03 a luneta ¢mbar - fronteiras do universo - philip pullman

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  • FRONTEIRAS DO UNIVERSO 3

    A LUNETA MBAR

    PHILIP PULLMAN

    Oh, falai de sua fora, cantai sua graa, Aquele cujo manto a luz, cujo dossel espao. Suas carruagens de ira formam grandes nuvens de trovoada, E escuro seu caminho nas asas da tormenta.

    Robert Grant (1779-1838), de Hymns Ancient and Modem.

    Oh estrelas, no ser de vs que nasce o desejo do amante de ver a face de sua amada? No viro as vises secretas, que de suas feies puras ele possui, de puras constelaes?

    Rainer Maria Rilke, The Third Duino Elegy.

  • De The Selected Poetry of Rainer Maria Rilke.

    Finos vapores escapam de tudo que fazem os vivos.

    A noite fria e delicada e cheia de anjos

    Esmagando os vivos.

    As fbricas esto todas iluminadas,

    O soar do carrilho se eleva, sem ser ouvido.

    Afinal estamos juntos, ainda que muito distantes.

    John Ashbery, The Ecclesiast. De River and Mountains

  • 1 A ADORMECIDA ENFEITIADA

    ... Enquanto feras atrs de presas sadas de covis nas profundezas espreitavam a donzela adormecida...

    William Blake

    Em um vale sombreado por rododendros, prximo da linha de neve, onde um riacho de guas leitosas de neve derretida passava ligeiro espumando, onde pombos e milheiros voavam entre os imensos pinheiros, havia uma caverna, que ficava semiescondida pelo rochedo acima e pelas folhas secas e pesadas que se acumulavam abaixo. A floresta era repleta de sons: das guas do riacho correndo entre as pedras, do vento entre as folhas alongadas dos galhos de pinheiros, do zumbido dos insetos e de guinchos de pequenos mamferos arbreos, bem como do cantar de passarinhos, e, de tempos em tempos, uma lufada mais forte de vento fazia com que um dos galhos de um cedro ou de um abeto roasse contra um outro e gemesse como um violoncelo.

    Era um lugar claro e ensolarado, nunca montono, raios de claridade, dourado-limo, penetravam at o solo da floresta entre retngulos e crculos de sombra verde-acastanhados, e a luz estava sempre em movimento, nunca era constante, porque a nvoa que passava com frequncia flutuava em meio s copas das rvores, filtrando todos os raios de sol at adquirirem um brilho perolado e salpicando cada cone de pinheiro com gotculas de umidade que cintilavam quando a nvoa se desfazia. Por vezes a umidade nas nuvens se condensava formando minsculas gotas, metade neblina, metade chuva, que desciam flutuando em vez de cair, fazendo um rudo suave como um tamborilar farfalhante entre os milhares de folhas aciculadas dos pinheiros.

    Havia um caminho estreito passando junto do riacho, que levava de uma aldeia - pouco mais que um aglomerado de choupanas de pastores - na entrada do vale, at um relicrio, semiarruinado, prximo da geleira ao fundo, um lugar onde bandeirolas de seda esvoaavam sob os ventos perptuos das altas montanhas e oferendas de bolos de cevada e ch seco eram colocadas pelos fiis aldees. Um estranho efeito da luz, do gelo e do vapor fazia com que a parte mais alta do vale ficasse envolta em eternos arco-ris.

    A caverna ficava a alguma distncia acima do caminho. Muitos anos antes, um homem religioso morara ali, meditando, jejuando e orando, e o local ainda era venerado em sua memria. Tinha 30 metros de profundidade, mais ou menos, com o solo bem seco: um abrigo ideal para um urso ou para um lobo, mas os nicos seres morando nela durante anos haviam sido pssaros e morcegos.

    Mas o vulto que estava se agachando logo aps a entrada, os olhos negros atentos vigiando um lado e depois o outro, as orelhas pontudas levantadas, no era pssaro nem morcego. A luz do sol descia pesada e forte sobre seu lustroso pelo dourado e as mozinhas de macaco reviravam uma pinha para l e para c, com os dedos fortes, partindo a casca em lascas e raspando as nozes doces.

    Atrs dele, pouco alm do ponto que a luz do sol alcanava, a Sra. Coulter estava aquecendo

  • gua numa panelinha sobre um fogareiro nafta. Seu daemon emitiu um murmrio de advertncia e a Sra. Coulter levantou a cabea.

    Vindo pelo caminho da floresta havia uma menina da aldeia. A Sra. Coulter sabia quem ela era: Ama vinha lhe trazendo comida j h alguns dias. Logo ao chegar, a Sra. Coulter fizera circular a notcia de que era uma mulher religiosa, dedicada a meditaes e preces, que fizera um voto de jamais falar com um homem. Ama era a nica pessoa cujas visitas aceitava receber.

    Dessa vez, contudo, a menina no estava sozinha. Seu pai estava com ela e enquanto Ama subia at a caverna, ele esperou, mantendo alguma distncia.

    Ama chegou entrada da caverna e fez uma mesura.

    - Meu pai me pediu que viesse trazendo preces para sua boa vontade - disse.

    - Bons olhos a vejam, criana - disse a Sra. Coulter.

    A menina trazia uma trouxa embrulhada em algodo desbotado, que colocou aos ps da Sra. Coulter. Ento estendeu um raminho de flores, cerca de uma dzia de anmonas amarradas com um fio de algodo, e comeou a falar rpida e nervosamente. A Sra. Coulter compreendia um pouco da lngua daquela gente da montanha, mas nunca permitiria que percebessem o quanto. De modo que sorriu e fez um gesto para que a menina se calasse e para que observassem seus daemons. O macaco dourado estava estendendo a mozinha negra e o daemon borboleta de Ama esvoaava, chegando cada vez mais perto, at pousar no caloso dedo indicador.

    O macaco o aproximou lentamente de sua orelha e a Sra. Coulter sentiu uma corrente de compreenso fluir para sua mente, esclarecendo as palavras da menina. Os aldees estavam felizes que uma santa mulher religiosa como ela estivesse abrigada na caverna, mas havia rumores de que tambm tinha uma acompanhante, uma mulher como ela, que de alguma forma era perigosa e muito poderosa.

    Isso era o que estava deixando os aldees assustados. Seria aquele outro ser mestra da Sra. Coulter ou sua criada? Teria a inteno de fazer mal? Por que estava ali, para comear? Pretendia ficar muito tempo? Ama transmitiu essas perguntas com infindveis apreenses.

    Uma resposta totalmente nova ocorreu Sra. Coulter, medida que a compreenso do daemon foi penetrando em sua mente. Ela podia contar a verdade. No toda, naturalmente, mas parte. Estremeceu ao conter a vontade de rir diante da ideia, mas manteve isso longe de sua voz quando explicou:

    - Sim, h uma outra pessoa comigo. Mas no h nada a temer. minha filha e ela foi vtima de um feitio que fez com que adormecesse. Viemos aqui para nos esconder do feiticeiro que lanou este feitio, enquanto eu tento cur-la e impedir que qualquer mal lhe ocorra. Venha ver, se quiser.

    Ama ficou parcialmente tranquilizada pela voz suave da Sra. Coulter, mas ainda estava com medo, e toda aquela conversa sobre feiticeiros e feitios aumentava seus temores. Mas o macaco dourado estava segurando seu daemon com tamanha gentileza e, alm disso, estava to curiosa, que seguiu a Sra. Coulter at o interior da caverna.

  • O pai de Ama, que esperava mais abaixo no caminho, deu um passo adiante e seu daemon corvo levantou as asas uma ou duas vezes, mas ficou onde estava.

    A Sra. Coulter acendeu uma vela, porque a luz estava indo embora rapidamente, e conduziu Ama at o fundo da caverna. Os olhos da garotinha faiscavam, arregalados, na semiobscuridade e suas mos se moviam, fazendo um gesto repetitivo de esfregar o dedo no polegar, para afastar o perigo confundindo os maus espritos.

    - Est vendo? - perguntou a Sra. Coulter. - Ela no pode fazer mal a ningum. No h motivo para ter medo.

    Ama olhou para a pessoa no saco de dormir. Era uma menina, mais velha que ela, talvez trs ou quatro anos, e tinha cabelos de uma cor que Ama nunca vira antes - de um tom fulvo, amarelo- tostado como o pelo de um leo. Seus lbios estavam bem fechados, comprimidos, e estava profundamente adormecida, no havia dvida quanto a isso, pois seu daemon estava deitado, enroscado em seu pescoo e inconsciente. Ele tinha a forma de um animal parecido com um mangusto, mas de cor vermelho-dourada e menor. O macaco dourado estava alisando carinhosamente o pelo entre as orelhas do daemon adormecido e, enquanto Ama observava, a criatura-mangusto mexeu-se incomodada e emitiu um pequeno miado rouco. O daemon de Ama, na forma de camundongo, se apertou contra o pescoo de Ama e espiou assustado entre seus cabelos.

    - De maneira que pode contar a seu pai o que voc viu - prosseguiu a Sra. Coulter. - No h nenhum esprito mau. Apenas minha filha, adormecida por causa de um feitio e de quem estou cuidando. Mas por favor, Ama, diga a seu pai que isso tem de ser mantido em segredo. Ningum, exceto vocs dois, deve saber que Lyra est aqui. Se o feiticeiro souber onde ela est, vir procur-la e destru-la, a mim tambm e tudo que estiver nas vizinhanas. De maneira que trate de ficar calada! Conte a seu pai e a mais ningum.

    Ela se ajoelhou junto de Lyra e afastou o cabelo mido do rosto da menina adormecida antes de se inclinar para beijar a face de sua filha. Ento levantou a cabea, com uma expresso triste e carinhosa no olhar, e sorriu para Ama com tamanha bravura e sbia compaixo que a garotinha sentiu os olhos se encherem de lgrimas.

    A Sra. Coulter pegou a mo de Ama, enquanto iam voltando para a entrada da caverna, e viu o pai da menina observando cheio de ansiedade l de baixo. A mulher juntou as mos e inclinou a cabea para ele num cumprimento, que ele respondeu com alvio, enquanto sua filha, depois de fazer uma mesura para a Sra. Coulter e para a menina adormecida enfeitiada, fez meia-volta e desceu correndo pela encosta sob a luz do crepsculo. Pai e filha inclinaram a cabea mais uma vez em direo caverna, num cumprimento respeitoso,