1erPremioXV_LucieHruskovapantaneiro 16 17 18

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  • 1

    Os smbolos contemporneos da cultura pantaneira

    do Mato Grosso do Sul

    Lucie Hrukov, 11 de Agosto de 1984 5 ano do curso do Comrcio Internacional lehle 17, 62100, Brno e-mail: hruskova@seznam.cz Telefone: +420605938569 Vysok kola ekonomick, Fakulta mezinrodnch vztah Tutor: PhDr. Ludmila Mlnkov

  • 2

    Contedo

    Introduo ......................................................................................................................... 3 Pantanal sul-matogrossese, breve histria...................................................................... 4 A natureza do Pantanal sul-matogrossense .................................................................... 6

    guas do Pantanal .......................................................................................................... 7 Os bichos do Pantanal .................................................................................................... 9

    A realidade e os mitos de ona ................................................................................. 11 A realidade e os mitos de cobras............................................................................... 12 As histrias de pescaria............................................................................................. 14

    Os seres e os lugares imaginrios ................................................................................ 14 O homem pantaneiro ...................................................................................................... 15

    O ndio .......................................................................................................................... 16 O vaqueiro, o peo e o fazendeiro ................................................................................ 18 A mulher pantaneira ..................................................................................................... 21

    Concluso......................................................................................................................... 22 Bibliografa ...................................................................................................................... 23

    Pginas do internet .................................................................................................... 25 Anexos .............................................................................................................................. 26

  • 3

    Introduo

    No centro-oeste do Brasil encontra-se uma regio misteriosa e desconhecida onde

    a fronteira entre gua e terra firme to obscura como a diferena entre a realidade e o

    sonho. Para algum que transporta-se durante uma noite de nibus do Rio de Janeiro para

    o Mato Grosso do Sul poderia parecer que j est no outro pas ou at no outro mundo. O

    samba onipresente e as praias de repente ficam muito longe. Mas no, o Brasil mesmo,

    tem pessoas alegres, hospitaleiras e otimistas, somente percebemos a sua face diferente

    que poucos estrangeiros e tambm os prpios brasileiros tm a possibilidade de conhecer.

    Estamos numa regio onde a vida entre as boiadas passa-se nas rodas do terer e

    chimarro, onde os encontros com os bichos bravos e mticos acontecem a cada da, onde

    as pessoas falam com os seus antepassados j falecidos, preparam remdios e chs

    conforme as receitas antigas indgenas para curarem as doenas tenazes e desconhecidas

    e o samba deixou espao msica paraguaia. O horizonte c parece no ter fim, as vacas

    por onde voc olha, de vez em quando aparece uma rvore solitria, smbolo antigo,

    lembrando-nos que a mata impenetrvel reinava aqui h menos de cinquenta anos. s

    vezes podem-se ver grandes lagoas que ainda no tiveram tempo de desaparecer depois

    das cheias do ltimo ano. Parece que a mata j teve que ceder s atividades do homem,

    mas continua a ser smbolo profundo da regio inteira e a fonte da sua vida e cultura.

    Este trabalho pretende mostrar a cultura pantaneira no estado do Mato Grosso do

    Sul que influenciada pelos pases vizinhos e pelos gachos do sul do Brasil. Quer

    destacar todos os smbolos mais importantes da regio que aparecem nas obras literrias

    dos escritores como Manoel de Barros, nas msicas de Almir Sater e do Grupo Acaba,

    nas narrativas orais e na vida cotidiana de cada um dos sul-matogrossenses.

  • 4

    Pantanal sul-matogrossese, breve histria

    O Pantanal o territrio no centro-oeste do Brasil12 que ocupa tambm as regies

    fronteirias dos pases vizinhos Bolvia e Paraguai. O Pantanal representa uma passagem

    imaginria entre o Chaco infinito paraguaiense, cerrado brasileiro e a selva amaznica. A

    regio considerada o maior pntano do planeta caraterizada por duas pocas extremas

    do ano. Todo o territrio fica inundado durante o vero3 por causa da chuva incessante, as

    fazendas distantes ficam separadas do outro mundo, porque as estradas desaparecem de

    baixo da gua e o nico meio de transporte so as chalanas4 nos rios que transbordam dos

    seus leitos enquanto os animais procuram ltimas ilhotas da terra firme para

    sobreviverem aqui at o inverno chegar. Nessa poca a gua baixa e o Pantanal torna-se o

    palco de desfile de um dos ecosistemas mais diversificados do mundo5.

    Era a poca da chuva quando os primeiros conquistadores espanhis chegaram

    regio. A terra estava completamente coberta de gua, como sempre nesse periodo do

    ano. Ao verem as guas infinitas, chamaram-nas de Mar de Xaras, segundo nome da

    tribo indgena que viva l.

    Os primeiros europeus que comearam a se instalar no territrio do atual estado do

    Mato Grosso do Sul foram os jesutas provenientes do Paraguai. No sculo XVIII a

    regio fazia parte desse pas, mas afinal no por muito tempo6. A situao complicou-se

    bastante com a chegada de significante quantidade de brasileiros regio, o que mais

    1 Na atualidade ocupa dois estados federativos brasileiros, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul.

    2 Anexo Figure 1

    3 Significa o vero brasileiro no Janeiro e Fevereiro.

    4 Anexo Figure 2

    5 Anexo Figure 3

    6 Nesse tempo a nica maneira como chegar regio foi pelo rio Paraguai, pois lgico que na

    poca fazia parte do Paraguai.

  • 5

    tarde resultou na guerra com o Paraguai. O Brasil uniu-se com Argentina e Uruguai

    criando Trplice Aliana e no 1 de Maro de 1870 ganhou o territrio atual do Mato

    Grosso do Sul. A guerra significou a nica coisa, o impacto ainda maior dos imigrantes

    de todos os cantos do Brasil regio. Foram eles que como os primeiros comearam a

    criar o gado e export-lo ao estrangeiro e assim foi essa parte do Brasil incorporada no

    comrcio internacional. Depois de ser realizada, no comeo do sculo XX, a Estrada de

    Ferro Noroeste muitos brasileiros de So Paulo vinham para encontrarem a terra ainda

    no ocupada. Alm deles vieram muitos outros das proximidades de Ponta Por e atravs

    do Rio Paraguai. O povoamento virou mais organizado depois da Segunda Guerra

    Mundial, durante o governo de Getlio Vargas e graas sua Marcha para Oeste7 .

    Vargas vendeu grandes pores de terra s companhas de colonizao das quais uma das

    mais importantes era tambm a Companhia Viao So Paulo/Mato Grosso do imigrante

    tcheco Jan Antonn Baa8. A populao do estado crecia significamente, foram fundadas

    novas cidades e a extenso do estado Mato Grosso comeou a causar dificuldades. Em

    conseqncia disso, o governo militar decidiu no ano 1977 dividir o estado em duas

    partes criando no da 11 de Outubro o estado do Mato Grosso do Sul com a capital

    Campo Grande.

    A histria da formao da rea mostra a origem muito variada do povo sul-

    matogrossense que veio de todas as regies do Brasil, do Paraguai e da Bolvia. Por causa

    disso as pessoas falam no apenas portugus, mas tambm espanhol e guaran. At hoje a

    7 O programa do Getlio Vargas nos anos quarenta teve o objetivo de colonizar as partes do

    Brasil ainda no ocupadas para obter a terra e os recursos naturais. 8 Durante a Segunda Guerra Jan Antonn Baa comprou quase 6000 km2 de terra nos estados do

    Mato Grosso do Sul e de So Paulo fundando 4 cidades das quais Bataguassu e Bataypor ficam em Mato Grosso do Sul. Em Bataypor at hoje moram os descendentes de tchecos que mantm as relaes intensas com o pas da sua origem.

  • 6

    maioria das pessoas trabalha na pecuria e o pasto provavelmente a nica coisa que

    voc vai ver atravessando o estado de nibus. quase incrvel que sessenta anos atrs

    havia aqui s a mata onde as onas reinavam e o homem lutava com a natureza, muitas

    vezes sem ganhar. As imagens desses tempos so ainda vivas e so o substrato mais

    importante da cultura colorida sul-matogrossense.

    A natureza do Pantanal sul-matogrossense

    A natureza e o Pantanal, essas palavras so como sinnimos. A natureza e os seus

    smbolos penetram em todas as obras literrias sobre o Pantanal e faz parte de todas as

    narrativas orais dos pantaneiros. A natureza interfere nas vidas de todos os moradores do

    Pantanal, o seu arrimo e inimigo ao mesmo tempo, faz sua parte. natural, a vida passa

    c principalmente no campo, a capital Campo Grande no tem nem uma milho de

    habitantes e a economia baseada em agricultura. Alm dos motivos da assonncia com

    a natureza e da luta com ela, so os motivos das obras literrias, msicas e narrativas

    orais, muitas vezes conectadas com a proteo do meio-ambiente pantaneiro e a sua

    forma atual. Os moradores da regio convivem com o lugar e apesar de terem uma vida

    muito complicada, continuam morando na rea e so eles que lutam pela conservao da

    natureza pantaneira. Muitas vezes ajuda a imagem do Pantanal criada pelas

    personalidades da cultura local como cantor e ator Almir Sater, o poeta Manoel de Barros

    e o grupo musical Grupo Acaba9. A gua, a terra, os pastos e a mata, isso tudo Pantanal

    9 Comparado com a cultura da regio da Amaznia brasileira significa a grande diferana.Na

    Amaznia parece que no existe a harmonia entre os povos para lutarem juntos contra a devastao da sua terra e desde os tempos do Chico Mendes nem existe uma personalidade para demonstrar para o resto do Brasil qual a importncia da regio no contexto do pas inteiro.

  • 7

    e na cultura pantaneira sul-matogrossense tudo juntado no mundo especial em que,

    como bonecos, atuam tanto os bichos selvagens como o povo sul-matogrossense.10

    guas do Pantanal

    Desde o comeo dos tempos guas e cho se amam.

    Eles se encontram amorosamente

    E se fecundam. Nascem formas rudimentares de seres e plantas

    Filhos dessa fecundao.

    Nascem peixes para habitar os rios

    E nascem pssaros para habitar as rvores.

    guas ainda ajudam na formao das conchas e dos caranguejos.

    As guas so a epifania da Natureza.

    Agora penso nas guas do Pantanal

    Nos nossos rios infantis (Manoel de Barros, guas, 2001)11

    gua a fonte da vida, faz parte de todas as criaturas vivas e fica no pensamento

    dos todos os seres vivos do Pantanal. O poema gua do Manoel de Barros12 representa o

    exemplo tpico da literatura pantaneira, homenageando a natureza como a parte

    indissolvel da vida cotidiana. Com a gua e a natureza os sul-matogrossenses criaram a

    sua relao mtica ou at sagrada que de certa maneira retoma a posio da natureza na

    vida do povo indgena que morava e ainda mora na regio. O mar e o Pantanal so

    duas palavras consideradas sinnimas13, a origem dessas palavras vem das lendas dos

    10 No ano 1990, passou na televiso a novela Pantanal que por primera vez mostrou para todo

    Brasil o mistrio e a beleza do Pantanal. A novela muito conhecida at hoje pelas imagens maravilhosas da natureza pantaneira e pela descrio da vida e lendas do povo pantaneiro que at esse da no tinha sido conhecido muito. 11

    Editado pela Sanesul (Empresa de Saneamento de Mato Grosso do Sul) o poema aborda a gua como elemento que inicia a vida das plantas, dos peixes, dos caranguejos, dos pssaros e de todos o seres. Alm de retratar a forte interao que existe entre as guas e o homem do Pantanal. (fonte: http://www.uems.br/portal/noticia.php?idnot=605, acessvel 9 de Dezembro de 2009) 12

    Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiab (Mato Grosso) em 1916. Viveu em Corumb (Mato Grosso do Sul), atualmente mora em Campo Grande (Mato Grosso do Sul). considerado um dos mais importantes poetas brasileiros, cuja obra significativamente conectada com o Pantanal. 13

    SILVA LEITE, Mrio Czar: guas Encantadas de Chacoror Paisagens e mitos do Pantanal. Cuiab, Cathedral Unicen Publicaces. 2003.

  • 8

    ndios Xaras14. At hoje podemo-nos reparar com vrias lagoas salgadas nas reas de

    Rio Negro e Nhecolndia que podemos encontrar como o tema principal em muitas

    lendas indgenas. A origem exata deles a gente no conhece, mas provavelmente muito

    tempo atrs existia um grande mar no centro da Amrica do Sul o que hoje provam

    algumas pesquisas geolgicas na regio.

    A gua a fonte principal da cultura pantaneira ilustrada na maioria dos contos, doa

    e toma a vida, da gua vem o perigo, na gua nascem os bichos e as criaturas mticas.

    Durante as inundaes anuais a gua corta o acesso maioria das fazendas da regio e os

    rios tornam-se a nica conexo com o resto do mundo. Uma das figuras mticas que nasce

    na gua, Me d'gua, uma espcie pantaneira da sereia que protege os peixes nos rios e

    representa na cultura pantaneira um dos smbolos mais importantes da proteo da

    natureza. Uma outra criatura que se origina da gua uma verso da lenda conhecida

    pelo Brasil inteiro. o Caboclo d'gua, um tipo pantaneiro do Saci-Perer, que tem suas

    cidades no fundo do rio para onde os pescadores so raptados por ele. O Pantanal tem a

    sua lenda sobre um barco fantasma tambm. Afundou na Baa de Chacoror no sculo

    XIX e at hoje percorre seus rios. Sempre possvel ouvir de longe o barulho que os

    marinheiros mortos fazem.

    O perigo no vem s da gua, mas origina-se tambm na mata que ilustrada na

    maioria das obras como o lugar escuro e imprevisvel, como o lugar onde nascem os

    bichos perigosos e desaparecem as pessoas que no compreenderam as regras da natureza

    e sozinhas entraram nesse ambiente temvel. Uma das figuras mticas do Pantanal que

    ataca inesperadamente da mata afora o P-de-garrafa15. A sua aparncia nos mitos

    14 Observe Mar de Xaras

    15 Anexo Figure 4

  • 9

    varia. Uns dizem que parece como um cachorro, outros decrevem-no com a cara do

    cavalo, mas todos concordam que ele tem um nico p que deixa sua pegada parecida

    com uma garrafa. O P-de-garrafa hipnotiza suas vtimas e atrai as a uma caverna na

    mata profunda onde as devora depois.

    A gua e a mata so os lugares pantaneiros mticos onde o homem entra com

    respeito, sabendo o que arrisca. O pasto, por outro lado, considerado o reino criado pelo

    homem, mas l tambm espera o perigo. Muitas histrias descrevem as criaturas mticas

    vivendo e atacando nos pastos. Umas das mais conhecidas e freqentes so sobre o

    Lobishomem, a criatura conhecida em todo mundo que tem a sua forma tambm na

    cultura sul-matogrossense. A pessoa mordida pelo cachorro selvagem torna-se

    Lobishomem. As lendas sobre o Lobishomem so populares tanto no campo como nas

    reas urbanas do Mato Grosso do Sul onde as pessoas muitas vezes juram algum dos

    vizinhos ser Lobishomem e voc tem que tomar cuidado com ele. Outra criatura mtica

    que vem do pasto o Come-lngua, cuja aparncia no se conhece exatamente. O mito

    tem base nos achamentos de bois mortos sem lngua, e como no caso do Lobishomem,

    tambm essa criatura tem a sua verso na toda Amrica Latina. Geralmente conhecida

    como Chupacabra.

    Os bichos do Pantanal

    Desde o incio, a literatura e as narrativas orais no Pantanal andam em volta da

    natureza e dos bichos. Fazem parte tanto das lendas do povo indgena, como das

    narrativas orais dos primeiros colonizadores. As histrias sobre as onas, cobras e jacars

    misturam-se com as sobre as vacas que so os bichos mais freqentes na regio hoje. O

  • 10

    smbolo principal do Pantanal a ave jaburu, mais conhecido como tuiui. Uma lenda

    antiga dos ndios explica a tristeza refletida nos seus olhos. Era uma vez um casal

    indgena qua oferecia comida para todos os jaburus no Pantanal. Depois da morte do

    casal, as aves no deixavam de procurar a comida no lugar. Tornavam-se cada vez mais e

    mais tristes olhando sempre para o mesmo lugar no cho onde todos os dias costumavam

    comer e assiam ficaram at hoje16. A outra ave popular, principalmente na literatura e na

    msica, o Joo-de-barro conhecido sob vrios nomes em toda Amrica Latina. As

    lascas das cercas do Pantanal inteiro so cobertas com os seus ninhos especficos que,

    com as suas portas, parecem at as pequenas cazinhas do homem. Se a companheira o

    abandona, Joo-de-barro sai do ninho, fecha a porta e no volta mais.

    O smbolo mais visvel da regio o jacar-do-pantanal. Os encontros com esse

    bicho so comuns tanto pelo homem pantaneiro, como pelos turistas aleatrios que

    atravessam a regio durante a sua viagem Bolvia. Por causa disso, a sua imagem na

    cultura regional no to misteriosa como no caso dos outros bichos como a ona e o

    sucur. O homem pantaneiro honra o jacar como o smbolo que pode ser ligeiramente

    derrotado e que acaba muitas vezes nos pratos apesar da proibio estrita da sua caa.

    As vacas e as capivaras fazem parte muito importante e a mais numerosa do mundo

    bicheiro do Pantanal sul-matogrossense. Na cultura representam os smbolos da natureza

    que muitas vezes perdem na luta com o inimigo mais poderoso como ona ou cobra. A

    anta uma exceo. Na lngua portuguesa o sinnimo da pessoa tonta. Por outro lado, a

    anta desempenha um papel importante nas lendas pantaneiras sobre o Maozo. Muitas

    pessoas descrevem a anta que se transformou no homem barbudo e o encontro com ele

    causa muitas vezes uma loucura.

    16 Anexo Figure 5

  • 11

    A realidade e os mitos de ona

    Havia um muro alto entre nossas casas. Difcil de mandar recado para ela.

    No havia e-mail. O pai era uma ona.

    A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por um cordo E pinchava a pedra no quintal da casa dela.

    Se a namorada respondesse pela mesma pedra Era uma glria!

    Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira E ento era agonia.

    No tempo do ona era assim.

    (Manoel de Barros, A namorada, 200117)

    O tuiui e o jacar podem ser considerados os smbolos do Pantanal, mas o animal

    que mais atrai a ateno e anima a imaginao do homem, o grande matador, a ona.

    o animal solitrio que no se deixa avistar, um animal que desperta o respeito e a

    curiosidade da maioria das pessoas na regio sul-matogrossese. Existem vrias histrias e

    testemunhos dos encontros com a ona no mato e at perto das moradias descrevendo a

    ona como o animal incomparvel e imprevisvel. A ona mostrada na cultura

    pantaneira sul-matogrossense como um dos bichos mais respeitados, um dos poucos que

    o povo acha igual ao homem e com quem compartilha a domnio sobre o pntano, a mata

    e os pastos. Nas lendas, nos poemas e nos causos18 o homem e a ona observam-se da

    distncia. O confronto cara a cara sempre breve, equilibrado e acaba com a tragdia

    para um ou para outro. A ona, como o smbolo da mgia, um tema freqente tanto dos

    escritores, compositores, contadores das histrias da regio, como dos escritores em todo

    o Brasil que ficaram fascinados pela regio e dedicaram uma de suas obras a ela.

    17 BARROS, Manoel de:Tratado geral das grandezas do nfimo, Rio de Janeiro, Editora Record,

    2001. p. 17. 18

    O mesmo que caso, qualquer narrativa contata beira do fogo, nos galpes das estncias. Definio de http://dicionario.babylon.com/, acessvel 9 de Dezembro de 2009

  • 12

    Nas relatos orais e nas obras literrias a ona raramente perde a cara entregando-se

    ao homem. Existem poucas histrias que descrevem os casos assim e a ona sempre acha

    a maneira como sair do poder do homem onde no pertence e nunca pertencer. De vez

    em quando o fazendeiro mata ona fmea, porque ataca o seu gado, encontrando mais

    tarde os seu filhotes. Leva-os a casa e tenta cri-los. Mas isto a vida que a ona no

    pode aceitar. Nasceu como predador, como governador da mata e para l tenta voltar

    sempre. Isso confirma uma histria que o povo conta na cidade de Nova Andradina no

    leste do Mato Grosso do Sul. Perto da cidade vivia um caador das onas muito

    conhecido que criava duas onas pardas. Sempre andava com elas nas ruas da cidade

    como si fossem os cachorros, mas um dia tambm elas acharam uma maneira como

    escapar dessa vida e fugiram de volta natureza, mata. Tanto na vida real, como na

    literatura e nas lendas so a ona e o homem como os dois polos implacveis que tm

    muito em comum. Compartilham a vida complicada no meio do pntano infinito, a mata

    e os pastos, a vida que se transformou de maneira significante durante as ltimas dcadas.

    Como o apresenta Manoel de Barros no seu poema, o mundo pantaneiro mudou e com

    essa mudana est enfraquecendo tambm a fora da ona, embora o seu mito ainda est

    vivo.

    A realidade e os mitos de cobras

    Desde os tempos de Ado e Eva, a cobra um animal cruel que ataca de repente e

    em muitos casos fatalmente. Assim apresentada a cobra tambm na cultura pantaneira.

    Enquanto as histrias sobre a ona elogiam a coragem do homem e da ona e os seus

    confrontos de iguais, nos casos da cobra principalmente homenageada a capacidade de

  • 13

    evitar o encontro acontecer. Enquanto o verdadeiro perigo reside nas bocas das cobras

    mais venenosas do Mato Grosso do Sul como boca-de-sapo, cascavel e jararaca, nas

    histrias e lendas encontramos com a maior freqncia o sucur19. Ganha o seu lugar nas

    histrias e na literatura principalmente devido ao seu tamanho e a sua capacidade quase

    mgica. Apesar de no ser venenoso, o seu poder baseado na habilidade de comer

    animais de propores enormes, como vaca, num trago s. As histrias sobre as cobras

    grandes existem em toda a Amrica Latina, mas no Pantanal parece que a realidade dos

    encontros com esses animais e os mitos sobre as cobras enormes que podem devorar o

    homem num momento s, juntam aqui a realidade e a fico da forma em que difcil

    nitidamente separ-las. Em conseqncia do tema de cobra grande encontramos na

    literatura o termo de boi guassu em guarani conhecido pelo Brasil inteiro. Essa cobra no

    faz mal, ao contrrio, deveria proteger os moradores das zonas rurais20. o Minhoco21 e

    o seu oposto a imagem mtica do sucur, que de acordo com a maioria das lendas mora

    nos rios do Pantanal, levanta as ondas e tenta fazer os barcos naufragar. Segundo as

    lendas, essa cobra mtica ataca e come as crianas pequenas.

    O homem pantaneiro observa o sucur de longe. Nas histrias muitas vezes o

    homem testemunha como o sucur ataca as vacas ou os outros grandes bichos. Porm

    existem poucas histrias sobre o ser humano atacado. Assim o tamanho e o perigo do

    sucur comemorado entre o povo especialmente nas lendas e, ocasionalmente, ao

    encontrar a cobra embuchada descansando e digerindo no banco do rio.

    19 A origem da palavra vem da lngua tup-guaran em que significa "a que morde rpido". Muitas

    vezes traduzida como anaconda, que na verdade uma expresso mais geral. 20

    CASCUDO, Lus da Cmara: Dicionrio do Folclore Brasileiro, So Paulo, Global Editore, 2001. p. 144 21

    Esse bicho mtico mais conhecido na regio norte-matogrossense, mas possvel escutar as histrias sobre ele tambm no Pantanal do Mato Grosso do Sul.

  • 14

    As histrias de pescaria

    As histrias de pesca so muito mais especficas, porque uma atividade muito

    comum e, ao mesmo tempo, torna-se passatempo da maioria das pessoas que vivem nas

    reas rurais do Mato Grosso do Sul. Ao contrrio dos encontros trgicos com as cobras e

    as onas, muitas histrias de pesca nem chegam at o encontro com o peixe e na maioria

    dos casos isso nem o ponto. As histrias de pesca so freqentemente sobre os

    encontros das pessoas, sobre a observao da natureza ao redor, muitas vezes so

    engraadas e terminam bem. O pescador nessas histrias uma pessoa com muita

    pacincia e a pescaria descrita como uma aventura que no pior caso termina com o

    prato do jantar vazio. As histrias trgicas das expedies de pesca podem ser ouvidas no

    caso que a pesca seja interrompida com o encontro com o sucur s, mas isso geralmente

    no acontece.

    Os seres e os lugares imaginrios

    As lendas de revelaes misteriosas das pessoas e dos lugares estranhos, originam-

    se, provavelmente, na mitologia indgena na regio. A personagem imaginria mais

    famosa do Pantanal o Pai-da-mata, o protetor dos moradores dos lugares selvagens. A

    sua origem est na mitologia indgena sobre a Me da terra, que protegia a natureza e os

    seres humanos. Aps a chegada dos primeiros cristos foi transformada numa

    personagem masculina. O mito do Pai-da-mata semelhante outra lenda brasileira, a da

    Curupira, uma criatura que aparece no meio da noite fazendo um barulho forte que, em

    caso do Pai-da-mata, mais bem um grito. Provavelmente no existe o homem no Mato

    Grosso do Sul que nunca ouvisse os gritos do Pai-da-mata, pelo menos no sonho. Na

  • 15

    literatura e, principalmente, nas histrias o Pai-da-mata representa um elemento que

    deveria preservar a natureza pantaneira contra a destruio.

    As histrias das assombraes so tambm muito freqentes. As pessoas muitas

    vezes contam histrias sobre os seus encontros com os seres imaginrios viajando pela

    paisagem abandonada ou at com os seus prprios membros da famlia que no deixam

    de visit-los depois da morte na sua casa. Muito freqentes so as lendas sobre os lugares

    enfeitiados onde, no meio do pntano, nas casas antigas e abandonadas, o peregrino

    aleatrio esconde-se da chuva. Aqui durante a noite aparecem os seres estranhos usando

    roupa velha, fazendo barulhos ou at estrondos. As histrias de fantasmas so muito

    populares em todo o mundo, mas os espritos pantaneiros so muito mais especiais. Os

    encontros com eles apenas asustam, mas geralmente no fazem nada de mal. Os sul-

    matogrossenses juram que so reais e no existe nenhuma razo para no acreditar neles.

    O homem pantaneiro

    Os caminhos mudam com o tempo S o tempo muda um corao Segue seu destino boiadeiro Que a boiada foi no caminho A fogueira, a noite Redes no galpo

    O paiero, a moda, O mate a proza

    A saga a sina O causo e ona Tem mais no

    Oh peo.... (cano O peo - Almir Sater)22

    Quem hoje o morador tpico do Pantanal sul-matogrossense? o ndio que mora

    na regio desde sempre ou so os criadores de gado descritos por Almir Sater23 nas suas

    22 Fonte: http://letras.terra.com.br/almir-sater/127233/, acessvel 9 de Dezembro de 2009

    23 O ator, compositor e cantor nascido em Campo Grande. Depois de desistir da carreira do

    advogado tournou-se o compositor e cantor involvido na proteo do meio ambiente pantaneiro e promevendo a cultura da regio no Brasil inteiro.

  • 16

    canes e histrias que vieram ao Pantanal durante umas das pocas da colonizao? O

    Pantanal sul-matogrossense o lugar nico onde o homem foi sempre formado pelas

    viagens longas com a famlia procurando as terras secas, a vida melhor24.

    O ndio

    Sonhei o dia contra o sol e nova lua Junto a castanhas, indais, mandei crescer Vouturar, perdi meu caminhar Terebutuv, terebutuv

    Vim separar irmos e pais, vaiaram mas waradzu, waradzu, waradzu

    guas do rio, em opor vi transformar Babau, pindoba, curi, buriti

    guas do rio, em opor vi transformar (cano Waradzu Grupo Acaba)25

    O vaqueiro se originou do ndio: do guat, do guan, do xamacoco e guaicuru,

    os primitivos donos da terra26 diz Proena ao definir o fator fundamental que formou o

    homem pantaneiro e a sua cultura de hoje. Isso mostrado muito bem no texto da msica

    de Grupo Acaba que promove e mantm a msica tradicional pantaneira da regio. No

    texto podemos ver a mistura de portugus com a lngua guaran que, ao mesmo tempo,

    demonstra o tpico homem pantaneiro com as suas razes incorporadas firmemente na

    cultura indgena da regio apesar do fato de que a sua vida de hoje afastou-se da vida dos

    ndios.

    Os ndios so os habitantes aborgenes da rea e seus hbitos formam a base para o

    que hoje significa o homem pantaneiro tpico do Mato Grosso do Sul a partir do seu jeito

    ritual de beber o terer e o chimarro at ao conhecimento mplio da lngua indgena

    guarani, especialmente entre as pessoas na fronteira com o Paraguai.

    24 PROENA, Augusto Csar: Razes do Pantanal: cangas e canzis, Belo Horizonte, Coleco

    Buriti, 1989. 25

    Grupo Acaba conhecido pelo ativismo em defesa da preservao do Pantanal e da cultura do homem pantaneiro. Suas composies descrevem o homem, a fauna e a flora, a alegria das cores e as dores da raa pantaneira. 26

    PROENA, Augusto Csar. Pantanal: gente, tradio e histria, Campo Grande, MS, Ed. UFMS, 1997. p.63.

  • 17

    Apesar de homem pantaneiro ter conscincia da sua parcial origem indgena, as

    condies em que os ndios no Mato Grosso do Sul na atualidade vivem so pssimas. A

    tribo mais conhecida do Mato Grosso do Sul talvez sejam os Kadiwus, descendentes dos

    ndios Guaikurus famosos ndios cavaleiros que ajudaram os brasileiros a ganhar a guerra

    com o Paraguai. Em troca disso receberam do governo brasileiro a terra perto da atual

    cidade de Porto Murtinho, onde foi fundada uma reserva para eles.

    Na atualidade vivem nesta reserva tambm as tribos Terena e Thamacoco num total

    de 1265 pessoas27. Uma vez conhecidos como guerreiros, a tribo Kadiwu de hoje

    principalmente tenta proteger o seu territrio que est sob a constante presso de

    proprietrios das fazenda vizinhas que pretendem usar a terra da reserva para a expanso

    das pastagens. Mais do que como guerreiros, atualmente os Kadiwus so conhecidos

    pela sua cermica especfica28 que trocam com as poucas pessoas que obtm a permisso

    da organizao FUNAI para visitar a reserva29.

    Ainda mais complicada a vida dos ndios fora da reserva. A vida amarga deles

    apresentou o cineasta italiano da origem chilena, Marco Bechis, no filme Terra

    Vermelha. Registrou um enorme sucesso em todo o Brasil no ano 2008. O filme descreve

    os momentos logo aps o suicdio de duas meninas da comunidade indgena guarani-

    kaiow e a luta infinita da tribo pelas terras que pertenciam a eles desde sempre,

    ocupadas agora pelo homem branco. O filme mostra uma contradio fundamental

    entre o que apresenta a cultura sul-matogrossense que celebra o ndio como parte de

    todos os povos da regio e a sua posio real na sociedade que o empurrou beira da

    27 Fonte: http://www.corumba.com.br/pantanal/pant_indio.htm, acessvel 9 de Dezembro de 2009

    28 Anexo Figure 6

    29 Fundao Nacional do ndio

  • 18

    estrada de cho para uma tenda de lona preta onde espera com os outros sem-terras de

    todo o Brasil por um pedao de terra.

    O vaqueiro, o peo e o fazendeiro

    Esta provavelmente a imagem mais comum do homem pantaneiro, ns o

    imaginamos o como o tropeiro cavalgando a cavalo acompanhando uma boiada. A

    pecuria de fato uma das fontes econmicas principais da regio e tambm o tema

    principal de muitas obras literrias, msicas e narrativas orais que so compostas na

    regio. Ao contrrio do sul do Brasil, no entanto, c ainda existe um aspecto tpico

    dominante dos moradores locais que foi definido relativamente recente com a chegada do

    homem branco rea e isso o desbravador, o pioneiro, que sempre procura novas terras

    para instalar-se e a sua peregrinao na verdade no terminou at hoje. Pantanal uma

    rea onde ainda possvel encontrar lugares que o homem no pisou ainda, e por isso

    aqui como na Amaznia, mesmo na medida menor, est-se realizando a colonizao que

    o povo europeu talvez possa imaginar graas aos filmes americanos do faroeste.

    A primeira onda dos homens brancos chegou regio com a inteno de procurar

    escravos ndios e determinar definitivamente a fronteira oeste do pas. Mais tarde, a

    descoberta de ouro aqui atraiu muitas mais pessoas da regio paulista. Foi, a princpio, o

    descendente de ndios e dos primeiros bandeirantes na regio, quem virou primeiro

    fazendeiro, dono de gado, agropecuarista tomando a posse da terra livre. Outro

    contingente significante dos imigrantes veio aps do fim da guerra com o Paraguai e

    trouxe para o Mato Grosso do Sul os latifundirios do sul do Brasil. Estas trs ondas

    junto com a natureza influiram definitivamente a cultura de hoje na rea.

  • 19

    Hoje a sociedade divide-se em vrios grupos. Alm da populao indgena original

    vivem no estado poucos latifundistas grandes que so os proprietrios da maioria das

    terras no Pantanal no Mato Grosso do Sul. Geralmente no vivem nas suas fazendas, caso

    que no as alugam, tm os gerentes que cuidam todo o andamento da fazenda e eles

    moram na cidade. O gerente e os funcionrios muitas vezes moram na fazenda com a

    famlia, a esposa cozinha e cuida da limpeza. Quem toma conta do gado o peo. Alm

    dos empregados permanentes, as fazendas ocasionalmente contratam peos para uma

    temporada. Vivem nas moradias tpicas chamadas galpes e a sua vida caracterizada

    pela viagem ao trabalho.

    O desequilbrio que diz respeito da posse de terras existe em todo o Brasil, mas no

    Mato Grosso do Sul podemos senti-lo ainda mais sensvelmente do que em qualquer

    outro local. Da mesma forma como em todo o territrio brasileiro tambm aqui os

    grandes fazendeiros so na tradio oral popular retratados como ms pessoas que na sua

    busca da riqueza no param diante de nada. Como o melhor exemplo pode servir Antnio

    Joaquim de Moura Andrade, um dos maiores latifundistas do Mato Grosso do Sul, que

    nos anos cinquenta e sessenta do sculo passado era o dono da maior fazenda da regio30.

    A sua Fazenda Primavera foi situada na parte leste do Mato Grosso do Sul e at hoje

    existem muitas histrias fantsticas sobre a crueldade da sua quadrilha assassina. Uns

    juram que verdade, outros dizem que tudo apenas uma fico, uma inveno da

    imaginao muito brava. Uma delas a lenda da famosa Lagoa do Sossego. Conta-se

    30 Era um dos fazendeiros mais famosos do Brasil, o proprietrio da Fazenda Primavera, fundador

    das cidades Andradina (estado So Paulo) e Nova Andradina (estado Mato Grosso do Sul). Na regio sul-matogrossense existem muitas lendas sobre ele como o fazendeiro cruel que deixava matar os inimigos sem reproche. At foi filmada uma novela sobre ele chamada O rei do gado que teve muito sucesso no Brasil inteiro e mostrou sua personagem uma vez como a pessoa muito mal. A verade que hoje a Fazenda Primavera no existe mais e vivem poucas pessoas que se lembram dos tempos ele ainda era vivo e poderam confirmar o negar as lendas sobre ele.

  • 20

    que os jagunos arrastavam as pessoas pelos braos, laadas como animais e depois de

    as matar, as jogavam nessa lagoa. Com o tempo comearam a aparecer at estrias de

    asssombrao.31 Alguns juram ter ouvido sobre as pessoas que pescaram ossos

    humanos na lagoa. As histrias semelhantes so comuns e as atitudes negativas em

    relao aos grandes proprietrios da terra so muitas vezes reproduzidas nas obras

    literrias e msicas. Talvez por causa disso esta regio uma daquelas, onde o

    movimento dos sem-terras32 bastante ativo. As suas barracas de lona preta marcam as

    beiradas de quase todas as estradas do Mato Grosso do Sul.

    Uma das principais caractersticas da cultura pantaneira sul-matogrossense uma

    paixo geral pelo consumo do terer que as pessoas daqui tm comum com o povo do

    Paraguai, donde o hbito de beb-lo veio durante a guerra. O mesmo acontece com o

    chamado chimarro, uma bebida que igualmente como terer preparada da erva mate33.

    A roda de chimarro fora. Pois ela confraternisa, distrai, alegra, alimenta e

    constri, diz uma fraze entalhada numa placa em cima da lareira duma famlia sul-

    matogrossense. A roda de chimarro ou de terer algo que indiscutvelmente faz parte

    da vida e da cultura do povo do Mato Grosso do Sul. Nem o chimarro nem o terer se

    bebem com pressa. Os vizinhos, a famlia, os amigos juntam-se na hora de tomar caf de

    manh, almoo ou jantar, fazem a roda e a cuia, servida sempre somente por mesma

    pessoa, passa se um a outro. Passam-se at muitas horas na roda do chimarro, tomar esta

    bebida contar histrias e causos. Um sul-matogrossense viajando pelo mundo, o seu

    31 FLIX, Eurico: Causos de Bataypor, Bataypor, Prefeitura Municipal, 1992, p. 10.

    32 Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra foi fundado durante a decada dos anos setenta

    e depois Lula da Silva virou o presidente est crescendo significativamente. O seu objetivo realizar uma reforma agrria no Brasil e seus grandes enemigos so os latifundistas grandes. 33

    A pesar de ser preparados ambos com erva mate, o chimarro se bebe principalmente quente, enquanto terer se prepara da gua fra. Tambm a cuia para bebe-los no a mesma. Veja o anexo Figure 7.

  • 21

    terer viaja com ele. Tambm no surpreendente que o terer aparea em uma grande

    quantidade de literatura e de canes do Mato Grosso do Sul e que seja considerado um

    dos principais smbolos da sua cultura.

    A mulher pantaneira

    Devemos tambm reservar o lugar da mulher: da mulher companheira do desbravador e do vaqueiro; da mulher negra, escrava, enchendo nossas cozinhas de estrias e quitutes, e fabricando mulatos nas horas vagas; da mulher ndia (a cunh), carregando o filho nas costas enquanto trabalhava na lavoura ou servia de besta de carga ao marido errante pelas picadas sem fim do Pantanal, ou ainda participava das danas festivas que entretinha os visitantes nas noites de saraus; da mulher portuguesa, que se integrou aos nossos costumes, ensinando-nos os dela, em sua maioria administrando o patrimnio com fibra de macho.34

    Assim na sua obra sobre os moradores do Pantanal Proena descreve a mulher

    tpica pantaneira. Tambm nesse trabalho no podemos esquecer mencionar o papel

    importante que ela representa na cultura sul-matogrossense. Talvez mais ainda do que na

    figura do homem nela visibiliza-se no somente sua origem europia, mas sim a indgena.

    A mulher pantaneira protetora da famlia, capaz de cuidar de tudo que necessrio em

    casa junto com todas as atividades que so normalmente sob a responsibilidade do

    homem, pois ele em muitos casos fica fora de casa por muitos das ou at semanas

    cuidando do gado. A mulher pantaneira desempenha um pouco o papel de doutora ou de

    curandeira, sempre tem preparado algum remdio para diversas doenas, porque o

    mdico est muito longe. A mulher pantaneira tambm uma feiticeira, que

    freqentemente adivinha os acontecimentos antes de que aconteam de verdade e nos

    seus sonhos conversa com as almas dos mortos. A mulher pantaneira complementa a

    34 PROENA, Augusto Csar. Pantanal: gente, tradio e histria, Campo Grande, MS, Ed.

    UFMS, 1997. p.57.

  • 22

    imagem do Pantanal como de um lugar, onde a fronteira entre a realidade e o sonho

    muitas vezes muito pouco apalpvel.

    Concluso

    Quem conhece carand/Quem conhece camalote/Quem conhece tarum/ do

    Pantanal,35 so as primeiras frases de uma cano popular pantaneira.. Mas voc no

    precisa de ser pantaneiro para sentir a magia especial irradiada pelas pessoas que vivem

    nesta regio.

    Pela sua extenso, o Brasil maior que a Unio Europeia e cada uma das suas

    regies e dos estados tem as suas caractersticas culturais especficas. Algumas dessas so

    conhecidas no mundo inteiro como, por exemplo, a capoeira da Baha ou samba do Rio

    de Janeiro. Para a maioria dos brasileiros o Mato Grosso do Sul significa o fim do

    mundo, onde nada de interessante pode acontecer. Este trabalho quer provar que no

    bem assim. Mostra a sua beleza e as suas curiosidades. Da mesma forma como as outras

    regies do Brasil, tambm o Mato Grosso do Sul possui uma cultura rica que deve ser

    valorizada, preservada e cultivada. Vale a pena visitar esta regio para experimentar a sua

    magia que voc descobre ao subir a cavalo percorrendo os pastos infinitos junto com os

    outros vaqueiros, ao ver o pr do sol de milhares de cores, ao atravessar de barco as

    plancies de gua durante a noite procurando o caminho de casa e sentindo os olhos

    observadores dos jacars, quando o Cruzeiro do Sul brilha no cu to limpo que at

    parece que todo o universo est caindo em cima de voc.

    35 Lacerda, Chico e Moacir de. Barreto, Vandir: Ciranda Pantaneira, Canta-dores do Pantanal,

    1997

  • 23

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    Origens do Pantanal

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    Pantanal Brasil, o que falta no mundo, sobra no Pantanal

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    Cano Peo, Almir Sater

    http://letras.terra.com.br/almir-sater/127233/

    Augusto Proena da raiz ao sonho pantaneiro

    http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/966902

    Povos indgenas

    http://www.corumba.com.br/pantanal/pant_indio.htm

    Lenda sobre erva mat

    http://www.petry.com.br/lenda.htm

  • 26

    Cultura milenar do Pantanal pode acabar

    http://www.riosvivos.org.br/canal.php?mat=8724

    Anexos

    Figure 1, Mapa do Pantanal, fonte: http://bonitopantanal.files.wordpress.com/2009/06/mapa-pantanal.jpg, acessvel 9 de Dezembro de 2009

  • 27

    Figure 2, Chalana pantaneira, fonte: http://images.quebarato.com.br/photos/big/6/E/15AA6E_1.jpg, acessvel 9 de Dezembro de 2009

    Figure 3, Pantanal da Nhecondia durante a poca seca, fonte: minha fotografa

    Figure 4, P-de-garrafa, fonte: http://farm3.static.flickr.com/2260/2367037484_688b8f89ba_o.jpg, acessvel 9 de Dezembro de 2009

  • 28

    Figure 5, Tuiui, fonte: http://www.davidkitler.com/images/News-Brazil09-Jaburu.jpg, acessvel 9 de Dezembro de 2009

    Figure 6, Cermica dos Kadiwus, fonte: http://img.socioambiental.org/d/211587-1/kadiweu_6.jpg, acessvel 9 de Dezembro de 2009

  • 29

    Figure 7, Cuia para beber terer e chimarro (direito), fonte: http://3.bp.blogspot.com/_W7oOZVCWCx8/SEHLl8vYdHI/AAAAAAAAAFE/VBQlag55-qM/s320/terere.jpg, acessvel 9 de Dezembro de 2009-12-10

    Figure 8, O maravilhoso pr-do-sol numa das fazendas pantaneiras da regio leste do estado, fonte: fotografa de Pavel Kreuziger