORIAL PRESENA Estrada das Palmeiras, 59 Queluz de Baixo 2745-578 BARCARENA Email: infoLeditpresenca.pt Internet: http://www.editpresenca.pt NDICE Prefcio de Andrzej Szpilman 1 A Hora das Crianas e dos Loucos 2 Guerra 3 Os Primeiros Alemes 4 O Meu Pai Curva-se aos Alemes 39 5 Vocs So judeus? 47 6 Danando na Rua Chiodna 56 7 Um Bonito Gesto da Sr.a K 68 8 Um Formigueiro Ameaado 77 9 O Umschlagplatz 87 1O Uma Oportunidade de Viver 96 11 "Atiradores, Erguei-vos!" 1O3 12 Majorek 112 13 Discusses e Zangas na Casa ao Lado 118 14 A Traio de Szaas 125 15 Num Edifcio em Chamas 133 16 Morte de uma Cidade 14O 17 Vida por lcool 146 18 Nocturno em D Menor 155 Post scriptum 165 Excertos do Dirio do Capito Wilm Hosenfeld 167 Eplogo: Uma Ponte entre Wladyslaw Szpilman e Wilm Hosenfeld,

por Wolf Biermann

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PREFCIO At h poucos anos o meu pai nunca falava das suas experincias do tempo de guerra. E, no entanto, elas tinham-me acompanhado desde a infncia. Atravs deste livro, que retirei sub-repticiamente de um canto das nossas estantes quando tinha doze anos, descobri por que motivo no tinha avs paternos e o meu pai nunca falava da sua famlia. O livro revelou-me uma parte da minha prpria identidade. Eu sabia que ele sabia que eu o lera, mas nunca tocmos no assunto e, talvez por isso, no me passava pela cabea que o livro pudesse ter qualquer importncia para outras pessoas - pormenor para o qual me foi chamada a ateno pelo meu amigo Wolf Biermann quando lhe contei a histria do meu pai. Vivo na Alemanha h muitos anos e estou sempre consciente da penosa ausncia de comunicao entre judeus e os alemes e polacos. Espero que este livro ajude a fechar algumas das feridas que ainda esto abertas. O meu pai, Wladystaw Szpilman, no escritor. , por profisso, aquilo a que na Polnia chamam "um homem no qual a msica vive": um pianista e compositor que sempre foi uma figura inspiradora e importante na vida cultural polaca. O meu pai completou os seus estudos de piano com Arthur Schnabel na Academia de Artes de Berlim, onde tambm estudou composio com Franz Schreker. Quando Hitler chegou ao poder em 1933, regressou a Varsvia e comeou a trabalhar como pianista na Rdio Polaca. Em 1939 j tinha composto partituras para diversos filmes, assim como muitos lieder e canes que nesse tempo foram muito populares. Antes da guerra tocou com 9 o internacionalmente famoso violinista Bronislav Gimpel, com Henryk Schoering e outros msicos famosos. Depois de 1945 voltou a trabalhar na Rdio Polaca e regressou aos concertos como solista e em conjuntos de cmara. Escreveu vrias obras sinfnicas e cerca de trs centenas de canes populares, muitas das quais foram grandes xitos. Tambm comps msica para crianas, alguma msica para peas radiofnicas e mais partituras para filmes. Foi director do departamento de msica da Rdio Polaca at 1963, ano em que desistiu desse cargo para dedicar mais tempo a digresses de concertos e ao Quinteto de Piano de Varsvia, fundado por ele e por Gimpel. Ao fim de mais de dois mil concertos e recitais pelo mundo fora, abandonou a vida de concertos pblicos em 1986 para se dedicar inteiramente composio. Constitui uma mgoa pessoal, para mim, o facto de as suas composies ainda serem quase desconhecidas no mundo ocidental. Penso que uma das razes desse desconhecimento a diviso da Europa em duas metades, tanto cultural como politicamente, depois da Segunda Guerra Mundial. No mundo inteiro, a msica ligeira, de entretenimento, chega a um nmero muito maior de pessoas do que a msica clssica "sria", e a Polnia no excepo. O seu povo cresceu com as canes de meu pai, pois ele moldou a paisagem da msica popular polaca ao longo de vrias dcadas mas a fronteira ocidental da Polnia constitua uma barreira para msica desse gnero.

O meu pai escreveu a primeira verso deste livro em 1945, destinando-o, suponho, mais a si prprio do que humanidade em geral. Permitiu-lhe aprofundar as suas devastadoras experincias do tempo de guerra e libertar o esprito e as emoes para continuar a sua vida. O livro nunca foi reeditado, apesar de, nos anos 6O, diversas editoras polacas terem tentado coloclo ao dispor de uma gerao mais nova. Os seus esforos foram sempre frustrados. Ningum deu quaisquer explicaes a esse respeito, mas a verdadeira explicao era evidente: as autoridades polticas tinham as suas razes. Mais de cinqenta anos volvidos sobre a primeira edio, o livro foi agora publicado: uma lio til, talvez, para muito boa gente da Polnia, uma lio que poder persuadi-la a reedit-lo no seu prprio pas. Andrzej Szpilman 1 A HORA DAS CRIANAS E DOS LOUCOS Iniciei a minha carreira do tempo de guerra como pianista no Caf Nowoczesna, situado na Rua Nowolipki, em pleno corao do ghetto de Varsvia. Quando os portes do ghetto se fecharam, em Novembro de 194O, h muito tempo que a minha famlia tinha vendido tudo o que pudera, at o bem mais precioso da nossa casa, o piano. Apesar de to insignificante, a vida forara-me a vencer a apatia e a procurar uma maneira de ganhar a subsistncia, e tinha-a encontrado, graas a Deus. O trabalho deixava-me pouco tempo para cismar e a conscincia de que toda a famlia dependia do que eu podia ganhar ajudou-me a ultrapassar gradualmente o meu anterior estado de impotncia e desespero. O meu dia de trabalho comeava tarde. Para chegar ao caf tinha de passar por um labirinto de becos estreitos que conduziam muito para o interior do ghetto, ou, para variar, se me apetecia observar as emocionantes actividades dos contrabandistas, podia contornar o muro. A tarde era melhor para o contrabando. A polcia, exausta por uma manh passada a encher os prprios bolsos, estava ento menos atenta, atarefada a contar os lucros. Vultos inquietos apareciam nas janelas e nas entradas dos prdios de habitao ao longo do muro, para logo desaparecerem e se esconderem de novo, aguardando impacientemente o barulho de uma carroa ou o estrpito de um elctrico que se aproximassem. De vez em quando, o barulho do outro lado do muro aumentava e, passagem de uma 1O 11 carroa puxada por um cavalo, ouvia-se o sinal combinado, um assobio, e sacos e embrulhos voavam por cima do muro. As pessoas que estavam de atalaia saam a correr das entradas dos prdios, apanhavam apressadamente a mercadoria, voltavam para dentro e um silncio enganador, repassado de expectativa, nervosismo e murmrios secretos, descia novamente sobre a rua, durante minutos a fio. Nos dias em que a polcia desempenhava a sua misso quotidiana com mais energia, ouvia-se o eco de tiros de mistura com o barulho de rodas de carroas e, em vez de sacos, voavam por cima do muro granadas de mo que explodiam ruidosamente e faziam cair estuque dos prdios. Os muros do ghetto no desciam completamente at estrada ao longo de toda a sua extenso. Com intervalos certos, havia aberturas compridas ao nvel do solo, atravs das quais a gua das reas arianas da estrada corria para valetas existentes ao lado dos passeios judeus. As crianas costumavam utilizar essas aberturas para o

contrabando. Viam-se pequenos vultos negros, de pernas escanzeladas, avanar depressa para elas, vindos de todas as direces, a olhar cautelosamente, com olhos assustados, para a esquerda e para a direita. Depois as pequenas mos escuras puxavam volumes de mercadorias pelas aberturas - volumes que eram muitas vezes maiores do que os prprios contrabandistas. Feito isso, as crianas iavam os volumes para cima dos ombros e, curvadas e cambaleantes sob o peso, com as veias das tmporas salientes como cordas azuis, devido ao esforo, e as bocas escancaradas e dolorosamente ofegantes na nsia de respirar, fugiam em todas as direces como ratinhos assustados. O seu trabalho era to arriscado, e acarretava o mesmo perigo para a vida e para o corpo, como o dos contrabandistas adultos. Um dia, ao caminhar ao lado do muro, observei uma operao infantil de contrabando que parecia ter sido concluda com xito. A criana judia, ainda do lado oposto do muro, faltava apenas seguir o caminho das suas mercadorias, passando pela abertura. O seu corpo magro e franzino j estava parcialmente vista quando desatou, de sbito, a gritar e eu ouvi o berro rouco de um alemo, do outro lado. Corri para ajudar a criana a passar o mais depressa possvel, mas, desafiando os nossos esforos, os seus quadris ficaram presos na valeta. Puxei-lhe os pequenos braos com toda a fora, enquanto os seus gritos se tornavam cada vez mais desesperados e, ao mesmo tempo, ouvia as pancadas violentas desferidas pelo polcia do outro lado do muro. Quando consegui, finalmente, faz-la passar, estava morta. A sua espinha tinha sido despedaada. Na realidade, o ghetto no dependia do contrabando para se alimentar. A maior parte dos sacos e embrulhos contrabandeados por cima do muro continha donativos de polacos para os judeus muito, muito pobres. O verdadeiro e regular comrcio contrabandista era dirigido por magnatas como Kon e Heller e tratava-se de uma operao mais fcil e inteiramente segura. Polcias subornados limitavam-se a fechar os olhos, em momentos combinados, e depois colunas inteiras de carroas transpunham o porto do ghetto, mesmo debaixo dos narizes deles, e, com o seu acordo tcito, transportavam alimentos, bebidas caras, as mais sumptuosas iguarias, tabaco vindo directamente da Grcia e artigos de luxo e cosmticos franceses. Eu podia ver de perto essas mercadorias