20080626 raca e religiao

Click here to load reader

Post on 03-Oct-2015

12 views

Category:

Documents

2 download

Embed Size (px)

TRANSCRIPT

  • Ser negro no Brasil

    RAA E RELIGIO

    Reginaldo Prandi

    JULHO DE 1995 113

    RESUMO O Brasil conta com rico patrimnio de religies de origem africana. Em que medida as populaes negras so seguidoras destas religies e em que medida esto presentes nas religies de origem europia e norte-americana? Como a populao branca adere s chamadas religies negras? So as perguntas centrais deste artigo. Na busca de sentido sociolgico para a temtica da cor e das religies, so discutidas questes sobre identidade, sincretismo religioso e integrao do negro na sociedade nacional, no curso histrico que viu o nascimento e as transformaes das religies afro-brasileiras, e a prosperidade de suas principais rivais, as religies pentecostais. Palavras-chave: raa e religio; cor e religio; religies negras; movimentos negros; sincretis- mo; religies no Brasil.

    SUMMARY Religions of African origin provide a rich heritage for Brazil. To what extent do Brazilian blacks take part in these religions, and to what extent are they involved in religions of European and American origins? In what ways do whites join the so-called black religions? These are the central issues discussed in the article. In seeking a sociological meaning for the questions of color and religion, the author discusses identity, religious sincretism and the integration of blacks in national society, in a historical perspective covering the birth and transformations of Afro- Brazilian religions as well as the prosperity of their main rivais, the Pentecostal cults. Keywords: Afro-Brazilian religions; Pentecostalism; sincretism; blacks in Brazil.

    O Brasil est longe de ser uma democracia racial, em que brancos, negros e gentes de outras origens pudessem ter as mesmas oportunidades sociais, embora goste de se ver e mostrar como pas sem preconceito e sem discriminao racial (Fernandes, 1965; Hasenbalg & Silva, 1993). Como a imensa maioria dos negros est imersa na maioria pobre da populao, confunde-se negritude com pobreza, quando no se justifica a condio de pobre como decorrncia da prpria condio negra. Vive-se uma "cultura de miscigenao", em que as mltiplas modalidades de classificao racial ou de cor tm contornos frouxos e sutis, s vezes flexveis. Brancos, claros, morenos, pardos, pretos, mestios, negros, cafuzos, escuros, nnnnnnnn

  • RAA E RELIGIO

    mulatos, numa pluralidade racial, em que tambm se inserem os amarelos orientais e os ndios e caboclos, e todos o seus diminutivos, podendo-se escurecer e embranquecer os indivduos em funo de posies sociais alcanadas por eles ou em virtude de sua origem familiar. Ser negro no Brasil depende certamente da herana gentica africana, mas a expresso da base biolgica, por assim dizer, reconhecida e diferentemente classificada a partir de uma srie de circunstncias sociais, culturais e regionais.

    Se, de um lado, isto demonstra o carter elstico das formas de discriminao racial no Brasil, de outro, revela um mecanismo de disfarce que vale tanto para mudar a categoria classificatria de um indivduo em funo de sua posio social, quanto para camuflar o preconceito e a discriminao e seus operadores sociais. A flexibilidade classificatria dificulta de certa forma a construo de identidades e o alcance de conscincia que permita enxergar as questes raciais de uma perspec- tiva coletiva capaz de negar a armadilha da percepo da diferena de cor como questo individual: difcil saber quem o qu; difcil assumir-se como grupo com dificuldades, interesses e possibilidades comuns. O quadro se complica quando outros vetores, na origem claramente cruzados com o problema da raa, emergem no panorama do preconceito na forma de preconceito de origem regional, que o preconceito contra os baianos, os nortistas, os nordestinos vistos no Sudeste. Estes, em boa medida so, igualmente, de alguma origem africana, isto , pertencem a alguma modalidade da escorregadia escala brasileira de negritude, e so portado- res, ipso facto, daquilo que a cultura branca dominante segue imaginando serem os caractersticos raciais atvicos e perversos dos descendentes de negros africanos escravizados, como pensava a cincia erudita do final do sculo XIX e comeo deste1 (Schwarcz, 1993). Ao que se junta o preconceito contra as religies afro- brasileiras, que tanto pode ser preconceito do branco como do negro, preconceito to elaborado que, no prprio interior dos cultos de origem negra, no seio da sociedade urbana e industrial em formao e certamente por causa dela, instituram- se mecanismos de apagamento de traos rituais reveladores da origem africana (Ortiz, 1978). Dcadas mais tarde, o preconceito contra religies afro-brasileiras entraria para a receita do sucesso de religies evanglicas formadas no Brasil, que se propagam por muitos pases do mundo, e que usam deuses, santos e entidades das religies nascidas negras para publicizar a presena do demnio, enxovalh-lo e enxot-lo, no exerccio exorcista da vitria do bem sobre o mal. Mal que se manifesta, segundo este neopentecostalismo, na experincia religiosa da herana africana e que s a religio do bem pode afastar.

    Ainda que seja difcil estabelecer com preciso alguma fronteira entre quem o branco e quem o negro no Brasil, descrever um negro, segundo o sentimento inscrito nos esteretipos raciais do nosso dia-a-dia, fcil: negros so preguiosos, sujos, fedorentos, metidos, despudorados, ignorantes, macumbeiros. Migrantes, so ainda beberres, malandros e bandidos, cafetes e prostitutas. So as domsticas que se entregam luxria dos meninos de famlia. Gente desbocada e interessada no prazer, na dana maliciosa dos sales, avenidas, sambdromos e candombls. Gente que gasta o dinheiro da difcil sobrevivncia "pra fazer a fantasia", que faz de tudo para manter o luxo de seus deuses africanos, reiterando uma predisposio de ostentao e mau gosto. E mentem, sempre. Pobres porque preguiosos e ignorantes, amontoam-se nas favelas e nos cortios, vivendo do trfico de drogas, do jogo do bicho, do pequeno e do grande crime. Personagens de uma tragdia social, que em grande parte absolutamente real, ns poderamos descrev-los nestes versos de "O rancho da goiabada" de Joo Bosco e Aldir Blanc: "[...] so pais- n

    114 NOVOS ESTUDOS N. 42

    (1) Em 1889, o mdico Nina Rodrigues, num artigo conclu- sivo sobre a inadequao ra- cial do negro baiano frente civilizao branca, proclama- va que "os estados de santo dos frico-baianos no so mais do que manifestaes do sonambulismo histrico. [...] Continuar a afirmar [...] que os negros baianos so catlicos e que tem xito no Brasil a tenta- tiva de converso, , portanto, alimentar uma iluso que pode ser cara aos bons intuitos de quem tinha interesse de que as coisas se tivessem passado as- sim" (Rodrigues, 1935, p. 199).

  • REGINALDO PRANDI

    de-santo, paus-de-arara, so passistas/ so flagelados, so pingentes, balconistas/ palhaos, marcianos, canibais, lrios pirados/ danando dormindo de olhos abertos sombra da alegoria/ dos faras embalsamados".

    O branco pobre poder tambm ser quase tudo isso, mas o ser pelo fato de ser pobre. O negro pobre j assim pelo fato de ser negro. A distino que se faz no Brasil entre negros e brancos depende mais da presena de traos fenotpicos que da origem racial propriamente, dando-se aqui o que Oracy Nogueira chamou de preconceito de marca, em contraposio com o preconceito de origem, como nos Estados Unidos, onde, ao contrrio da pluralidade racial brasileira, formou-se uma cultura segregacionista bi-racial (Skidmore, 1992). Aqui, um degrau acima na escala de mobilidade social pode ser suficiente para apagar essas "marcas", num processo de "branqueamento" social que os brasileiros conhecem bem. Como esta possibilidade do branqueamento pela ascenso social se processa individualmente, os movimentos de afirmao racial e identidade negra de carter coletivo so frgeis entre ns2.

    Essa face maldefinida, s vezes definida num disfarce, que se mostra na complexidade dos mecanismos de identidade racial, ou de cor, no se limita ao plano dos indivduos. Est tambm em instituies, modela-as e as faz, por vezes, se reconstrurem, construindo para uma cultura brasileira, genrica e racialmente descolorida, instituies universalizadas, isto , de todos, sem limites de raa, cor, geografia, extrao social. Se uma instituio, como uma religio de orixs, ou a escola de samba, o prprio samba, tem uma origem negra necessria, essa origem h muito deixou de caracterizar necessariamente para seus participantes, produto- res e consumidores a marca da cor, que pode, em determinadas circunstncias, ser rememorada como fonte de legitimidade pela origem. O que no significa querer voltar a esta origem tal como ela era ento.

    (2) "O preconceito de cor ou de marca racial, em contradis- tino ao preconceito racial de origem, implica a idia de pre- terio e, portanto, por defini- o, na possibilidade de serem os seus efeitos atenuados, con- trabalanados ou agravados pela presena ou ausncia de outros caractersticos pessoais ou sociais." (Nogueira, 1955, p. 546)

    As religies negras e o sincretismo como identidade brasileira

    A presena do negro na formao social do Brasil foi decisiva para dotar a cultura brasileira dum patrimnio mgico-religioso, desdobrado em inmeras instituies e dimenses materiais e simblicas, sagradas e profanas, de enorme importncia para a identidade do pas e de sua civilizao. No que diz respeito religio especificamente, os cultos trazidos pelos africanos deram origem a uma variedade de manifestaes que aqui encontraram conformao especfica, atravs de uma multiplicidade sincrtica resultante do contato das religies dos negros com o catolicismo do branco, mediado ou propiciado pelas relaes sociais assimtricas existentes entre eles, tambm com as religies indgenas e bem mais tarde, mas no menos significativamente, com o espiritismo kardecista.

    Desde sua formao em solo brasileiro, as religies de origem negra tm sido